A neve e a intolerância

Manuel Carvalho


Hoje cairam trinta centímetros de neve. A coisa mais normalíssima do mundo nos rigorosos Fevereiros canadianos. Que, por sinal, este ano até tem sido muito clemente, com temperaturas bastante acima do normal para a época.

A vizinhança saiu toda para a rua e há um ar de festa nesta azáfama de limpar as entradas das casas e os "drive-ways". A paisagem é feérica, cantarolam as máquinas de limpar a neve, as crianças divertem-se com esta dádiva dos céus, há acenos amistosos por cima das muralhas de neve.

E, como sempre nestas ocasiões, recordo os anos de martírio em que habitei na baixa de Montreal. Ao mais pequeno nevão, lá andava eu, para trás e para diante, à procura do meu carro que, coberto pelo uniformizante e alvo manto , já não sabia onde ficara estacionado. Quando finalmente o conseguia localizar, era preciso trabalhar arduamente para o desenterrar da montanha de neve que o cobria. A caida do céu mas sobretudo a acumulada pelas máquinas de limpeza das ruas que, na primeira fase dos trabalhos, e para desobstruir as artérias o mais rapidamente possível , a varrem sem contemplações para os bordos, contra os carros estacionados ao longo dos passeios, para danação dos pobres proprietários.

Foi o que me aconteceu naquela manhã, que nunca mais esquecerei. Nevara intensamente durante toda a noite e a cidade acordara envolta num espesso manto branco. Mas ao chegar junto do meu automóvel, foi grande a alegria que me invadiu ao verificar que o carro que pernoitara à frente do meu já saira, deixando o espaço limpo, o que me facilitou enormemente a tarefa que eu avaliara muito mais penosa. Mas mesmo assim ainda cavei uma avantajada meia-hora, o que me deixou de bofes na boca , pois a neve estava granulosa e pesava como chumbo.

Finalmente concluida a minha tarefa e quando me aprestava para arrecadar a pá, o demónio materializado no vulto escarlate dum carro roncante rasgou a paz polar da manhã e , sem me dar tempo para abrir a boca, veio estacionar a minha frente, bloqueando-me de novo a passagem.

Respirei profundamente e fui falar ao condutor, um sujeito de rosto esquálido e olhos esbugalhados. Pausadamente, expliquei-lhe a situação, implorei-lhe que me deixasse sair. Em vão, o homem era intratável.

-Foute moi la paix (Deixa-me em paz) - respondeu-me, irascível.

Apertei a pá nas mãos, disposto a matar, o lobo à solta.

-Sors immédiatement ton char ( Tira o carro imediatamente).

O homem leu-me a loucura nos olhos e amedrontou-se. Foi o que o salvou. Foi o que me salvou.

Ainda hoje me pergunto: e se ele não tivesse tirado o carro? O que teria acontecido? É por estas e por outras que quando o meu nível de intolerância social começa a subir perigosamente, segredo a mim próprio: olha que há circunstâncias em que até o mais pacato cidadão se pode transformar num homicida. E imediatamente vejo o mundo e as gentes com olhos muito mais clementes.



Copyright © 1997 The Portuguese Times
Autorizada a reproducão de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem


