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AS DOÇURAS DE BOOZ (texto integral)
Elimelec fugira de Belém de Judá, quando a fome assolara a região de Efrata, no tempo em que os juízes governavam Israel[21]. Chegando aos campos de Moab, aí se fixou com a mulher Noémi e os seus dois filhos, Quelion e Maalon, não chegando todavia a fazer fortuna nem a criar grandes searas, pois morreu ainda novo, deixando a esposa só, sem a protecção da família nem da lei do levirato e com os filhos que acabou de criar, com alguma dificuldade.
Quelion e Maalon, embora muito jovens, casaram respectivamente com Orfa e Rute, duas moças Moabitas, muito novinhas e de grande formosura. Durante dez anos, a sua vida decorreu pacífica, mas difícil, numa contínua luta pela sobrevivência.
Porém, sem que nada o fizesse prever, Maalon e Quelion morreram de um surto de peste e Noémi ficou só, sem filhos e sem marido, na companhia das noras viúvas, devastadas pelo desgosto e ameaçadas pela miséria e o abandono. Quando já nada havia para comer e sendo forçada a deixar a casa onde vivera durante uma década, Noémi chamou Orfa e Rute, para lhes participar que se ia embora:
– Minhas filhas, aqui não temos meios para nos sustentarmos. A fortuna dos ricos é o seu baluarte, a miséria dos pobres é a sua ruína, como vós bem sabeis. Assim, vou deixar esta terra de Moab e voltar para o meu país, para Efrata, pois ouvi dizer a um santo peregrino que Deus visitou o meu povo e deu-lhe pão em abundância.
As duas moças abraçaram-na, com os olhos cheios de lágrimas:
– Que te fizemos, mãe, para que nos abandones? – perguntava Orfa, procurando abafar os soluços.
– Diz-nos como te ofendemos, senhora, para podermos reparar esse mal – o doce rosto de Rute estava molhado de silencioso pranto. – Como nos havemos de emendar se não sabemos a razão das tuas queixas?
Noémi beijou-as com ternura, procurando enxugar-lhes as lágrimas:
– A minha partida para Belém de Judá não tem nada a ver convosco, nem há nada na vossa conduta a merecer censura. Se fosseis minhas filhas, não me teríeis amado mais nem melhor do que o fizestes e o meu coração chora de tristeza e saudade por vós, ainda antes de vos deixar. Mas, sem maridos e sem a protecção de uma família, três mulheres sozinhas nunca poderão sobreviver neste mundo.
– Temo-nos umas às outras, minha mãe – protestou Rute – podemos trabalhar e...
A sogra abanou a cabeça com tristeza, mas falou com voz firme:
– Não pode ser, Rute! Tendes de voltar para casa de vossos pais, pois só aí encontrareis outros maridos para vos protegerem e vos darem filhos. O meu Deus usará, por certo, de bondade e de misericórdia convosco, como vós usastes para comigo e para com o meu marido e filhos. Que Ele vos conceda a paz nos vossos novos lares, pois mereceis ser felizes.
Beijou-as e elas recomeçaram a soluçar.
– Nós iremos contigo para o teu povo, apesar de não adorarmos os mesmos deuses – disse Rute com determinação. – Nunca te abandonaremos!
– Por que razão havíeis de ficar comigo? Oxalá tivesse criado mais filhos no meu seio, pois vo-los daria também para maridos, com as minhas bênçãos. Mas não os tenho e já sou muito velha para me casar e conceber de novo. – E Noémi, rindo com amargura, prosseguiu: – E ainda se eu concebesse e gerasse filhos, hoje mesmo, iríeis esperar até eles crescerem, sem pensar em casar de novo? Não, minhas filhas, a minha dor é muito maior do que a vossa, pois a mão de Deus pesa sobre mim. Ide para casa de vossos pais.
Ante a firme recusa da sogra, Orfa beijou-a e partiu, porém, Rute insistia em seguir com ela para a sua terra. Noémi recusava, mas cada vez com menos convicção:
– A tua cunhada caiu em si e voltou para o seu povo e os seus deuses. Faz também como ela, Rute, e terás uma vida abastada no seio da tua família, enquanto que na minha companhia só acharás miséria e privações.
– Não me peças para te abandonar, nem me queiras afastar de ti – respondeu-lhe a nora –, pois eu irei para onde tu fores e onde habitares, também eu habitarei. O teu povo é o meu povo e o teu Deus, o meu Deus. Na terra em que morreres e fores sepultada, quero eu morrer e ser sepultada. Que o Todo-Poderoso me trate com rigor, fazendo cair as piores desgraças sobre a minha cabeça, se eu permitir que outra coisa a não ser a morte me separe de ti!
