“Já não fazia sentido que crescêssemos”
(escrito da juventude, inédito)

 © Joel Neto

  1

<MIGUEL>No princípio, era uma espécie de confrontação obstinada e sofrida do sistema. Costumo chamar-lhe assim. Tinha horror a computadores e sentia orgulho nisso. O Pedro passava a vida a chatear-me a cabeça: que não podia fechar os olhos à evolução, que tinha de reciclar-me constantemente, que um dia estaria perigosamente desactualizado... Eu ia-o ouvindo com paciência e com revolta. Percebia a boa vontade dele, mas a ideia violava-me a inteligência.

 

Porque eu era o melhor. Oh, eu era o melhor... Aviava calhamaços de setecentas páginas em menos de um fósforo e ainda tinha tempo de lhes introduzir um toque pessoal. Sabia que ninguém reparava nos nomes dos tradutores, mas mantinha a esperança de que um dia me fizessem justiça. E era tão fácil ser o melhor... Era tão simples bater aqueles tipos cheios de família...

 

Bom moço, o Pedro. Mas não mais do que isso.

 

<SUSANA>Acho que não vi problema nascer. É verdade. Eu estava tão embrenhada nas questões da empresa, tão preocupada a planear um filho, tão ocupada a controlar os saldos bancários... Nós vivíamos bem, não havia razões para preocupações. Mas – o que quer? – era uma questão de educação. Sempre aprendi a ver cada dia como uma concessão de Deus e uma tentação do diabo. Precisava de cuidar da vida, era uma necessidade...

 

Fazíamos sexo cada vez menos regularmente, é verdade, mas não via por que atribuir-lhe grande importância. Estávamos mergulhados no trabalho, pronto. Íamo-nos amando com o olhar, com um sorriso que num último momento fugia do rosto cansado de mais um dia. Amávamo-nos ainda, amar-nos-íamos sempre. E, quando ele voltava da editora e me aconchegava na cama, ainda o sentia próximo de mim...

 

Estava tranquila. Embora hoje seja mais lógico dizer que estava descansada.

 

<PEDRO>A Susana? Amava-o. Sim, era uma burocratazinha ressabiada, uma escolástica presa por arames, mas uma mulher dedicadíssima ao seu artista privado, ao pobre viajante a quem tinha a obrigação de fazer regressar ciclicamente à terra. Amava-o e, sobretudo, admirava-o imenso. É importante que não fiquem dúvidas sobre isso.

 

<MIGUEL>Escolhi <Antero> porque queria ser diferente. Bem, primeiro queria ser açoriano, depois diferente. E superior, talvez. O que não era fácil. Tinha de ser diferente apenas o quanto-baste para ser superior em absoluto. Era a tal história do charme discreto.

 

<CARLOS>Diferente. Era isso exactamente o que ele era, o que ele procurava ser. Questionava-se muito pouco sobre se era para melhor ou para pior. Ser diferente era já um valor em si próprio.

 

<MIGUEL>Lembro-me de que Antero me marcou particularmente, na secundária. Eu era uma daqueles “nerds” armados em proscritos, a culpar o mundo pela incapacidade de dizer bom dia a uma rapariga sem, logo a seguir, traçar-lhe a perna. Jogava à bola o dia inteiro, cuspia para o chão e decorava frases lapidares.

 

Um dia, o professor de português pediu-nos que estabelecêssemos uma ponte entre a poesia de Antero de Quental e a figura do Papa, que dias depois iria à Terceira, por onde se passearia num carro blindado e a dizer adeus. Foi a catarse. O título roubei-o à teoria do kitsch de Kundera: “A negação absoluta da merda”. O verso de referência de Quental era “O manto de casta luz das crenças para esconder as trevas da miséria”. Era fácil de mais. Excomunguei as frustrações, num esgar de ódio...

 

<MANUELA>O Miguel? Miguel Barão? Lembro-me, claro. Olhe, encontrei-o há uns tempos no mIRC, num canal qualquer. Continua irritante. Disse-lhe que continuava a faltar-lhe a modéstia, e foi o fim: desatou um discurso interminável sobre como a modéstia era uma estupidez sem utilidade e como só a humildade interessava – e mesmo assim de forma controlada. As frases sucediam-se a um ritmo frenético, o computador parecia explodir...

 

<MIGUEL>A Manuela? Ihhh... Onde você foi...

 

<MANUELA>“A modéstia é o esmalte de mediocridade”. Até decorei a frase. Ele estava a dizer-me que era o melhor no que fazia e eu, pimba, vai de acusá-lo. Uma pessoa diz as coisas assim, sei lá... O Miguel estimulava-nos esse lado crítico, sentíamo-nos com vontade de o satirizar, de o agredir. Tinha alguma coisa de frágil.

 

Ele ia repetindo: “Mesmo a humildade é só um modo de vida, não uma declaração de princípios”. Acho que era mais ou menos assim. “É preciso estar sempre pronto a aprender com quem sabe mais. Mas de nada nos serve estar a fingir uma debilidade mental que, na verdade, temos orgulho em constatar interiormente que não existe”.

 

Tem qualquer coisa de especial, o Miguel. Naquele dia, achei que esperar que crescesse já não fazia sentido... Já não fazia sentido que crescesse.

 

<PEDRO>Crescer? Boa pergunta. É interessante que coloque a questão assim a frio... Olhe, não sei responder. É um cliché dizer que ele é muito maior do que todos nós juntos...

 

<MIGUEL>Não sei, sentia-me estranho perante o mundo, perante a vida. Acho que é esse impulso que distingue as pessoas inteligentes das pessoas felizes. Se cinco anos antes me dissessem que agora teria casa, carro, trezentos contos por mês, respeito dos amigos e ódio dos inimigos, se calhar ficaria radiante. Mas não era isso, sei lá...

 

A Susana? A Susana sabia lá...

 

<PEDRO>Primeiro, achei que era normal. Aquele tipo de fascínio inicial acontece com toda a gente e, para mais, tudo no Miguel é assim: intenso, sofrido. Ele haveria de fartar-se. Quer dizer, passar a ver a coisa como um instrumento, mais do que como uma alternativa de vida.

 

<CARLOS>E talvez tenha mesmo passado. Mas, claro, já tinha deixado atrás de si o habitual rasto de destruição...

 

O Pedro gosta muito dizer que ele foi a maior vítima. Claro. O Miguel é aquilo que o Pedro sempre pensou que queria ser... Mas, olhe, eu lamentei desde o início foi pela Susana. Não devia ser fácil viver com um tipo assim. É um grande amigo, o Miguel. Mas muito difícil. É uma alma atormentada, sempre um pouco mais atormentada do que em cada altura pensamos...

 

<PEDRO>Bem, o Carlos não é propriamente a pessoa ideal para falar sobre o Miguel, não é...?

