À
beira-Main

Quanto mais um imigrante sinta
a sua Cultura de origem respeitada,
mais ele se abrirá à Cultura
do país de acolhimento
Amim Malouf
Les Identités Meurtrières
O Boulevard St-Laurent, também conhecido pela Main,
foi, em tempos idos, a fronteira
que dividia (unia) as zonas inglesa
e francesa de Montreal.
À sua beira, por entre saudades e esperanças, as
gentes portuguesa recriaram o seu
“jardim à beira-mar plantado”.
DERROCADA
O Manuel Transmontano sentiu ganas de
agarrar o médico pelo pescoço de pita careca e de lhe tornar a enfiar pela boca abaixo as asneiras que
o malandro acabara de soltar com o
maior dos desplantes.
Podia lá ser? O dianho do homem não
devia estar bom da cachimónia. Ou estava bêbado ou, então, pior, muito mais
grave, porque com coisas sérias não se brinca, estava a mangar com
eles.
- É grave, senhor doutor? - perguntou a Alzira, num fio de
voz.
O médico tirou os óculos e passou a
mão pelos olhos cansados de ver o mundo a nu.
- Infelizmente é . O cancro já está
generalizado e não há grande coisa a fazer.
- Resta-me muito tempo de vida? –
insistiu a Alzira.
Os olhos do médico fixaram-se num
ponto qualquer, para além da janela.
- Como sabem, nestes casos é difícil
avançar com previsões, tanto pode ser uma questão de meses
como...
Querem lá ver que o homem estava a
falar a sério? Podia lá ser! A sua mulher? A Alzira? A sua companhia para a
merecida reforma lá na terra, em Cicouro? Doente? Moribunda? A sua
Alzira!?
Uma vertigem pôs o consultório à
roda. Já não viu mais nada. Nem o médico. Nem a mulher. Perdido num nevoeiro
cerrado, povoado por uma zoeira esfarrapada.
Foi a mulher que, com mão firme, o
levou dali, o encaminhou para casa, o sentou no sofá.
- Parece que és tu o doente. Algum
dia temos de morrer. Ninguém fica cá para semente.
Olhou-a, aparvalhado. Nem sentia o
fio de baba escorrer-lhe do canto da boca.
- Mas, ó
Alzira...
Ela veio sentar-se ao seu lado.
Abraçou-o. Ficaram assim, sem falas, imóveis, pela tarde
adentro.
Por fim, o sol de Maio, que,
finalmente após a modorra invernal,
lá fora fazia crepitar a
vida por todos os becos, cansou-se de alumiar o mundo e sombras densas
rastejaram pelo soalho, treparam pelas paredes brancas.
- Vou preparar o jantar – anunciou a
Alzira. – E arrebita, homem. Não és o primeiro nem serás o último a ficar
viúvo.
PESADELO
Aqueles riscos vermelhos, em
carne-viva, na parede da garagem começavam a
aterrorizá-lo.
- Encosta-te lá à parede. E não te
ponhas nos bicos dos pés. Deixa-te de batotas. Vamos lá medir bem essa
altura.
Durante anos, gradualmente, os
riscos iam grimpando na parede
branca. Um centímetro esta semana, dois, três meses mais à frente, o
progresso era tangível e encorajador.
- Só quando chegares ao metro e
oitenta é que fico descansado – sentenciava o Luís Negro. - Um bom jogador de
hóquei precisa de corpo. Só a habilidade não chega para
nada.
Mas, a certa altura, a progressão
começou a fraquejar. Uma semana, um mês, três meses, o risco sem fôlego para
ultrapassar o metro e setenta e cinco.
- O que é isso Mário? – alarmava-se
o Luís Negro. - Tu não andas a comer bem? Vê lá se queres estragar a tua vida!
Toca a comer, vitaminas para a frente.
O Mário encolhia os ombros,
desorientado.
-
Eu
farto-me de comer, pai.
Estava agora um belo rapaz. Alto,
desempenado, com uma cabeleira negra e uns olhos castanhos pestanudos que faziam
suspirar as raparigas. No ringue continuava a passear o seu talento inegável e a arrancar os
aplausos das multidões maravilhadas.
- Precisas de crescer mais
cinco centímetros – arrepelava os cabelos o Luís.
- Como queres que o rapaz cresça mais? –
barafustava a Teresa. – Ele já é maior do que tu.
-
Precisa de crescer mais cinco centímetros - insistia o Luís. – Um bom jogador de
hóquei....
- Eu vou
crescer, pai, fique descansado.
Mas o risco vermelho na parede da garagem perdera as forças, imóvel,
começava a descorar de velho.
- Cinco centímetros é que irão
decidir o teu futuro. Entre ganhares milhões e não seres nada na vida. – E o
Luís dava exemplos irrefutáveis: Vê o Lafleur, o Gratsky, o Lemieux....tudo
calmeirões, tás a compreender, rapaz?
O Mário baixava a cabeça, atingido pela
saraivada de verdades.
- Eu
sei, pai.
- Ou
milhões ou a ponta dum corno. No hóquei é assim, ou tudo ou nada.
A
Teresa, cheia até à ponta dos cabelos daquelas querelas,
interpunha-se:
-
Cala-te lá com isso, homem. Estás a ser cruel com o rapaz.
O Luís
Negro abespinhava-se:
- Eu,
cruel?! Querem lá ver isto! Um homem ouve cada coisa.
E saía
para o quintal, seguido pelo Mar.
-
Ouviste aquilo?
O cão abanava a cauda, encostava-lhe
a cabeça fiel às pernas dos dono.
- O mundo tá
perdido.
CARTA DE
PORTUGAL
Boa amiga
Teresa
Lá arranjei mais um bocado de tempo
para me sentar e para te escrever duas linhas.
E é como sempre ao domingo, depois
do almoço. Os rapazes mal engoliram
almoço, cada vez mais
apressados e mais doidos com as raparigas. E falávamos nós das raparigas
canadianas. Agora, estas aqui ainda são mais estouvadas, são elas que desafiam os rapazes, já não têm vergonha de
nada.
O Jaime lá foi também para o café,
deve lá estar a contar aquelas histórias sobre o Canadá que não pára de
inventar. Sabes qual é a alcunha dele? O Canadiano. O Jaime
Canadiano.
Vê lá, um homem sisudo e sério como
o meu marido era, de repente, deu-lhe para aquilo. Passa a vida no café, a
contar patranhas sobre as suas caçadas no Canadá, nem tu calculas a
enxurrada de mentiras que lhe sai
da boca, como se o Canadá fosse só um país de neve, de ursos e de esquimós. Só
lhe falta dizer que foi ele que descobriu o pólo norte.
“Mas, ó homem, digo-lhe eu às vezes,
tu que nunca tiraste os pés de Montreal, que tinhas um medo que te pelavas da
neve e das florestas, como é que te atreves a dizer essas
baboseiras?”
Ele ri-se-me na cara, com um
descaramento que nem tu podes calcular. Já nem parece o mesmo homem. Deve ter o
diabo no corpo, é o que é.
