MANUEL CARVALHO

HISTÓRIAS DA TRANSMIGRAÇÃO

 

A FRAUDE

- Pai, tente compreender, por favor!

Estavam a almoçar. O Manuel Transmontano, a mulher, a filha. Num domingo de Maio.

O Manuel Transmontano encarou de raspão os olhos garços e límpidos da filha. Baixou a cabeça para o prato, as batatas entrancadas na garganta. As palavras saíram-lhe enferrujadas.

- Tu é que sabes da tua vida. Mas se saíres daquela porta para fora, para te ires juntar com esse estrangeiro, nunca mais tornas a entrar nesta casa.

- Eu e o Maurice gostamos um do outro. Tente compreender, por favor. Por favor!

Minutos de silêncio O sol a jorrar da janela.

- Vou dar uma volta.

- Onde vais, Manel? - alarmou-se a mulher, chorosa.

- Descansa que não me vou enforcar.

Na rua sentiu-se perdido.

Os quinze anos de Canadá repartira-os entre o trabalho e a casa, para além de uma ou outra saltada à loja do Açoriano para beber um copo e dar dois dedos de conversa. Com duas viagens a Portugal de permeio, para matar saudades, para preparar o amanhã.

Foi dar ao jardim. Um jardim a cobrir-se vertiginosamente de sol e verde. Sentou-se num banco. Um esquilo desceu duma árvore e aproximou-se em avanços e recuos inquietos.

As perguntas, acusações, da aldeia em peso não lhe davam tréguas:

" E a tua filha? O quê?! Deixaste-a naquela terra? Com um estrangeiro? Nem sequer casada? Que raio de homem és tu? Não te sais ao teu pai, não. Com esse ela vinha de rasto, nem que fosse morta. Andaste tantos anos por lá para quê? Todas as terras que compraste vão ser para os lobos. Mais valia teres ficado por lá, desgraçado."

- Hei-de morrer nestas terras, enterrado num buraco de gelo?

O esquilo amaranhou árvore acima, amedrontado com o grito do homem. Lá no alto, ficou imóvel, a espiar.

Como o homem não desse mais sinais de vida, tornou a descer e continuou a cabriolar sobre a relva tenra.

A SUECADA

O Manuel Transmontano olhou as nuvens pardas acasteladas sobre as montanhas e levantou a gola do casaco contra o vento de agulhas geladas em riste.

" Mais quinze dias e temos a snow em riba de nós."

Desde que a filha abalara de casa, os domingos eram-lhe insuportáveis, longos, longos de morrer. Tinha de sair para a rua, quando não era capaz de rebentar. Calcorreava ruas e vielas até já não sentir as pernas, até já não pensar e só então, esfalfado, vazio, regressava a casa, pronto para mais uma semana de trabalho.

Desta vez, o passeio sem norte, encaminhara-o para ali, para o parque já semi-deserto, onde um bando de rapazes, aos pontapés a uma bola,porfiavam em segurar o verão. Um pouco mais à frente, na abrigada dum barracão, três fulanos, portugueses pela pinta, batiam cartas sobre uma mesa de piquenique.

- Boas tardes - saudou-os.

- Boas tardes.- E continuaram a batê-las, mudos, sobre a mesa.

Passados uns bons cinco minutos, o mais novo, de cara esfarruscadaa por um par de patilhas selvagens, lançou-lhe por cima do ombro:

- O amigo quer fazer uma perna numa suecada? Estamos para aqui a jogar a bisca de nove mas isto não aquece nem arrefece.

Colhido de surpresa, até corou. Há quanto tempo não pegava numas cartas! Para mais de quinze anos, desde que abalara de Portugal. E se era bom jogador! Lá na taberna do Casimiro, ele e o Ramos vergavam os mais pintados. Tinham cá um jogo de sinais mais ensaiado do que a banda da música. Aquilo era só malhar neles.

- Baralhe o amigo.

Aceitou o baralho e os dedos enferrujados até tremiam, um braseiro a subir-lhe à cara.

- Podem partir.

A princípio a medo, depois mais afoito, o ritmo a emergir, a mão começou a bater as cartas sobre a mesa, com a gana de vinte anos atrás. E carai, lá para a quarta ou quinta partida até lhe apeteceu voltar a cabeça e gritar para o Casimiro:

-Deita ai um tinto do pipo novo.

O NETO

O Manuel Trasmontano regressou a casa com um sorriso atravessado nos olhos. E não era para menos, dez partidas ali esfoladas com toda a categoria, para mais com um parceiro fracalhote, coitado, que sabia tanto de sueca como ele de pesca. Ah, duma partida assim, nem em Portugal se recordava. Dez partidas, com um capote pelo meio para compor a festa, não era todos os dias.

Franqueou a porta a assobiar uma cantilena arrancada à memória mas, quando viu a criança nos braços da mulher, até as tripas Ihe deram uma volta.

- Que raio é isso?!

- É o teu neto, Manuel.- E, num assomo de coragem:- Já fez seis meses e ainda não conhecia o avô, coitadinho.

Quase que ia estorcegando o pescoço para olhar para o outro lado.

- Esse jantar ainda náo está na mesa?

Mas a mulher já lhe farejara a fraqueza, conhecia-o como às palmas das próprias mãos.

- O menino é a tua cara sem tirar nem pôr. Chama-se Pierre, coitadinho. Olha o avó, Pierre.

- Trata do jantar, carai.- E abalou para a sala, para abafar o palrar que Ihe escaldava os miolos.

- «Áh, malditas tripas que nem o deixavam sossegar no sofá. Ainda eram capazes de lhe dar um nó que o levava o catano.»

- Vem jantar, Manel.