 

<SUSANA>Ele andava a tentar escrever, mas aparentemente não conseguia. Dizia que não articulava duas ideias, queixava-se a toda a hora. Eu até gostava do que ele escrevia, sinceramente. Mas ele, nada. Dizia que tinha lido tudo, que não havia nada por inventar. E entrava em depressão. Uma depressão agridoce, com mimetizações destrambelhadas seguidas de sorrisos irónicos, mas uma depressão.

 

Talvez fosse só demasiado exigente com ele próprio. Tinha dificuldade em dizer uma banalidade, não sei... Sentia que cada pequeno acto seu tinha de ser compreendido em referência a um princípio universal, eterno, apenas acessível aos homens comuns no dia do juízo final, como uma revelação. E sofria imenso com isso, percebo agora.

 

<MIGUEL>Juízo final?! Livra, onde isso vai...

 

<SUSANA>Só que no início não parecia, a sério... Aparentemente, limitava-se a dramatizar questões banais, inventava conspirações dos deuses em pequenos equívocos de que eu nem me apercebia – e momentos depois estava tudo bem... Acho que, no fundo, só era capaz de manusear as sensações que dominava verdadeiramente. Penso mesmo que transportava à transcendêcia o pequeno drama familiar para poder ignorar o facto de ainda não ter resolvido o mistério da sua própria existência.

 

Não sei, só tenho pensado bastante nisso nos últimos tempos... Mas acho que a vida dele tinha necessariamente de conter uma interrogação. E que, por medo de mistério maior, tinha de lançar fogo de artifício em torno dos pequenos imponderáveis.

 

Não sei se me estou a explicar bem – estou?...

 

<DEOLINDA>Ah, o Miguel... Foi o melhor aluno que tive, provavelmente. Quando estava no décimo ano, ganhou umas olimpíadas de ortografia e gramática a nível regional. Na prova final, apenas cometeu um erro, só que grosseiríssimo. Escreveu  “através” com “z” no final...

 

<MANUELA>A sua Madame Bovary, ah ah! Lembro-me...

 

<DEOLINDA>... Disse na altura que o exame era a sua Madame Bovary, e que só um defeito lhe sublinharia a perfeição. Não sei se fizera de propósito, talvez tivesse sido mesmo uma distracção. Mas ele tinha esse poder de nos surpreender com a resposta mais inteligente e charmosa, tendo em conta que se tratava de crianças de quinze anos.

 

Era um desconstrutivista, mesmo sendo também a pessoa mais tímida que conheci, com enormes dificuldades em fixar o olhar. Os miúdos odiavam-no por isso – por isso e por toda a arrogância que ostentava. Eu dei-lhe 19 e odiei-me foi a mim própria: guardei talvez o único 20 que podia ter dado na vida.

 

<MIGUEL>Eu sempre tive o fascínio do pub irlandês. Talvez não fizesse já sentido trocar ideias, mas aqueles lamentos sobrepostos de final de tarde, aquela partilha envernizada de quem queria destronar o sistema sem desperdiçar o que de bom ele podia oferecer – tudo assumia para mim um carácter simultaneamente bravo e decadente, como convém aos artistas. Talvez ninguém o fizesse já, nem sequer em Dublin, sei lá... Mas a conversa era, para mim, a única forma de agir sobre a realidade, de fazê-la reagir – mesmo que essa realidade fosse alternativa, que na verdade nunca tivesse existido, como a de Joyce. E o mIRC era uma espécie de pub irlandês dos tempos modernos...

 

<PEDRO>O mIRC é mas é uma espécie de nave de cemitério aos domingos de manhã, uma espécie de traseiras de supermercado à meia-noite: uma zona franca de mulheres, onde tudo é permitido e nada verdadeiramente perdura. O Miguel, se conseguir ser honesto consigo, há-de reconhecer isso...

 

<MIGUEL>Não... O que me agradava era a forma como as maiores asneiras se dissolviam em goles sôfregos e as grandes genialidades se ensopavam em brindes de desagravo. Não digo que nunca tenha deixado seduzir-me por alguma mulher em que tropeçasse, claro. Mas o que me agradava era dizer tudo, em última análise protegido pelo anonimato e pela distância. Por muito pueril que já fosse a própria vida em Lisboa, o mIRC ultrapassava todos os limites...

 

<PEDRO>Olhe, tenho aí um parágrafo a partir da qual o Miguel pretendia escrever uma história sobre o mIRC. Penso que não se importará que lha mostre. Humm, está aqui: “Proscritos, os eunucos e as prostitutas construíram hoje uma nova sociedade, um sórdido modo de vida onde a beleza está na solidão das rochas e na distância do tempo.” É isso.

 

<MIGUEL>Bem, eunucos e prostitutas... É uma imagem, está a ver...? O essencial é a marginalidade, percebe?

 

<MANUELA>Ouça, mas estamos a falar do quê, aqui? A história da vida do Miguel teve um fim trágico, foi? Mas quem esperava outra coisa?! Isso era quase uma obrigação dele para connosco...

Já falaram com a professora Deolinda?...

 

2

 

<PEDRO>A primeira vez que ele faltou com um trabalho foi mais ou menos na altura em que me pedira informações sobre programas de conversação. Perguntei-lhe para que queria ele programas de conversação. Para pesquisar, explicou. Para recolher personagens para as suas histórias.

 

Não fiquei muito convencido, mas lá lhe expliquei como obter os chats. Não andávamos com as melhores relações nessa altura, percebe?... Ele tinha um projecto mirabolante que queria apresentar ao editor e eu fora incumbido por este de lhe tirar a ideia da cabeça. Custava-me, mas lá andava a adiar sucessivamente as reuniões, a inventar ausências do Alvernaz no estrangeiro...

 

No fundo, também era para bem dele, porque um projecto mal defendido era sinal de despedimento a médio prazo. Mas ele sabia bem como eu me pelava por fazer a vontade à empresa. E ele saber isso era como se, de repente, toda aquela subserviência se tornasse verdadeira – e vergonhosa.

 

<MIGUEL>Nos primeiros dias, fascinei-me quanto-baste com uns passeios, uma espécie de navegação à vista. Memorizei alguns endereços de editoras e jornais, pesquisei sobre espectáculos e viagens, juntei o nome a causas humanitárias e até passeei num táxi em Nova Iorque – um maluco qualquer tinha instalado uma câmara no carro, imagine lá... Só que, depois, já não me chegava, faltava aquele elemento de interactividade, algo que me tornasse também um actor da realidade, percebe? E apareceram os programas de conversação. Primeiro o ICQ, de que me falara o Pedro, e finalmente o mIRC, que era bastante menos complicado de operar.