Há dias veio-me com a ideia maluca
de escrever ao teu Zé, para que ele lhe enviasse umas cabeças embalsamadas de
animais, de ursos, caribus, focas, sei lá que mais. Custou-me a tirar-lhe a
ideia da cabeça. Começo a desconfiar que ele está mesmo levantado do miolo, que
ele próprio já começa a acreditar nas mentiras que conta.
Olha, minha boa amiga, eu até já
começo a ter vergonha de sair à rua. Porque as pessoas não são burras nenhumas,
começam a desconfiar de tanta fruta e já começam a rir dele, pelas
costas.
E se já tinha desejo de regressar ao
Canadá, agora, com estas coisas, ainda é pior. Se conseguirmos resolver certos
assuntos até lá, talvez a gente no
Natal vá até aí para vos visitar e apalpar o terreno.
O nosso grande problema são os
filhos, como deves calcular. Esses, agora, embora continuem a gostar do Canadá,
já não querem ouvir falar em regressar. Parece que encontraram a carne das
raparigas portuguesas mais gostosa
do que a das canadianas, os malandros.
Recebe um grande beijo da tua amiga
que nunca vos esquece,
Maria Cândida
REGRESSO
O tombar da noite trouxe uma brisa
refrescante que baloiça a ramagem das palmeiras.
Passeiam na marginal. Dum lado, a
correnteza interminável de restaurantes profusamente iluminados. Do outro, a
orla da praia onde o mar se adivinha preguiçoso, quase
adormecido.
O Açoriano acendeu um charuto.
Soprou uma nuvem de fumo.
- Isto é que é vida!
A mulher não
respondeu.
- O que é isso, corisco? Estás outra
vez muda?
Há seis meses que se regalam ao sol
da Flórida mas a mulher está, cada dia que passa, cada vez mais
muda.
- Não te sentes feliz? Aqui tens
tudo, não trabalhas, apanhas o sol que queres. Já te esqueceste do frio e da
neve em Montreal?
Ela continua muda. Mas o Açoriano
lê-lhe na alma como em livro aberto. Também ele tem saudades dos filhos, dos
netos, dos amigos. Há calor e calor. O humano é o melhor, começa a compreender.
Mas ainda se pretende enganar, mergulha numa enxurrada de
palavras:
- Diz lá, mulher! Alguma vez
imaginaste que terias uma vida assim? Este sol que é uma maravilha, um mar como
uma piscina onde te podes banhar todo o ano... Trabalhámos muitos anos mas agora
temos a recompensa, graças a Deus, vemos o fruto do nosso
esforço.
De chofre, um encontrão quase o estatelou no meio da multidão. O charuto
saltou-lhe da boca. Sente uma dor aguda, quase insuportável no braço. A boca da mulher rasga-se num grito de
animal ferido.
Alguém, um vulto que já lá vai em
correria, num puxão, arrancara-lhe
a bolsa do braço. Quer gritar mas as palavras inglesas embrulham-se-lhe na
garganta. Em todo o caso, já é
tarde de mais. O tecido da multidão já se refizera como se nada se tivesse
passado.
Ficaram os dois ali, especados,
perdidos, vulneráveis, atarantados.
- Já viste esta pouca vergonha,
mulher?
A noite continua tépida. A multidão
engrossou. Dos restaurantes crescem
aromas exóticos. O mar, esse, adormecera de vez.
- Já não se pode viver tranquilo em
lado nenhum.
Foi quando a boca da mulher se
descoseu:
- Isto não é terra para nós, homem.
O que fazemos aqui, longe dos filhos e dos netos? O sol...o sol! Maldito seja
este sol.
Um pranto, quase inaudível, subiu na
noite.
O Açoriano, abraçou-se à
mulher.
- Está descansada, mulher. Vamos
regressar a Montreal.
Está dito. Maldito ladrão. Se o agarrasse, torcia-lhe o
pescoço.
E a mão descarnada, que se queria
ameaçadora, ergue-se sobre as cabeças como uma pomba
estonteada.
REMORSOS
A doença da Alzira progride a olhos
vistos, não é preciso ser um grande
entendido na matéria para farejar a desgraça que se aproxima com passos
rápidos e determinados. Só uma vontade férrea, que ela vai buscar sabe-se lá
onde, a mantém de pé e a faz
cirandar por toda a casa como um espectro, as roupas, cada vez mais largas, a
dançar naquele corpo mirrado, só pele e osso.
O Manuel Transmontano que sempre
dormira como um justo, acorda agora a meio da noite, com uma espertina que lhe queima as pupilas e lhe
esfrangalha os nervos. Ficam os dois,
lado a lado, como estátuas, sem uma palavra, sem se tocarem,
irremediavelmente perdidos nas garras da dor. Quando, finalmente, a alvorada clareia
os blinds e os liberta do calvário da cama, o Manuel Transmontano mal tem
coragem para encarar o rosto lívido
da mulher, incapaz de engolir os
soluços incontroláveis que lhe sobem das tripas à garganta.
Sem forças para suportar aquele
martírio, inventa, amiúde,
afazeres inadiáveis, pretextos mal cerzidos que lhe permitem sair de casa e o
atiram para longos e solitários passeios pela montanha, como sempre a rebentar
de vida: os jogadores de cartas, os pares de namorados, as cabriolas dos cães, o
alarido das crianças, o murmúrio
das árvores, o sol a rastejar sobre a relva.
Nesse dia, voltado para a cruz, que,
lá no alto, se esbatia contra o céu profundo, rezou. Rezou em silêncio. Ele que
se tinha esquecido de Deus, cego, durante tantos anos, a ganhar, a perder, a
vida. E, como peixes gordos, os remorsos sobem-lhe à tona da razão. Remorsos da
vida sacrificada que dera à mulher,
devorado por aquela febre de aferrolhar, de ser o homem de mais haveres lá na terra, que lhe envenenara, de
ponta a ponta, a existência.
“Vou-lhe pedir perdão” decidiu-se.
Enquanto era tempo. Antes que a foice da morte, que já rondava, ronceira, se
antecipasse e lha ceifasse irremediavelmente do convívio.
Foi encontrar a Alzira
tranquilamente sentada no sofá da sala,
quase bela, recortada na penumbra da tarde.
- És tu, Manuel? Senta-te aqui ao pé
de mim. Estava a pensar na nossa vida, na sorte que tive em ter casado com um
homem como tu....o que é isso, estás a chorar? Olha que a doente sou
eu...!
- Eu...!
A Alzira pousou-lhe os dedos nos
lábios..
- Cala-te!. Recordas-te do nosso
primeiro beijo?
E ficaram, mãos nas mãos, entregues
às recordações que vogavam pelos mares, ora procelosos ora
plácidos, da vida que Deus lhes dera.
Há muito tempo que o Zé Biana não
assistia, na televisão, a um
Benfica-Sporting tão empolgante, até parecia como nos velhos tempos, quando o
desporto era mesmo desporto e os jogadores davam o litro por amor à
camisola.
Quase no fim da primeira parte, a
meio-campo, o Mantorras desembaraçou-se dum cacho de jogadores, flectiu para a
esquerda, driblou um defesa e cá de fora da grande área, até parecia o Eusébio dos bons
velhos tempos, atirou um petardo que fez a bola entrar pelo canto esquerdo da
baliza do Sporting, perante o olhar atónito do guarda-redes que mal tempo teve
para voltar a cabeça. Era o empate.
