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VIEIRA DA SILVA: ENTRE A MÁGOA E A SEDE DE JUSTIÇA Diremos que “MARGINAL” ,título do livro no qual Vieira da Silva congrega poemas breves e cantigas de uma vida, só representará marginalidade,
porquanto não abundam poetas de
sobra que façam da poesia um estandarte de esperança,
esgrimindo o verbo na (in)gloriosa,
embora utópica, tarefa de aniquilar as iniquidades que os homems engendram no
seu colossal egoísmo. Não falamos de utopia no sentido de descrença que, por via de regra, se atribui a este por muitos desacreditado vocábulo, tão-só no
belo e nobre desejo de reformular o
mundo segundo os belos desígnios de
Thomas More que augurava a tal ilha da perfeição por Vieira da Silva porfiada com toda a licitude do seu edificante
humanismo. São versos clamorosamente
erguidos, entoados na cantiga “canção de mágoa” que mergulham na
raíz do desespero que a incúria humana germina e levam o autor, incorformista com as atrocidade do mundo, a
brandir deste jeito o clamor da
inércia. O que foi feito de nós Companheiros de viagem que
é da nossa liberdade feita
de fé e coragem vai-se o tempo e nós
aqui adormecidos
no cais entretidos
com o medo de já ser tarde demais Há poemas que são setas
desapiedadas, desferidas no cerne da injustiça num fragoroso e ingente apelo à fraternidade, para
que os homens laborem rumo à
justiça e liberdade, num incitar invectivo,
de cariz metaforicamente bélico denominado “o
tempo é de guerra” do qual retirámos as últimas estrofes. Bigorna martelo, Batalha bandeira arados na terra a lavrar o
tempo é de guerra até
à vitória vamos
pelas ruas lutar Quem se arroja sonhar para além dos limites da acomodação humana , quem se não contenta com o
espectáculo do mundo, emerge “marginal”
entre mágoas e laivos de desespero. Quanto maior é a legítima sede de justiça do poeta, maiores serão as marcas
do desencanto e da desventura, porém, venturosamente
, eis que surge uma mulher na antepenúltima estrofe a redimir as agruras, a
reincitar à vida, a reinspirar “a fúria de desenhar um país”, ou
seja, a reacender o sonho perene da justiça e da liberdade. nos momentos de
incerteza quando apetece fugir e desistir da viagem quando cansado de tudo me sento à beira da estrada e adormeço a coragem são os teus gestos mulher que me chamam para a vida
e sinto de novo a fúria de desenhar um país Diremos que o susbtracto anímico da
poética de Vieira da Silva alimenta as sua raízes na fúria de justiça, num sonho cristalino de
fraternidade que só aparentemente revela ingenuidade, porque o autor conhece no
sangue do sentir, amargamente, o lancinar da injustiça contudo, não cessa de
pugnar pelo erguer da tal cidade, apesar
dos de- sencantos e canseiras que o mundo idealizado lhe destina, expressando-o deste jeito: rasga as manhãs do cansaço não fiques fora da roda de mãos
dadas avançamos contra
o medo e o desespero Que lirismo mais autêntico e acendrado que este amplexo de fraternidade transposto nesta poesia descarnada, pungente, despojada de artifícios, que este desejo do autor encarnado no sonho da cidade
idealizada, na última estrofe do poema
ardentemente vaticinado, de título “um dia”. vamos erguer a cidade com tijolos de ternura no horizonte já se
sente a manhã que há-de chegar Felizmente, longe vão os tempos em
que o timbre ideológico de um autor
lhe ofuscavam e demarcavam, de forma apriorística e impediosa, as veredas de interpretação dos seus nobres
intentos poéticos. Cremos que Vieira da Silva talha os seus versos e sua vida,
na convicção plena de que o homem é a
medida do mundo.A sua
poesia é um arado infatigável na
prossecução de ideais coroados no enaltecimento da condição humana elevada ao mais elevado con- ceito de justiça. A única “dissonância” que lhe
descortinamos-- para seu padecimento--, será o excesso de coração e a virtude
de incomodar os seres acomodatícios para quem a injustiça do pão e a negação da
fraternidade são de tal modo curiais
que deixaram de constituir mínimo
delito. Um artista, neste caso o poeta, deveria (deverá) ser interpretado e valorizado pelo coração, pela sua
obstinação em criar justiça e fraternidade
em seu derredor e nunca
catalogado pela sua matriz política, porque a arte nunca se desprestigiará, mau
grado os defensores e adeptos obstinados da “arte pela arte”, ao servir fraternalmente a humanidade. O autor semeia poemas e cantigas na esperançosa colheita de um
mundo onde reine a equidade , versos que
são um apelo dorido e inadiável para que saibamos criar justiça e semear fraternidade. E porque o poeta, não pode viver permanentemente na dilaceração dos
desacertos do mundo, embora seja fácil
adivinhar-lhe duradoiras angústias,
em última análise, será sempre o amor a salvação dos dias de cinza, porque amar é
sempre um acto de reinvenção da vida e uma aposta esperançada no amanhã. Viera da Silva expressa-o neste que consideramos, senão o mais belo, um dos
mais belos poemas com que descerramos o
epílogo desta modesta tentativa de
interpretação do livro que, amistosa e generosamente nos ofertou. meu sonho lindo das
horas loucas nas madrugadas meu porto aberto das longas
viagens nas noites mortas força de vento vento de fúria meu amor de nunca corpo de chama chama de raiva meu amor de sempre por ti me acendi sangue inquieto na manhã viva por ti
me acordo vulcão rasgado no cais amargo Barbosa Tavares Maio
de 2004 Brampton, Ontário,
Canada
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