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A neve e a intolerância |
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Manuel Carvalho
A vizinhança saiu toda para a rua e há um ar de festa nesta azáfama de limpar as entradas das casas e os "drive-ways". A paisagem é feérica, cantarolam as máquinas de limpar a neve, as crianças divertem-se com esta dádiva dos céus, há acenos amistosos por cima das muralhas de neve. E, como sempre nestas ocasiões, recordo os anos de martírio em que habitei na baixa de Montreal. Ao mais pequeno nevão, lá andava eu, para trás e para diante, à procura do meu carro que, coberto pelo uniformizante e alvo manto , já não sabia onde ficara estacionado. Quando finalmente o conseguia localizar, era preciso trabalhar arduamente para o desenterrar da montanha de neve que o cobria. A caida do céu mas sobretudo a acumulada pelas máquinas de limpeza das ruas que, na primeira fase dos trabalhos, e para desobstruir as artérias o mais rapidamente possível , a varrem sem contemplações para os bordos, contra os carros estacionados ao longo dos passeios, para danação dos pobres proprietários. Foi o que me aconteceu naquela manhã, que nunca mais esquecerei. Nevara intensamente durante toda a noite e a cidade acordara envolta num espesso manto branco. Mas ao chegar junto do meu automóvel, foi grande a alegria que me invadiu ao verificar que o carro que pernoitara à frente do meu já saira, deixando o espaço limpo, o que me facilitou enormemente a tarefa que eu avaliara muito mais penosa. Mas mesmo assim ainda cavei uma avantajada meia-hora, o que me deixou de bofes na boca , pois a neve estava granulosa e pesava como chumbo. Finalmente concluida a minha tarefa e quando me aprestava para arrecadar a pá, o demónio materializado no vulto escarlate dum carro roncante rasgou a paz polar da manhã e , sem me dar tempo para abrir a boca, veio estacionar a minha frente, bloqueando-me de novo a passagem. Respirei profundamente e fui falar ao condutor, um sujeito de rosto esquálido e olhos esbugalhados. Pausadamente, expliquei-lhe a situação, implorei-lhe que me deixasse sair. Em vão, o homem era intratável. -Foute moi la paix (Deixa-me em paz) - respondeu-me, irascível. Apertei a pá nas mãos, disposto a matar, o lobo à solta. -Sors immédiatement ton char ( Tira o carro imediatamente). O homem leu-me a loucura nos olhos e amedrontou-se. Foi o que o salvou. Foi o que me salvou. Ainda hoje me pergunto: e se ele não tivesse tirado o carro? O que teria acontecido? É por estas e por outras que quando o meu nível de intolerância social começa a subir perigosamente, segredo a mim próprio: olha que há circunstâncias em que até o mais pacato cidadão se pode transformar num homicida. E imediatamente vejo o mundo e as gentes com olhos muito mais clementes.
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Saramago e o frio |
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Manuel Carvalho
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Cuba |
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Manuel Carvalho
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Como natural do planalto mirandês, foi com exultação que recebi a notícia do reconhecimento, pela Assembleia da Républica, do mirandês como língua oficial.
E, contudo, devo reconhecê-lo, com toda a humildade, não falo o mirandês. Nascido em Cicouro, «alpié d'la raia de Spanha, terroù pertués de abundantes frutas i áuga », como cantou o poeta e meu conterrâneo António Luís Domingos Fernandes, cedo fui arrancado às terras que me viram nascer elevado pelos meus pais « lá para baixo », como então se dizia, em busca duma vida menos madrasta.
Nas férias de verão, regressávamos periodicamente às origens. Ficaram-me desse tempo, para sempre, nos olhos, farrapos das aguarelas de cores estonteantes das viagens de comboio, Douro acima: odores intensos, farnéis abertos nos bancos de madeira, os pregões nas estações, o gralhar dos ranchos nómadas de segadores, a bocarra das locomotivas a vomitar espessos rolos de fumo que serpenteavam pelas serranias abaixo, um calor tórrido que esbraseava os pulmões. E, depois , na parte final da viagem, o interminável percurso entre a estação de Duas Igrejas e Cicouro, em cima dum desconjuntado carro de jumentos, noite cerrada, por entre montes , fragas e histórias de lobos e almas penadas.
Foi logo nas primeiras férias que sofri o meu primeiro confronto de culturas. «Tás mui taludo », elogiou-me uma vizinha . Sem perceber o que ela me dissera, corri para a minha mãe em busca duma tradução decifradora de tão estranho linguarejar. Incidente sem consequências de maior, logo esquecido no fogo nas brincadeiras infantis e que não me deixou estigmas visíveis, acredito, mas que me gravou na alma a singularidade das terras que me foram berço.
À medida que me cresciam mais profundas e vigorosas raízes nos novos lugares adoptivos, as visitas foram rareando, quase esquecido da minha origem mirandesa. Salvou-me da mais completa aculturação o facto de ter casado com uma mirandesa profundamente arreigada ao torrão e às tradições natais. Aqui devo esclarecer que muito contribuiu para a minha reabilitação a minha propensão para a boa-mesa e a irresistível cozinha mirandesa. Tempos houve para mim em que abancar nas tendas da festa do Nazo com uma suculenta posta à mirandesa à minha frente ou então, na adega do meu sogro, saborear umas rodelas de salpicão e uns nacos de presuntos acompanhados por um bica-aberta » que jorrava do pipo no qual regaladamente me recostava, faziam parte dos meus prazeres predilectas, para cuja satisfação seria capaz de sacrificar urgentes afazeres e dar anos de vida.
Foi assim que, sem grandes convulsões, orgulhosamente voltei a reencontrar e reassumir a minha identidade mirandesa. Que se apoia em bases muito frágeis, como o pude comprovar no passado mês de Junho me desloquei aí a New Bedford para apresentar o meu último livro à comunidade portuguesa local.
No decorrer duma entrevista no canal televisivo português, no programa literário animado pelo escritor e director do departamento de estudos Luso-Brasileiros da Universidade Brown, em Providence, Onésimo Teutónio Almeida, dei-me conta do árduo caminho que ainda me falta percorrer para recuperar integralmente a minha identidade perdida.
Naquele seu jeito inigualável de falar de coisas sérias num tom ligeiro e divertido, a páginas tantas do nosso ameno e agradável cavaquear, o Onésimo pediu-me para dizer umas frases em mirandês. Embaraçado, depois de balbuciar três ou quatro palavras avulsas, acabei por humildemente reconhecer a minha imperdoável e crassa ignorância dos mais elementares princípios da língua mirandesa. Salvou-me da situação melindrosa o traquejo do meu interlocutor que desviou o curso da conversa para margens mais seguras e menos constrangedoras.
Vexado, na viagem de regresso a Montreal, tomei a firme decisão de na próxima viagem a Portugal, na lista de livros a comprar, dar prioridade ao Vocabulário e Gramática de língua mirandesa que entretanto já deverão estar disponíveis ao público. Não quero, nunca mais, voltar a ser apanhado no flagrante delito de ignorância da própria língua materna.
A minha maior alegria seria um dia conseguir escrever um texto escorreito nessa « lhéngua mirandesa, doce cumo ua meligrana, guapa i campechana. »
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