- Viste aquele golão? – saltou no
sofá o Zé, voltando-se para a Adelaide que, no outro sofá, folheava uma
revista.
- Não, não vi nada.
O Zé nem se apercebeu da rispidez da resposta,
engolfado no desenrolar frenético da partida.
- Aquilo
é penalti – saltou indignado. - Viste?
- Já te
disse que não vi nada.
- Raio de mulher.
Não te interessas por nada.
- E tu?
Já reparaste que lá fora está um belo dia de outono e que as pessoas normais
saíram todas para os parques e para as montanhas, admirar o espectáculo das
folhas coloridas?
Aquilo não eram palavras, eram
pedradas arremeçadas com uma raiva que o Biana nunca ouvira na boca da Adelaide.
Aprestava-se para se desculpar, para deitar água na fervura quando o novo golo
do Benfica lhe cortou o fio das boas intenções.
- Grande Mantorras! Assim é que é jogar à
bola.
BOFETADA
O Mário patina vertiginosamente.
Recebe a rondelle, esquiva um adversário, esquiva outro, o vulto
acocorado do guarda-redes cada vez está mais próximo, lobriga um buraco na
barreira defensiva e desfere a sticada.
É golo! A multidão ulula. Ouve
distintamente os gritos de alegria do pai. Volta-se para ele e ergue o
stick numa saudação, numa oferenda.
Mas o jogo já recomeçou. Já tem
outra vez a rondelle na sua posse. Investe de cabeça baixa. Com fúria,
com raiva. Tudo se passa numa fracção de segundo. Aquele colosso barra-lhe o
caminho e já não tem tempo para evitá-lo. O choque é frontal, terrível. Sente-se
catapultado contra a barreira. Uma
dor acerada perfura-lhe o ombro.
Através do véu espesso do suor, vê
as bancadas a girar, sente o ringue
ondular debaixo dos patins. O ulular da multidão rebenta-lhe com fragor na
cabeça.
Amparam-no, retiram-lhe o capacete,
sentam-no no banco. Queima-lhe a nuca o olhar desesperado do pai. Adivinha-o
petrifidado na bancada, lívido como um morto, alheio às peripécias do jogo que
prossegue vertiginoso.
A caminho de casa, mal se falam. O
Luís Negro conduz de mandíbulas cerradas, atento ao
tráfico.
- Não o vi vir – diz o
Mário.
O pai não
responde.
- São coisas que acontecem – insiste
o Mário.
O pai não
responde.
Há um silêncio insuportável. Por
fim, a bofetada tomba implacável:
- Se tivesses mais cinco centímetros
e mais dez quilos, nada daquilo teria acontecido.
A VIZINHA
Desde o falecimento da Alzira, mal
anoitece, o Manuel Transmontano não resiste ao peso das recordações. Sai para a
rua, sobe a St-Laurent e acaba invariavelmente por entrar no Benfica. Encostado
ao balcão, bebe lentamente uma cerveja, escuta as larachas dos presentes, bebe
outra cerveja, deita uma olhadela à televisão e aos jogadores de sueca e
regressa a casa, não poucas vezes, já com um grão na asa. Deita-se na imensidão
do leito esfriado e adormece logo de seguida porque, graças a Deus, valha-lhe
isso, recuperou o antigo sono de
santo.
Apresta-se, mais uma vez, para sair de casa e cumprir o ritual, um pé já fora do
apartamento, quando lhe barra o caminho a vizinha de cima, a Lise. É uma quebecoise já cinquentona mas
ainda fresca como uma alface, com um corpo capaz de fazer inveja a muita
rapariga e um par de olhos verdes, como pastagens sem fim, capaz de virar a
cabeça de muito homem sério.
- Bonjour, voisin.
Venho-te pedir o favor de me
emprestares um punhado de sal.
Palavras redondas e cantantes como
seixos, embrulhadas num sorriso que descobria a dentadura sã e branca e fazia
tremeluzir o verde dos olhos.
Palavra puxa palavra, nem sabia como
aquilo acontecera, acabaram confortavelmnete afundados no sofá da sala de estar,
em alegre e trivial conversa, esquecido o Benfica, esquecido o punhado de sal, a
noite a avançar a passos largos sem lhes pedir contas.
- Ai que já é tão tarde! – gritou a Lise,
consultando o relógio quando já iam avançadas as 11 horas. E já de pé: - Um dia
destes vais lá ao meu apartamento beber um café comigo. De
acordo?
Os olhos alegrotes e limpos dela
beliscaram-lhe a cara com o calor duma chama.
- Talvez, qualquer
dia.
Custou-lhe vê-la partir. A bem dizer, apercebia-se agora, era a primeira
noite desde que a Alzira o deixara,
que perdera a conta ao correr das horas.
E, no leito imenso, custou-lhe a
adormecer, o sangue meio alvoroçado no corpo. Deveria ter ido ao Benfica em vez
de ter ficado para ali a dar conversa à tagarela da vizinha, era o que era! Um
homem, mesmo depois de velho, está sempre a
aprender.
NOITE DE
CONSOADA
Noite de Consoada. O Jaime e a Maria
Cândida cumpriram a promessa e ali estão reunidos com os amigos naquela noite
deslumbrante onde até a neve não se esqueceu de
comparecer.
No regresso da missa do galo, à
volta da mesa, as recordações estalam nas bocas, crescem mais vivas do que o fogo da
lareira.
- Ó Zé, recordas-te daquela primeira
noite em que foste passar a consoada lá a casa? – pergunta a Teresa, afogueada
com o calor do lume, talvez dos portos
já escorropichados à sucapa.
- Está aqui gravado como se tivesse
sido ontem – responde o Zé Biana. – Foi a minha primeira noite de alegria neste
país.
Uma neve miudinha polvilha as casas de branco e derrete-se ao calor da
vidraça da janela em fugazes figuras de fina filigrana.
- E bonito a valer – confessa o
Jaime encostando o nariz à vidraça.
- Mas, ó Jaime, tu odiavas a neve! –
espanta-se o Luís saboreando uma filhó. - Já agora conta aqui à gente algumas
dessas tuas histórias de caça em terras canadianas.
Há uma gargalhada geral. A Maria
Cândida cora até à raiz dos cabelos.
- Que vergonha!
- Vergonha é roubar – atalha o
Luís, enchendo os copos aos amigos.
Chegou finalmente a hora de abrir os presentes.
-
Agora, sem as crianças já não é como dantes – ainda choraminga a Maria Cândida.
Mas é submergida pela algazarra geral e pelo estralejar do esventrar dos
embrulhos. -
Este aqui é para o meu amigo Jaime – anuncia o Luís, com um sorriso de orelha a
orelha, solevando uma caixa que jazia ao lado da árvore de Natal, um pouco à
parte dos restantes presentes.
A caixa é enorme e pelo
esgar do Luís, deve ser pesada a valer.
- Para mim? – desconfia o Jaime. – É
algum pedregulho?
- Abre – ordena o
Luís..
Quando, envolto por um silêncio
intrigado, o Jaime conseguiu
desembaraçar a caixa do emaranhado de cordéis que a envolvia e finalmente abrir
a tampa, mal consegue engolir um grito de surpresa. Do fundo da caixa, os olhos
vidrados duma enorme cabeça embalsamada de urso refulgem ferozes.