Amarrou a cabeça ao prato e sabia lá ele o que estava a comer, garfada atrás de garfada, os copos de tinto a empurrarem tudo para as tripas para ver se o nó se desfazia. Esfregou a boca à borda da toalha e atirou «um vou dar uma volta para desbastar a comida», ele que nunca saía depois do jantar, bicho caseiro, um bocado de televisão e toca a deitar. Mas o rabo do olho traíu-o: «carai, é mesmo a minha cara».

Já estava com um pé na rua quando as tripas se desataram:

- Se quiseres, diz à tua filha que venha cá almoçar no domingo.

-E...e...ele?

- Já alguma vez viste convidar a mulher sem o homem? Parece parva!

E o rabo do olho tornou a traí-lo:

CAMPEONATO

Adversários daqueles, assim fracalhotes, sem chama, começavam a tirar-lhe o gosto pelas suecadas. Uma suecada a valer, queria-se renhida, transpirada, disputada palmo a palmo, o coração a bater como um cavalo, o sangue a saltar nas veias, a latejar nas têmporas.

Ultimamente, a meio duma partida, já chegara a dar conta de si completamente alheado do jogo, distraido com a vida da montanha, com os pares que passavam, com as correrias das crianças, com a batucada cada vez mais endiabrada lá para ao pé da estátua.

- É Manel, hoje tás com a cabeça nas nuvens - queixava-se o parceiro. - Andas com algum problema?

- Qual problema, qual carapuça! Não sei do que tás à espera para jogar essa bisca.

A vida corria-lhe num mar de rosas, assim sempre fosse, trabalho continuava a tê-lo, graças a Deus, carpinteiros com umas mãos de oiro como as suas não se encontravam aos pontapés, o neto, palrador, sempre atrás dele, cada vez mais a sua cara chapada, enchia-lhe a casa de alegria e até mesmo o Michel, agora que o começava a conhecer melhor, estava a sair-lhe um gajo porreiraço, sempre com boa cara, já começava a acreditar que a filha tivera carradas de sorte em tê-lo encontrado, com cada estafermo de homem que por aí havia. Se Deus lhe desse saúde e sorte, pró ano estava a contar levar a família toda a Portugal, por altura da festa do Nazo, aí é que o Michel iria saber o que era o regalo duma boa posta mirandesa assada na brasa, que o dianho tinha boa boca, nada biqueiro, nem parecia quebecois, regalava-se todo com sardinhadas e boas febras bem à portuguesa.

Mas, por aquele andar, as suecadas ali na montanha tinham os dias contados, não havia nada que as salvasse, para mais agora que um grupo de velhotes polacos lhes andava a cobiçar a mesa, a rondar, sornas e solertes, com aqueles narizes vermelhudos das garrafadas de vodka.

- Qualquer dia ficamos sem a mesa - rosnava o Abílio, com aquele par de patilhas cada vez mais selvagens, meio grisalhotas, a comer-lhe a cor da cara.

Estava tudo pois nestes termos, quando um sábado, já o verão começava a dar a alma ao diabo, o frio a descer da montanha em rafadas aguçadas, o Abílio apareceu todo excitado, os olhitos atiçados como carvões em brasa.

- Éh pessoal, hoje trago uma notícia do caraças.

De pronto, o baralho de cartas esquecido sobre a mesa, falou-lhes do campeonato de sueca que o Benfica estava a organizar, coisa para breve, não havia tempo a perder.

- O meu cunhado é lá da direcção, aquilo vai ser em grande. E se a malta entrasse na coisa?

A excitação a repintar as caras gastas, logo ali escolheram parceiros, desdobraram estratégias, jogos de sinais, mil artimanhas para arrumar aquela malta do Benfica enquanto o diabo esfrega um olho.

E, carai, no ardor do momento, o Manuel Transmontano voltou-se para o grupo de polacos, que os mediam meio desconfiados, e, por entre mil gargalhadas, atirou-lhes, num manguito bem puxado:

- A mesa é vossa. A nossa música agora é outra.

NAZO

O automóvel rasgava os campos pardos e pedregosos, acachapados pela canícula de Setembro.

- Esta viagem de Cicouro ao Nazo, - explicava o Manuel Transmontano, com uma ponta de exaltação na voz - fazia-a eu todos os anos a pé, eram cinco horas bem medidas a dar às canelas por esses caminhos de cabras. Desde que comecei a ter barba na cara, não me lembro de ter faltado a uma festa do Nazo. Aquilo sim, eram bons tempos. E aqui, nesta encruzilhada, foi onde me saiu ao caminho um lobo, quando eu, altas horas da noite, regressava a casa da festa da Nossa Senhora da Luz...

- Ó pai, já lhe ouvimos essa história vezes sem conta, e sempre com uma versão diferente - repreendeu-o a filha, piscando o olho ao Michel.

- Mas é a pura verdade. O que me valeu foi que nesse tempo eu era só pele e osso e o lobo, com certeza, não me achou grande fartura, deu meia volta ao rabo e foi à procura de presa mais gorda.

Rabugento, afligido pelo calor, faces rosadas em brasa, o Pierre saltava duns braços para os outros.

- Se te portares bem, prometo mostrar-te os burros na feira.

Logo o petiz se aninhou, sem tugir, no regaço da avó. Doido por burros, num alvoroço, durante aqueles primeiros oito dias de férias, arrastara o avó aldeia fora, por cortinhas e currais, no encalço das pachorrentas alimárias.

- Éh Michel, no próximo Natal, dá um burro de ao teu filho. É o melhor presente que lhe podes oferecer.

Foi entre risadas que chegaram ao Nazo. No alto do monte escalvado, a capelita de talha austera desafiava o tempo, os sinos num repique festivo.

- Está como há vinte anos - murmurou o Manuel Transmontano.

