BARBOSA TAVARES


Poética do intenso amor



Iniciemos pelo título deste livro "MEU GRITO MEU CANTO" que alberga a evidência irreprimível em verso expressa, do poeta sedento na busca de uma fonte que lhe permita saciar a múltipla sede de infinitos, porque, em Rui Balsemão Silva—convém referi-lo—a sede apresenta-se plural.

De todas as explicações plausíveis na formulação de uma teoria poética que vão do deslumbramento do autor perante a natureza, à inquietação do homem no seu fado , face ao mistério da vida, ao culminar na coroação apoteótica em verso vertida nos cânticos enfeitiçados pelos inefáveis mistérios do amor, poderemos afirmar, sem resquícios de mínimo constrangimento, que a poesia de Rui Silva integra-se pujante e sequiosamente nas três premissas formuladas.

Compartilhamos da ideia que toda a poesia abriga um gesto amoroso, o harpejo de um enlevo, o desejo de superar a realidade suprema, culminando no zénite do sonho, adejando nas asas da transcendente ventura.

O poeta faz versos , porque a vida não lhe basta. Evidência consagrada e irrefutável que encontra o seu estandarte neste auspicioso primeiro livro do autor de: "MEU GRITO MEU CANTO"

Poesia vibrante, ritmada ao som da alma sedenta, poética que se reinventa na fonte dessa inapagável sede de amor — ou melhor, sede de infinito — porque o destino do homem é ser insaciável, ainda quando, aparentemente, se apresenta saciado. Pungente e lucidamente, o poeta refere-o nestes versos:

não há fonte que mitigue a minha sede

nem banquete que sacie a minha fome

Rui Balsemão sabe que a sede do homem habita, para além do mundo visível, por isso recorre, luminar, ao sonho delirantemente expugnável, remanso da alma onde todo o desejável é passível de acontecer no plano onírico:

são tão vagos e distantes

os sentidos que me excedem

tão alheias e alarmantes

as vontades que me apetecem

que só em sonho eu sei que me sucedem

e só delirando é que sinto que acontecem

À medida que o poema evolui, o poeta dá-se conta dos seus excessos, que são tão-só o desejo sonhado de uma felicidade que se deseja por ele trilhada segundo os seus próprios passos.

além do rol dos meus excessos

inda me agravam dois defeitos

ambicionar o que não me cabe

e só gostar do que tempero

Depois surge a inabilidade, inerente à condição humana , de não podermos revelar perante os outros a nossa realidade íntima, o cerne do mistério—que é o invólucro impenetrável do âmago da alma— nestes versos de nítida consciência que aos outros, apenas será permitido saberem da nossa alma, na mera percepção da nossa aparência, deste modo versificado.

por isso é que me escondo e me iludo

e mostro só aquilo que aparento

e dessa força toda é que eu vivo

A poesia de Rui Balsemão não se alimenta exclusiva e exaltadamente do sonho, desce da região azulina em versos tecida, para confrontar a indiferença do ser humano perante o seu semelhante e fá-lo em termos de uma desilusão acerba, de um alheamento contristado, quiçá magoado.

Ao poeta cabem a triste sina e a desventura de não ser compreendido tal o desejaria, na raiz comovida da sua sensibilidade poética, perante um mundo onde reinam a indiferença e crudelidade .

São versos desolados, de quem não enxerga o mundo venturoso e idealizado que levam o poeta a enveredar pelos caminhos da indiferença e solidão , para aí se recolher nestes versos extraídos do poema " Tanto o Amor me Fez ".

E aprendi ser indiferente

a tudo quanto me entristece

a tropeçar e andar em frente

e a não ligar ao que acontece

O que a vida me oferece

e o que a má sorte destina

não me aquece nem m' arrefece

viver somente é minha sina

Estou tão ferido e magoado

tão afeito ao desdém

que nem quero ser amado

nem amar a mais ninguém

É sobretudo nos versos "Farrapos de Gente" , a nosso ver, que a autêntica intensidade dramática, a pungência da dor alheia , o desespero perante a iniquidade e— finalmente a resignação dos mendigos— atingem o apogeu de uma virulência que encarna um humanismo poetizado.

O ritmo contrito, revoltado, finalmente apaziguado de quem canta a amargura dos sem abrigo , das almas aos nossos olhos dilaceradas que prosseguem em farrapos os dias sem que, aparentemente, se lhes vislumbrem um luzeiro de esperança.

Nestes versos compungentes, enaltecendo a mágoa dos deserdados , pelos quais perpassa a pena dolorizada de Rui Silva, emergem estes versos confrangedores que enternecem a alma mais empedernida, do qual retirámos a última estrofe, para que o leitor se frua a beleza dramática do poema:

E envoltos num manto

sensíveis a nada

procuram num canto

um vão de uma entrada

e sobre a dureza

de um frígido chão

e perante a frieza

de um mundo que é cão

conforme adormecem

num sono aparente

assim amanhecem

farrapos de gente

A poesia de Rui Balsemão, para além de evidenciar e versejar a solidariedade e compaixão humanas vive, respira, incandeia-se luminescente no cerne da exaltação perene da sublimidade do amor—fonte inspiradora e, por assim dizer, delirante—com que o poeta diviniza a sua musa. Oiçam.

Com as ânsias de um desejo

assim te busco assim e almejo

Com a sede de um amante

assim te quero assim te sinto

Com a febre de um delírio

assim te agarro assim te beijo

Assim sou tão loucamente

assim sedento assim faminto

Para além da sede rubra em que os versos do poeta cantam as encantatórias e delirantes venturas de Eros, salientaremos o ritmo empolgante, a rima cuidadosamente metrificada que concedem aos poemas um cadência rítmica que embala a alma numa harmonia perene de usufruição melódica.

Num mundo emigrado em que a única redenção aparente consiste em amealhar desalmadamente para um sonho—cinza , no fulgor adiado do palacete a habitar (?) na aldeia ou vilória do encantamento—no ilusório ensejo da gloriosa e triunfal vitória—que o tempo paulatinamente aniquila—enquanto a arte e a arte e a fraternidade murcham no olvido da desumanizada vivência expatriada, é assinalável que alguém erga a poesia para nela cantar as várias sedes do amor que são, ainda e sempre, a razão e essência da vida neste livro poetificadas.

É sumamente grato verificar que adentro da "Torontolândia" o verbo poético do autor tenha sobrevido neste espaço luso, rodeado de Canadá por todos os recantos, onde o ter parece sobrelevar avantajadamente o ser, é de louvar, acentuemos, que num gesto sedento e inebriado pelos inefáveis fulgores do amor e (des)encantos do mundo e apelo à fraternidade entre os homens, sendo um acto cada vez mais arredio e incomum na vida comunitária , tenha emergido pela mão poeticamente hábil, dextra e sensibilizante de Rui Balsemão Silva.

Brampton, Ont.

Pós-fácio do livro do autor publicado a 4 de Maio no Mississauga Cultural Centre .