Uma enorme gargalhada rompe
o silêncio e rebola pelo salão.
Duas lágrimas assomam aos
olhos de Jaime que, num impulso
convulsivo, abraçou o
amigo.
E o Luís a fungar emoções:
- Este gajo é o Jaime? Um gajo feito
de pedra, a chorar? Não acredito! Ó Teresa, passa daí a garrafa do bagaço que a
gente tá a precisar de molhar as goelas.
DESAFIO
A
Adelaide anda, mais uma vez, com os nervos esfrangalhados. Explode por tudo e
por nada, desfaz-se em lágrimas à mínima contrariedade, já não sabe o que há-de
fazer à vida. Encharca-se de calmantes e drogas que o médico lhe receita com mão
larga, mas não há remédio que lhe valha. Tudo vai de mal a
pior.
Quem lhe vale é a
Teresa, ali ao lado, sempre com uma paciência de santa para lhe ouvir as
lamúrias intermináveis.
- Mas, ó Adelaide
– aflige-se a Teresa –, tu tens tudo na vida! Uma casa, um marido trabalhador,
uma filha que é uma jóia...o que é que mais queres?
Talvez a Teresa tenha razão, talvez o mal
esteja nela e não nos outros, talvez seja ela que não sabe reconhecer a riqueza
que tem, talvez exiga demasiado da vida.
Hoje, lá no
escritório, a Julie lançara-lhe à queima-roupa:
- Queres sair comigo esta noite, ir jantar aí a qualquer lado? Sem homens
para nos atrapalhar.
E, num
coup-de-tête, aceitara. Nem se dera ao trabalho de reflectir, de medir as
consequências, que estavam agora ali à sua frente, esparramadas, como larvas, na
cara enfurecida do Zé.
- Vais sair com
essa puta da Julie? Uma gaja que se deita com qualquer um, a troco dum jantar?
São essas agora as tuas companhias?
Perdera a cabeça. Já nem atinava com o
que dizia:
- Quem és tu para criticar a Julie? Pelo menos essasabe viver, saborear
os prazeres da vida.
-
Proibo-te de sair.
Ficaram ali na sala, arfantes, olhos nos olhos, como duas feras num
combate de morte.
Não és tu
que me vais proibir de sair. O tempo da escravidão já
acabou.
E saíra.
Mas já completamente exaurida. Sem forças para ir ter com a Julie. Refugiou-se
num recanto do McDonald’s mais próximo, com um copo de café entre as mãos
trementes.
NOITES
INQUIETAS
“Conho! Dianho de mulher!” Estranho
como agora, na recta final da vida, o linguarejar mirandês, durante tantos anos
amodorrado, esquecido, lhe salta à boca, nas horas de
inquietação.
Tudo por culpa daquela tagarela da
Lise que, quando se cruzam nas escadas, com aquela voz açucarada, está sempre a
convidá-lo a subir, para tomar um café.
Mas resiste. Teima em resistir. Por fidelidade à memória da Alzira, o
corpo ainda quente na sepultura. Por razões que ele próprio desconhece. Por
medos que o deixam de sangue a ferver nas veias.
Ainda mal se apercebeu de que tudo se está a transformar nos seus
hábitos. Já deixou de sair. Já deixou de ir ao Benfica. À noite, fica ali na
sala, de orelhas espevitadas. Atento aos
ruídos que descem do andar
de cima.
Espia-lhe os passos, interpreta-lhe os movimentos: agora está a lavar a
loiça, a água a gorgolejar nos canos; agora está a limpar a casa, o aspirador
num ronco surdo; agora sentou-se no sofá, a televisão de goelas
abertas.
- Quando sobes para tomar um café?-
pergunta ela
na encruzilhada das escadas.
- Qualquer dia
será.
- Já sabes, é só
subir.
Maldita mulher! E cada vez mais
fresca. Até lhe custa a crer que não frequente homem. Desde que ela se mudara
para ali, e já iam corridos um bom par de anos, nunca se apercebera da presença
de nenhum.
- Quando sobes? Pode ser
hoje?
O persistente convite martela-lhe a
cabeça. Pregou-se em qualquer resquício do cérebro. Até já sofre de insónias.
Logo ele que sempre dormiu como uma pedra, mesmo nas horas de tormento e
aflição.
Hoje é sábado. Sobe o som da
televisão e percorre os canais à procura dum bom filme que o distraia. Mas nada
o contenta.
Vai até à janela. Uma neve esparsa,
dilui-se ao calor das vidraças. Pega no telefone para falar à filha, ouvir o
palrar do neto. Mas ninguém o atende. O clamor insistente do telefone crava-lhe
a solidão na alma.
Nove horas da noite. Apaga a televisão. Ouve-lhe os passos leves a
caminho da casa de banho, o jorrar da água para a banheira. Depois, outra vez os
passos dirigem-se para o quarto. Há um silêncio prolongado. Deve estar a vestir
o roupão. Talvez a pentear os cabelo curtos e aloirados.
Levantou-se do sofá. Tornou a sentar-se. Gotículas de suor perlam-lhe a
fronte. Deve ter o aquecimento da casa muito alto. Levanta-se para verificar o
termóstato. Tudo está normal.
Finalmente, os passos encaminham-no
para a porta, para as escadas que já sobe furtivamente.
Fustiga-se:
“Dianho de homem! Pareces uma
criança da escola, com medo da mestra.”E, com mão trémula, foi bater à porta da
Lise.
RECOMEÇAR
O Açoriano respira como peixe em
águas profundas. Atento às vozes, às cores, aos cheiros. Só agora é que
compreende como Montreal lhe fazia falta.
A Flórida não era para ele. O sol tórrido, o mar quente como caldo,
aquela vida de velho ocioso à espera da morte!
No cruzamento com a Duluth, deteve-se para acender um charuto.
Largou uma baforada que lhe limpou a alma.
“Lá tá a fábrica a trabalhar”
troçava dele o Luís Negro, nos tempos antigos. Que bela rapaziada aquela. Por
vezes, basta uma cerveja bem bebida
com os amigos para se ser feliz. Não é preciso correr atrás de
quimeras.
Na Rachel, deteve-se.
A tabuleta do Petit Algarve ainda continuava pendurada sobre a porta.
Mas atrás do balcão estava um rosto desconhecido.
- Monsieur Pedro est
là ?
O outro farejou o sotaque português
e abriu-se num sorriso largo.
- É português? O senhor Pedro deve
estar quase a chegar. Ainda deve estar no outro restaurante mas, geralmente,
passa por aqui por volta das três horas. Quer que lhe sirva alguma
coisa?
Pediu um copo de vinho e sentou-se
na mesa rente à janela, entretido com o formigar da
St-Laurent.
Quando o Algarvio chegou,
abraçaram-se efusivamente.
- É corisco mal amanhado! A Flórida
faz-te bem, estás dez anos mais novo.
- E tu estás mais gordo. Os negócios
devem correr bem, calculo.
- Ando muito ocupado. O restaurante
da Duluth dá-me muito trabalho. Até estou seriamente a pensar em trespassar isto
aqui. Se não estivesses na Flórida, era bom para ti.