Fizera o seu juramento com tal firmeza e gravidade que as lágrimas correram pelo rosto de Noémi e ela já não insistiu mais, abraçando a moça com ternura e gratidão.
Prepararam duas trouxas com os seus parcos haveres e, aproveitando uma caravana que partia nesse mês, seguiram nela para Belém de Judá. Noémi cantava salmos do seu povo no exílio e Rute acompanhava-a, com a sua voz doce e entoada, pois prometera a si mesma aprender a religião da sogra:
–
Junto dos rios da Babilónia
estávamos sentados e chorando,
lembrando-nos de Sião.
Ali, sobre os salgueiros,
suspendemos as nossas harpas.
Era lá que eles nos pediam
– os nossos carcereiros –, cânticos,
os nossos verdugos, alegria:
“Cantai para nós
cânticos de Sião.”
Como cantar os cânticos do Senhor
Numa terra alheia?
.
Noémi e Rute, a moabita, chegaram por fim à terra da sua peregrinação. Mal entraram na cidade, a notícia do regresso da viúva de Elimelec correu célere e muitas mulheres vieram ao seu encontro, exclamando:
– Noémi voltou! Bendito seja o Senhor!
– Veio viver de novo entre nós.
– Eis Noémi, a mulher de Elimelec!
– Não me chameis Noémi, dai-me antes o nome de Mara – rogou-lhes, chorando, a viúva –, porque Noémi significa doçura e o Todo-Poderoso tornou amarga a minha alma. Parti com as mãos cheias e voltei com elas vazias. Porque me chamais Noémi, se foi Deus quem me amesquinhou e destruiu?
E retirou-se com a nora para a casa abandonada do marido. Nos arredores de Belém começara o tempo das ceifas e os servos das lavouras segavam os campos de cevada e de trigo.
Na manhã seguinte à sua chegada, Rute falou com a sogra:
– Minha mãe, deixa-me me ir respigar nos campos de quem me quiser acolher. Se conseguir apanhar muitas espigas, talvez isso baste para nos sustentar.
– Vai, minha filha, e que tenhas sorte!
Rute deixou a cidade, partindo para o campo e depois de
andar um pouco por lá, à procura de trabalho, chegou a uma grande propriedade
com muitos servos e servas que ceifavam enormes leiras de cevada. A moabita foi
postar-se humildemente atrás dos segadores e começou a apanhar as espigas
caídas por terra que, por lei, os ceifeiros não recolhiam, deixando-as como uma
esmola para as viúvas pobres, os órfãos e outros necessitados.
Booz, o proprietário daquelas terras, era um homem muito rico e poderoso. Acabava de chegar de Belém para ver o andamento da ceifa e entrou no campo, saudando alegremente os segadores:
– Deus seja convosco!
– E te abençoe também, meu senhor! – responderam os servos.
Rute, um pouco assustada, parara de respigar e olhava-o com admiração. Apesar de já não ser muito novo, tinha uma figura imponente, uma bela cabeça aureolada por farta cabeleira cor de cinza e a voz suave mas segura, de quem não precisa de gritar para ser obedecido. Booz viu a moça estrangeira parada entre as espigas, a olhá-lo como se estivesse pasmada e perguntou ao servo encarregue da vigilância dos ceifeiros:
– Quem é essa rapariga? A quem pertence?
– Veio com Noémi, da terra de Moab. Pediu para a deixarmos andar atrás dos segadores a respigar.
Como ele não lhe tinha ralhado nem escorraçado, Rute recomeçara o seu trabalho, embora deitando-lhe de vez em quando um olhar de soslaio. Olhou-a de novo, com mais interesse e ficou encantado com a sua beleza e juventude. Como um rebate da consciência, por estar a desejar tão intensamente uma mulher que não lhe pertencia, vieram-lhe ao pensamento as sentenças antigas, cheias de sabedoria e murmurou-as entre dentes, para não ser compreendido pelo servo:
–
“Bebe a água da tua cisterna
e a que corre de teu poço.
Deverão espalhar-se por fora
as tuas fontes
E perder-se pelas praças
as águas dos teus arroios?
Sejam só para ti
e não tenham parte nelas
os estranhos.
O pior é que ele vivia sozinho e não tinha nenhum desses “poços” e “cisternas” referidos no poema a que pudesse chamar seu, para onde lançar as suas “águas”, se as “fontes” e os “arroios” dos seus desejos ameaçassem transbordar... como agora, quando olhava para a gentil respigadora! Abanou a cabeça, para expulsar os maus pensamentos e sorriu.