E logo, os olhos carregados de evocações com o freio nos dentes, esquecido da família que fazia das tripas coração para o não perder de vista, misturou-se ao povoléu, perdeu-se por entre as barracas de feirantes, mercou encarniçadamente um cinto de cabedal, abeirou-se dos negociantes de gado,escutou a lábia dos ciganos que procuravam, tal como no seu tempo, vender burro velho por cavalo, juntou-se às famílias que , no adro, à sombra dos choupos, abriam os farnéis imensos e desenrolhavam os garrafões de vinho. Já o sol dardejante ia alto e o ar vibrante, carregado de odores pesados, mal se podia respirar, o suor a abrir-lhe regos pelas costas abaixo, arrastou a família esfalfada até às barracas de comes-e-bebes.

- Aqui, Michel,- voltou-se para o genro - vais-te regalar com o melhor petisco do mundo. No Canadá não encontras nada disto, acredita em mim.

O Michel, a enxugar o suor do rosto com as costas da mão, ria meio aturdido pelas pinceladas fortes do quadro: as vitelas suspensas do travejamento do telhado dos barracões, a fumarada acre que subia dos braseiros onde a carne rechinava, as mesas de madeira corridas a abarrotar de comensais folgazões.

- Bien sûr, Manuel. Allons-y.

Abancaram numa das mesas que acabara, por milagre, de vagar.

- Há tantas moscas por aqui - queixou-se a filha.

- Já não é como dantes - engelhou o nariz a mulher, olhando de esguelha os pratos de esmalte enbeiçados e limpando disfarçadamente o talher à fímbria da saia.

Mesmo o Michel, sempre tão delicado e esforçado por lhe ser agradável, também não o enganava, bem lhe sentia os olhos inquietos cravados nas mãos encardidas da velha que virava a carne no lume.

Só o neto é que parecia divertir-se, aos pontapés a um cãozarrão cheio de carraças que, debaixo da mesa, enxotava as moscas e o calor com o rabo.

-Claro que isto está como antigamente, vocês é que estão mais fidalgas.Mas se não quiserem, não comam que a mim não me faz grande diferença. Olhem, talvez encontrem para aí perdido algum McDonald's onde matar a fome.

E, quando a vitela veio para a mesa, enterrou vigorosamente a faca na carne suculenta. Levou um naco à boca e, lábios besuntados, a mastigar, regalado, deixou os pensamentos vogarem tranquilamente à tona da memória, até aos longínquos tempos em que, rapazote quase imberbe, depois de se banquetear com uma avantajada posta à mirandesa, à sombra daquele carvalho que dali avistava, estava em crer ser o mesmo, atrás dumas touças, perdera a inocência entre as coxas morenas duma cigana generosa.

- Em que estás a pensar? - estranhou-lhe a mulher o olhar vidrado.

A cara do Manuel Transmontano estilhaçou-se num sorriso avelhacado.

- Logo à noite, conto-te.

CERCO

O murro na mesa cortou a lengalenga da mulher.

- Chega! Já disse, mais de mil vezes, não! És surda ou fazes-te?

- Mas, ó Manuel...

- Porra, que mal fiz eu a Deus para ter este castigo?

Era assim, invariavelmente, todas as noites, depois das férias. Engolida a última colherada do jantar, logo a mulher se lhe agarrava às orelhas, como uma carraça:

- Sabes, Manuel, as terras, lá em Cicouro, não enchem a barriga a ninguém. A maior parte delas estão abandonadas, cheias de cardos, ninguém as quer tratar. O maior sonho da nossa filha é comprar um bungalow onde possa criar o nosso netinho com largueza e tranquilidade. Seria tão bonito se lhes dissemos uma ajuda. Agora é que agradecem, enquanto são novos, não é, sei lá daqui a quantos anos, quando já tiverem a vida organizada e não precisarem do nosso dinheiro para nada. E a nós, mais terra menos terra não nos aquece nem nos arrefece, não ficamos nem mais ricos nem mais pobres, nem verás a diferença.

Nessa noite, o cerco cada vez mais apertado, a conversa melosa dela estava insuportável, entrava-lhe pelos buracos todos do corpo, a rasgar por ali adentro, nem calculava ela o mal que lhe fazia, se lhe arrancasse o coração talvez lhe doesse menos.

- Não!- berrou.

Cego, aos sacões, enfiou o casaco e as botas e saiu para a rua, com um bater estrondoso da porta.

Era Janeiro e logo o frio lhe arreganhou as dentuças aguçadas. O que lhe valeu foi que o Petit Algarve ficava ali a dois passos e que o Algarvio, quando lhe viu as estalactites de gelo suspensas do bigode, lhe pôs logo à frente uma chávena de café a escaldar.

Reconfortado, agarrou-se, com unhas e dentes, à sua ninhada de razões:

" E aquela! Vender as terras que lhe tinham custado tanto sangue a ganhar! Só se estivesse virado do miolo. Quando o cunhado lhe escrevia: está à venda o lameiro de urrieta cuba, a cortinha da raia, a horta da eira...a sua resposta era fulminante, em letras rasgadas com fúria no papel: compra...compra...compra.

- Estás melhor?- perguntou-lhe o Algarvio.

A pachorrice dos olhos bovinos do amigo, encorajou-o a vazar a alma.

O Algarvio, cotovelos apoiados no balcão, ouviu-o sem pestanejar.

- O que dizes a isto?

-A tua mulher tem toda a razão.- E sem lhe dar tempo para reagir, voltou-lhe as costas para atender um cliente.

O Manuel Transmontano sentiu ganas de lhe atirar com a chávena à cabeça.

"Tudo uma corja."

Saiu sem se despedir. Mas logo o frio, que o espreitava à porta, lhe tornou a enterrar as dentuças no cachaço. Inferno por inferno, o melhor era regressar a casa, ainda era homem capaz de tapar a boca à mulher com um bom berro.