O Açoriano sentiu um baque no
peito.
- Estás a falar a sério? Olha que
começo a ficar interessado.
O Algarvio estava boquiaberto.
- E a Flórida?
O Açoriano acabou de beber o copo de
vinho .
- Queres que te diga a verdade? A Flórida que se lixe. É aqui que quero
acabar os meus dias. Nesta terra, perto dos meus filhos, dos meus netos, dos
amigos.
O Algarvio estendeu a mão, num
pacto.
- O Petit Algarve é teu. Com
uma condição. Esta mesa estará sempre reservada para nós, para os amigos, para,
de vez em quando, virmos aqui comer uma valente alcatra.
Riram como crianças. Nos olhos vogavam-lhes farrapos dos tempos
antigos.
- Recordas-te dos tempos em que
vocês se juntavam na minha loja para beber umas cervejas?
-
Essas coisas nunca se esquecem.
EL
PORTO
A curva harmoniosa da estrada. O
barco rabelo encalhado no rio à espera duma brisa para sacudir o torpor e largar
a bolinar por ali acima. Os socalcos das vinhas a trepar encosta acima até ao céu azul e puro. A poalha dourada do
sol a pino. O véu violáceo e fremente da canícula.
- Pára aí – disse a Gisele, deslumbrada.
Encostaram o carro à berma da
estrada e ficaram ali, sem palavras, liquefeitos nas cores estonteantes da
aguarela.
A Giselle voltou-se para o Pedro,
com a maré-cheia do olhar azul das
horas de bonança.
- E se abríssemos um bistrot
de vinho do Porto, em Montreal, em plena St-Laurent?
O Algarvio estirou o olhar até às
encostas da outra margem.
- Olha que não é má
ideia.
A Gisele entusiasmava-se. O olhar
azul reflectia agora os tons esverdeados do rio, irradiavam chispas
douradas.
- O vinho do Porto está na moda em
Montreal. Imagina um bistrot decorado com arte, com azulejos portugueses, repleto com os melhores vinhos dos
melhores anos, das melhores colheitas...um recanto confortável de encontro de
artistas, intelectuais, homens de negócio....
Saiu do carro, trepou o paredão
protector da estrada, abriu os braços ao sonho, as crinas soltas ao
vento.
O Algarvio devorava-a com o olhar,
fascinado. Quando ela regressou ao aconchego do seu abraço, aspirou-lhe o cheiro
selvagem do cabelo.
-
Acho que é uma excelente ideia.
-
Vamos-lhe chamar El Porto.
-
Alto lá! Isso é espanhol. Em português diz-se O Porto.
A Gisele soltou uma gargalhada. Nada a detinha;
- Montreal é uma encruzilhada do mundo. Uma cidade cosmopolita onde se
cruzam todas as raças e culturas do mundo. El Porto tem mais força, mais
musicalidade, fica no ouvido. Afinal,
o rio Douro nasce em Espanha, não é o que disseste? Vrai où pas vrai?
O Algarvio riu
até às lágrimas.
- És o diabo.
- J’ai faim – chamou-os à realidade o Manuel que, no banco
traseiro, acordara estremunhado.
- Tens toda a razão, filho. Também eu já estou com uma fome de lobo.
Disseram-me que aí mais à frente há
um restaurante que serve um cabrito no forno capaz de ressuscitar um morto.
Vamos experimentar?
FÚRIA
Aquela mulher que ali vai, que sobe
dois a dois os degraus das escadas, impulsionada por forças cósmicas não pode
ser a Teresa. A Teresa é uma
camponesa pachorrenta, animal milenário que não precisa de se interrogar sobre o
seu lugar no universo, que chora, grita e ri com a naturalidade duma nascente a
brotar da rocha. A mulher que ali vai direita ao quarto do filho é outra, tem
uma máscara horrenda cravada, em fusão, sobre o rosto.
- Mário!
Já está plantada no meio do quarto,
como uma árvore enorme e ressequida, sacudida pelos ventos da
tragédia.
O filho, acordou sobressaltado,
procurou os olhos incendiados da mulher.
-Mãe!
-O que é isto?
O saquito de plástico, empunhado pela mão resoluta, cresceu no coração do
quarto.
- Mãe!
- Não negues. Eu sei
tudo.
E sabia. Naquela casa não havia
segredos para ela. O acabrunhamento do Mário, os seus súbitos saltos de humor
não lhe passaram despercebidos, logo desde a primeira
hora.
Passara a casa a pente fino, numa busca
meticulosa, concentrada. Até que fizera a descoberta, num canto recôndito da
garagem.
- É droga, não
é?
O Mário deixou tombar a cabeça.
Diante dos olhos da mulher ficou a mancha frondosa da cabeleira de
azeviche.
- É sim, mãe. É
cocaína.
Finalmente, a máscara estilhaçou-se
e o rosto da Teresa inundou-se dum
mar de lágrimas. Sentou-se na borda da cama, as mãos entrelaçadas sobre o
regaço.
Silêncio. Lá fora, no quintal, balouçadas pela brisa outonal, as folhas
em fogo do ácer sussurravam palavras inaudíveis, amigas, através da janela.
Finalmente, num sussuro, quase
choro, quase prece, o Mário
começou a falar. Dele, do pai, do hóquei, do peso insuportável dos seus
medos.
Quando o fio de voz se extinguiu e ergueu os olhos, reencontrou a máscara
tétrica colada sobre o rosto da mãe.
- Logo à tarde vamos falar com o teu
pai. Vamos pôr tudo em pratos limpos.
- Mas...
- Não há mas nem meio mas. – Não
havia na voz qualquer ponta de súplica,
era uma sentença. – Logo que o teu pai chegue do
trabalho.
Lá fora, as folhas do ácer continuavam o
seu murmúrio. Algumas, tocadas por uma brisa mais forte, tombavam, sem pressas,
sobre a relva, com a leveza de
penas.
BARREIRAS
Desde aquela noite em que a Adelaide
resolvera sair, poucas palavras se trocam naquela casa.
O Zé refugia-se na oficina, entregue
a trabalhos intermináveis e sem fruto. A Adelaide deambula pela casa como uma
sonâmbula. A filha, entregue a um idílio de fresca data, sai, alvoroçada, quase
todas as noites, nem se apercebe
das barreiras intransponíveis que se erguem abruptamente entre aquelas
vidas.
Esta noite as horas rolam intermináveis. Da oficina sobe o rosnar
insuportável do torno a abocanhar mais um osso de aço. A Adelaide já sacudiu o pó a todos os
bibelots, já percorreu todos os canais da televisão, já foi colar o nariz
a todas as janelas da casa. E ainda mal são nove horas da
noite.
Agora, diante do espelho do roupeiro do quarto, prova, sem
interesse, uma camisola. Ajeita a
gola, alisa-a nas ancas, volta-se de perfil e franze a testa, agradada pela
silhueta elegante que o espelho lhe devolve.
Impelida por impulso irresistível,
começa a despir-se lentamente. A camisola, as calças, não tarda a ficar nua,
diante do espelho, como Deus a pôs no mundo. As mãos, hesitantes, acariciam os
seios, descem lentamente pelo ventre até à sombra da
púbis.