Semanário TRANSMONTANO - Praça de Camões, 12A - 2º - Apartado 91 - 5400 Chaves


Saramago e o frio

Manuel Carvalho


Montreal. Manhã de Janeiro. A cidade tirita invadida por uma vaga de frio polar que rasga as carnes e encalha o sangue nas artérias.
Enregelado, apresso-me a entrar na estação do metropolitano e, já bem instalado no conforto da carruagem, reactivada a circulação sanguínea, abro o jornal a toda a largura e refugio-me no paraíso da leitura.
Apostava a vida em que, como sempre, não depararei com a mais leve menção à comunidade portuguesa. Somos uma comunidade "ordeira e trabalhadora", mergulhada numa confortável letargia, que vive à margem dos acontecimentos relevantes merecedores de notícia.
Nem mesmo a nossa cozinha , portanto tão saborosa e apreciada noutras paragens, consegue despertar o interesse desta sociedade tão dada aos prazeres da vida. O que lá vai salvando a honra do convento é o vinho do Porto que galga terreno a olhos vistos, não tanto por mérito próprio, desconfio, mas mais por arremedo dos ingleses, tão ostracizados neste rincão francófono do mundo, mas tão parodoxalmente imitados nos seus hábitos.
Quando o Saramago ganhou o Nóbel, ainda cheguei a alimentar a esperança de ver os escaparates das livrarias invadidos pelas suas obras o que, naturalmente, por tabela, nos iria proporcionar uma certa visibilidade há muito ansiada.
Mas qual quê! Mais uma vez, vi ludribiadas as minhas mais do que razoáveis expectativas.
O Saramago continuou um ilustre desconhecido, ausente dos escaparates. A comunidade portuguesa continuou "ordeira e trabalhadora". Os francófonos continuaram avessos aos pastéis de bacalhau e às sardinhas assadas.
Casualmente, descravei os olhos do jornal e, de chofre, num golpe de rins do acaso, o milagre realizou-se: à minha frente, uma jovem de frescura estudantil, lia o "Le Dieu Manchot", isto é, o " Memorial do Convento".
Pela serena concentração na leitura e pela forma regalada, quase sensual, como humedecia os lábios com a língua, sentia-a embebecida e presa pela trama da história. Quando ergueu os olhos, sorri-lhe. Ela esboçou um trejeito contrariado, ultrajada com a insolência do velho cretino. E remergulhou nas aventuras e desventuras de Sete-Sóis e Blismunda.
Nada incomodado por mais esta demonstração da eterna incomunicabilidade humana, continuei a sorrir, confrontado, mais uma vez, com a prova real de que, geralmente, basta um fortuito quase-nada para nos reconciliar com a vida e transformar o curso das nossas existências.
Afinal de contas, Saramago não é tão desconhecido, por estas bandas, como eu pretendia. Reconheço também que a comunidade portuguesa não é tão amorfa como a pintei. Os quebequenses também já se começam a aventurar nos nossos restaurantes e a provar os nossos deliciosos pratos de bacalhau. E até mesmo o frio, que me esperava, de dentes arreganhados , à saida da bocarra do metro, é, esquecidos os padrões climatéricos mediterrânicos, suportável e tonificante.



Copyright © 1997 The Portuguese Times
Autorizada a reproducão de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem


Semanário TRANSMONTANO - Praça de Camões, 12A - 2º - Apartado 91 - 5400 Chaves


Cuba

Manuel Carvalho


Épreciso fazer das tripas coração para deixar as areias brancas e as águas de cristal de Varadero e largar rumo ao tórrido Agosto de Havana. Mas, estando em Cuba, seria tão inperdoável não visitar a velha capital colonial como ir a Roma e não ver o Vaticano ou a Paris e não admirar a torre Eiffel.
Pelo caminho, ainda me detive na aldeia piscatória de Cojimar para posar para a eternidade junto à estátua do Hemingway que, homem de acção e aventura como sempre foi, se deve aborrecer terrivelmente, prisioneiro do bronze, ali no seu pedestal fustigado pela canícula.
Chegado enfim a Havana e depois do tradicional giro pelo Malecon que é o equivalente da marginal lisboeta e duma obrigatória olhadela à Praça da Revolução e à estátua do herói José Marti, dirigi-me à Bodeguita del Medio para almoçar.
A Bodeguita del Medio é um restaurante com velhas tradições localizado na velha Havana, uma parte da cidade considerada património mundial e a precisar de urgentes obras de restauração sob pena de se perder um património arquitectónico de valor incalculável.
Euquanto esperava o frango e os "cristianos e moros" do almoço, furei até ao balcão para dessedentar com o "mojito".
Ora como nestes tempos de deriva e assombro o imaginário e a realidade se entrelaçam como irmãos siameses, seguia eu o boiar preguiçoso do ramito de hortelã à tona do rum quando o Fidel Castro em pessoa me bateu no ombro.
- Te gusta?
Um tanto aturdido com tão inesperado encontro e sem atinar se ele se referia ao mojito, à Bodeguita, a Havana ou mesmo a Cuba, acenei afirmativamente com a cabeça. Ele sorriu e encaminhou-me para um recanto discreto da Bodeguita, mesmo sob a célebre inscrição que Salvador Allende ali deixou em 1961: viva Cuba livre, Chile espera.
Depois de nos termos sentado, Fidel, num discurso inflamado, falou-me de Moncada, da Revolução, da Sierra Maestra, de semeador de sonhos que foi o Che, do homem novo que quase aconteceu , da esperança num mundo melhor e sem tiranos.
Pelo meu lado, já mais calmo, dei-lhe conta do que vi na minha visita: a corrupção que grassa por todo o lado, o mercado negro, a grave penúria de bens de consumo, o descontentamento crescente da população, o perigo de o ver transformar-se no Patriarca do seu amigo Gabriel Garcia Marques. Fidel baixou a cabeça, acabrunhado.
-Sei tudo isso desde há muito. Também eu pressinto que a Revolução está a chegar ao fim, inacabada. Ou pensas que eu não escuto o uivo dos chacais ao meu redor? Ou pensas que não me chega aos ouvidos o fragor do desmoronamento?
E dito isto, Fidel esfumou-se da minha frente. Fiquei a sós com o meu mojito, o ramito de hortelã tristemente encalhado no cubo de gelo. Na minha cabeça ecoavam as palavras exaltadas do grande poeta cubano Nicolás Guillen:
Acabou
Eu vi-o.
Martin prometeu-ta
e Fidel dei-ta.
Acabou.