 

<SUSANA>Isto foi em Março – não foi, Carlos?... Houve uma noite em que ele andava inquieto, a recortar em frenesi os jornais do dia, a mudar febrilmente os canais da televisão, a lamentar-se, a protestar contra tudo... Tinha sido convidado para trabalhar noutra editora, com um melhor salário e um horário bem mais liberal, que era exactamente aquilo que sempre dissera desejar. Só que, agora, estava absolutamente irritado com o facto de, no seu íntimo, querer um horário “bem mais liberal”.

 

Primeiro, explicou que essa faculdade era, na verdade, o maior dos embustes, porque não ter horário significa sempre trabalhar mais, nunca menos. Depois, foi finalmente ao assunto: achava que o desejo interior de trabalhar menos era uma traição a ele próprio. Ele era um tradutor, com um caramba! Tinha uma responsabilidade, muita gente dependia dele... E, agora, concluía que era um mau profissional, um funcionário público desejoso de ficar o dia inteiro de braços cruzados. “Uma merda de um homem”, ia repetindo.

 

<DEOLINDA>Sabe, eu achava que ele tinha medo de ser feliz. Uma vez, veio pedir-me que lhe lesse um texto que ia entregar ao Diário Insular, para a página de opinião. Falava novamente do Antero e do Papa – tenho-o aí em algum sítio. Mas a questão não é essa. É que, depois de semanas a planear o raio da ida ao jornal, com discursos preparados para todo o tipo de situações, chegou-me com a conversa de que o Diário Insular era um pasquim, de que ninguém lhe ia ler o texto...

 

Era uma coisa estranha. Era como se, tendo sonhado ser escritor durante toda a adolescência, concluísse afinal que o próprio papel acabaria por trair todos os seus esforços. Ele não podia ter concluído, terminada a obra, que o simples acto de a construir era na verdade mais importante do que a sua divulgação. Talvez chegasse um dia a esse entendimento, mas naquela altura não tinha idade para isso, percebe? Estou convencida de que tinha era medo de ser feliz! Como se ser feliz fosse pecado, uma secreta traição ao seu próprio destino...

 

<SUSANA>Não, mas ele também não gostava de coisas fáceis... Vamos lá a ver: nem tudo era paranóia, não confundamos as coisas. A questão é que ele não conseguia chegar a casa sem sentir que conquistara alguma coisa de novo nesse dia, que avançara mais um passo em direcção à plenitude. Até podia ser uma coisa pequena, um filme que tivesse visto, uma conversa que tivesse tido, um olhar com que se tivesse cruzado... Mas normalmente era o trabalho. E tinha de sentir que, por cada pequeno passo que dava em direcção à plenitude, havia igualmente sacrificado uma gota de sangue, um neurónio...

 

<CARLOS>Era como um jogador de futebol que comia a relva, como se costuma dizer, ah ah.

 

<SUSANA>... não sei explicar bem. E tu pára... Já passámos essa fase, não?

 

<MIGUEL>Olha, Susana, essa história da eternidade... Eh, pá, não sei...

 

<DEOLINDA>Ah, sim, eu dizia que ele era um calvinista típico. Chamava-lhe “o meu pequeno Calvino” – e ele ia aos arames. Gostava de provocá-lo... Mas tinha de facto esse impulso interior de sofrer muito para conquistar um lugar no céu. Não era uma coisa expressa, ia-se percebendo. Ele dizia-se “absolutamente ateu”, mas depois tinha essa profunda religiosidade, que eu nunca percebi bem de onde lhe vinha: entrar no grupo dos eleitos exigia necessariamente perder alguma coisa importante ao longo do caminho.

 

<MANUELA>Ih, ele ficava fulo quando lhe chamavam Calvino... Está a ver: a professora satiriza, satirizamos todos... Dizia logo que, a identificar-se com alguma coisa, até era com o catolicismo, que na verdade era apenas um sistema político e deixava as coisas do espírito ao cuidado de quem verdadeiramente as conhece. Era mais ou menos isto, acho eu... Já na altura tinha jeito para as citações...

 

<DEOLINDA>Não se esqueçam de ouvir uma moça – bem, hoje já não será assim tão moça – chamada Manuela Gorgita. Tinha uma paixão por ele...

 

<MANUELA>Paixão?! Oh...

 

<PEDRO>Depois, começou a faltar com frequência ao serviço. O Alvernaz ia aguentando, dizia que ele estava “mesmo doente” e que era preciso ter paciência. Mas eu via as coisas mal paradas. Cheguei a falar com a Susana sobre isso...

 

Deve ter sido nessa altura que as coisas deixaram de ser “uma espécie de confrontação obstinada e sofrida do sistema”, como ele sempre gostou de dizer. Passaram a ser um vício e, mais tarde, uma obsessão. E, quando ele acordasse, já teria provavelmente perdido tudo.

 

<MIGUEL>Tanto quanto me interessava, essa <Beija-flor> era apenas mais uma jovem à procura de companhia. Depois das duas da manhã havia, acima de tudo, três tipos de “nicks” para mulheres – se calhar só há mesmo três tipos de mulheres... Primeiro, havia “nicks” como Gatona, <Loverwoman>, <Morena> ou simplesmente <Mulher>, que representavam normalmente os fogos-de-vista, mulheres batidas a tentar a todo o custo segurar uma frescura que sabem estar já no final, verdadeiras teasers virtuais que não aprofundavam nenhuma conversa e ficavam eternamente a espera de um elogio à sua beleza; depois havia “nicks” como <Eneida>, <Dulcineia>, <Florbela> ou mesmo <Madalena>, normalmente utilizados pelas trintonas gordas e divorciadas, armadas a intelectuais emancipadas, que te levavam o mais depressa possível para um pvt e haviam de arranjar maneira de seres tu a pedir-lhes o número de telemóvel; e os “nicks” que combinavam elementos e imagens doces, como <Sete_Luas>, <Papoila>, <Caciopeia> ou o tal <Beija-flor> – e essas eram sobretudo as jovens solitárias e incompreendidas a quem os homens negavam apreço, moças encantadas que passavam a vida a ver telenovelas mas mantinham uma certa frescura, talvez até alguma inocência.

 

Depois ainda havia uns “nicks” menores, como os <Spice_Girl> ou <Barbie_Girl>, mas esses eram habitualmente de miúdas que premiam as teclas devagarinho porque, a qualquer momento, a mãe podia surgir à porta a mandar dormir. E isto já era doçura a mais, não é...?

 

<SUSANA>Não faço a mínima ideia. Acho que era de uma telenovela, porquê? Achei giro, <Beija-flor>...

 

<MIGUEL>Nem me lembro exactamente do que começámos a falar. Só sei que ela não veio com a conversa habitual, cheia de chavões e siglas: “Oi, dd tc?”, ou “a/s/l?” – que querem respectivamente dizer “Oi, de onde teclas” e “Age, sex, location?”. Se viesse, tinha-a mandado logo passear. Eu conseguia ser absolutamente asqueroso, quando queria. Sobretudo quando as pálpebras começavam a pesar.