– É, então, parente de Noémi? – perguntou ao capataz, pois o homem parecia estar bem informado e ansioso por lhe dizer o que sabia. – Mulher de algum dos seus filhos?
– É a viúva de Maalon, o filho mais novo de Elimelec e Noémi, e todos dizem que ela tem um coração de ouro. Recusou-se a volver a casa da sua família, para não deixar a sogra sozinha, pois a velha não tinha mais ninguém para a socorrer e lhe dar um pedaço de pão. E deve ser verdade, porque tem estado no campo a respigar, desde a manhã até agora, quase sem um momento de descanso.
Tão nova e já viúva? Triste destino para uma mulher assim formosa! O lavrador sentiu o coração encher-se de piedade e ternura. Era parente próximo de Elimelec e, portanto, competia-lhe fazer alguma coisa pelo futuro das duas mulheres, sobretudo da jovem viúva. Foi ter com ela e a moça parou de trabalhar, enleada. Os olhos do homem eram inteligentes e bondosos, mas miravam através dela e perturbavam-na.
– Escuta, minha filha – disse-lhe com doçura –, vai com as minhas servas para os campos onde elas andarem a ceifar, pois dei ordens para te deixarem em paz. Não precisas de te afastar daqui, para ir respigar noutro campo. Comerás da comida das segadoras e, se tiveres sede, podes beber água da bilha que elas trouxerem.
Preso do seu formoso rosto, procurava desvendar o segredo dos olhos grandes e rasgados, cheios de mágoa e de um fogo interior que o enleio não lograva encobrir. Inundada de gratidão pela esmola, Rute lançou-se-lhe aos pés, prostrando-se por terra:
– Senhor, eu sou uma moabita, uma estrangeira. Como é possível ser por ti acolhida com tanta bondade e graça? Grande é a minha dita, por te ter encontrado no meio da adversidade.
Booz ergueu-a do solo, suavemente, sacudindo-lhe a terra das vestes pobres de viúva. Tinha os olhos húmidos de lágrimas e a longa cabeleira, desmanchada pelo esforço, cobria-lhe o dorso como um manto sedoso e brilhante sob o sol quente da tarde. O velho lavrador, tímido e solitário, sentiu desejos de a acariciar e apertar nos seus braços, confortando-a e obrigando-a, com o seu carinho, a esquecer a dor e amargura da vida passada.
Despertou do devaneio, vendo com surpresa como estava próximo dela e a segurava ainda por um braço. Afastou-se com brusquidão, pigarreando para esconder o embaraço:
– Contaram-me tudo o que fizeste pela tua sogra, depois da morte de teu marido. Foi precisa muita coragem para vir viver, sem família e sem amigos, numa terra estranha e com um povo desconhecido. Ajudar-te-ei, no que puder, podes contar comigo.
Rute tomou-lhe uma das mãos entre as suas e levou-a aos lábios, beijando-lha com muita gratidão. Booz não logrou impedir o gesto e, quando os lábios da moça tocaram na sua pele, um arrepio de prazer percorreu-lhe o corpo como um formigueiro.
– Meu senhor, embora não seja digna de pertencer sequer ao número das tuas escravas, peço-te que me olhes sempre com favor e agrado, como hoje me olhaste, pois tu sabes falar ao coração de uma mulher infeliz e consolar a sua dor.
Booz, com medo de denunciar os seus sentimentos, falou de coisas práticas:
– São horas de comer. Vai sentar-se ao lado dos segadores para partilhares da sua refeição, come a tua parte de pão e molha o teu bocado no vinagre.
Enquanto comiam, Booz veio de novo ter com ela e ofereceu-lhe grão torrado que comeu até ficar saciada, guardando o resto para levar a Noémi. Levantou-se em seguida e recomeçou a respigar.
– Se ela quiser respigar, mesmo entre as gavelas, não lhe digais nada! – ordenou Booz aos criados. – Quando fizerdes os feixes das espigas, deixai cair algumas como por descuido, para ela as apanhar.
Rute ficou no campo até tarde a respigar e, depois, foi bater e joeirar as espigas recolhidas. As servas de Booz cantavam, marcando o ritmo ao trabalho:
– “Batei, vamos, batei,
ó minhas irmãs,
batei ainda.
Batei a palha,
tirai a cevada
p’ra fazer o pão
do nosso amo”.
Rute encheu quase um efá de cevada e regressou à cidade. Correu a mostrar os ganhos do dia à sogra e deu-lhe a comer a parte do almoço que guardara para ela.
– Por onde andaste hoje a respigar? – perguntou-lhe Noémi, enquanto comia. – Abençoado seja esse homem por te ter acolhido com tanta generosidade!