Ficou aliviado quando, ao dobrar a esquina, viu as luzes da casa apagadas. No escuro, com passos de ladrão, despiu-se e deitou-se às apalpadelas, mas bem sentia o arfar da mulher, de olhos arregalados, quieta como uma estátua, a fingir que dormia, como se o conseguisse enganar depois de tantos anos de casados.

Deitou-se de costas e ficaram assim, lado a lado, sem se tocarem, pela noite adentro, até que, por fim, ele pigarreou para aclarar a voz:

- Vou escrever ao meu cunhado para pôr dois ou três lameiros à venda. - Com uma reviravolta, voltou-se para a parede. - E agora, deixa-me dormir que amanhã é dia de trabalho.

SÃO VALENTIM

Primeiro, foi o campeonato de sueca, seguiu-se um torneio de malha, depois passou a dar uma mão no bar ou na cozinha, às vezes até lavava a loiça das jantaradas, vejam bem, ele que em casa não tocava numa palha, sabia lá Deus o que ia naquela cabeça para se sujeitar a tais canseiras, o certo é que o seu Manuel não tirava os pés do Benfica, contavam-se pelos dedos das mãos as horas dos fins-de- semana que nos últimos tempos passara em casa.

- Vai também até lá, desta vez - tentava ele cortar-lhe os maus humores. - No próximo sábado, é o baile de São Valentim.

- Tu pensas que tenho vida para ir a bailes? A minha dança é outra.

Os homens são uns fidalgos, sabem lá eles o que custa trazer a casa limpa e a roupa lavada e engomada, a comida a horas na mesa. Durante a semana, nem pensar em fazer alguma coisa, chegava a casa arrasada do trabalho na fábrica, ou aqueles estupores dos casacos de inverno cada vez pesavam mais ou era ela que começava a ficar velha, já sem forças para pegar numa gata pelo rabo. Os fins de semana não davam para nada, passavam enquanto o diabo esfrega um olho, ainda vinha agora o maluco do seu homem falar-lhe em bailes. Além disso, geralmente nos sábados à noite, a filha e o Michel saíam, iam jantar fora, que a vida não é só escravidão, que se divertissem enquanto eram novos, faziam muito bem, e deixavam-lhe o neto para cuidar. A criança estava cada vez mais esperta, enchia-lhe a casa de alegria, antes de lhe dar aquela maluqueira do Benfica, o divertimento do seu Manuel, nos sábados à noite, era ensinar português ao Pierre, o que eles riam com aquilo, seria uma vergonha se um dia chegassem à terra, lá em Trás-os-Montes, e a criança nem soubesse falar. Mas hoje, mais do que nunca, sente a solidão da casa vazia ferrada na garganta. A filha recebia amigos e não lhe levara o neto, nem a televisão aos berros conseguia encher a enormidade do apartamento orfão do palrar da criança. Através da janela, contempla uma neve, muito leve e branca, que polvilha a noite de mãos-cheias de farinha. Onze, meia-noite, duas horas da manhã, o que lhe vale, para entreter o tempo, é que o trabalho não falta, o monte de roupa para engomar parece não ter fim. Mas que desta vez, ele vai ouvi-las lá isso vai, já estava pelos cabelos, saturada da tantas ausências, e, ainda por cima, o salafrário, uma vez por outra, já chegava a casa meio tocado dos copos, pensava ele que lhe tapava os olhos, não era só a lavar loiça que passava as noites, não senhor, ainda lhe sobrava tempo para molhar o bico, disso não tinha ela dúvidas.

Eram três horas da madrugada quando o Manuel Transmontano meteu a chave à fechadura. Furiosa, meio tonta pelo sono, as varizes das pernas assanhadas, disposta a armar sarrabulho, mal lhe deu tempo para descalçar as botas da neve.

- Isto é que são horas de chegar?

Foi detida a meio da investida pela enormidade da surpresa. O seu Manuel, que ela geralmente ainda via como nos tempos de namoro, camponês esgalgado, vestido de sarja e socos de madeira nos pés, ali, num quadro irreal, na silente intimidade da madrugada, oferecia-lhe uma rosa vermelha resplandecente de fragilidade na mão nodosa e castigada pelo trabalho.

Sem saber se devia rir se chorar, a esfregar os olhos para disfarçar, num esforço, acabou por dizer:

- Quando houver outro baile, vou contigo.

REGRESSO

O Manuel Transmontano acordou com o berreiro desenfreado dos galos.

Na cozinha, foi encontrar a irmã a tratos com a lavadura dos porcos. Já o lume, num estralejar festivo, devorava um braçado de urzes.

- Está frio.- Sentou-se no escano e avançou as mãos para o lume. - Já parece o Canadá.

- Os velhos dizem que este ano vai nevar muito - respondeu a irmã. - Deixa-te ficar aí que eu vou levar a bianda aos cochinos. O café já está quase quente.

O Manuel apoiou as omoplatas na dureza do espaldar do escano. Embrulhado num manto de mil evocações com o freio nos dentes: aquele lume estralejante a saltar-lhe às mãos como um cachorro, o eterno caldeiro cachoante de água fumegante, os potes de ferro resquentando a sopa, aquele fumo acre que se acumulava em nuvens densas e azuladas, matizadas pela luz do dia nascente, lá junto às vigas escurecidas do telhado donde pendia a armação do fumeiro, as varas ansiosas pela próxima matança, aquele mocho de castanho polido onde uma fogaça e uma caneca esmaltada esperavam o café.

-Estavas a dormitar? - Era outra vez a irmã. - Nem quero acreditar que desta vez vens para ficar. - O rosto curtido, enrolado no lenço negro, ensopou-se de lágrimas velhas. - E assim se nos foi a vida, Manuel, estamos acabados.

