"Trinta Minutos"
conto inédito

© Joel Neto

1

As palavras ressoaram ao longe, serpentearam a uma esquina da memória e depois foram-se aproximando devagar, à medida que ele sintonizava os sentidos com o mundo:

- Às sete?

Sempre que se deitava, Miguel admitia interiormente a hipótese de não voltar a acordar. Na maior parte das vezes, era um rádio-despertador quem se encarregava de lembrá-lo do compromisso de viver todos os dias, uma sucessão de apitos estridentes e insuportáveis para que apenas havia a alternativa de uma música estridente e insuportável, conforme a selecção prévia do aparelho. Desta vez era uma voz. Difusa ainda, vibrando de lá para cá enquanto ele tentava situar-se, mas uma voz. E apenas as dúvidas sobre quem se trataria e o que de facto pretenderia essa pessoa, lançadas com o silêncio que entretanto se substituíra à primeira pergunta, ensombravam levemente o prazer imenso que era acordar com uma voz.

Primeiro, Miguel pensou que seria uma brincadeira. Depois reprimiu-se por esse constante cepticismo que lhe enegrecia o carácter, mas logo a seguir tornou a desconfiar. A verdade é que, durante os poucos segundos que mediaram as duas perguntas, Miguel deixou que tudo lhe passasse pela cabeça, entregando-se com competência à análise de cada uma das alucinações que se sucediam. Podia ser um telefonema de um concurso de televisão com escolha aleatória dos premiados, em que para ser contemplado teria agora de repetir uma ridicularia qualquer, do tipo "Roda dos Milhões!" – mas à tarde não havia concursos televisivos, pelo menos transmitidos em directo, e a teoria morria pela base. Talvez se tratasse de uma chamada exploratória de um vendedor de enciclopédias que se mantinha a par das novas estratégias de marketing, mais próximas do cliente – mas isso também parecia improvável, tendo em conta que Miguel retirara o número de telefone da lista desde que decidira sair de circulação. Bem, havia sempre a possibilidade de tudo não passar de uma brincadeira do trafulha do João, uma partida que provavelmente terminaria com a revelação de que "Às sete" significa fornicar "Às sete mulheres de cada vez", e não o horário para qualquer compromisso. E, claro, também não se podia excluir a hipótese de um simples engano no destinatário.

Fosse como fosse, a voz que roufenhara do outro lado da linha continuava à espera de uma resposta. Miguel escutava um leve arfar, um fole compassado que parecia fazer vibrar o telefone junto ao seu ouvido. A primeira hipótese que colocou foi a de tratar-se de alguém ansioso, e isso reconfortou-o por momentos, na ténue ilusão de que os pratos da balança começavam finalmente a equilibrar-se. Mas depois isso também não fazia sentido, porque quem quer tivesse falado se mantinha tranquilamente à espera, sem mais uma palavra, sem aflição nem angústia. Talvez se tratasse apenas de alguém com asma, pensou Miguel, alguém com uma dessas doenças de estufa que atacam entre os que escolhem viver na cidade – ou viver de dia na cidade. Ou talvez apenas de alguém resfriado, com dificuldades em assimilar convenientemente os desmandos da mudança de estação.

Na verdade, era difícil determinar o que quer que fosse sobre "a voz". Miguel sabia apenas uma coisa, melhor, duas: primeiro, que era de mulher – e recebia cada vez menos telefonemas de mulheres; segundo, que nunca a tinha ouvido – não costumava esquecer uma voz de mulher. De forma que, para cobrir todas as conclusões e manter em aberto todas as perspectivas, decidiu apenas responder "Às sete" no momento em que a voz se cansasse da espera e repetisse a pergunta com que começara o telefonema. Quando ela o fez e ele balbuciou a anuência, a medo e como quem espera uma reacção, a mulher desligou simplesmente a chamada, sem uma despedida, sem nada. Escutou com indiferença aquelas duas palavras vazias e não voltou a falar, pousando abruptamente o auscultador, com a frieza desconcertante de quem vê finalmente cumprida a mais pequena e aborrecida tarefa do mundo.

Eram quatro e vinte e oito da tarde, e as duas horas e meia que faltavam para as sete custaram-lhe particularmente a passar. Miguel sentia-se estranho. Mesmo partindo do princípio de que se tratara da marcação de algum tipo de encontro, e de que a ausência de um local estipulado deveria fazê-lo esperar em casa, Miguel não tinha qualquer expectativa sobre aparecer-lhe à porta um camião de flores com-os-cumprimentos-do-senhor-presidente-do-conselho-de-administração, não acreditava que viessem oferecer-lhe um negócio redentor nem imaginava que lhe surgisse sem mais nem menos ao postigo uma bela mulher disposta a amá-lo para toda a vida. Mas sentia-se inexplicavelmente inquieto. A voz que o despertara era grave e encorpada, com personalidade, pelo que não podia ser apenas uma nova amiga de João a servir de marioneta para mais uma sessão de gozo. E não era o suficiente rouca nem escura, dado o que não se trataria exactamente de uma recém-divorciada de meia-idade a tentar reconstruir a vida com o catálogo da Amway em guarda.