Rute contou-lhe onde e como havia trabalhado:
– O dono do campo chama-se Booz e parece ser um homem muito nobre e generoso. Ofereceu ajuda para tudo o que precisarmos.
– Bendito seja ele! – bradou Noémi. – É ainda nosso parente, Rute, um dos que têm direito de resgate sobre nós.
– De verdade? – a moça sorria, feliz. – É bom pertencer à família de um homem tão misericordioso! Ele disse-me para ficar com os seus servos até se acabar toda a ceifa.
Lágrimas de gratidão assomaram aos olhos da velha viúva, quando disse um dos seus amados provérbios:
– “Aquele que é amigo, é-o em todo o tempo, mas torna-se um irmão no tempo da desgraça!”. Isso é muito bom, minha filha, pois nos campos de outros lavradores poderias ser mal recebida, quer pelos patrões, quer pelos servos.
Tendo ganho a aprovação da sogra, Rute continuou a acompanhar as servas de Booz e a respigar nas suas terras, até findarem as ceifas.
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As colheitas tinham terminado e os servos preparavam-se para joeirar a cevada e o trigo nas eiras de Booz e Rute fora convidada para ir trabalhar com eles, no dia seguinte.
Durante as últimas noites um pensamento muito tentador impedira Noémi de conciliar o sono e, por isso, quando a nora despertou junto dela nessa madrugada, falou-lhe do seu plano:
– Minha filha, precisas de arranjar um marido, para poderes viver ainda uma vida tranquila e feliz, com muitos filhos.
– Mas, minha mãe...
A velha atalhou-lhe o protesto:
– Diz o provérbio “O coração alegre cura o corpo, o espírito triste seca os ossos” e a sentença é bem verdadeira! Tens de te casar, enquanto ainda estás moça e bonita, minha Rute. Por isso, vou direita ao assunto: esse Booz é nosso parente chegado, nunca se casou, é rico e dono de muitas terras, portanto, um belo marido para qualquer mulher.
A nora riu-se, com o entusiasmo e interesse de Noémi:
– “Uma mulher intrometida é uma goteira constante” – imitou-a, brincando com a citação dos provérbios tão a seu gosto. – Booz deve ter muitas mulheres interessadas em desposá-lo, pois é ainda um belo homem, apesar de já não ser muito novo, e tem um coração bom e generoso.
– Mesmo havendo outras pretendentes ao seu leito, minha filha, nenhuma delas está sujeita ao resgate de Booz, como tu. Ele está mesmo a calhar para ti, pois, sem dúvida, concordas comigo em que “vale mais um homem paciente do que um herói”. Ora, ainda bem que ele é do teu agrado!
– Eu não disse isso, senhora! – exclamou Rute, fingindo-se escandalizada.
A velha prosseguiu com o seu raciocínio:
– “Cabelos brancos são uma coroa de glória que se encontra no caminho da justiça” e eu espero que ele te faça justiça...
– A que justiça te referes, minha mãe? Não te entendo. Hoje só falas por anexins e misteriosas sentenças...
Interrompeu-a de novo:
– Esquece isso e ouve-me: Booz deve joeirar esta tarde a cevada da sua eira. Fica em casa até mais tarde e lava-te com água perfumada, unge o corpo com este óleo que te comprei, põe os melhores vestidos que tiveres e cuida do rosto, como se hoje fosse o dia dos teus esponsais.
Rute escutava-a, cheia de espanto:
– Por que razão devo fazer isso, senhora? Eu sou uma pobre viúva, não tenho dote e não me vou casar.
Noémi retorquiu-lhe, já impaciente:
– Não discutas e faz como te estou a dizer, pois “a mulher formosa alcançará glória, e o homem diligente alcançará fortuna”, duas coisas que se dão muito bem juntas. Vai ter à eira de Booz, quando ele estiver a cear, mas não te deixes ver até ele ter acabado de comer e de beber. Espera que ele se vá deitar e segue-o, às escondidas, para saberes onde foi dormir. Faz por ninguém te ver quando fores para junto dele e, sem o despertares, levanta a parte da manta que lhe cobre os pés e deita-te aí.
– A seus pés?! – espantou-se a moabita que desconhecia muitos dos costumes do povo do seu marido. – Para quê?
– Ele mesmo te dirá o que deves fazer – respondeu a velha, misteriosa. – Mas tens de conseguir que ele lance o seu manto sobre a tua cabeça.
– Farei tudo como me ensinaste – prometeu a nora. – Mas, diz-me uma coisa, por favor, porque devo meter-me debaixo do manto de Booz?
– Entre o nosso povo, se o homem estender o seu manto sobre uma mulher, está a tomar o compromisso de a receber por esposa.