- Qual acabados, qual quê! Se tu visses aqueles canadianos! Quando se reformam é para viver, não é para se sentarem à espera da morte. Então as mulheres, se as visses, velhotas de setenta anos e mais, parecem umas raparigas novas, bem trajadas, nada destes lutos de cá, cores claras, ricos penteados.

- Isso não é para estas terras. - O café escorria, num murmúrio bom, para a caneca.- Não sei se a tua mulher, a Alzira, se vai dar por cá. Isto é um cemitério de velhos.

A mulher atirou um capão ao lume que, quando se viu com forças, atirou os braços rubros ao redor do caldeiro.

- Ela aceita de boa cara o regresso? Nas últimas férias, não me quis parecer.

- Que remédio tem ela.

Regresso! Palavra de mil alquimias. Nos primeiros tempos do Canadá fora abençoado remédio contra os males da saudade e do desenraizamento. Depois, à medida que novas raízes começaram a rasgar húmus imprevistos, transformara-se, sem se darem conta disso, num processo lento, num espinho cravado nas carnes, num agente perturbador da paz de espírito.

Para não lhe perder o sentido, o Manuel, de tempos a tempos, evocava-a: quando me reformar, regressamos a Portugal.

E nesse serão, num assomo de coragem, reunira as forças dispersas que lhe restavam, para falar:

"Dentro de seis meses, atinjo a reforma. Deveríamos ir a Portugal, preparar o regresso."

A lavar a loiça, de costas, o fio de voz da mulher era quase inaudível:

" Vai tu, sòzinho. Agora, não posso deixar o nosso neto. Além disso, não precisas de mim para tratar do que há a tratar."

- A Alzira não se vai dar por cá. Cicouro já não é terra para ela. - tornou a irmã. - Vê lá se ela quis vir contigo!

- Cala-te, dianho de mulher.- exasperou-se. - Não veio porque não tinha com quem deixar o nosso netinho. Mas que raio de conversa esta!

- Mesmo tu estás diferente. Já não és homem para te enfiar neste buraco. - teimou ela.

- Vai lá tratar dos porcos, anda! Estás a ficar velha, é o que é. De muita paciência precisa o teu marido, para te aturar.

Meio apoquentado pelas palavras da irmã, nessa manhã, quando se sentou à mesa da cozinha para escrever à mulher, o Manuel Transmontano falou-lhe da casa que os esperava de braços abertos, da fidelidade do cunhado que tratara das terras com tanto zelo como se fossem dele, dos vivos e dos mortos, e, lá para a segunda página, num arroubo de coragem: "em todo o caso, ainda me sinto novo para trabalhar mais um ou dois anos, não é preciso apressar o regresso, não está nenhuma mulher para parir." Ficava assim aberta a porta para futuras negociações, no regresso a Montreal.

Depois, de coração liberto, saiu de casa e foi, rua abaixo, a falar a este e àquele, tão naturalmente como se nunca tivesse saido da terra.

PESADELO

Domingo à tarde. Dia lindo. A passarada canta por todo o lado. O parque entoa um apaixonado hino à vida.

O Manuel Transmontano, esquecida a ferrugem das articulações, não se farta de brincar com o neto, enebriados como dois cabritos descuidados.

De súbito, o neto estaca, de olhos abertos para o pássaro que, empoleirado no ramo dum arbusto, debica uma maçaroca dum vermelho vivo. É um pássaro dum negro metálico com listras carmesins nas asas.

- Como se chama este pássaro ?- perguntou o petiz, erguendo os olhos confiantes para o avó.

Ficou embatucado. Inesperadamente, um calafrio percorreu-lhe a espinha. Àquelas árvores, àquelas aves, àquelas flores, nem lhes suspeita o nome.

Sentiu-se um entruso, em terra alheia. E teve a terrível sensação que a natureza, em coro, o repudiava. Subitamente, havia uma hostilidade palpável, materializada no ar.

Nessa noite, teve o primeiro pesadelo. Viu-se morto. Sulcos de lágrimas de dor rasgavam os rostos desfeitos da família. O caixão descia lentamente à sepultura com um ranger áspero de cordas. Vermes asquerosos como cobras revolviam a terra soltando silvos horripilantes. E o seu cadáver nauseabundo, num terrível anátema, iria ficar para sempre na cova gelada, intacto, rejeitado pelos vermes, num mar de repulsa e ódio, rodeado por animalejos monstruosos que arreganhavan os dentes ferozmente e que lhe rosnavam: o que fazes aqui? Esta terra não é tua, vai-te embora.

O pesadelo repetia-se, inexoravelmente, noite após noite. Acordava, alta madrugada, alagado em suores frios, olhos escancarados no escuro, o fôlego ardente.

Passadas semanas de noites brancas e pupilas queimadas pela insónia, a família, alheia ao drama que o devorava, reunida num almoço, o Manuel Transmontano, num repente, aproveitou uma brecha no tagarelar para falar:

- Vocês sabem como eu tenho renunciado a muitos dos meus sonhos, por causa do bem estar da família. Vejam que já nem falo em regressar a Portugal, o que era o maior sonho da minha vida. Mas não me queixo, não tenho sido dos mais castigados. A vida é o que é, nem tudo corre como nós queremos. - Pigarreou para dar solenidade às palavras - Agora chegou a minha vez de vos pedir um favor. Olhem que estou a falar muito a sério. Quando eu morrer, quero ser enterrado em Portugal. Em Cicouro.

A mulher ia soltar uma gargalhada mas foi detida pelo brilho resoluto dos olhos garços da filha.

- Pode estar tranquilo, pai. Está prometido. Não se fala mais nisso.

E continuou o tagarelar interrompido.

A partir desse dia, o pesadelo, refugiado lá para os arcanos da memória, deixou de atormentar as noites do Manuel Transmontano que rapidamente recuperou a sua bela cor rosada e o gosto pela vida.