 

<CARLOS>Acho que foi o pior período da vida dela. Tínhamos vindo a desenvolver uma certa amizade nos meses anteriores e, de repente, pareceu que tinha partido para outro mundo, deixou de me telefonar em lágrimas... Nunca cheguei a perceber bem, mas acho que se reapaixonou por ele. Não era bem por ele, era talvez por uma imagem dele, uma nova imagem dele. Ou se calhar era mesmo por ele – e então era o Miguel que ela conhecia que de facto não existia, o que na verdade era o mesmo tipo de traição.

 

Era uma coisa estranhíssima. De repente, todas as queixas  que costumava fazer-me dele, da sua insensibilidade e da sua ausência foram sendo substituídas por pequenas palavras de apreço, por um certo paternalismo. Depois, já não conseguia viver sem uma visita diária ao raio da internet.

 

Eh pá, não sei... Se calhar, era como se ela fosse culpada de tudo, de toda a dita “miséria” dele. Era estranhíssimo. Até parece que não tinha já havido a história da <Papoila>...

 

3

 

<SUSANA>O Carlos é que me disse que ele era o <Antero>. Eu não percebia nada daquilo. Andei duas horas só para conseguir conectar-me, depois tive dificuldade em encontrar o tal canal de poesia... Cheguei a chamar a Sofia, porque ela é que sabia um pouco daquelas coisas.

 

<SOFIA>A história da Susana e do Miguel na internet... Sinceramente? Acho que foi a mais bonita história de amor que alguma vez vi. É isso...

 

<CARLOS>História de amor o tanas! Ele fez com ela o mesmo que tinha feito com todas as outras. Eu conhecia a peça, ele sabia todos os truques. Sabia perfeitamente o que uma mulher gostava de ouvir em cada momento.

 

Se quer mesmo saber, era assim: primeiro, ele era o gozador desapegado da vida, o homem que as desafiava a percorrer a mundo de helicóptero, lançando napalm e rindo dos corpos que ardiam. Era nessa altura que vinha com aquele tipo de conversas como as da modéstia e da humildade, de que você falou há bocadinho. Elas sentiam-se vilipendiadas, mas logo a seguir ficavam fascinadas com aquela frivolidade e aquela alegria conturbada de quem na verdade sabe tudo, mas acha que partilhá-lo dá demasiado trabalho.

 

Depois, havia o plano de contingência. Havia aquelas mais sabidonas que já conheciam a técnica – ou que simplesmente o consideravam o miúdo malcriado e sem consciência –, e era então que vinha ao de cima o artista esmagado, o coração traído que compreendera a absoluta inutilidade da revolta. E isso desafiava-as a recuperarem-no para a vida, a estimularem a revolta dele. Tornava-as no catalisador dessa revolta e, portanto, cúmplices dela.

 

Emancipação o caraças! Sabe aquele provérbio “Por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher”? Foi inventado por elas. Esse é o maior sonho de qualquer mulher, não tenha dúvidas. E o gajo sabia disso, o sacana. Não foi só no mIRC que utilizou a técnica...

 

<MIGUEL>Do Carlos prefiro não falar. É um oportunista, pronto. É tudo.

 

<CARLOS>Oportunista? Está bem... Eu é que sei. Pergunte-lhe pela Ângela, pergunte-lhe pela Vanda... Olhe, mesmo antes desta história da net! Pergunte-lhe pela Sónia, pela Isabel, pela Manuela... Para não falar na <Papoila>, que ele quase conseguiu destruir...

 

<MANUELA>Eu?! Livra... Foi ele que contou, não? O gabarolas...

 

Sim, tivemos um pequeno “affaire” – digamos assim. Ele já namorava com a mulher. Não foi nada de especial, na verdade. Ele vinha com a conversa de que tinha uma relação ridícula, de que ninguém em Lisboa na verdade lhe podia dar aquilo que ele precisava... E eu entrei no jogo. Sei lá, já era uma mulher emancipada nessa altura – e ele representava, apesar de tudo, aquilo que todos nós um dia sonháramos para nós próprios: o artista que abandonara a ilha para tentar a vida no continente. Não ficaram marcas em nenhum de nós, garanto-lhe.

 

Ele é que tinha um medo terrível. Dormimos juntos três ou quatro vezes e, a certa altura, comecei a vê-lo a afastar-se, a afastar-se. Vinha na mesma, mas depois estava distante, frio... Eu percebi logo, só que quis que sofresse um pouco, sei lá. Nunca o ameacei, mas ele tinha um pavor de morte a que se soubesse. Como se o facto de se saber agravasse a culpa dele.

 

Porque o medo dele não era perder a namorada – ou a mulher. Sim!... Ele falava nisso, dizia que ela era a única que alguma vez o conseguiria aturar, mas depois descaía-se. Na verdade, ele tinha era medo de que, sabendo das suas traições, ela cometesse algum acto desesperado.

 

Pobre coitado... Ele pensava mesmo que ela não sabia, que os seus pecadinhos das férias –as suas “recauchutagens espirituais”, como ele lhe chamava – nunca chegariam a Lisboa. Lisboa e os Açores estão a um passinho, e só quem faz este caminho muitas vezes ainda pensa que ele é grande.

 

<SUSANA>Se eu sabia que ele me traía...? Hum, é uma pergunta difícil. Digamos que sabia que ele precisava de viver todos os dias, sabia que não havia forma de controlar o seu impulso de experimentar... Mas também sabia que, de cada vez que prevaricasse, ele voltaria para casa amando-me mais.

 

<MIGUEL>Não sei. Mas, olhe, dou-lhe um exemplo: às vezes, nos raros momentos de harmonia conjugal, estávamos a ver um filme sentados no sofá e eu acariciava-a sempre que havia uma cena sobre traição. Sei lá, o protagonista era descoberto pela filha em estranhas confidências nocturnas com uma bela mulher, e eu vá de passar-lhe a mão no rosto, de beijar-lhe a testa... Não sei... Eu só o percebia mais tarde, mas ela quase de certeza o percebera desde o início.

 

<SUSANA>É estranho, não sei explicar bem... Primeiro, eu não imaginava que ele de facto dormisse com outras mulheres. Quer dizer, não visualizava o pénis dele a penetrá-las, não o imaginava em estertor no momento do orgasmo. Agora que penso nisso, não sei se era auto-sugestão... Em todo o caso, estava convicta de que ele voltava para mim mais limpo do que antes...

 

Percebe o que quero dizer? Você também é mulher...

 

<MIGUEL>A fidelidade? A fidelidade é um estado de espírito...

 

<CARLOS>... tal como tudo o que não existe! Esse gajo adora frases feitas, livra.