Aos quarenta anos ainda é uma mulher de carnes rijas, capaz de fazer
voltar a cabeça aos homens. Lá no escritório, o Benoit, o responsável do
marketing,divorciado de fresco, está sempre a relembrar-lho. Lança-lhe
piropos, persegue-a todo o dia com aquele olhar perturbador de homem vivido,
habituado a correr mundo. ‘Salut, belle portugaise”, é o seu crónico
cumprimento matinal. Bastaria ela acenar a cabeça para ele se lhe rojar aos pés.
E se é um homem que sabe saborear a vida: fins-de -semana de ski nas montanhas
do Vermont, férias nas Caraíbas, carros do último modelo, jantares nos melhores restaurantes,
mulheres sempre por perto.
A mão, agora febril, continua a percorrer o corpo, desliza pelas coxas
elásticas, torna a subir até ao ventre firme.
“Salut, belle portugaise”,
já não é um cumprimento, o
piropo antigo transformou-se, nos últimos tempos, numa declaração
inflamada, num convite evidente,
não é preciso ser muito esperta para compreendê-lo.
Subitamente, na oficina, o torno deixou de rosnar e os passos do Zé, a
subir as escadas, despertaram a realidade. Vestiu-se atabalhoadamente.
Ficaram os olhos, em fogo,
no mar do espelho.
CONSELHO DE
GUERRA
-
Fala –
ordenou a Teresa. – Fala, Mário.
Estão os três sentados à mesa da cozinha. O Luís de testa franzida, o
olhar desconfiado, à espera de compreender o que diabo se passava naquela casa.
O Mário de cabeça caída, a cabeleira de azeviche cheia de reflexos metálicos
pela luz do candeeiro do tecto. A Teresa sempre com aquela máscara tétrica que
lhe esconde o rosto bom de camponesa.
Há um
silêncio desmedido, um interlúdio decisivo naquelas vidas.
Mas o Mário é um rapaz corajoso. Quem foi capaz de, de queixos cerrados,
durante tantos anos, apanhar tanta
porrada a jogar hóquei, também é capaz de erguer a cabeça de rapelão e de enfrentar o
olhar do pai.
-
Pai!
Falou,
falou até à última gota. Encorajado pelas lágrimas que começavam a derreter a
máscara afivelada sobre o rosto da
mãe. Perante o olhar atónito do pai. Falou dos seus pesadelos. Dos seus medos.
Daqueles anos de tormento em que a paixão pelo hóquei se transformara
gradualmente num calvário que lhe abrira chagas profundas na alma.
Quando se calou e a luz do
candeeiro se reapossou da cabeleira de azeviche, a Teresa voltou o rosto banhado
de lágrimas para o marido.
- Tás a
ver, Luís? Tás a ver o mal que fizeste ao teu filho?
O Luís
abriu os braços, aturdido, contemporizador.
- Olha,
rapaz, se não quiseres jogar mais hóquei, também não é o fim do mundo. Já podias
ter dito isso há mais tempo, não era preciso chegar a este extremo. Que diabo,
eu não sou carrasco nenhum.
- Prometo que nunca mais tocarei na droga
– atalhou-o Mário, com voz glacial,
erguendo a cabeça.
- Isso é
que é falar, rapaz – exultou o Luís assentando-lhe uma palmada no cachaço. - Tás
a ver, Teresa? Tá tudo arranjado. Afinal só a morte é que não tem remédio. E tu,
Mário, com essa lábia davas um bom advogado, poderias ganhar mais dinheiro do
que a jogar hóquei...- e já ia por ali fora, numa cavalgada, quando o olhar
severo da Teresa lhe cortou a verborreia.
-
Luís!
-
Pronto, pronto. Já não falo mais esta noite. Um
homem já não pode
fazer planos para o futuro dos filhos...que tempos estes...!
DESABAFO
“Andas com a cabeça nas nuvens” –
dizia-lhe a mãe quando, criança, se esquecia de levar a vaca a pastar no
lameiro.
Regressava agora aos trilhos da infância. Até
se esquecia de telefonar à filha e ao neto. Uma vergonha. Mas por mais que tente
resistir à intrusão que lhe virou a vida de pernas para o ar, não há nada a
fazer. Só pensa nela. Tudo em seu redor está impregnado dela. Do seu cheiro. Da
sua voz. Da luz dos seus olhos. Da memória da primeira noite passada juntos, no
mar imenso daquele leito onde quase se afogara como um catraio devorado pelas
ondas do prazer.
“Isto é água demais para o meu
moinho”- reconheceu naquela tarde. Precisa de assentar os pés em terra, de
reencontrar o equilíbrio perdido, de vir respirar à tona da razão, de sair
daquela furtividade que o envergonha, de desabafar, do conselho dum
amigo.
Entrou no novo restaurante do Algarvio, ali na rua Duluth. Ficou feliz
como uma criança quando o lobrigou.
- Tu por aqui?
O Algarvio saiu de detrás do balcão
com duas cervejas na mão e encaminhou o amigo para uma mesa
tranquila.
- Até me custa a acreditar, és mesmo
tu?
O Manuel Transmontano sorria
embaraçado.
- Eu sei que não tens tempo para aturar velhos. Agora com os
negócios...
O Algarvio
afinou:
- Que raio de palavras são essas?
Vocês é que enfiaram essa coisa nos cornos. Cá o Algarvio não troca os amigos
pelos negócios. Olha que me zango a valer se te torno a ouvir dizer essas
merdas. Não é coisa tua, um homem sensato como tu...
- Isso é o que pensas. Quem vê caras
não vê corações...
Há um raio de sol que atravessou a vidraça da
janela e que brinca sobre a mesa, reverbera nas garrafas. O Algarvio pousou a
mão no ombro do amigo. Continuava com os olhos bovinos e amigos de
sempre.
- Isso vai bem?
Contou-lhe tudo. Do princípio ao fim. Sem subterfúgios. Até onde
conseguiu desemaranhar a meada da vida.
- Achas que isto fica bem num homem da minha idade, viúvo, com um neto já
crescido?
O Algarvio ia rir, soltar uma
laracha rude, à portuguesa. Mas retraiu-se a tempo.
- Sabes, Manel, tu és um homem. Ela
é uma mulher. Onde é que está o mal?
- Achas?
O Algarvio tinha os olhos
humedecidos. Ergueu a garrafa.
- À vossa felicidade. Passa com ela cá pelo restaurante, quando quiserem.
Depois combinamos um jantar lá em casa. A Giselle terá todo o prazer em
recebê-los.
CARTA DE
PORTUGAL
Amigo Luís
Essa saúde vai bem? Claro que sim,
que pergunta a minha! Tanto tu como a Teresa são feitos de aço dos bons
velhos tempos, não há ferrugem que
entre convosco.
Nós também não nos podemos queixar, para uns velhotes como nós, a máquina
ainda não está muito emperrada.
Perguntavas na tua última carta quando é que nos decidíamos a regressar
ao Canadá. Para te falar com franqueza,
é ideia que já pusemos de parte. Tanto eu como a Maria Cândida, chegámos
à conclusão de que já não tínhamos forças para recomeçar a vida nessas terras. A
idade, quer a gente queira quer não, começa a pesar nas pernas e sobretudo na
cabeça.
