BARBOSA TAVARES

Escrevivências


Exilado em dois Mundos



Q uem nunca se sentiu a mais na sua terra própria, a  ponto de ser obrigado a deixar e procurar na ausência o calor que ela lhe nega, mal pode compreender o que significa esse golpe na consciência, essa vergastada no amor-próprio, esse sentimento dorido de todo o filho segregado do lar materno”.

                                                                                               Miguel Torga

 

Emigrar não significa dispor de duas pátrias, significa, outrossim, espartilhar as raízes  na negação  de viver infiel  ao mundo autêntico,  num dorido   e silente  gemicar pelo terrunho genésico, forçado que fui a trair-me pela côdea estranha que alimenta o corpo segregado da alma da terra, cuja ausência me cravejou num mundo de afectos  perdidos.

Não é impunemente que se se desfeiteia a dolorosa sina de ter nascido  português . Na minha  alma vive um povo e milhentas memórias no ressoar de uma língua tão primacial quão o  acto de respirar,  num linguajar   adocicado  sem arestas e fonemas estranhos, em que  a alma  ressoava na perenidade do  ser.

Escutem: foram gerações  que moldaram o sangue do sentir repartido  em saudade pelas ruelas de Ílhavo.

Foi um país que cinzelou   a sua própria história na minha vida. Contra este facto que posso eu? Além  de me defrontar  com esta nostalgia das pessoas e lugares do espírito   que se grudaram  no mais intímo do sangue da memória  e aí residirão  para o resto deste  meu tempo expatriado.

Não existe um único dia em que não faça uma digressão pelas vielas, saboreie a fragância pacificada das tílias do jardim, o sabor do vento sinfonizado sobre os pinheiros da Gafanha, um barquito estouvado  a cabritar na crista das  águas  do porto da  Malhada, um rosto de  velho com barba desgrenhada de sete dias,  cigarro a fumegar dos lábios pendente, redes entre mãos,  e a tal  ponte fendida pelo séculos  entre juncos esgrouviados que diziam  romana, a reterem  límpidas as  memórias da infância entre juncos e fios de água na memória esculpidos.

Digo e redigo:  não existe um único dia  que estas lembranças me não assomem aos olhos da alma  numa vaga de saudade dolente ao  constatar o tempo dolorosamente  perecível , nesta ausência  em que de mim me apartei.

Não sou desta terra, onde desemboquei mercenário de argênteas  quimeras.  Nada aqui testemunhou a minha infância. Nem vielas, nem o adro da igreja, nem o cheiro a jarro em dia de romaria, nem as velhas embiocadas   em eternos xailes negros, a mumurarem  pelas esquinas as ladaínhas da vida alheia. Nem os gritos ladinos das crianças,  nem o alvoroço da miudagem, atiçada por uma bola de farrapos a clamar aos gritos: "passa a bola!..”, nem  o rosto daquela mulher vestida de preto, afadigada no  abanador , o fogareiro e o fumo levitante do cheiro das  sardinhas esbraseadas, nem o repicar dos sinos anunciado um baptizado , ou o ressoar tétrico das badaladas que anunciam o regresso do corpo ao seio da terra materna.

Vivo de mim apartado. Nesta marginalidade dei-me conta que o húmus e a língua da minha pátria moldaram a essência do ser para todo o   sempre. 

Não, não sou daqui, apesar destas  espigas foragidas com  que vou alimentado o sonho inútil  num regresso ilusório que  porventura jamais enxergará a luz  do chão que me fecundou o espírito.

Explico-me em vagalhões de saudade, nesta  desolação que me assola a alma emigrada como procela em tempestades alheias. Sou náufrago do pão em pátrias duplamente  madrastas, sem outra bússola que não seja a miragem do regresso com que vou  urdindo  o sonho,  no qual , verdadeiramente  me  ludibrio.

Emigrar. Estar e não estar, ser e não ser  nesta disjunção do corpo e alma-- entre dois mundos-- , neste limbo sem remédio, sem fonte  a apaziguar esta sede do bojo materno, onde se quedam vivos  os  acrisolados sonhos de infância.

Vim em busca de pão - que outros sonhos se concedem ao  emigrante? Saciada a fome, doloriza-se-me a alma na exclusão da terra que arquivou  para sempre, a luz primeira dos ollhos e moldou o sangue do  sentir.

Traí-me, longe de saber quanto vale em espírito o canteiro genésico. Agora, terei que viver de mim ausente, sem aqueles sabores mátrios  que são a essência  do  meu jeito de ser, por isso, caminho solitário, trôpego da alma , sem  o que de mim permanece em Portugal.

Emigrar. Desventurado fado gemido nas cordas plangentes desta minha  guitarra - destino de português - por cumprir.