 

<MIGUEL>Não tinha nada a ver com infidelidade, porra. Veja a relação dela com o Carlos, cheia de compromissos medíocres, de convenções mesquinhas... O tipo não vai a lado nenhum sem ela, é verdade, mas ser-lhe-á mais fiel do que eu era? Um dia vai fazer-lhe muito mais mal do que eu lhe fiz. Porque, então, ela vai compreender que passou uma vida inteira a viver a vida dos outros, a viver a vida que os outros queriam que ela vivesse.

 

A Susana é uma mulher inteligente, que precisa de experimentar. Talvez não o saiba, mas ela precisa de transgredir. Ela percebeu muito depressa que aquela ausência de rostos era também uma forma de nos vermos a nós próprios. E, se foi preciso eu assumir o papel de mau da fita para a libertar das cadeias, então tudo está bem.

 

Sabe o que eu costumo dizer? Venha aqui à janela... Está a ver aquela nuvem que parece um alguidar, ali ao longe? Está a dois mil metros do solo. Pois Deus está a dois milhões. Não é Deus no sentido de Jeová, que eu sou ateu... É a eternidade. A Eternidade está a dois milhões de metros de nós. Ela olha-nos tranquilamente dali de cima, e para ela somos apenas mais um. O que interessam na verdade os nossos pequenos dramas familiares para a ordem que ela procura? Mas a Susana morreu?!... Nem sequer isso! Então, pronto, está tudo bem.

 

<ROBERTA>Pois, foi precisamente isso que eu vi nele. Havia aquela revolta interior, aquele animal escondido que parecia apenas à espera de que o mundo se distraísse um pouco para, de repente, abrir a boca e devorá-lo. Por momentos, pensei que ele era de facto muito grande, um iluminado... Gozava com Deus e o Diabo, mas depois tinha-lhes um enorme respeito, como se soubesse que eram adversários dignos, que lhe garantiriam uma batalha difícil. Chamava-lhes “A Eternidade” – já lhe falou nisso? E, interiormente, achava que a sua glória viria precisamente do facto de perder a batalha com ela...

 

Depois, fui arrefecendo, fui percebendo pequenas incoerências, descobrindo um homem cada vez mais banal. Talvez até fosse deliberado da parte dele, como se quisesse desligar-se de mim precisamente através da revelação da sua mediocridade. Os homens fazem muito isso: seduzem-nos, usam-nos e depois fazem tudo para destruir a própria imagem, para poderem voltar descansados para as mulheres ou para as namoradas. São uns fracos, na verdade. Só que estão convictos de que essa fraqueza é fingida, de que a inventaram apenas para se livrarem de nós quando muito bem entendessem.

 

<MANUELA>Ele não dizia que gostava de mudar de opinião todos os dias? Pois aí tem!... Todos os dias queria aprender uma coisa nova que lhe reorganizasse o mundo diante dos olhos. “A coerência é o mais estúpido dos valores”, explicava. Enfim...

 

<SUSANA>A Roberta é a Dulcineia, certo? Pois, eu conheci-a, era a operadora do #Poemas. Coitada, sofria com o <Antero>... Ele destruía-lhe aquilo tudo. Às vezes eu já lá estava, porque entretanto ele fechara-se no escritório, a escrever ou a fazer recortes. Ele chegava e dizia logo: “Acabou o sossego”. Havia imediatamente dois ou três que saíam do canal. Os outros ficavam e continuavam a debitar a poesia deles, mas a certa altura parecia que iam buscar os melhores poemas, citavam os melhores autores, faziam tudo para impressioná-lo.

 

Às vezes ele fazia um elogio, mas era apenas para manter a credibilidade do personagem. Na maior parte das circunstâncias, respondia uma obscenidade qualquer, do tipo: “Esse gajo matou-se, pá. Se gostas tanto disso, porque é que não te vais matar também?”. Acredite que não houve uma única vez em que alguém se lembrasse de perguntar a mesma coisa em relação ao nick dele... A mim, isso pareceu-me de alguma forma provar que ele tinha de facto razão.

 

<CATARINA>O que é que ele tinha de especial? Boa pergunta. Sei lá... Eu chamava-me <Papoila> e, um dia, vem um tipo chamado <Antero> que me pergunta simplesmente: “Posso sugar-te o ópio?”. Percebe?... Não tem nada de especial... Só que, não sei, uma pessoa queria ver o que é que ia sair dali. Um rapaz banal tinha perguntado: “Posso cheirar-te, minha flor?” Sei lá... Mesmo que fizesse a associação do ópio, tinha pedido para “fumar” o meu ópio – o ópio fuma-se, não é? Ele ia mais fundo: queria sugar-me, levar tudo de mim! Percebe?...

 

<SUSANA>A maior parte do tempo gozava com tudo, dizia-se “o agent provocateur do canal”, auto-intitutava-se “o coro grego oficial”, o “enfant térrible”... Chegava ao ponto de satirizar também aqueles que, por serem mais novos ou volúveis, mais influenciáveis, a certa altura também se punham a gozar com os poemas. Os moços estavam a dizer alguma brincadeira cândida, em tom de quem atira barro à parede, à espera da sua solidariedade, e ele cortava logo: “Leia poesia, se faz favor. Não seja tolinho...

 

Era terrível, e ninguém parecia gostar dele. Mas, quando estava mais de três dias sem aparecer, já o recebiam como quem via Nosso Senhor, apaparicavam-no todo...

 

<ROBERTA>“Mais fundo”, diz ela? Essa moça enterneceu-se desde o primeiro minuto... E ele encantava-as era com aquele charme discreto de quem não percebia nada do programa, de quem não dominava a linguagem, de quem viajava ocasionalmente depois de um dia a fazer coisas muito mais interessantes mas também muito mais cansativas e, portanto, precisava de alienar-se um pouco à noite... A <Papoila> era conhecida pela sua atitude doce e passava a vida a perguntar-lhes que tipo de animal seriam elas caso não fossem gente. O Miguel disse-lhe que seria um leão de circo e ela caiu redonda, pronto.

 

<CATARINA>Não sei, acho que isso diz alguma coisa sobre as pessoas. Você, por exemplo, que tipo de animal é?

 

<MIGUEL>Nunca cheguei a ver pessoalmente alguém que tivesse conhecido na net. A sério. Cruzei-me com alguns amigos – olhe, conversei bastantes vezes com o Pedro – e depois falei com a Susana, embora muito tempo sem saber de quem se tratava. Mas ver alguém após conhecê-la ao computador, não. Troquei mensagens com muita gente, com muitas mulheres, mas nunca as vi. Não quis, pronto.

 

<ROBERTA>Ele não usava os símbolos nem as siglas do mIRC. Conhece-os, não? Aquelas coisas com os dois pontos a fazerem de olhinhos, com os parêntesis a imitarem sorrisos ou expressões de tristeza, os “lol” a significarem “laughing out loud”, os “ppl” a fazerem de “people”, como quem diz “pessoal”... E o facto de não os usar, essa superioridade imensa de não os usar, é que as encantava.