Semanário TRANSMONTANO - Praça de Camões, 12A - 2º - Apartado 91 - 5400 Chaves
Telefone: (076) 333 333 - Fax: (076) 333 034
E-mail: transmontano@mail.telepac.pt

PORTUGUESE TIMES - New Bedford, Mass.

BIDA NUÔVA

Como natural do planalto mirandês, foi com exultação que recebi a notícia do reconhecimento, pela Assembleia da Républica, do mirandês como língua oficial.

E, contudo, devo reconhecê-lo, com toda a humildade, não falo o mirandês. Nascido em Cicouro, «alpié d'la raia de Spanha, terroù pertués de abundantes frutas i áuga », como cantou o poeta e meu conterrâneo António Luís Domingos Fernandes, cedo fui arrancado às terras que me viram nascer elevado pelos meus pais « lá para baixo », como então se dizia, em busca duma vida menos madrasta.

Nas férias de verão, regressávamos periodicamente às origens. Ficaram-me desse tempo, para sempre, nos olhos, farrapos das aguarelas de cores estonteantes das viagens de comboio, Douro acima: odores intensos, farnéis abertos nos bancos de madeira, os pregões nas estações, o gralhar dos ranchos nómadas de segadores, a bocarra das locomotivas a vomitar espessos rolos de fumo que serpenteavam pelas serranias abaixo, um calor tórrido que esbraseava os pulmões. E, depois , na parte final da viagem, o interminável percurso entre a estação de Duas Igrejas e Cicouro, em cima dum desconjuntado carro de jumentos, noite cerrada, por entre montes , fragas e histórias de lobos e almas penadas.

Foi logo nas primeiras férias que sofri o meu primeiro confronto de culturas. «Tás mui taludo », elogiou-me uma vizinha . Sem perceber o que ela me dissera, corri para a minha mãe em busca duma tradução decifradora de tão estranho linguarejar. Incidente sem consequências de maior, logo esquecido no fogo nas brincadeiras infantis e que não me deixou estigmas visíveis, acredito, mas que me gravou na alma a singularidade das terras que me foram berço.

À medida que me cresciam mais profundas e vigorosas raízes nos novos lugares adoptivos, as visitas foram rareando, quase esquecido da minha origem mirandesa. Salvou-me da mais completa aculturação o facto de ter casado com uma mirandesa profundamente arreigada ao torrão e às tradições natais. Aqui devo esclarecer que muito contribuiu para a minha reabilitação a minha propensão para a boa-mesa e a irresistível cozinha mirandesa. Tempos houve para mim em que abancar nas tendas da festa do Nazo com uma suculenta posta à mirandesa à minha frente ou então, na adega do meu sogro, saborear umas rodelas de salpicão e uns nacos de presuntos acompanhados por um bica-aberta » que jorrava do pipo no qual regaladamente me recostava, faziam parte dos meus prazeres predilectas, para cuja satisfação seria capaz de sacrificar urgentes afazeres e dar anos de vida.