- Quanto mais velho está, melhor dorme, este dianho - inveja-o a mulher que começa, por sua vez, a padecer dos sonos leves da velhice.

DERROCADA

 

O Manuel Transmontano sentiu ganas de agarrar o médico pelo pescoço de pita careca e de lhe tornar a  enfiar pela boca abaixo as asneiras que o malandro  acabara de soltar com o maior dos desplantes.

Podia lá ser? O dianho do homem não devia estar bom da cachimónia. Ou estava bêbado ou, então, pior, muito mais grave, porque com coisas sérias não se brinca, estava a mangar com eles.

- É grave, senhor doutor? -  perguntou a Alzira, num fio de voz.

O médico tirou os óculos e passou a mão pelos olhos cansados de ver o mundo a nu.

- Infelizmente é . O cancro já está generalizado e não há grande coisa a fazer.

- Resta-me muito tempo de vida? – insistiu a Alzira.

Os olhos do médico fixaram-se num ponto qualquer, para além da janela.

- Como sabem, nestes casos é difícil avançar com previsões, tanto pode ser uma questão de meses como...

Querem lá ver que o homem estava a falar a sério? Podia lá ser! A sua mulher? A Alzira? A sua companhia para a merecida reforma lá na terra, em Cicouro? Doente? Moribunda? A sua Alzira!?

Uma vertigem pôs o consultório à roda. Já não viu mais nada. Nem o médico. Nem a mulher. Perdido num nevoeiro cerrado, povoado por uma zoeira esfarrapada.

 

Foi a mulher que, com mão firme, o levou dali, o encaminhou para casa, o sentou no sofá.

- Parece que és tu o doente. Algum dia temos de morrer. Ninguém fica cá para semente.

Olhou-a, aparvalhado. Nem sentia o fio de baba escorrer-lhe do canto da boca.

- Mas, ó Alzira...

Ela veio sentar-se ao seu lado. Abraçou-o. Ficaram assim, sem falas, imóveis, pela tarde adentro.

            Por fim,  o sol de Maio, que, finalmente após a modorra invernal,  lá fora  fazia crepitar a vida por todos os becos, cansou-se de alumiar o mundo e sombras densas rastejaram pelo soalho, treparam pelas paredes brancas.

- Vou preparar o jantar – anunciou a Alzira. – E arrebita, homem. Não és o primeiro nem serás o último a ficar viúvo.

REMORSOS

A doença da Alzira progride a olhos vistos, não é preciso ser um grande  entendido na matéria para farejar a desgraça que se aproxima com passos rápidos e determinados. Só uma vontade férrea, que ela vai buscar sabe-se lá onde, a mantém de pé e  a faz cirandar por toda a casa como um espectro, as roupas, cada vez mais largas, a dançar naquele corpo mirrado, só pele e osso.

O Manuel Transmontano que sempre dormira como um justo, acorda agora a meio da noite, com uma espertina  que lhe queima as pupilas e lhe esfrangalha os nervos. Ficam os dois,  lado a lado, como estátuas, sem uma palavra, sem se tocarem, irremediavelmente perdidos nas garras da dor.  Quando, finalmente, a alvorada clareia os blinds e os liberta do calvário da cama, o Manuel Transmontano mal tem coragem para  encarar o rosto lívido da mulher,  incapaz de engolir os soluços incontroláveis que lhe sobem das tripas  à garganta.

Sem forças para suportar aquele martírio, inventa,   amiúde, afazeres inadiáveis, pretextos mal cerzidos que lhe permitem sair de casa e o atiram para longos e solitários passeios pela montanha, como sempre a rebentar de vida: os jogadores de cartas, os pares de namorados, as cabriolas dos cães, o alarido das crianças,  o murmúrio das árvores, o sol a rastejar sobre a relva.

Nesse dia, voltado para a cruz, que, lá no alto, se esbatia contra o céu profundo, rezou. Rezou em silêncio. Ele que se tinha esquecido de Deus, cego, durante tantos anos, a ganhar, a perder, a vida. E, como peixes gordos, os remorsos sobem-lhe à tona da razão. Remorsos da vida sacrificada  que dera à mulher, devorado por aquela febre de aferrolhar, de ser o homem de mais haveres  lá na terra, que lhe envenenara, de ponta a ponta, a existência.

“Vou-lhe pedir perdão” decidiu-se. Enquanto era tempo. Antes que a foice da morte, que já rondava, ronceira, se antecipasse e lha ceifasse irremediavelmente do convívio.

Foi encontrar a Alzira tranquilamente sentada no sofá da sala,  quase bela, recortada na penumbra da tarde.

- És tu, Manuel? Senta-te aqui ao pé de mim. Estava a pensar na nossa vida, na sorte que tive em ter casado com um homem como tu....o que é isso, estás a chorar? Olha que a doente sou eu...!

- Eu...!

A Alzira pousou-lhe os dedos nos lábios..

- Cala-te!. Recordas-te do nosso primeiro beijo?

E ficaram, mãos nas mãos, entregues às recordações  que  vogavam  pelos mares, ora procelosos ora plácidos, da vida que Deus lhes dera. 

A VIZINHA

Desde o falecimento da Alzira, mal anoitece, o Manuel Transmontano não resiste ao peso das recordações. Sai para a rua, sobe a St-Laurent e acaba invariavelmente por entrar no Benfica. Encostado ao balcão, bebe lentamente uma cerveja, escuta as larachas dos presentes, bebe outra cerveja, deita uma olhadela à televisão e aos jogadores de sueca e regressa a casa, não poucas vezes, já com um grão na asa. Deita-se na imensidão do leito esfriado e adormece logo de seguida porque, graças a Deus, valha-lhe isso,  recuperou o antigo sono de santo.

