GENTE FELIZ COM LÁGRIMAS
Por Manuel Carvalho
Noite de quinta-feira, 24 de Agosto. Parc du Portugal, Montreal.
Estavam reunidas todas as condições para nos fazer (in)felizes. Uma noite cálida sem pinga de vento. A fortaleza protectora da árvores rumorejantes. O murmúrio do fio de água a escorrer do fontanário. A esbelteza do cruzeiro altaneiro. O garbo do coreto esbatido contra o céu sereno e profundo. No ecrã, desfilava, sem pressas, o filme “Gente Feliz com Lágrimas” do realizador Zeca Medeiros. No ecrã, desfilava a história recente de Portugal. No ecrã, desfilava a nossa vida.
Arrancadas do fundo da carne, perpassavam-nos diante do olhos, como sombras fugidias mas tão presentes e evocativas, rios ora tumultuosos, ora remansosos, de emoções tantas vezes adormecidas e recalcadas no labutar da sobrevivência em terras estranhas.
Lá vinham à desfilada, por vezes em cavalgada louca, as desgraças da ditadura salazarista, a violência inútil e destruidora da guerra colonial, os dramas da emigração, uma Lisboa amordaçada mas imcomparavelmente bela , as imagens telúricas dos Açores e das suas gentes que pareciam condenadas a um eterno degredo a que só podiam escapar na fuga para o almejado paraíso das américas. Mais à frente, a alvorada do 25 de Abril, o drama da descolonização, as marcas profundas dos tempos da mudança, o crepitar das emoções recalcadas que sobem, num sufoco, à tona do quotidiano.
No final, com certo amargo de boca, fica a certeza de que seremos, até ao fim dos nossos dias, companheiros inseparáveis de viagem dum passado castrante que se nos incrustou na pele como tatuagem indelével.
Quando a magia da noite se quebrou, no retorno à realidade, apercebia-se, adivinhava-se, ao meu redor, cachos de rostos felizes com lágrimas.
Montreal, a feira da St-Laurent, continuavam em ebulição, a fogueira da vida num crepitar esplendoroso.
* Passagem do livro “Gente Feliz Com Lágrimas” de João de Melo que inspira o filme apresentado:
Vezes sem conta, diz George, lá em Toronto - nas
malditas manhãs geladas de Toronto - dei comigo a chorar como uma criança. Eu e
os meus homens tínhamos vestido vários pares de calças, ceroulas de flanela,
peúgas sobre peúgas, luvas de pele de boi e samarras forradas a lã de carneiro.
Alguns de nós tínhamo-nos armado até de capacetes herméticos que caíam sobre os
ombros, como os dos cosmonautas. de Houston, para nos defendermos daquele vento
polar que em Toronto tem o peso do urso e que geme de guincho, como as cadelas
no cio. Lá no alto das estruturas daquelas casas em construção, ou de cima de
prédios que rompiam as nuvens, a pistola automática dos pregos cobria-se de
flocos de neve e deixava de disparar.Os dedos, escorrilhados de frio, não
seguravam num martelo, o broquim dos parafusos, as plainas, um miserável
barrote de madeira. Só então eu soube como o frio queima. Há um fogo esquisito,
feito de aço e de bunsen, dentro dessa punção fria que perfura os ossos e
parece transformá-los em esquírolas. Não há dor comparável, nem pior
sofrimento, e por isso perdíamos a vergonha de chorar.
Via-se Toronto lá muito ao
longe, agachada na planície, e lembro-ne de pensar que a cidade rilhava o dente
e tiritava, tanto quanto nós, sob o céu iluminado por esses cristais de
gelo. Os ossos estavam sendo
crucificados e nós chorávamos de raiva, duma orgulhosa raiva emigrante. As
malditas lágrimas do nossos orgulho coalhavam nos fios da barba, em redor dos
cílios e dos pêlos do nariz. As sobrancelhas, brancas de neve, convertiam-nos
numa nova espécie de velhos, com algas brancas que nos pendiam das suiças e das
orelhas. De boca torcida sobre um sorriso de morte, éramos apenas emigrantes
vindos dos brandos climas para construir casas nos arredores de Toronto. Mas
casas para gente muito superior a nós, que as exigia prontas e sem defeitos,
erguidas à beira dos lagos.
(Publicado no semanário A Voz de Portugal - Agosto de 2005)