Rute calou-se e foi preparar o banho, trauteando uma canção. Ficou surpreendida pela súbita alegria, pois desde há muito tempo que vivia mergulhada na tristeza e solidão da viuvez, rodeada de luto por todos os lados. Banhou-se, sorrindo, por estar a fazê-lo em intenção a Booz e a imagem do lavrador, da sua presença poderosa e gentil, ocupou-lhe os pensamentos, enquanto se lavava na água perfumada.
Há muito que não sentia uma sensação tão doce a percorre-lhe o corpo e deixou-se embalar por ela, em vez de a expulsar como coisa danosa do seu espírito, enquanto se enxugava e cuidava com todo o esmero da sua apresentação. Quando terminou, Noémi mirou-a demoradamente e sorriu de aprovação:
– Estás muito formosa, minha filha. Vai com a minha bênção e não te esqueças de que “as sortes lançam-se no regaço, mas é o Senhor quem decide”.
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Rute chegou à eira do parente de Noémi e seguiu à risca as instruções da sogra. Não se mostrou a Booz e ficou escondida a vê-lo andar por entre os seus homens, dando ordens e distribuindo tarefas. Ficou contente ao observar que ele a procurava por entre os grupos de mulheres, perguntando muitas vezes por ela às ceifeiras e, quando finalmente desistira de a encontrar e se sentara para cear, parecia triste e desanimado.
Quando ia já a meio da refeição, Rute foi juntar-se a um grupo de segadoras que, não muito longe da mesa onde o amo comia, procuravam animá-lo com cantigas alegres e pôs-se a cantar com elas. Ao vê-la, o rosto de Booz iluminou-se de felicidade, pois nunca lhe parecera tão bonita no tempo em que respigava atrás dos segadores, como uma pobre e modesta viúva. Nessa noite, com aqueles trajos, assemelhava-se a uma noiva na festa do seu casamento e os homens pararam por momentos o seu trabalho de joeirar a cevada, suspensos da sua voz e da sua graça.
O vinho, as canções e a presença de Rute alegraram o coração do amo que cantou e bebeu também com eles, porém a admiração que lia nos rostos dos moços solteiros pela formosa viúva, a disputa ingénua por um olhar ou uma palavra sua, trouxe de novo sombras de melancolia e solidão à sua alma.
Ergueu-se bruscamente, dizendo que lhe estava a dar o sono e retirou-se para dormir. Foi deitar-se junto de um monte de feixes de palha, longe da festa e do ruído, porém, o pensamento cheio de imagens perturbadoras de Rute, da doçura dos seus lábios quando lhe beijara a mão, fazia-lhe o coração bater desordenado até o sufocar e teve dificuldade em adormecer.
Rute esperou algum tempo e esgueirou-se em seguida para fora da roda dos segadores, saindo da luz para a escuridão de uma noite sem lua. Aproximou-se de mansinho do lugar onde ele dormia, ouvindo-lhe a respiração tranquila e, afastando a manta que lhe cobria os pés, deitou-se ali mesmo, enrolada sobre o flanco, o dorso curvo como um crescente, as pernas dobradas pelos joelhos. Soltou os panos da túnica e, suavemente, para não o despertar, meteu os pés de Booz entre as suas coxas, aninhou-se contra ele como uma gata sonolenta e logo adormeceu.
A meio da noite o homem acordou espavorido de um pesadelo de correntes e cativeiro, porém o susto mudou-se em perturbação quando se apercebeu de um vulto de mulher enrodilhado nas suas pernas e sentiu os seus pés entre as coxas quentes e macias que o aprisionavam num casulo de desejo.
– Quem és tu? – perguntou à desconhecida, ainda ensonado mas sentindo o corpo já inquieto, adivinhando a sua presença.
O vulto moveu-se de forma a ficar quase prostrado, dobrado sobre si mesmo, os braços desnudos envolvendo-lhe as pernas, como se o abraçasse, os pés dele contra o seu ventre.
– Sou Rute, a tua serva. Estende o teu manto sobre mim, meu senhor, porque tens o direito de resgate e eu pertenço-te.
Sentiu, mais do que viu, que ela se despia e ergueu-se para a cobrir de novo, com medo de que alguém a visse, mas naquela escuridão não achou a sua roupa. Então, levantou um pano das suas vestes e cobriu-a, apertando-a contra o corpo nu. Encostando a cabeça no seu peito, Rute murmurou baixinho:
– Vem conhecer a minha nudez, meu senhor.
Era esguia e esbelta como uma espiga de cevada e Booz sentindo-a mover-se por baixo da sua túnica, a pele sedosa e os seios redondos e firmes contra o seu estômago, as longas pernas entre as suas, procurava resistir à tentação de a arrastar para os feixes de palha, enrodilhar-se com ela dentro da sua afortunada veste como numa minúscula tenda e matar o desejo da carne no seu corpo.