Foi assim que, sem grandes convulsões, orgulhosamente voltei a reencontrar e reassumir a minha identidade mirandesa. Que se apoia em bases muito frágeis, como o pude comprovar no passado mês de Junho me desloquei aí a New Bedford para apresentar o meu último livro à comunidade portuguesa local.

No decorrer duma entrevista no canal televisivo português, no programa literário animado pelo escritor e director do departamento de estudos Luso-Brasileiros da Universidade Brown, em Providence, Onésimo Teutónio Almeida, dei-me conta do árduo caminho que ainda me falta percorrer para recuperar integralmente a minha identidade perdida.

Naquele seu jeito inigualável de falar de coisas sérias num tom ligeiro e divertido, a páginas tantas do nosso ameno e agradável cavaquear, o Onésimo pediu-me para dizer umas frases em mirandês. Embaraçado, depois de balbuciar três ou quatro palavras avulsas, acabei por humildemente reconhecer a minha imperdoável e crassa ignorância dos mais elementares princípios da língua mirandesa. Salvou-me da situação melindrosa o traquejo do meu interlocutor que desviou o curso da conversa para margens mais seguras e menos constrangedoras.

Vexado, na viagem de regresso a Montreal, tomei a firme decisão de na próxima viagem a Portugal, na lista de livros a comprar, dar prioridade ao Vocabulário e Gramática de língua mirandesa que entretanto já deverão estar disponíveis ao público. Não quero, nunca mais, voltar a ser apanhado no flagrante delito de ignorância da própria língua materna.

A minha maior alegria seria um dia conseguir escrever um texto escorreito nessa « lhéngua mirandesa, doce cumo ua meligrana, guapa i campechana. »



Copyright © 1997 The Portuguese Times
Autorizada a reproducão de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem


Semanário TRANSMONTANO - Praça de Camões, 12A - 2º - Apartado 91 - 5400 Chaves


Raízes

Manuel Carvalho


Se visitarem Montreal e depararem nos jornais locais com a menção de uma Marie-Hélène da Silva violinista ou com um Joel Dasilva dramaturgo, não induzam logo à primeira vista que se trata de descendentes de imigrantes portugueses de recente data.
Na verdade, a maioria dos Silva e das suas variantes ortográficas Dassylva, Dasilva e Da silva, que enchem páginas e páginas da lista telefónica, são descendentes dum tal Pedro da Silva, natural de Lisboa, chegado a estas terras em data incerta e que em 1693 casou com uma " fille du Roi ", Jeanne Geslon, deixando numerosa prole, antes de morrer em 1717 na cidade do Quebeque.
Este bravo Silva é hoje figura histórica pois coube-lhe a missão de ser o primeiro carteiro oficial do Canada, transportando durante vários anos as mensagens do governador da Nova França entre Montreal e a cidade do Quebeque.
Mas já bem mais cedo outros aventureiros portugueses por cá andaram ao serviço dos reis da França e da Inglaterra, tal como um certo João Afonso célebre piloto que acompanhou o Senhor de Roberval numa expedição ao Canada, Mateus da Costa que participou na colonização da Acadia, ou mesmo um tal João Rodrigues, falecido em Beauport em 1720, e que se afirma ser o antepassado de todos os Rodrigue actuais.
Mas estes não são casos únicos. O Canada, dado a sua especificidade de terra de acolhimento, é terreno fértil e fascinante de estudos geneológicos e patronímicos que por vezes conduzem a resultados surpreendentes.
Por exemplo, há meses, em Vancouver, na costa do Pacífico, encontrei um sujeito de tez acobreada, que me afirmou ser descendente de portugueses e que orgulhosamente ostentava o " lusitano " apelido de Desa.
" Desa ? ! " admirei-me.
Vexado perante a minha incredulidade, no dia seguinte o mister Desa apresentou-me a sua árvore geneológica, que recuava até ao século XVI, repleta de antepassados Sá e onde nem mesmo faltava um inesperado Carvalho, encaixado entre um Nóbrega e um Miranda .
Só então é que eu compreendi que o Desa era uma corrupção de " de Sá ".
Instruiu-me então o mister Desa que a família dele emigrara no século XVIII de Goa para Mombaça, na África, e que depois , de trambolhão em trambolhão, acabara por se estabelecer, em finais do século XIX, em Vancouver.
-Mas olhe que nunca renegámos as nossas raízes, continuamos fervorosos católicos, devotos do Saint Éczévia.
Tornei a arranhar a cabeça.
" O quê ? !, mas que raio de português era eu que desconhecia a existência do Saint Éczévia, padroeiro de Goa e grande evangelizador do Oriente? " E vi, sem apelo nem agravo, o meu pedestal a desmoronar-se no espelho dos olhos negros do meu " compatriota ".
Salvou-me uma intuição.
" Escreva aí o nome. "
E só não soltei uma gargalhada com receio de melindrar o mister Desa, quando à minha frente, em letras garrafais, vi materializado o nome do São Francisco Xavier que, pronunciado à inglesa, se transformara no Saint Francis Ëczévia.