O que vamos é abrir um restaurante aqui em Pias. Já está tudo apalavrado
e só falta assinar os papéis. E sabes o nome que lhe vamos dar? O Canadiano. Se
aí estaria sempre marcado pelo ferrete de ser imigrante, aqui não me posso
desenvencilhar do rótulo de canadiano. E, como diz o ditado, a melhor defesa é o
ataque. Seja, pois, o Canadiano. Que isso me seja de proveito nalguma coisa, já
quanto mais não seja, nos
negócios.
E já agora, aproveito para
te pedir o favor de me arranjares aí mais umas cabeças embalsamadas de animais,
capazes de dar um ar de verdade às minhas trapaças e também para enfeitar o
estabelecimento. Sempre ouvi dizer que nós não somos aquilo que realmente somos
mas sim aquilo que os outros vêm em nós.
Continuarei pois, por aqui, a contar aos fregueses as histórias das
minhas caçadas fabulosas em terras canadianas e encontrarei assim umas migalhas
de felicidade para o resto da minha vida, isto é se o negócio correr bem e não
for tudo por água abaixo.
Recebam um grande abraço de todos
nós e cá os esperaremos, nas próximas férias, para saborear no meu restaurante
um ensopado de borrego como nunca vos passou pelos lábios.
Jaime
PAZ DE
ESPÍRITO
Depois do almoço, enquanto prepara o
café, o Michel, discípulo inveterado da informática, não desiste de tentar
converter o sogro à sua religião e
de iniciá-lo na arte de navegar na internet.
- Quando souberes
mexer naquilo, não vais querer
outra coisa, até podes ler os
jornais portugueses quando te apetecer. Poderás mesmo encomendar por
e-mail uma daquelas postas mirandesas lá da festa do Nazo. O que é que
queres mais? C’est mieux que faire l’amour, je te promet – acrescentou o
Michel, com uma piscadela de olho à Lise.
Com o neto encavalitado nos
joelhos, regalado, o Manuel Transmontano sorri, incrédulo, com os esforços do genro.
- Talvez, qualquer dia. Quem
sabe?
A filha e a Lise, lá para a ponta da
mesa, tagarelam como duas boas amigas. O Michel acabou de preparar o café que
escorre sem pressas para as chávenas.
Que belo dia! Lá fora, o sol outonal atarda-se sobre a relva,
dá as últimas pinceladas de vermelho-fogo às folhas do
ácer.
- Temos uma novidade para vos dar –
anuncia o Michel, abrindo a garrafa do porto.
- Boa ou má? – pergunta o Manuel
Transmontano
- Vais ser outra vez vovô – rebenta o Pierre, incapaz de guardar nem mais
um minuto o segredo prometido.
Há gargalhadas,
abraços, tilintam os copos.
Nessa tarde, amolecido por três ou quatro portos, o Manuel Transmontano
pigarreou, como nas grandes ocasiões, para
soltar as palavras que
estrebucham lá pelo fundo do peito.
- Há dois ou três anos, quando a minha Alzira ainda era viva, pedi que,
quando chegasse a minha hora de ajustar contas com Deus, me enterrassem em Portugal. Nesse tempo
isso era importante para mim. Apavorava-me ser enterrado num buraco de gelo. Que
parvoíce! Se o frio até conserva as carnes. –Esperou que as gargalhadas, ao
redor da mesa, parassem. - Agora sem brincadeiras, desta vez, quero-vos dizer que esqueçam
a promessa. A minha terra agora é aqui, junto das pessoas que amo, o que é que
eu ia para lá fazer, digam lá?
DESGRAÇA
A Teresa tropeça nas palavras. O
peito ameaça rebentar os botões da blusa, como um fole tresloucado. Os olhos
deitam labaredas.
- Ó mulher, não estou a perceber nada do que estás para aí a dizer –
protesta o Luís. – Deixa-me despir o casaco e já me contas
tudo.
Finalmente, já sentados à mesa da cozinha, a Teresa lá conseguiu
encarreirar as palavras para contar a desgraça.
- É
inacreditável, Luís, é inacreditável. A Adelaide deixou o Zé. Foi-se embora com
outro homem.
O Mar abana a cauda, à espera das festas do dono que tardam desta vez.
Solta um latido, inquieto.
- Quieto, Mar! Raio de cão! - É a vez do Luís arregalar os olhos de
espanto. - Deixou o Zé?!
Partilhado o segredo, a Teresa começa a assentar os pés em terra. Só as mãos é
que ainda continuam a retorcer o avental.
- É
verdade, Luís. Ainda eu mal acabara de chegar da fábrica, quando a Adelaide me
veio bater à porta. Parecia mesmo que estava à minha espera. Sabes lá tu tudo o
que ela para aqui me disse.! Que já não podia aturar mais o Zé e os jogos da
bola. Que sentia que estava a perder a vida, enterrada viva neste buraco. Tanta
parvoíce, tanta, tanta que a certa altura eu voltei–me para ela
e dei um grito: tás maluca,
Adelaide!? Ela sorriu e só me disse: não, Teresa, mas acabaria por ficar se
continuasse mais tempo nesta vida.
O Mar
continua a roçar a cabeça pelas
pernas do Luís. Lá acaba por ganhar uma carícia distraída.
O Luís
tem os olhos pregados na Teresa que chora como uma
madalena.
- Que desgraça, Luís, que desgraça.
Por fim, o Luís consegue pôr um pouco de ordem no emaranhado de
ideias.
- Acalma-te lá, mulher! E o
outro, é português?
- Qual quê! É praí um quebecois qualquer, colega dela, lá no
emprego.
Foi quanto bastou para o Zé poder dar vazão a toda a sua
sanha.
- Maudit quebecois! Tás a ver, Teresa? Esses cabrões devem pensar
que os portugueses são todos uns maricas da raça deles. Ai se eu fosse o Zé!
Esse gajo haveria de saber o que é um português com eles no sítio. – A mão
esmagou-se, raivosa, contra a mesa. -
E o Zé, coitado, onde é que ele está? Vou já vê-lo, coitado. Pobre
rapaz!
A
DECISÃO
Prezado cunhado
Espero que esta carta vos vá
encontrar com saúde e alegria.
Só depois de muitas noites em claro é que ganhei coragem para te
escrever. Uma decisão destas não se toma assim do dia para a noite, precisa de
amadurecer, como a fruta ao sol no
pomar.
Para te falar com franqueza, depois da morte da tua irmã, da Alzira, que
Deus tenha em descanso, já não tenho coragem para regressar aí à terra. O que
iria fazer longe da minha filha e dos meus netos? O meu lugar é aqui, ao lado
deles, para ajudá-los no que puder e gozar, enquanto Deus me der vida, do
consolo da sua companhia.
É por tudo isto que te peço o grande favor de pôr à venda todos os meus
haveres. Tudo, mesmo a casa. Eu sei que os compradores agora não abundam, os
novos partiram, os velhos já não têm forças para tratar as terras mas, olha, faz
o que puderes. Deixo tudo nas tuas mãos, o que fizeres está bem feito, tens toda
a minha confiança, como sempre a tiveste e mereceste. Se quiseres escolher um
par de hortas e lameiros, dos
melhores, para ti, não hesites. Fica descansado que não irei regatear preço
contigo.