Apresta-se,  mais uma vez, para sair de casa e  cumprir o ritual, um pé já fora do apartamento, quando lhe barra o caminho a vizinha de cima, a Lise. É  uma quebecoise já cinquentona mas ainda fresca como uma alface, com um corpo capaz de fazer inveja a muita rapariga e um par de olhos verdes, como pastagens sem fim, capaz de virar a cabeça de muito homem sério.

- Bonjour, voisin. Venho-te  pedir o favor de me emprestares um punhado de sal.

Palavras redondas e cantantes como seixos, embrulhadas num sorriso que descobria a dentadura sã e branca e fazia tremeluzir o verde dos olhos.

Palavra puxa palavra, nem sabia como aquilo acontecera, acabaram confortavelmnete afundados no sofá da sala de estar, em alegre e trivial conversa, esquecido o Benfica, esquecido o punhado de sal, a noite a avançar a passos largos sem lhes pedir contas.

- Ai que já é tão tarde! – gritou a Lise, consultando o relógio quando já iam avançadas as 11 horas. E já de pé: - Um dia destes vais lá ao meu apartamento beber um café comigo. De acordo?

Os olhos alegrotes e limpos dela beliscaram-lhe a cara com o calor duma chama.

- Talvez, qualquer dia.

            Custou-lhe vê-la partir. A bem dizer, apercebia-se agora, era a primeira noite  desde que a Alzira o deixara, que perdera a conta ao correr das horas.

E, no leito imenso, custou-lhe a adormecer, o sangue meio alvoroçado no corpo. Deveria ter ido ao Benfica em vez de ter ficado para ali a dar conversa à tagarela da vizinha, era o que era! Um homem, mesmo depois de velho, está sempre a aprender.

NOITES  INQUIETAS

Conho! Dianho de mulher!” Estranho como agora, na recta final da vida, o linguarejar mirandês, durante tantos anos amodorrado, esquecido, lhe salta à boca, nas horas de inquietação.

Tudo por culpa daquela tagarela da Lise que, quando se cruzam nas escadas, com aquela voz açucarada, está sempre a convidá-lo a subir, para tomar um café.

            Mas resiste. Teima em resistir. Por fidelidade à memória da Alzira, o corpo ainda quente na sepultura. Por razões que ele próprio desconhece. Por medos que o deixam de sangue a ferver nas veias.

            Ainda mal se apercebeu de que tudo se está a transformar nos seus hábitos. Já deixou de sair. Já deixou de ir ao Benfica. À noite, fica ali na sala, de orelhas espevitadas. Atento aos  ruídos que  descem do andar de cima.

            Espia-lhe os passos, interpreta-lhe os movimentos: agora está a lavar a loiça, a água a gorgolejar nos canos; agora está a limpar a casa, o aspirador num ronco surdo; agora sentou-se no sofá, a televisão de goelas abertas.

- Quando sobes para tomar um café?- pergunta ela

na encruzilhada das escadas.

- Qualquer dia será.

- Já sabes, é só subir.

Maldita mulher! E cada vez mais fresca. Até lhe custa a crer que não frequente homem. Desde que ela se mudara para ali, e já iam corridos um bom par de anos, nunca se apercebera da presença de nenhum.

- Quando sobes? Pode ser hoje?

O persistente convite martela-lhe a cabeça. Pregou-se em qualquer resquício do cérebro. Até já sofre de insónias. Logo ele que sempre dormiu como uma pedra, mesmo nas horas de tormento e aflição.

Hoje é sábado. Sobe o som da televisão e percorre os canais à procura dum bom filme que o distraia. Mas nada o contenta.

Vai até à janela. Uma neve esparsa, dilui-se ao calor das vidraças. Pega no telefone para falar à filha, ouvir o palrar do neto. Mas ninguém o atende. O clamor insistente do telefone crava-lhe a solidão na alma.

            Nove horas da noite. Apaga a televisão. Ouve-lhe os passos leves a caminho da casa de banho, o jorrar da água para a banheira. Depois, outra vez os passos dirigem-se para o quarto. Há um silêncio prolongado. Deve estar a vestir o roupão. Talvez a pentear os cabelo curtos e aloirados.

            Levantou-se do sofá. Tornou a sentar-se. Gotículas de suor perlam-lhe a fronte. Deve ter o aquecimento da casa muito alto. Levanta-se para verificar o termóstato.  Tudo está  normal.

Finalmente, os passos encaminham-no para a porta, para as escadas que já sobe furtivamente. Fustiga-se:

“Dianho de homem! Pareces uma criança da escola, com medo da mestra.”E, com mão trémula, foi bater à porta da Lise.

DESABAFO

Andas com a cabeça nas nuvens” – dizia-lhe a mãe quando, criança, se esquecia de levar a vaca a pastar no lameiro.

Regressava agora aos trilhos da infância. Até se esquecia de telefonar à filha e ao neto. Uma vergonha. Mas por mais que tente resistir à intrusão que lhe virou a vida de pernas para o ar, não há nada a fazer. Só pensa nela. Tudo em seu redor está impregnado dela. Do seu cheiro. Da sua voz. Da luz dos seus olhos. Da memória da primeira noite passada juntos, no mar imenso daquele leito onde quase se afogara como um catraio devorado pelas ondas do prazer.

“Isto é água demais para o meu moinho”- reconheceu naquela tarde. Precisa de assentar os pés em terra, de reencontrar o equilíbrio perdido, de vir respirar à tona da razão, de sair daquela furtividade que o envergonha, de desabafar, do conselho dum amigo.

            Entrou no novo restaurante do Algarvio, ali na rua Duluth. Ficou feliz como uma criança quando o lobrigou.

- Tu por aqui?

O Algarvio saiu de detrás do balcão com duas cervejas na mão e encaminhou o amigo para uma mesa tranquila.

- Até me custa a acreditar, és mesmo tu?

O Manuel Transmontano sorria embaraçado.