Copyright © 1997 The Portuguese Times
Autorizada a reproducão de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem


Semanário TRANSMONTANO - Praça de Camões, 12A - 2º - Apartado 91 - 5400 Chaves


Montesinhos

Manuel Carvalho


Este ano, lá para o meio de curtas férias em Portugal, encontrava-me com a família em Miranda do Douro e como tivéssemos a intenção de nos deslocar a Braga, para festejar o S.João num banho de multidões, decidimos ignorar as novas e tentadoras vias rápidas e aventurar-nos pelo acidentado e montanhoso percurso via Bragança-Chaves.
Trajecto sem dúvida mais demorado mas que, em contra-partida, proporciona ao viajante o regalo de paisagens e panorâmicas deslumbrantes que talvez só quem habitualmente está ausente sabe apreciar de olhos abertos e usufruir em plenitude.
Por volta do meio-dia, já em pleno parque natural de Montesinho, detivemo-nos para saborear o farnel bem mirandês à sombra de frondoso castanheiro.
Estava um dia quente mas aprazível, do fundo da ravina chegava-nos o cantarolar duma ribeira de águas cristalinas e debruçados sobre a sinuosa estrada, braçados de florzitas brancas, parecidas com malmequeres, heroicamente agarradas às fragas e ao chão pobre, saudavam-nos gentilmente.
- E se levássemos algumas para o Canadá? - alvitrou a minha mulher, de alma amolecida pela beleza envolvente.
Dito e feito. Arrancámos alguns pés que, com mil cuidados, acomodámos num saco de plástico, juntamente com alguma terra humedecida que os sustentasse na longa viagem que os esperava.
Desconhecendo o seu nome de baptismo, acordámos chamar-lhes montesinhos, em homenagem à terra que as viu nascer. Palavra com musicalidade que quanto mais vezes a pronunciávamos mais nos agradava, o que era de bom augúrio pois todos nós sabemos como é importante recomeçar vida no estrangeiro armado dum nome que caia nas boas graças gerais.
À chegada a casa, aqui em Montreal, mesmo antes de desfazer as malas, o meu primeiro cuidado foi ir plantar os meus montesinhos no quintal.
E, não obstante a aparente fragilidade, ou não sejam eles transmontanos, resistiram corajosamente à transplantação e, mal passada uma semana, já começam a arrebitar as orelhas, espevitados pelos novos ares e pelo húmus gordo.
Por vezes sinto-me um pouco constrangido por os ter arrancado à sua liberdade selvagem e os ter aprisionado na prisão dourada do jardim mas se tiverem uma alma, como acredito que a têm todos os seres vivos, estou certo que compreenderão, tal como os leitores, as minhas pungentes e profundas razões. Para me redimir, prometo que se os montesinhos tiverem garra para resistir ao rigor do próximo inverno e proliferarem vigorosamente na primavera, irei utilisar todo o poder de persuasão ao meu alcance para convencer a vizinhança a adoptá-los e acolhê-los, por sua vez, nos seus jardins.
E se tudo correr bem e nenhum inesperado cataclismo ecológico vier impedir a sua natural propagação, é muito possível que, perdida a memória da sua origem, daqui a algumas gerações, algum desprevenido turista luso-canadiano, de viagem a Portugal à procura das suas raízes, em pleno parque natural de Montesinho, exclame admirado :
- Olha, aqui também há montesinhos, aquela flor canadiana !
E eu, se essa história da vida eterna não for uma patranha, do lugar onde estiver, não poderei reter uma gargalhada, mais uma vez divertido e surpreendido com o fascinante e sempre remoçado espectáculo da vida.