Havia algo de enigmático naquela voz, no fundo, mas algo que lhe suspendia os sentidos como um espectro de morte ou ressurreição, como a iminência de algo absolutamente definitivo. Como se a mulher o conhecesse, soubesse tudo sobre o seu passado e pudesse manipular o seu futuro com o mais pequeno gesto. Como se ela se preparasse para surgir-lhe no caminho como uma derradeira chamada de atenção, ou talvez mesmo como um catalisador da sua desgraça. Sim, aquela voz fora enviada pelos céus para o castigar ou, na melhor das hipóteses, como mensageira de um ultimato divino. Ele teria de regenerar-se, teria de regenerar-se rápida e definitivamente, ou então seria punido, receberia a punição mais grave e irremediável de que houvesse memória – e a revelação desse castigo, a ansiedade sobre o que na verdade lhe reservara o destino para o dia em que não pudesse mais esconder-se da ira celestial era precisamente a grande expectativa para a encontro das sete horas. Partindo do princípio de que se tratava de um encontro, claro.

Por um instante, Miguel lembrou-se dos filmes em que a morte persegue com uma gadanha afiada a menina indefesa, chocando com as portas que entretanto a desesperada criatura vai fechando em corrida. Depois recordou os pactos com o diabo assinados no interior de uma prisão por criminosos que logo a seguir ganham o mundo e pouco depois perdem a alma e a dignidade. Sorriu. Mas seria possível que alguém lhe batesse mesmo à porta às sete em ponto?! Ou, pelo contrário, voltaria a receber um telefonema? Caramba, estava mesmo necessitado de emoções, pensou, e depois reprimiu-se mais uma vez por ter deixado esvaziar tanto a própria vida. Parecia-lhe incrível que uma simples voz de mulher fosse suficiente para perturbar um equilíbrio que tão aturadamente procurara, e custava-lhe absorver a violência com que o seu mundo tremia perante uma simples chamada telefónica.

Quando o despertador tocou, faltavam precisamente 45 minutos para as sete horas da tarde. Miguel costumava acordar um quarto de hora mais tarde, a tempo de tomar banho, fazer a barba, comer torradas e beber café com leite, passar pelo quiosque antes das sete e meia e apanhar o autocarro das oito menos quinze, o primeiro a conseguir furar a barreira de trânsito que entope Lisboa todos os finais de tarde. Desfazer-se do carro fora uma decisões que mais lhe custara tomar no momento em que escolhera abandonar em definitivo as portas dos bares da moda – João chamava-lhe "o show-bizz", com uma pequena vénia trocista – mas agora as viagens de transportes públicos funcionavam também como um rito de passagem entre o Miguel e o funcionário do parque de estacionamento, eram uma espécie de interruptor que ligava e desligava a sua consciência e as suas expectativas. Só que nada podia hoje contrariar a sua ansiedade. Miguel estava nervoso, sentia o mesmo aperto no peito que o fulminava de cada vez que se aproximava de uma mulher bonita ou de um homem poderoso, a mesma sofreguidão de fazer tudo bem, e de fazê-lo depressa. Não dormira. E queria estar impecável precisamente às sete em ponto, prejudicasse ou não a rotina profissional. Para as eventualidades.

A campainha tremeu um apito rouco bastante depois das sete e quinze, já Miguel havia retonificado o rosto por duas vezes, na tentativa desesperada de disfarçar os resquícios da sua puberdade serôdia. Pensara várias vezes em sair simplesmente para o trabalho, depois reconsiderara e acendera a televisão, mais tarde ainda fora ao frigorífico buscar uma maçã, dera uma última volta para verificar a arrumação da casa... Fora ficando. E, quando o apito trémulo voltou a ecoar, desta vez mais longo e crispado, apressou-se a abrir a porta. Parou um momento em frente ao espelho da casa de banho, para voltar a compor o cabelo e acertar as patilhas, mas depois correu para a maçaneta, rodou-a furiosamente e puxou a porta com tal força que quase temeu arrancá-la.

A mulher que lhe surgiu à frente era, na verdade, diferente de tudo aquilo que esperara – e magicara bastante sobre o que podia vir a encontrar, mesmo durante o sono que tentara retomar depois da interrupção do telefonema das quatro e meia. Tinha uns olhos negros e resolutos, e tudo o mais na sua aparência parecia condizer na perfeição com esse aspecto definitivo de quem faz da vida uma coisa absolutamente séria, para o bem e para o mal. Baixa e de fato azul cintado, a contrastar com uns sapatos pontiagudos e castanhos do mesmo conjunto da pasta de camurça retesada na mão esquerda, esforçava-se claramente por parecer mais velha do que na verdade era, como se tentasse compensar com gestos uma imagem que a frescura do rosto traía abundantemente. Mas em nenhum momento perdeu a compostura. E, quando a porta se abriu, deixou cair levemente a cabeça para trás, arregalou um pouco os olhos escuros, e depois acenou ligeiramente como que pedindo licença – ordenando licença, talvez – para entrar num espaço que era sem dúvida dela.