Recebam muitos abraços e beijos de todos nós. E sempre que alguém perguntar por mim, digam que
estou bem e que, apesar de me desfazer de todos os meus haveres , nunca me
esquecerei de vós todos, nem da nossa querida terra.
Um grande abraço do teu cunhado sempre amigo,
Manuel
*
Selou a carta e guardou-a no bolso
do casaco. Sentia uma ponta de tristeza cravada na
garganta.
“Parvoíces”. Passou a mão pelos
olhos para afugentar a pieguice. Sabia que não dissera toda a verdade, que não
levantara o véu completamente. Mas era melhor assim. Lá na terra, os amigos e a
família não iriam compreender. Eram mundos diferentes. O tempo se encarregaria
de tudo esclarecer.
Mas o melhor era apressar-se. A Lise
esperava-o para ir ao restaurante do Pedro Algarvio que lhe prometera recebê-los
com uma caldeirada como só ele sabia preparar.
A
ESTATUETA
Desde o
dia em que a Adelaide partira,
aquela casa tem a imensidão dum convento onde o Zé flutua em silêncios de monge,
longe dos olhares do mundo. Longe dos olhares da própria filha, sempre ausente,
entregue de alma e coração, a um idílio devorante.
Mas uma desgraça nunca vem só. Nesta noite de sábado, foi a própria
filha que o sentou à mesa da
cozinha e lhe anunciou, de olhar relampejante, a firme intenção de ir viver com
o namorado , aquele rapaz italiano com quem ela sai quase todas as noites nos últimos
meses e que, diga-se a verdade,
ele, entregue às suas dores,
mal conhece.
O Zé olha-a atarantado, e só
agora repara que a filha está uma mulher feita que lhe fala com voz decidida e
exultante, animada pela força de vigorosos e inadiáveis planos tecidos para a vida a
desabrochar.
Lá fora, o
carro do rapaz italiano roncava nervoso.
- Tu
é que sabes, filha. tu é que sabes - mal forças tem para
balbuciar.
Refugiou-se na oficina e ,
do monte de sucata, agarrou, cego,
um pedaço informe de ferro. Torneou, mandrilou, poliu , sem descanso,
noite fora, até que a redentora luz
da manhã o surpreendeu de supetão.
A obra, a estatueta, era
esplêndida: um homem, uma mulher e uma criança, mãos dadas, cabeças erguidas,
caminham resolutos, de olhar posto lá longe, talvez no largo horizonte da vida.
Pegou-lhe com cuidados redobrados e foi colocá-la no móvel, ao lado da televisão, onde, não tardava
nada, iria começar aquele Braga-Boavista
que prometia a valer.
Mas o Zé, mesmo com a televisão em altos gritos, já não deu por nada.
Acabou por adormecer no sofá, morto de fraqueza, fadiga e
desgosto.
INAUGURAÇÃO
No dia da inauguração, o El Porto
estava um brinco. Cheio de luzes, azulejos, espelhos e veludos. Tal e qual como
a Gisele idealizara.
A voz cristalina da Amália requebrava-se pelos recantos
acolhedores. As bandejas, plenas de cálices e acepipes, vogavam, sem parança,
naquele mar de convidados palradores
entre os quais sobressaiam os rostos mediáticos de meia-dúzia de
poeminentes políticos que de maneira nenhuma iriam perder aquela soberba
oportunidade de demonstrar publicamente o seu acrisolado amor aos altos valores do
multiculturalismo.
A Gisele, discreta e eficiente,
atenta ao mínimo detalhe, zelava para que nada fosse descurado. Quanto ao
Pedro, inquieto, de pescoço esticado, esse, só se preocupava com a comparência dos velhos amigos que, para
sua tranquilidade, lá foram
chegando aos poucos. Primeiro Manuel e a Lise, depois o Açoriano e a mulher que
só a ferros o marido conseguira arrancar de casa. Por fim, apareceram o Luís e a Teresa,
acompanhados pelo Zé.
- Lá consegui arrancar este ladrão lá da cave onde passa a vida às marretadas àqueles bonecos que
até fazem arrepios a um homem -
desabafou o Luís, apontando a figura amochada do Zé. – Agora, meteu-se-lhe na
cabeça que é artista, podia-lhe dar para pior.
Um empregado abeirou-se com um telefone na mão.
- É para mim? – estranhou o Pedro.
E, logo, lá
dos confins do Alentejo,
chegou-lhe a voz do Jaime,
embargada de felicitações e recordações à
flôr-da-pele.
O Pedro, com as lágrimas a assomar,
só balbuciava:
- Ora esta, ora esta.
E
sempre a voz do Jaime:
- Ó Pedro, isso pode ser um luxo...mas olha que nada chegava ao prazer
daquelas cervejas saboreadas na loja do Açoriano.
Recordam-se?
Quando desligou o telefone, o Pedro Algarvio, a enxugar a testa com um
grande lenço branco, voltou-se para
os amigos:
- Quero-vos confessar uma coisa, para que não haja dúvidas nenhumas entre
nós. De uma vez por todas. A vossa presença aqui, hoje, é mais importante para mim do que a
dessa gente importante toda que aí está. Acreditam?
E, pela tremura da voz e pelo olhar ternurento, quem poderia
duvidar?
FECHO
DO LIVRO TERCEIRO
O Luís Negro será sempre aquele rapaz
pacato e bonacheirão a quem basta, para ser feliz, um punhado de quase nadas. De tempos a
tempos, ele e a sua Teresa lá andarão roídos de saudades mas com uma ou outra escapadela a Portugal, tudo volta depressa a rodar nos eixos
dos dias sem história.
O Açoriano, arrancado, in extremis ao cemitério dos
vivos-mortos da Flórida, encontrou no Petit Algarve um óasis onde regularmente
reune os amigos em bem regadas petiscadas.
O Zé Biana por lá continua agarrado
às suas estatuetas cada vez mais retorcidas, mas como não há dor que sempre dure,
terá, mais dia menos dia, de regressar à vida. É até muito possível que regresse
a Portugal onde um irmão montou recentemente uma serralharia e reclama
insistentemente os seus talentos.
Ao Pedro Algarvio já não há vento que o detenha. Com a Gisele
firmemente ao leme dos negócios, sobra-lhe cada vez mais tempo para se reunir
com os amigos e ver crescer, dia após dia, uma barriguinha de prosperidade e bem
estar.
O Manuel Transmontano encontrou a paz de espírito há muito procurada. As voltas que o mundo dá, pensa, quando, de tempos a tempos, um leve véu de tristeza o cobre de recordações.
O Jaime teimou e venceu. O café do
Canadiano, repleto de cabeças embalsamadas, lá nas profundezas alentejanas,
começa a ganhar renome e para espanto da Maria Cândida, afastados os primeiros
tempos de desconfiança, já ninguém duvida da veracidade das histórias do
arco-da-velha que o Jaime, cada vez
mais inspirado, se compraz em inventar para gáudio da
clientela.
E para terminar, bem vistas as
coisas, é caso para dizer que agora é que tudo vai
começar.