 

<CATARINA>Isso não é verdade. Um dia, ele até inventou um símbolo, com dois pontos e um fecha aspas, como quem está a fazer beicinho. Era um querido...

 

<MIGUEL>A minha vantagem na net, se é que tive uma, foi ser bom no segundo momento da reflexão. Eu penso bem, mas penso devagar, e o mIRC fornecia-me essa vantagem imensa de poder falar três ou quatro segundos depois da deixa do interlocutor. Porque ao vivo sou péssimo, sou a pessoa menos expontânea do mundo. Às vezes, gosto de pensar que é porque prefiro não arriscar dizer uma banalidade, porque odeio a esperteza saloia e jamais me perdoaria uma trivialidade impertinente. Mas, no fundo, acho que tenho alguma inveja daqueles tipos vivaços que têm sempre uma resposta da ponta da língua. Olhe, dou-lhe um exemplo: ainda no outro dia fui jantar com uns amigos do Porto, de sotaque lânguido e resposta pronta. Pedi uma garrafa de água e diz logo um: “Água? Mas ainda agora labámos as mãos...”; e responde o outro, erguendo o pires de joaquinzinhos que trouxera o empregado: “Oh pá, é para fazer um aquário...” Isso sempre invejei, essa capacidade de desmontar num sopro qualquer constrangimento.

 

<PEDRO>Fazer beicinho? Ih ih, o tipo é tramado. Sabe-a toda... De facto, ele falou-me nessa Catarina. Acho que ainda trabalhava na editora, nessa altura. Penso que era brasileira, enviava-lhe cartas com beijos de bâton e cabelos cortados para a empresa... É claro que nem sempre é preciso haver amor para que haja uma grande história de amor. Mas no caso tratava-se de uma miúda, penso eu. Acho que não teve muita importância...

 

<MIGUEL>Quer mesmo saber porque é que eu lá ia? Olhe, sei lá... Era a tal confrontação obstinada do sistema, acho eu... E encontrei alguns personagens interessantes, que um dia quero utilizar.

 

4

 

<SUSANA>Na primeira vez que nos encontrámos, ficámos a falar até de manhã...

 

<SOFIA>Era uma estupidez. Ele tinha deixado de viver em sociedade e, agora, ela ia fazer a mesma coisa...

 

<MIGUEL>Viver em sociedade é ouvir um assobio na rua e não torcer o pescoço? Dispenso, sinceramente.

 

<SOFIA>Era ridículo. Ele estava fechado no escritório, com a sua netline, e ela ficava na sala, com o computador ligado ao telefone. Quando ele começava a despedir-se – parece que demorava sempre algum tempo – ela desligava e corria para a cama. Ora, convenhamos: se ele nunca notou foi porque era tapadinho de todo, com certeza...

 

<MIGUEL>Eu fazia lá ideia... Era a <Beija-flor>, pronto! Para mim, as mulheres sempre foram essencialmente iguais umas às outras... Vestem todas de preto, andam todas de mochila...

 

<CARLOS>Se calhar, até concordamos em alguma coisa, está a ver?...

 

<MIGUEL>Machista? Bem, acho que não me está a perceber... Já viu esta história das quotas, ou esta história das páginas nos jornais sérios dedicadas “à mulher”...? Há maior machismo do que isso? Isso não é mais do que dizer que a mulher não consegue evidenciar-se por ela própria. É dizer que temos de arranjar uma gavetinha só para ela, porque se não jamais se ouviria falar dela... Isso é que é machismo! Não há ninguém mais machista do que as feministas...

 

<SUSANA>... fomos deitar-nos às sete da manhã. Nesse dia, contei a história à Sofia – a Sofia é a minha irmã mais nova, não sei se já lhe disse – e tive de ouvi-la. Que era uma estupidez, que ia dar asneira, que quem se ia tramar era eu... Mas o que é que ela queria? Eu amava aquele homem.

 

<MIGUEL>Dou-lhe outro exemplo – eu quero que perceba isto: quantas horas de gravação já tem? Três, quatro...? E em algum momento se preocupou em pedir uma caracterização das personagens femininas? Não, pois não? E tem a sua história sobre a internet e a vida, sobre amor e a tragédia, não é? Quer dizer, não dá para o Pullitzer, mas está aí...

 

<SOFIA>Parecia um zombie, ela. Chegava atrasada ao trabalho, deixou de vir tomar café às onze, depois não comia... Tinha umas olheiras arrepiantes, parecia que tinha andado na vida a noite toda...

 

<MIGUEL>Pois, da primeira vez ficámos a conversar longamente. Tenho ideia disso, sim. Depois, iniciámos uma espécie de parceria na desestabilização de canais. Foi giro. Confesso que estranhei toda aquela sede de aventura, toda aquela camaradagem. Não estava habituado a isso numa mulher.

 

<SUSANA>Era uma loucura. De repente, parecia que tudo era permitido, que o pecado não existia... Viajávamos pelos quatro cantos do mundo e falávamos três e quatro línguas na mesma noite, mas às vezes também só queríamos falar português no meio de uma conversa entre noruegueses. Interrompíamos comícios e orações, cruzávamo-nos com pessoas que estavam a tomar o pequeno almoço na Austrália e, no minuto seguinte, com dois velhos amantes que tinham acabado de cear num belo restaurante de Los Angeles. Tudo aquilo me fascinava, sinceramente.

 

<MIGUEL>Foi giro. Foi demasiado giro para eu me aperceber de que se tratava da Susana, ou talvez não o suficiente para eu me questionar se de facto seria ela. Sei lá... – isto faz algum sentido?

 

<SUSANA>O Miguel fazia-o sempre com a mesma obstinação, como se fosse um profissional: chegava, provocava e depois fugia a rir. Às vezes, eu ficava a conversar mais um bocadinho com as pessoas, pedia desculpa pela má educação dele, e depois eles diziam que eu era um clone do <Antero>, que o que me faltava era a vergonha, e eu tinha de vir-me embora. E pronto, lá voltávamos a um canal privado e partíamos para nova aventura.

 

De repente, éramos mais íntimos do que alguma vez o havíamos sido, sei lá... Andávamos pela PT Net, mas também pela Dalnet, pela Undernet e por outros servidores cujos endereços fomos coleccionando ao longo do caminho. Éramos corridos vezes sem conta, levávamos kicks e bans como mais ninguém com quem nos cruzássemos, éramos dois amantes decadentes a rir do mundo e da vida. Mas era precisamente aí que decidíamos que tínhamos de voltar.

 

<MIGUEL>Quando é que eu soube que a <Beija-flor> era a Susana? Bem, você nem ia acreditar... Digamos que nunca. Pelo menos não enquanto era minimamente importante que o soubesse.

