Excerto de "O Terceiro Servo"

Quando o viu no Verão seguinte, libertado muito antes do tempo por «comportamento exemplar e amnistias diversas», o sargento não se referiu ao projecto, e Miguel pensou que o perigo tivesse passado. Primeiro, porque seria muito difícil alguma vez Herculano conseguir uma editora que publicasse um livro à Nabokov — pior do que Nabokov, provavelmente muito mais explícito do que Nabokov — numa ilha que ocultava com tanto orgulho a sua devassa. Depois — e sobretudo por isto — porque ouvira falar das iniciativas do sargento na prisão, das exposições de barcos em fósforo queimado e da festa de Natal que organizara com cantigas e representações humorísticas de alguns prisioneiros. Chegara a escutar o próprio Herculano falar longa e quase missionariamente da importância da felicidade, e todas as férias o via organizar colóquios e seminários sobre direitos humanos, registando com um agrado bucólico a mudança do amigo. Aposentado compulsivamente, Herculano Cota juntou-se em poucos meses a todos os pleitos e acções possíveis e imaginários. Nunca mais falou de miúdos, não voltou a dar explicações privadas e raras vezes se deixou ver a deambular à noite pela Rua da Sé acima. Os devaneios que ainda mantivesse decorriam agora com os perigos bem medidos e na estrita discrição da sua própria casa, onde entretanto ia construindo um mundo cada vez mais privado e solitário. Cá fora, era outro: apoiou o lançamento de uma associação de alcoólicos anónimos, uniu-se aos primeiros representantes dos movimentos nacionais de combate à sida e depois ainda se dedicou aos animais, com a fundação de uma sociedade para a protecção do garajau do Porto Judeu.

Miguel dava muito pouca importância ao lado humano dos bichos — regia-se mesmo pela velha máxima de Jesus de Nazaré: «Pedro, mata e come.» Mas, a certa altura, dera por si a acreditar que, cumprida a pena, talvez ainda fosse possível ao sargento viver em paz naquela cidade. Até porque, entretanto, um candidato socialista à presidência da Câmara adoptara-o como bandeira do «combate à exclusão» e, após uma eleição confortável, entregara-lhe a direcção do Plano Arte, um longo e oneroso festival com todos os tipos de espectáculos e acções de formação para jovens aspirantes a artistas. E, quando Miguel abriu finalmente o livro, esquecendo de vez a resistência inicial a lê-lo, foi na intenção de absolver definitivamente o amigo, concluindo que, afinal, as rememorações contritas do lado infeliz do crime se haviam sobreposto à sede da represália.

Mas não. Monte Brasil era vingança, a vingança absoluta, talvez ainda mais do que isso — e, por isso mesmo, a bonança que havia rodeado a vida de Herculano entre a prisão e a morte não passara de um paciente e obstinado plano de reintegração, o longo período que o tigre dedica a ganhar a confiança da sua presa para, no momento certo, desferir-lhe o golpe fatal. Os nomes das personagens da história estavam quase todos alterados, mas não era difícil perceber quem era retratado e em que situação. Havia paneleiros do Bairro Social da Terra Chã e marafonas do Lameirinho, mas também funcionários das bibliotecas públicas e deputados à Assembleia Legislativa Regional. Ninguém escapava. O grande óbice à credibilidade, concluiu Miguel, era talvez não haver vítimas, só predadores — apesar de tudo, parecia-lhe mais lógico que fosse ao contrário, que todos fossem mais presas daquele nevoeiro sufocante do que propriamente hediondos profanadores do espírito da Criação. Mas Herculano apresentava-o como uma verdade inegável, quase um pressuposto: as próprias crianças eram deliberada e ostensivamente sedutoras, cínicas exibidoras de carne tenra e rosada, nos seus calçõezinhos curtos e mini-saias provocantes.

A acção girava em torno da relação entre o protagonista, homem de cultura e seguidor de Álvaro de Campos, e Jácome, um miúdo do Ciclo Preparatório que lhe aparecera um dia pela mão da mãe, a pedir explicações de francês. As restantes histórias eram uma espécie de ramificações desse amor proibido: políticos envolvidos com homossexuais, funcionários públicos a violar sobrinhos ou senhoras bem casadas fornicando com trolhas do Continente — todo o tipo de gente com que o par se cruzava nas suas deambulações românticas entre a rocha do Fanal, o Relvão ao pé do Castelo e as traseiras do novo parque desportivo da Carreirinha. O título, Monte Brasil, entalado entre uma gravura sóbria e a chancela da Ruptura, fora escolhido em honra do paraíso sexual cultivado sobre as quatro montanhas arenosas e sobranceiras que a fúria dos elementos adicionara à cidade, para lá do Relvão.

Durante algum tempo, Miguel ainda conseguiu embebedar-se de repulsa, recuperar um pouco aquele sentimento de desprezo que o havia invadido nove anos antes, em resposta à vergonha e ao medo exibidos pelo sargento durante o julgamento. Tudo aquilo era nojento: a descrição detalhada da sedução de um inocente, os pormenores escabrosos da penetração, o relato deleitado da forma como o próprio corpo da criança ia, paulatinamente, substituindo a dor pelo prazer... E depois as confidências lúdicas com outros conquistadores da inocência, a narração regozijada de rituais profanos aos fins-de-semana, a forma desprendida como, no final, o explicador simplesmente se apaixonava por outra criança, abandonando mais uma presa às escolas especiais e à desgraça...

Jácome era obviamente Hugo Marto, um sobrinho do presidente da Câmara que poucos anos antes fizera fama no país inteiro em festivais de música infantil, com uma canção escrita pelo tio em homenagem à escola e ao desejo de aprender — chegara a ir a um programa da televisão italiana, embora sem grande êxito classificativo. Era caracterizado ao mais pequeno pormenor, do enorme sinal no joelho direito, «com a forma do mapa de Angola», aos dentes brancos que se revelavam no «sorriso provocador que exibia ao fim de quinze minutos a conjugar verbos franceses». Depois vinham os relatos detalhados dos longos passeios de luxúria, dos encontros ocasionais com os outros predadores e do cinismo exibido pelos dois amantes perante a mãe preocupada com a evolução do miúdo na disciplina de francês.

A par do nojo, Miguel começou ainda por desenvolver um certo desdém por aquela forma fácil e frívola de escrever: a adjectivação fecunda misturada com conclusões primárias, a brevidade excessiva dos ambientes em contraste com a descrição exagerada das acções. Mas, depois, deixou-se possuir por um ciúme imenso, uma profunda inveja pela simples existência do livro. Era óbvio que o romance estava na génese da morte do sargento, que o assassinato fora o epílogo da sucessão de vinganças ocorrida desde que o tal presidente da Junta decidira avançar com queixas e denúncias nos tribunais. Mas isso só ajudava a realçar o carácter imortal do livro, como se tudo não passasse da trágica voragem do artista por uma obra que ganhara vida própria e se libertara da sua esfera. Era asqueroso e, de facto, estava particularmente mal escrito. Como em tantas outras ocasiões na vida, no entanto, Herculano provava-lhe que, mais do que a eterna frustração perante a incapacidade de fazer melhor do que todos os outros, o importante era fazer alguma coisa. Havia-se debatido com todo o tipo de obstáculos, mas conseguira defender a sua obra, chegando ao ponto de seduzir uma editora do Continente para promover uma publicação que, nos Açores, toda a gente lhe havia negado. E talvez fosse essa, concluiu Miguel, a grande lição que aprendera com o sargento, a razão mais profunda daquela saudade que agora o consumia.