Escrevivências
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As Aves da Sabedoria |
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U m pássaro nas mãos , afagar-lhe as asas, acaricar-lhe as penas, desvendar-lhe o fascínio da liberdade—sonho azul no infinito da ingenuidade de menino.Espiava os
ninhos, entrelaçados por entre a ramagem do arvoredo, enquanto a passarada afadigada , suspendia
do bico, tal pedreiro pressuroso, as
palheiras, resquícios de ervas, os
fiapos de penugem, enquanto eu permanecia absorto na arte com que adornavam
seus ninhos no enlevo da misteriosa
sabedoria. Não resistia a
escalar árvore acima para
desvendar o segredo daquelas
aves que sinfonizavam a frescura da manhã , aspergindo um sopro de felicidade, salpicado de gorjeios ao despontar do dia, entre carvalhos e vinhedos, enquanto a
água parecia cantarolar a alegria da moça esbelta e viçosa,
aguardando encher sua cantarinha. Porque existem os pássaros? Talvez para nos incitar o
desejo de esvoaçar para além da terra ,
porque esta não basta para saciar o
sonho, talvez para acicatar o desejo de
liberdade e ensinar que a felicidade
deveria ser tão-simplesmente o grão de
cada dia no trinado de um gorjeio. Não foi em vão que o sábio Cristo se serviu das aves para nos ajudar a dissipar os temores do amanhã , ensinando a
colher serenamente o usufruto do
momento-agora que é, afinal, o tudo da vida disponível sobre
o muro do tempo. Não sei ainda—pela certa nunca saberei—explicar
este, tais outros tantíssimos mistérios
que me perplexificam a alma. Os
pássaros sempre me sugeriram a
ideia de Deus. Colhem o imenso infinito
azul, no adejar gracioso das asas, esvoaçam entre a frescura da ramagem e não
se lhe conhecem fadigas nem celeiros para além do momento. São o magnífico
paradigma do absoluto despojamento. Não parece incrível que os pássaros tenham surgido no
mundo para ensinar os homens? Confesso: cada vez que escuto a passarada num
trilar incessante, sinfonizando o cair da tarde, saracoteando-se gaiteiros na
verdura da ramagem, ressalta-me na alma esta nostalgia de não saber ser
imitá-los na felicidade e reacende-se o desejo de reaprender a cantarolar--um
hábito que jaz sepulto nos verdes anos da juventude. Fosse a vida apenas o grão de cada dia: um trinado
florido por entre o chilreio das águas e
a sinfonia do vento a rumorejar no
folhedo, com a luz crepruscular em tons rosáceos e arroxeados rubescentes no
horizonte, a encerrar um dia pacificado,
anunciando a serenidade do amanhã. Quem soubesse imitar os pássaros , afianço-vos ,
estaria mais próximo do reino prometido
sem as inúteis fadigas que amarguram e
sufocam o espírito, imitando as aves num gesto
perene de despojo que descerra a fulgurante
sabedoria. O tormento do homem não consiste em não possuir
apenas o necessário, mas em desejar muito para além do que lhe é prescendível. As aves não padecem destes
tormentos, assemelham-se no
seu viver à sabedoria dos santos que vivem
a autêntica liberdade erigida na renúncia dos bens do mundo. Renunciar para
mais possuir? Sim. Na renúncia é
possível auferir a liberdade. Sim , porque
o amor excessivo aos bens terrenos, não resgata o espírito e rende o homem no ser mais torturado à face do
mundo. Barbosa Tavares Brampton, Ont. Canada Agosto de 2004
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