 

<SOFIA>Estava apaixonada. E, de alguma forma, nem relacionava aquele homem com o mesmo que a abandonava todas as noites para testar os seus dotes de sedução... Era um equívoco absoluto, percebe? Mas ao mesmo tempo era lindo, e eu cada vez me sentia mais incapaz de denunciar tudo aquilo. De certa forma, a minha própria solidão ganhou de repente contornos inquietantes – e também eu já me sentia capaz de enamorar-me pelos miguéis desta vida. Cheguei a sentir inveja dela, imagine...

 

<MIGUEL>Oh, brincávamos... Sei lá, íamos aos canais de vendas e eu perguntava: “Menina, desculpe, quais são as condições de acesso ao seu pacote?” E ela partia-se a rir... Outras vezes eu mudava o nick, sei lá, para Samba, por exemplo. Vinha alguém com um nick de adolescente com as hormonas a mil e, antes que pudesse dizer o que quer que fosse, já eu dizia: “Olha, não sou mulher nem brasileira. Desistes?” Acredite que noventa por cento respondia simplesmente “Ya”, “Tá”, ou “Xau”... Ela delirava... Eram piadinhas fraquinhas, mas ela delirava.

 

<SUSANA>Apaixonada?! Credo!... Se algum apreço eu recuperei pelo Miguel foi devido ao facto de, por um curto período, ter podido recordar aquela loucura e aquela sobranceria que um dia conhecera. Porque o Miguel também é uma vítima, se calhar até a maior de todas. A vida tirou-lhe tudo, roubou-lhe todo o dinamismo, sugou-lhe toda a imaginação... E pareceu-me haver um momento em que ele voltara a si... Fiquei feliz por poder partilhar isso, mas apenas como se fosse uma espécie de despedida dourada. Apaixonada, não, nunca voltei a estar.

 

<CARLOS>Apaixonada, sim... Mas não reapaixonada, como diz. Já lhe expliquei: o Miguel e o <Antero> não são nem nunca foram a mesma pessoa. Quando muito, um é o que o outro gostava de ter sido. Qual deles? Boa pergunta. Sei lá, isto é mais uma ideia feita do que propriamente uma ideia...

 

<SOFIA>De repente, obrigou-se a ela própria a sofrer tudo de novo. Primeiro, passou semanas como uma menina excitada, como se o objecto da sua paixão se escondesse para lá da pele daquele mesmo corpo que dormia a seu lado. Depois, viveu  meses como uma donzela traída a chorar a sua miséria. Nada mau, para quem apenas queria investigar o marido, para quem apenas queria expô-lo ao seu próprio descaramento...

 

Juro-lhe: quando ela me pediu para instalar-lhe o mIRC porque queria ir ver o que o marido andava a fazer na net, eu vi logo que aquilo ia dar buraco. Aquele homem tem o diabo  no corpo – e alojado na língua, aliás...

 

<MIGUEL>É, a história é essa, tão-somente essa. Ela veio porque quis... E, se a perdi, foi porque tinha necessariamente de a perder. Não é uma questão de destino, não acredito nessa conversa. Aquilo a que chamamos destino é, na verdade, a consumação da essência na vivência. Como se houvesse de facto um rumo, que tomaremos se formos fiéis a nós próprios. Agora, ela não descobriu de repente que eu era um gozador, não foi por isso que deixou de amar-me... Ela simplesmente deixou de amar-me, ponto final.

 

<CARLOS>Como é que ela deixou de amá-lo? Acho que nunca deixou, bem vistas as coisas. Mas não é o Miguel que ela ama, nunca foi o Miguel que ela amou...

 

<SUSANA>Não sei. Não foi porque tivesse descoberto toda a sua irresponsabilidade, toda aquela frivolidade de quem não é capaz de amar ninguém verdadeiramente. Sim, eu cruzei-me com a <Papoila> e fiquei a saber da história, mas houve muitas mais – nunca vi ninguém com uma média tão grande de slaps no mIRC, devo dizer-lhe. Houve até uma com quem ele trocou telefonemas durante mais de dois meses – e com quem dormiu, com certeza.

 

Só que, de repente, cansei-me. Pronto, houve um dia em que liguei o computador e, de repente, tudo aquilo me meteu nojo... Se calhar, as razões porque deixei de amá-lo são precisamente as mesmas porque começara a amá-lo – acha que isto faz sentido? Era uma superficialidade absoluta, um vazio imenso...

 

<CARLOS>... e uma maldade. Mas por que é que não o assumes?

 

A verdade é que, a determinada altura, a Susana descobriu que ele não lá ia por causa dela, nem sequer por causa de quem quer que fosse. Agora é que ela estava mesmo a viver a vida dos outros, percebe?... Ele ia lá por vício puro e simples, e acabava por brincar com os sentimentos de toda a gente, provavelmente na intenção de lhes extrair reacções ou sensações ainda mais intensas do que da última vez. É típico das almas atormentadas, a tendência para a vício, a tendência para a maldade...

 

<SUSANA>Pelo amor de deus... Isso é um cliché enorme, dizer que as almas atormentadas têm tendência para o vício.

 

<CARLOS>Se calhar, todos os clichés são absolutamente verdade. Por isso é que são repetidos ao ponto de se tornarem clichés.

 

Agora, não me vais dizer que a história da <Papoila> não foi para ti uma revelação...

 

<ROBERTA>Não sei de que história está a falar. Não lhe posso dizer nada...

 

<MIGUEL>Sobre o Carlos não falo, já disse. Agora, a Susana queria ter um filho. Esse é que foi o problema, mais nada. Quer dizer, não o filho em si próprio, mas as aspirações que ela tinha a uma vida em comum, o desejo que ela tinha de construir uma família, de viver com um salariozinho jeitoso, de ir tomar café com os casais amigos todos os dias à noite... Pronto, não há nada que se possa dizer. O Carlos é provavelmente o homem ideal para lhe dar isso. Espero que ela seja feliz com ele, sinceramente...

 

<SUSANA>O Carlos existe! Já é alguma coisa.

 

<SOFIA>O Carlos? Não é mau moço. Vamos a ver que tipo de pai será agora... Com o Miguel é que não havia nada a fazer. Então, mas alguma mulher sobrevive a uma súbita declaração de amor do marido, sabendo que ele não fazia a mínima ideia de que estava a falar com ela? Convenhamos, não é...?

 

<CARLOS>Declaração de amor? Pois... Olhe, pergunte à Catarina.

 

<CATARINA>Não sei do está a falar. A sério...

 

<CARLOS>O que eu lhe disse está dito. Investigue.

 

<MIGUEL>Bem, desculpe lá, mas como podia o Carlos ter autoridade para contestar o que quer que fosse no mIRC, se foi exactamente lá que ele engatou – ele diz que “resgatou” – a Susana? Rasto de destruição o tanas... Ele que não me venha com merdas, mas é, porque se não... Bem, fiquemos mas é por aqui.