Copyright © 1997 The Portuguese Times
Autorizada a reproducão de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem


Semanário TRANSMONTANO - Praça de Camões, 12A - 2º - Apartado 91 - 5400 Chaves

Cá nada

Manuel Carvalho



Frustrados por só depararem com terras geladas e inóspitas, estaria nesta expressão de decepção dos primeiros navegadores portugueses que abordaram estas paragens a origem do nome Canadá. Fabulação ou não, está historicamente comprovado pela profusa cartografia da época e pela toponímia de origem portuguesa de vários locais, a presença dos navegadores portuguesas na Terra Nova e ao longo de toda a costa do Atlântico Norte, logo desde o início do século XVI ou mesmo ainda mais cedo, segundo a opinião de credíveis historiadores. Desde então e até aos nossos dias, a presença de frotas bacalhoeiras portuguesas ao largo da Terra-Nova sempre foi uma constante e, nos tempos em que os bancos piscatórios pareciam inesgotáveis, sendo então inimaginável a recente "guerra do bacalhau", a "White Fleet" portuguesa era, todos os anos, hospitaleiramente acolhida no porto de S.João da Terra Nova. A atestá-lo está a estátua do navegador Gaspar Corte-Real erigida no Prince Philip Drive, oferecida em 1965 pelos pescadores portugueses ao povo da Terra Nova. Menos controversa do que a historiografia de tão obscura época é a odisseia da chegada do vinho do porto a estas paragens, deslumbrante história que roça as fronteiras do maravilhoso. No outono de 1679, um barco com um carregamento de vinho do porto largou a cidade do Porto com destino a Londres. O que nessa época era corrente, a meio da viagem, foi atacado por um corsário francês a custo do qual conseguiu escapar, navegando para o alto mar. Acossado por violenta tempestade, afastou-se imenso da sua rota pelo que o capitão tomou a decisão de ir fundear em S. João da Terra Nova para reabastecimento e repouso da tripulação. Impossibilitados de prosseguir viagem devido ao rigor do inverno, só na primavera seguinte se fizeram ao mar. Finalmente, chegados a Londres, constataram, com natural espanto, que a prolongada estadia na Terra Nova tinha dado ao vinho um aroma e um sabor agradavelmente diferentes. Desde então, a companhia proprietária do carregamento passou a enviar anualmente grandes quantidades de vinho para envelhecer na Terra Nova. Assim surgiu este celebrado porto e esta espantosa lenda perpectuada nos rótulos das garrafas dos portos Newman's. Só que agora, passados tantos séculos, em nome de, acredito, justificados interesses mercantilistas, recente legislação portuguesa proibiu a exportação de vinho do Porto em barril e, por tabela, a sobrevivência do Newman's e desta lenda, estão seriamente ameaçados. Delicado problema cuja solução deveria contemplar as suas vertentes cultural e histórica. Porque nem só de rigorosos controlos de qualidade vive o imaginário humano. Afastados os bacalhoeiros e perdida esta lenda, poucos vestígios nos restarão da antiga presença lusíada nestas terras dos Corte Real.



Copyright © 1997 The Portuguese Times
Autorizada a reproducão de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem


Semanário TRANSMONTANO - Praça de Camões, 12A - 2º - Apartado 91 - 5400 Chaves