FERNANDO CRUZ GOMES

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O outro mundo |
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V ez por outra, ainda me considero um homem mau. Mesmo em cidade para onde me atiraram, paredes meias com aqueles que a si próprios se consideram justos, generosos e altruistas. Onde dizem não haver racismo, em sociedade que, hipòcritamente, ainda há quem chame de multicultural, só porque, há muitos, muitos anos atrás, precisaram de muito mais gente, que tiveram de chamar de outras terras, onde as cores, os hábitos e os costumes eram diversos, e bem diferentes. - O quê? O Zé quer vir para o Canadá?! E quer que sejamos nós, canadianos... que o ajudemos?! Que lhe compremos passagens marítimas ou aéreas e o suportemos nos primeiros tempos? Que deixemos que ele continui a falar Português e Ucraniano, Italiano e Punjabi? Óptimo! Vamos a isso. Nós pagamos tudo isso... e até, se for caso disso, fazemos com que ele preserve essas suas raizes folclóricas... Sim, porque o Zé, a nós, não nos interessa. O que nos vai interessar é o "Joe", que há-de nascer do Zé... e o "Joe" já não vai querer falar a Língua dos seus pais, ou até copiar-lhes os usos e os costumes... disso nos encarregaremos depois. Multiculturalismo, não é? Também o senti na pele e mesmo que nos primeiros tempos, enquanto não pensava muito no porquê das coisas, acreditasse na pureza das intenções de tudo isso... ia-se-me abrindo a mente, à lembrança da terra que, lá longe, se perdera, à lembrança do Domingos de que perdi o rasto... à lembrança do que também a mim me acontecera, quando do arranque da "fábrica" que de um Português faz um luso-canadiano... de um italiano, um italo-canadiano, etc., etc. A "fábrica" vai abrindo a mente às pessoas, sobretudo àquelas que pensam... e há muitas que pensam e se interrogam por sobre o porquê das coisas. Um dia... é um velho Jornalista que me pede para ir com ele a um Departamento onde teria de se inscrever, para eventual curso de Inglês. Primeiro, a passagem por outro onde deveria inscrever-se como Jornalista. Lá, face a toda a documentação que apresentava... a sua profissão de "Jornalista", transformou-se, por obra e graça da "fábrica" e da sua engrenagem... em "editorial writer assistant". Assim a modos que principiante... ele que tinha quase duas décadas de profissão e bem provadas. Era a "máquina", a não deixar que nada fosse para além do que... devia! E até com uma certa "explicação": é que sem Inglês perfeito... como é que poderia ser Jornalista?! Assistente de Jornalista... ainda vá que não vá! Era bem capaz de fazer com que a engrenagem funcionasse, em pequeníssimos Jornais, Rádios e Programas de TV... que iam pululando por toda a parte, sem que nenhum subisse o suficiente para ser mesmo um Jornal, um Rádio e um programa de TV! Fiquei, por isso, desde logo, com a noção de que tinha de ser um homem mau! Não muito, como é evidente, já que a Justiça - às vezes com dois pesos e duas medidas... - não perdoa muito a quem, não falando convenientemente a Língua dominante, se adregue a embrenhar-se por meandros que não são bem os seus. - Sou um homem mau! Evidente se torna que, para se ser um homem mau, há que se entender toda a "mecânica" das coisas e jogar um determinado "jogo" semi-democrático... que é deixado passar. De outra forma, e como homem mau... a sociedade não deixa que se avance muito e actua, desde logo, contra o recalcitrante. Actua, às vezes, com relativo peso. Como não poderia deixar de ser, para que tudo se mantenha a parecer bom, e justo, e lógico. De resto, chegam ao meu conhecimento casos e mais casos que chegam a dar a entender que pouco caso se faz daqueles que pretendem "mudar o mundo", que pode até chegar ao extremo de dizer, pura e simplesmente, para se ir embora... - Ah, não gosta? Mas isso é natural. Toda a gente aceita que você não goste deste país. E tanto aceitamos... que até achamos que você, então, até pode ir embora. Ninguém o cá chamou. Essa agora...! - Pois... ninguém nos cá chamou. - Se não concordar comigo... pois feche o livro e rasgue-o até. É um conceito que acaba por ter a ver com o conselho de que "se não gosta... vá embora".... De resto... ainda me convenço de que é possível mudar muitas coisas. A questão será dar tempo ao tempo... e deixar que os mais novos tomem conta das rédeas do poder. É que já se levantam vozes a clamar por alterações que, quando se verificarem, podem fazer com que a sociedade aceite alterações que, mesmo sendo dolorosas em princípio, acabarão por solucionar muitas das questões que hoje se põem em todas as actividades de um país como este onde vou deixando os ossos. De resto, nem era difícil que a "máquina" fosse mais humanizada. Com benefícios de toda a ordem, mesmo para os seus mentores e para aqueles que a tentam "olear" diàriamente. Um país como o que se instalou ao norte da América, grande em tamanho e em recursos, teria forçosamente de beneficiar de uma verdadeira comunidade multicultural. Bastaria, para isso, copiar da História dos países que por cá se foram instalando passos e mais passos. Bastaria que deixasse que todos desenvolvessem a sua própria força laboral anímica, as suas apetências e os seus usos e costumes. Ao país ficava exactamente a função de fábrica. Em cadinho rico... haveriam de sair novas ciências, novas tecnologias, novos usos e costumes. Não seria uma pequena Inglaterra ou uma pequena França (muito menos)... mas sim um pequeno mundo que a sociedade multicultural permitia e facilitava. Só que para que isso acontecesse, necessário se tornava que houvesse um querer forte. Que fizesse olhar o Português ou o Italiano ou o Indiano... como um parceiro igual - porque constitutivo do mesmo país. E isso é que era capaz de ser bem difícil. Porque olhar o umbigo como se do centro do mundo se tratasse... dá mais "força" ao ego de cada qual. Sobretudo em país grande, como é o caso. Os jovens... estão à espera. E mesmo que das "fornadas" das escolas eles já venham com o cifrão do dinheiro nos olhos... há muitos que olham o "seu" mundo muito diferente. E ao olhá-lo por um prisma necessàriamente novo... acabarão por esbracejar o suficiente para que haja a tal mudança que é capaz de ser necessária. Ou pelo menos que haja uma verdadeira pureza de intenções quando se fala em sociedade multicultural. Que tem de ter em conta toda a força de vários povos que se entrechocam por cá. Se isso não acontecer... eu e muitos outros continuaremos a ser "homens maus", porque por aqui ser "contestatário" significa, muitas vezes, ser mau. Não alinhar pela mesma bitola daqueles que parecem ser a maioria - e muitas vezes não são - causa "amargos de boca" sem fim e com consequências às vezes incontroláveis. Sou... um homem mau!
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