Já não tinha idade para perder a cabeça com aquelas coisas, mas as mãos dela a acariciarem-lhe as costas e os rins, os lábios a roçarem-lhe o peito com a doçura do mel, o ventre macio e quente como uma seara madura, enfraqueciam-lhe a vontade e ele disse numa voz embargada de emoção, como se falasse só para si, desculpando-se por não conseguir resistir àquela tentação:
– Porventura pode um homem esconder fogo no seu seio, sem que as suas vestes se inflamem?
Sem a afastar, arrancou a veste e ficaram nus, ele de pé, tenso e forte, com Rute enroscada no seu corpo como a trepadeira no tronco da árvore que a suporta. Puxou-a contra si, sustendo-a com as suas mãos enormes e ternas, feitas para amar a terra e os seus frutos e penetrou-a longamente, como se estivesse ainda perdido num sonho assustador.
Quando a soltou, afagou-a com gestos meigos e envergonhados, de novo arrependido da sua frouxidão. Vestiram-se em silêncio e, por fim, Booz falou-lhe com uma ternura eivada de tristeza:
– Deus te abençoe, minha filha, pelo tesouro que me deste. Esta tua última bondade vale mais do que toda a riqueza do mundo e será vista com bons olhos no céu, porque não buscaste jovens pobres ou ricos, mas vieste dar consolo a um velho solitário. Aos olhos do Senhor e no meu coração tomei-te por esposa, esta noite, porque toda a gente da minha cidade sabe que és uma mulher virtuosa. – Fez uma pausa e acrescentou com custo: – Porém, as leis dos homens nem sempre estão de acordo com as de Deus e com as do coração.
– Que queres dizer, meu senhor? – perguntou Rute, assustada. Num impulso, abraçou-o, escondendo a cabeça no seu peito. – Não posso ficar contigo? Por eu ser estrangeira, nesta terra, não poderás receber-me por esposa entre o teu povo?
Booz ergueu-lhe o rosto e beijou-a nos lábios, jurando todavia que aquela seria a última vez, enquanto não fosse livre de o fazer aos olhos do mundo.
– Não temas, minha filha. Tudo o que quiseres, eu te farei. Nunca negarei que sou teu parente e desejo exercer o meu direito de resgate sobre ti, mas há outro homem na nossa família que é parente mais próximo de Elimelec do que eu.
As lágrimas irromperam dos olhos de Rute e a sua voz era angustiada, embora tentasse dominar o pranto:
– Outro parente? Mas eu não quero ser mulher de outro homem, porque o meu coração escolheu Booz para esposo e ele abeirou-se de mim e conheceu a minha nudez!
Como eram doces as suas palavras! A alma do velho lavrador fundia-se de paixão e mágoa, mas nada podia fazer, antes do julgamento público do seu caso por um Conselho de Anciãos:
– Descansa aqui esta noite. Amanhã, na porta da cidade, convocarei o nosso parente e, se ele quiser usar do seu direito de resgate sobre ti, terá de o reclamar diante de testemunhas, de contrário eu o farei, juro pelo Senhor! Trata agora de dormir um par de horas, pois a manhã já não tarda.
Rute ficou deitada aos seus pés até de madrugada, por Booz não querer ter de novo junto de si a tentação do seu corpo, mas, apesar dessa renúncia, não conseguiu dormir o resto da noite. Por isso, mal o dia clareou, despertou-a:
– Tens de partir já, para ninguém se aperceber de que estiveste comigo. Estende o teu manto e segura-o.
Booz encheu-lhe o manto com seis medidas de cevada, fazendo uma trouxa que lhe pôs às costas e despediu-se dela sem um beijo ou qualquer outra carícia. Assim carregada, Rute entrou na cidade e seguiu para casa da sogra.
– Como vais, minha filha? – perguntou Noémi, olhando-a perscrutadora e ansiosa. – Não volveste ontem da casa de Booz. Passaste, então, a noite com ele?
Rute contou-lhe uma parte dos acontecimentos do dia anterior, deixando de lado os momentos mais íntimos, referindo também o outro candidato ao património de Elimelec.
– Outro libertador, na nossa família? – admirou-se a velha, para logo acrescentar: – Ele tem razão, Maarai, o primo mais moço, é o primeiro goel para o teu resgate.
– Goel? Libertador? – insistia Rute sem compreender.
– Sim, libertador da tua viuvez e da miséria de uma vida sem marido.
