BARBOSA TAVARES

Escrevivências

 

INTERROGAR A NOITE

 

 

Noite. Espaço predilecto para a magna interrogação sobre a  vida. Silêncio absoluto,  apenas  ferido  por  esta  obsidiante questionação. Noite. Desejaria saber-me para além do  naco de tempo que me coube na partilha do  mistério de viver.

Não basta esta exígua serenidade, intercalada  no sobressalto de nada saber,  para além do sangue que crepita nas veias, nesta  sede de infinito que extravasa as fronteiras da terra.

Ouso descer nas labirínticas fendas da condição humana, em busca da razão, neste sopro concedida , cuja consciência  envolve numa angústia crescente.

Duvidar. Acreditar. Invocar Deus para aliviar este manto de cinza que envolve a agonia dos dias, alucinadamente esquivos, rumo ao olvido. Eis o tempo a escorrer esguio e célere por entre os dedos doridos  da alma.Um homem sujeito passivo enovelado nas   malhas  da sua finitude,  para  se dar conta que,  nada afinal  decretou para o  tempo de seus dias.

Nada tenho para  represar  as horas, senão um gesto de gratidão à vida pelo espectáculo do mundo, nem sempre magnificamente belo.

O tempo esvaído, esculpe na alma o sentir nítido da brevidade dos dias exauridos.  Nada sei sobre  as regiões  do além-tempo, onde pressinto que um  fio de luz  abriga a consciência ,  vogando por entre uma sinfonia de estrelas e cânticos de anjos em tenura azul acetinados.    

De que dispomos para contrapor ao inexorável fluxo temporal? Quem nos inculcou  esta noção dilacerante  da nossa brevidade ?

Deus não pode  ter inventado um ser para  lhe inculcar  a angústia  da  finitude, sem lhe conceder menos que  a verdade da esperança.  Aspiramos a eternidade porque em nós deve  coexistir  uma partícula de infinito que aspira prevalecer para além das veredas deste pere-cível tempo.

Testemunhamos os intransponíveis mistérios da vida, mas nenhuma revelação será concedida  senão pela crença. Um Deus cruel não seria o meu Deus e,  no entanto,  que explicação tenho eu para as dores da alma que,  as do corpo já nem sequer amedrontam?

Seja  Deus  a  superação do  nosso receio de perecer, a âncora dos nosos temores,  neste brevissimo  lampejo  de vida em que nos afadigamos com mil inutilidades.

Soubesse eu nada  desejar, tal como os deuses. Contemplar a ribeira  que  canta na pedra o doce  enlevo de  ser água, fruir  a cantata do vento no ciciar  da ramagem, colher na noite estrelada um luzeiro onde a alma se abrigasse pacificada no firmamento.

Nem todos  os néctares  do  possível amor na terra  apaziguam  a  inapagável sede que avassala a alma , conquanto seja   no amor que  roçamos a sublimidade Divina.

Talvez !.. Sumo de estrela,  servido em  taça de luar, apaziguasse a alma sedenta. Talvez, uma voz que me segredasse outros sóis  para além da cortina que um dia  há-de encerrar a luz  abrigada nuns olhos mortiços, sossobrados perante tantos insondáveis.

Para sermos veramente perenes no espírito, carecemos do infinito que não temos senão na crença.

         Que a vida é um inexpugnável mistério, todos o sabemos de sobejo e poucos se fadigam em decifrá-la. Que este sopro que nos anima aspire a ser eterno, eis a  sede  que nos assemelha a um Deus, eis o mistério dos mistérios, nesta noite em que esperançoso me interrogo.  

 

                                                               Barbosa Tavares

                                                                                    Brampton, Ont.,Canada