            - Eu sei que não tens tempo para aturar velhos. Agora com os negócios...

O Algarvio afinou:

- Que raio de palavras são essas? Vocês é que enfiaram essa coisa nos cornos. Cá o Algarvio não troca os amigos pelos negócios. Olha que me zango a valer se te torno a ouvir dizer essas merdas. Não é coisa tua, um homem sensato como tu...

- Isso é o que pensas. Quem vê caras não vê corações...

Há um raio de sol que atravessou a vidraça da janela e que brinca sobre a mesa, reverbera nas garrafas. O Algarvio pousou a mão no ombro do amigo. Continuava com os olhos bovinos e amigos de sempre.

- Isso vai bem?

            Contou-lhe tudo. Do princípio ao fim. Sem subterfúgios. Até onde conseguiu desemaranhar a meada da vida.

            - Achas que isto fica bem num homem da minha idade, viúvo, com um neto já crescido?

O Algarvio ia rir, soltar uma laracha rude, à portuguesa. Mas retraiu-se a tempo.

- Sabes, Manel, tu és um homem. Ela é uma mulher. Onde é que está o mal?

- Achas?

O Algarvio tinha os olhos humedecidos. Ergueu a garrafa.

            - À vossa felicidade. Passa com ela cá pelo restaurante, quando quiserem. Depois combinamos um jantar lá em casa. A Giselle terá todo o prazer em recebê-los.

PAZ DE ESPÍRITO

Depois do almoço, enquanto prepara o café, o Michel, discípulo inveterado da informática, não desiste de tentar converter o sogro à sua religião e  de iniciá-lo na arte de navegar na internet.

            - Quando souberes mexer naquilo,  não vais querer outra coisa,  até podes ler os jornais portugueses quando te apetecer. Poderás mesmo encomendar por e-mail uma daquelas postas mirandesas lá da festa do Nazo. O que é que queres mais? C’est mieux que faire l’amour, je te promet – acrescentou o Michel, com uma piscadela de olho à Lise.

Com o neto encavalitado nos joelhos,  regalado,  o Manuel Transmontano  sorri, incrédulo,  com os esforços do genro.

- Talvez, qualquer dia. Quem sabe?

A filha e a Lise, lá para a ponta da mesa, tagarelam como duas boas amigas. O Michel acabou de preparar o café que escorre sem pressas para as chávenas.

 Que belo dia! Lá fora,  o sol outonal atarda-se sobre a relva, dá as últimas pinceladas de vermelho-fogo às folhas do ácer.

- Temos uma novidade para vos dar – anuncia o Michel, abrindo a garrafa do porto.

- Boa ou má? – pergunta o Manuel Transmontano

           - Vais ser outra vez vovô – rebenta o Pierre, incapaz de guardar nem mais um minuto o segredo prometido.

            Há gargalhadas, abraços, tilintam os copos.

            Nessa tarde, amolecido por três ou quatro portos, o Manuel Transmontano pigarreou, como nas grandes ocasiões, para  soltar as palavras  que estrebucham lá pelo fundo do peito.

            - Há dois ou três anos, quando a minha Alzira ainda era viva, pedi que, quando chegasse a minha hora de ajustar contas com Deus,  me enterrassem em Portugal. Nesse tempo isso era importante para mim. Apavorava-me ser enterrado num buraco de gelo. Que parvoíce! Se o frio até conserva as carnes. –Esperou que as gargalhadas, ao redor da mesa,  parassem. -  Agora sem brincadeiras,  desta vez, quero-vos dizer que esqueçam a promessa. A minha terra agora é aqui, junto das pessoas que amo, o que é que eu ia para lá fazer, digam lá?

A DECISÃO

 

Prezado cunhado

           

Espero que esta carta vos vá encontrar com saúde e alegria.

            Só depois de muitas noites em claro é que ganhei coragem para te escrever. Uma decisão destas não se toma assim do dia para a noite, precisa de amadurecer, como a fruta ao sol  no pomar.

            Para te falar com franqueza, depois da morte da tua irmã, da Alzira, que Deus tenha em descanso, já não tenho coragem para regressar aí à terra. O que iria fazer longe da minha filha e dos meus netos? O meu lugar é aqui, ao lado deles, para ajudá-los no que puder e gozar, enquanto Deus me der vida, do consolo da sua companhia.

            É por tudo isto que te peço o grande favor de pôr à venda todos os meus haveres. Tudo, mesmo a casa. Eu sei que os compradores agora não abundam, os novos partiram, os velhos já não têm forças para tratar as terras mas, olha, faz o que puderes. Deixo tudo nas tuas mãos, o que fizeres está bem feito, tens toda a minha confiança, como sempre a tiveste e mereceste. Se quiseres escolher um par  de hortas e lameiros, dos melhores, para ti, não hesites. Fica descansado que não irei regatear preço contigo.

            Recebam muitos abraços e beijos de todos nós. E  sempre que  alguém perguntar por mim, digam que estou bem e que, apesar de me desfazer de todos os meus haveres , nunca me esquecerei de vós todos, nem da nossa querida terra.

            Um grande abraço do teu cunhado sempre amigo,

            Manuel

*

Selou a carta e guardou-a no bolso do casaco. Sentia uma ponta de tristeza cravada na garganta.

“Parvoíces”. Passou a mão pelos olhos para afugentar a pieguice. Sabia que não dissera toda a verdade, que não levantara o véu completamente. Mas era melhor assim. Lá na terra, os amigos e a família não iriam compreender. Eram mundos diferentes. O tempo se encarregaria de tudo esclarecer.

Mas o melhor era apressar-se. A Lise esperava-o para ir ao restaurante do Pedro Algarvio que lhe prometera recebê-los com uma caldeirada como só ele sabia preparar.


Incluidas no livro "À beira-Main"