– Mas Booz mostrou interesse em me tomar por esposa e vai submeter o seu direito a julgamento, esta manhã, à porta da cidade. Deve estar a fazê-lo neste momento, quem me dera poder assistir!
Noémi pressentiu a angústia na voz da nora e tentou consolá-la:
– Não desesperes, minha filha, até sabermos como vai terminar tudo isto. “Vale mais o vizinho que está perto, do que o irmão que está longe” e Booz não há-de descansar enquanto não tiver cumprido o que te prometeu.
Rute entregou-lhe a oferta do lavrador:
– Ele deu-me estas seis medidas de cevada, dizendo-me: “Não voltarás com as mãos vazias para a tua sogra”.
– Que o Senhor o cubra de bênçãos e satisfaça os desejos mais caros ao seu coração.
A moabita orou em silêncio para que os rogos da sogra fossem aceites no céu.
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Booz deixou o campo, pouco tempo depois de Rute, para se dirigir à porta da cidade; aí, sentou-se num lugar bem visível e esperou até ver passar o parente que mencionara nessa madrugada à jovem viúva.
– Vem cá um momento, Maarai – chamou-o, alteando a voz – e senta-te aqui comigo, pois precisamos de falar.
O homem foi ter com ele, saudou-o respeitosamente e sentou-se a seu lado. Booz mirou-o com atenção e os seus olhos escureceram de angústia e medo, pois o parente era ainda bastante novo e de boa presença, gozando já, entre os lavradores, da reputação de ambicioso e empreendedor. Sentiu-se envergonhado por experimentar a mordedura insidiosa da inveja no seu coração e murmurou mentalmente uma breve oração ao Altíssimo, pedindo-lhe perdão e socorro naquele trato.
Havia já muita gente na praça da porta da cidade, quando Booz se ergueu do lugar, dizendo a Maarai para esperar um pouco e, dando uma volta rápida por entre os vários grupos de homens que tratavam ali dos assuntos mais variados, escolheu dez anciãos dos mais nobres e respeitados da cidade.
– Sentai-vos aqui connosco, rogo-vos – pediu, conduzindo os velhos para junto do seu parente. – Temos um caso delicado a decidir segundo a lei do levirato e, para isso, necessitamos de um Conselho de Anciãos e de testemunhas.
Mal se sentaram e o burburinho de curiosidade acalmaram, Booz falou a Maarai nestes termos:
– Noémi, viúva de Elimelec, tendo regressado da terra de Moab, fez saber que deseja vender a parte do campo que pertencia ao seu marido e nosso parente, pois os seus dois filhos morreram também sem deixarem herdeiros. Quis informar-te disto por seres o seu parente mais próximo.
– Não sabia do seu regresso, nem que vivia em dificuldades, pois tenho estado fora da cidade, ocupado com os meus assuntos e só hoje regressei a Belém – disse Maarai, como a desculpar-se, para perguntar de seguida, franzindo o sobrolho com perplexidade: – Que desejas de mim?
– Quero propor-te, diante dos anciãos do nosso povo aqui presentes, que compres o campo à viúva Noémi, caso queiras usar do teu direito de parentesco. Todavia, se não estiveres interessado, terás de o dizer agora e aqui, perante estas testemunhas, para eu saber o que devo fazer, visto que tu vens em primeiro lugar, mas depois de ti, cabe-me a mim tal direito.
Um sussurro de aprovação percorreu a fila dos anciãos, agradados pela fala clara e concisa de Booz, que se calou, aguardando ansioso a decisão do primo. Jogava-se naquele instante a felicidade dos últimos anos da sua vida que desejava longos, se lhe fosse dado passá-los ao lado de Rute, a formosa viúva que, na noite anterior lhe fizera provar as doçuras do paraíso, no mel dos seus lábios e no trigal macio do seu ventre.
– Eu usarei do meu direito – respondeu Maarai, contente com o negócio, pois a terra era fértil e pegava-se a outros campos da família.
Booz sentiu-se desfalecer e cerrou os olhos, maeado. Via os seus sonhos caírem por terra, destruídos num instante por aquela frase medonha que só a ele feria. Ou talvez também a Rute, pois não lhe jurara ela, com o rosto banhado de pranto, que só a ele desejava por esposo, apesar da sua idade e de haver outro pretendente mais jovem ao resgate? Apercebeu-se de que a assistência esperava por uma resposta à decisão de Maarai, por isso, fez um esforço tremendo para dominar a angústia e a sua voz saiu clara e firme quando replicou ao primo:
– Comprando esta terra a Noémi, terás de receber por esposa a sua nora Rute, a moabita viúva de Maalon, a fim de que o nome do defunto seja conservado em sua herança.
