Escrevivências
INTERROGAR A NOITE
Noite. Espaço predilecto para a
magna interrogação sobre a vida. Silêncio
absoluto, apenas ferido
por esta obsidiante questionação. Noite. Desejaria
saber-me para além do naco de tempo que
me coube na partilha do mistério de viver.
Não basta esta exígua serenidade,
intercalada no sobressalto de nada
saber, para além do sangue que crepita
nas veias, nesta sede de infinito que
extravasa as fronteiras da terra.
Ouso descer nas labirínticas
fendas da condição humana, em busca da razão, neste sopro concedida , cuja consciência envolve numa angústia crescente.
Duvidar. Acreditar.
Invocar Deus para aliviar este manto de cinza que envolve a agonia dos dias,
alucinadamente esquivos, rumo ao olvido. Eis o tempo a escorrer esguio e célere
por entre os dedos doridos da alma.Um
homem sujeito passivo enovelado nas
malhas da sua finitude, para
se dar conta que, nada afinal decretou para o tempo de seus dias.
Nada tenho para represar
as horas, senão um gesto de gratidão à vida pelo espectáculo do mundo,
nem sempre magnificamente belo.
O tempo esvaído, esculpe na alma
o sentir nítido da brevidade dos dias exauridos. Nada sei sobre as
regiões do além-tempo, onde pressinto
que um fio de luz abriga a consciência , vogando por entre uma sinfonia de estrelas e
cânticos de anjos em tenura azul acetinados.
De que dispomos para contrapor ao
inexorável fluxo temporal? Quem nos inculcou esta noção dilacerante da
nossa brevidade ?
Deus não pode ter inventado um ser para lhe inculcar
a angústia da finitude, sem lhe conceder menos que a verdade da esperança. Aspiramos a eternidade porque em nós deve coexistir uma partícula de infinito que aspira prevalecer para além das
veredas deste pere-cível tempo.
Testemunhamos os intransponíveis mistérios
da vida, mas nenhuma revelação será concedida
senão pela crença. Um Deus cruel não seria o meu Deus e, no entanto, que explicação tenho eu para as dores da alma que, as do corpo já nem sequer amedrontam?
Seja Deus a superação do nosso receio de perecer, a âncora dos nosos temores, neste brevissimo lampejo de vida em que nos
afadigamos com mil inutilidades.
Soubesse eu nada desejar, tal como os deuses. Contemplar a
ribeira que canta na pedra o doce
enlevo de ser água, fruir a cantata do vento no ciciar da ramagem, colher na noite estrelada um
luzeiro onde a alma se abrigasse pacificada no firmamento.
Nem todos os néctares do possível amor na terra apaziguam a inapagável sede que
avassala a alma , conquanto seja no amor que roçamos a sublimidade Divina.
Talvez !.. Sumo de estrela, servido em taça de luar, apaziguasse a alma sedenta. Talvez, uma voz que me
segredasse outros sóis para além da
cortina que um dia há-de encerrar a luz
abrigada nuns olhos mortiços, sossobrados
perante tantos insondáveis.
Para sermos veramente perenes no
espírito, carecemos do infinito que não temos senão na crença.
Que a vida é um inexpugnável mistério, todos o sabemos de sobejo e poucos
se fadigam em decifrá-la. Que este sopro que nos anima aspire a ser eterno, eis a sede que nos
assemelha a um Deus, eis o mistério dos
mistérios, nesta noite em que esperançoso
me interrogo.
Barbosa Tavares
Brampton, Ont.,Canada