 

<CATARINA>Eu não estou bem? Não me está a ver aqui? Então, pronto... Quer que eu fale em letra maiúscula?...

 

<MIGUEL>História da Catarina?!

 

<ROBERTA>Não, nunca ouvi falar disso. Pactos de silêncio é entre pessoas que se conhecem e são cúmplices de alguma coisa. Na net, quando muito, somos cúmplices do vácuo, da ausência de alguma coisa...

 

<MIGUEL>Quer desligar a câmara? Se quiser, conto-lhe o raio da história.

 

5

 

<MIGUEL>Olhe, cá se vai andando. “Com a cabeça entre as orelhas”, como dizia o outro. O trabalho não anda mal – agora sou “free lancer”. Agora, nenhum projecto é mirabolante, porque sou eu que os catalogo, está a ver?

 

À parte isso, vou tentando escrever. Mas não é fácil. Ler tudo tirou-me a inocência, roubou-me o estado selvagem a que o processo criativo podia ir beber as suas impressões mais tangíveis. É como que uma conspurcação da alma, um condicionamento sufocante por tudo o que os outros já fizeram, compreende? Por que acha que durante tantos anos se deu tão grande valor à virgindade?

 

Para além de que continuo a debater-me com os problemas mais básicos. No outro dia, estava a escolher os nomes para alguns personagens e, de repente, notei que já não tenho amigos com nomes esdrúxulos. Já reparou nisso? Os Dioclécios e as Lídias de ontem são os Gonçalos e as Ritas de hoje, os Bernardos e as Marianas de amanhã. Tudo depende da imaginação das telenovelas e do fulgor das revistas do “jet set”. E como é possível criar um personagem com um mínimo de heroísmo, onde se vai arranjar a inspiração, se os próprios nomes que significam alguma coisa apenas cabem aos figurantes acessórios, que mendigam um oposto ou continuado? Do tipo: “Eufémia, a merceeira,...” 

 

<DEOLINDA>Tem graça que ele diga isso. Já o dizia há quinze anos, imagine...

 

<MIGUEL>Se não me ponho a pau, não tarda estou a escrever exactamente a mesma coisa que escrevem todos os escritores da minha geração, que passam a vida a reclamar o raio de luz que fulminou Saulo na Estrada de Damasco. Ou isso ou a tentar criar um estilo próprio através da simples – embora radical – violação das regras de pontuação. Nem sequer estou a falar do Saramago ou do Lobo Antunes, percebe? Só que há muito quem ache que a língua já não tem potencialidades em si própria, que já é absolutamente necessário subvertê-la para escrever bem. Depois, a coisa nem sequer funciona graficamente – e ninguém lê! Mas um gajo fica um escritor original, “uma nova voz na literatura portuguesa”, como depois hão-de dizer os críticos.

 

<DEOLINDA>Pois, não aprende!

 

<MIGUEL>Ah, pois, não aprendo que a vida “é hoje uma grande mancha cinzenta”, que a arte “já não pinta a preto e branco”... Foi a professora Deolinda que lhe falou nisso, não? Ou você foi ver aos prospectos do Museu de Serralves? Não brinque comigo...

 

O meu único problema é articular histórias e ideias, servir-me da intriga como se ela fosse o prego que uso para pendurar os meus quadros, como dizia o Alexandre Dumas. Talvez seja defeito profissional meu, mas acho todos nós nos sentimos agora demasiado obrigados a sintetizar, a cortar cirurgicamente aquilo que em algum momento possa aborrecer o leitor... E, quando me dou conta, a história já está contada, percebe? E eu ainda não disse nada...

 

<DEOLINDA>Exacto, eh eh...

 

<MIGUEL>Olhe, eu dou-lhe um exemplo. Ainda antes de você chegar estava aqui a olhar para um parágrafo que escrevi e de que era suposto sair uma história. Costumo fazer isso, deixar alguma coisa escrita e depois matutar eternamente nela, às vezes mesmo de forma inconsciente. Em algum momento a Eternidade me revelará o que quer dizer aquilo, percebe?...

 

Mas é assim: “Adriane voltou num dia de outono, talvez domingo – recordo-me porque as rochas se projectavam na luz esmaecida na figura de virgens impossíveis. Quando nos reunimos à entrada da aldeia e nos deparámos com o seu vulto, ela era ainda enorme e inacessível, ainda nos dominava como a bonecos de palha. Amámo-la em toda a sua maldade e venerámo-la em toda a sua beleza. E morreu.” A história acabou, está a ver? E será que eu já disse alguma coisa? Será até que já disse tudo?

 

Não sei... Sei é que, como esta, tenho mil histórias à espera de vida. Burocratas ambiciosos, artífices oprimidos – toda a parafernália esotérica de quem se preocupa minimamente com este mundo. E a vida delas é também a minha vida, percebe? Qualquer principiante escreve sobretudo a história da sua própria vida...

 

<SUSANA>Eu gosto, sei lá..

 

<MIGUEL>De resto, olhe... De vez em quando ainda vou à net, mas fico menos tempo. Eventualmente a Roberta telefona, mas continuo a tentar não conhecer ninguém pessoalmente. Às vezes vem cá o Pedro a casa, outras vezes vou eu à dele... É a nossa espécie de pub irlandês...

 

Qualquer dia, juntamos uns tipos e fazemos uma mesa de póquer uma vez por semana – e pronto. Essa história do “mistério maior”, como você diz, é uma patetice. E, quanto a ter dito à Susana que a amava em pleno mIRC, pois sei lá... Eu nem sequer acredito no amor...

 

<SUSANA>Declaração de amor? Ouça: ele nem sequer acredita no amor!... Diz tudo, não é? Então, pronto.

 

<SOFIA>Talvez haja um momento em que o amor e o nada se tocam, sei lá...

 

<PEDRO>Sobretudo no mIRC...

 

<SOFIA>Mesmo no mIRC!

 

<MIGUEL>Sabe... “Se um dia o sol se abstiver/E o nós se não anunciar/Serás ainda a minha mulher/Nos ecos deste meu clamar”. Não há volta a dar-lhe... A Susana será sempre a minha mulher.

 

<CARLOS>Pois... Eu não sou poeta, mas olhe: “O tempo é o fio da vida/e a morte é o fim do caminho”. Vem nos livros. Sou eu que estou por aqui. E ela nem sequer se sente culpada por isso...

 

<PEDRO>Se ele ainda a ama? Boa pergunta. É curioso que você ache que ele chegou a amá-la...

 

<SOFIA>A mim, parece-me trágico o suficiente...

 

<PEDRO>É de facto uma excelente pergunta. Olhe, não faço ideia. Mas foi uma bela história de amor, não?...