Maarai fez uma careta de despeito, reflectiu um pouco e abanou por três vezes a cabeça:
– Nesse caso, lamento, mas não a posso resgatar, por minha própria conta, porque isso viria prejudicar o meu património e dos meus filhos.
Era o milagre! O Senhor, condoído do sofrimento de Booz, perdoava-lhe a tentação e o pecado da véspera e concedia-lhe o fruto proibido, as doçuras de um maná para a sua velhice! O coração explodia-lhe de júbilo e cantava em silêncio aleluias ao Altíssimo!
– Assim, Booz – prosseguia o primo, inclinando-se e começando a desatar os atilhos da sandália –, és livre de usar do teu privilégio, pois eu não posso, nem o quero fazer e estou disposto a sofrer o castigo da minha falta.
Nos casos de resgates ou subrogação, a tradição ordenava que, ao concluir um trato de património ou de levirato, o homem tirasse a sua sandália e a desse ao parente para validar a transacção.
– Compra para ti o campo de Noémi e de Maalon, pois eu prescindo do meu direito – concluiu Maarai, descalçando a sandália e entregando-a ao primo.
Booz, tomou-a nas suas mãos e mostrou-a aos anciãos e a todo o povo presente, dizendo bem alto e solenemente, para que todos o ouvissem:
– Sois hoje testemunhas de que comprei a Noémi, todos os bens e terras de Elimelec, seu esposo, e de Maalon e Quelion, seus filhos. Juntamente com as terras de Noémi, adquiro, por mulher, a moabita Rute, viúva de Maalon, para conservar o nome do defunto em sua herança, para ele não ser riscado da porta da cidade. Vós, repito, sois hoje minhas testemunhas.
Todo o povo ali presente respondeu em coro:
– Somos testemunhas de Booz, o lavrador!
O lavrador sabia que, se Rute lhe desse uma progenitura, seria não sob o seu nome mas sob o nome de Maalon, mas isso era um preço que estava disposto a pagar pela moabita e, afinal, que valeria mais para um filho, um nome ou o sangue das suas veias? E esse filho, se o houvesse, seria carne da sua carne e sangue do seu sangue, fruto da união dos dois esposos.
Sorriu de contentamento, quando ouviu o mais velho dos anciãos tomar a palavra para o abençoar:
– Que o Senhor torne essa mulher que recebes por esposa, na tua casa, semelhante a Raquel e a Lia que fundaram a casa de Israel.
Outro ancião acrescentou:
– Que Rute possa ser feliz em Efrata e alcance um nome célebre em Belém! Seja a sua casa como a casa de Farés, filho de Thamar e de Judá, pela posteridade que o Senhor te der por meio desta jovem.
E, assim, Booz pôde tomar Rute por mulher.
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Na noite do seu casamento, as servas preparam o quarto dos esposos, fazendo a cama com lençóis perfumados de aloés e uma colcha bordada. Serviram licor de mandrágora, os frutos do amor, e mel ainda no seu favo e, baixando as luzes das candeias retiraram-se, com frouxos de riso e ditos maliciosos.
Quando Booz se aproximou da esposa e a tomou nos braços para a depositar no leito e contemplar de novo a sua nudez, sentiu a macieza dos lençóis e o odor do aloés, destinados a inebriar os sentidos. Porém ao inclinar-se sobre o corpo da mulher para a beijar, assaltou-o uma saudade pungente da noite em que, dormindo entre os feixes de palha, no campo, a tinha conhecido pela primeira vez, os dois corpos unidos no casulo das suas vestes, rolando sobre um lençol de forragem, onde o cheiro que os envolvera fora outro, um odor de Outono quente e fecundo, de seara madura recém-cortada que revigorava e preparava os corpos para um novo ciclo de vida.
A moabita pareceu ler nos olhos que a contemplavam o sonho e a fantasia onde ele ameaçava perder-se e, num gesto atrevido, arrancou a túnica e enfiou-se por baixo da veste do marido, enroscando-se no seu corpo, tal como fizera naquela noite, com risos sufocados e beijos suaves e lentos que arrepiavam a pele e os músculos do homem. E Booz, perdido de amor, rolou com ela sobre a cama, tal como fizera sobre a palha, naquela noite, murmurando “Rute, minha doçura! Doçura de Booz!” e, por fim, erguendo-se com a mulher suspensa nele como um fruto da sua árvore, despojou-se da veste e, nus e inocentes como Adão e Eva no Paraíso, fundiram os seus corpos e mitigaram demoradamente a fome de amor que o longo jejum tornara insaciável. E, nessa noite Booz adormeceu feliz com os seus pés agasalhados no trigal macio das coxas de Rute.