O que se passou nos trinta minutos subsequentes é difícil de narrar, sobretudo porque mesmo uma câmara articulada e operada por um profissional teria agora dificuldade em apreender todos os pormenores daquela tresloucada experiência de força e de transe. No momento em que Miguel estalou o trinco e tentava perguntar com o olhar exactamente quem era aquela mulher, por que lhe telefonara e o que queria dele, ela dirigiu-se à sala como se a conhecesse de há muito, pousou a mala e despiu o casaco, descalçou os sapatos sem lhes tocar com as mãos, soltou a camisa do cós da saia e abriu os três botões de baixo, tudo com a naturalidade de uma velha concubina que tem de amar depressa para ir buscar os filhos ao colégio. Miguel estava estupefacto, tentava situar-se naquela teatralização extravagante e olhava repetidamente para o postigo, como que a certificar-se de que ninguém estava a ver – ou talvez na esperança de que, estando alguém a ver, lhe dissesse de uma vez por todas que não estava louco, que esperasse um pouco e já perceberia tudo. Quando a mulher o encostou à parede e lhe segurou ostensivamente os testículos, no entanto, percebeu que tinha uma erecção. E, quando ela lhe abriu a braguilha, lhe puxou os calções para baixo e lhe passou a língua ao longo de todo o pénis, desemaranhando com cuidado os pêlos que se eriçavam de surpresa e desejo, agarrou-se à ombreira da porta da sala, lançou o pescoço para trás em arrebatação e deixou-se conduzir ao quarto.

Às oito em ponto, a mulher focou automaticamente os olhos negros que mantinha num ponto indefinido junto à colagem de Matisse, consultou à pressa o relógio e saltou da cama com energia, começando a vestir-se de baixo para cima, primeiro as meia de lycra brilhante, depois as cuecas metálicas, a saia azul, e assim sucessivamente. Miguel levantou-se ainda atordoado para lhe apertar o soutien e, quando lhe sentiu a respiração junto ao pescoço, ela ergueu com a mão esquerda a cabeleira castanha, ajeitando os seios com a direita, em frente ao espelho. Foi nessa altura que proferiu as primeiras palavras desde que entrara na casa e desde que, às dezasseis horas e vinte e oito minutos, telefonara para combinar um encontro "às sete". Fê-lo com a mesma voz seca e irrevogável que Miguel escutara durante o telefonema, mas desta vez a respiração pareceu mais solta e serena, sublimando a sensualidade que emanava da rouquidão:

- Sabe, tenho uma amiga...

- Uma amiga?! – interrompeu Miguel bruscamente, e surpreendeu-se como as próprias palavras lhe soavam simultaneamente a estupefacção e censura, talvez nenhuma destas exactamente, mas uma estranha tonalidade manipulada por alguma entidade obscura e escondida clandestinamente algures no seu corpo.

A mulher torceu de repente o rosto para ele, semicerrou os olhos numa expressão de espanto, e depois virou-se resoluta para a frente, abotoou a camisa, compôs o colarinho, olhou-o por uma última vez e deixou o quarto. Miguel ainda ficou um instante a ouvi-la recolher a mala, calçar os sapatos e vestir o casaco, mas depois o estalido da porta selou a sala e o silêncio voltou a abater-se despoticamente sobre a casa.

Não soube exactamente quanto tempo esteve ali deitado, de barriga para baixo e agarrado à almofada, com os olhos apontados ao puxador da mesa de cabeceira. A verdade é que só voltou a aperceber-se da vida quando sentiu um ligeiro arrepio sobre o tronco nu e ganhou finalmente coragem para olhar o relógio. Estava atrasadíssimo, e o senhor Luís devia estar fulo à espera da rendição, pensou. Mas depois voltava-lhe repetidamente à cabeça a mulher cujo calor ainda conseguia sentir sobre aquele mesmo colchão onde agora se abandonava ao cansaço e à solidão. Tudo naquela noite lhe parecia particularmente difícil de interiorizar, da identidade da mulher à forma como obtivera o seu número de telefone, da incerteza de um novo encontro às verdadeiras razões que se esconderiam por detrás daquela primeira de sexo lascivo e furibundo. Sim, porque se fosse mesmo só pelo sexo, talvez ela pudesse voltar, pensou Miguel, e por um momento lamentou não ter corrido atrás dela para perguntar-lhe o nome, para saber onde podia procurá-la. O raio da yuppie sabia exactamente o que fazer em cada momento, como extrair maior prazer de si própria e do outro em cada situação, expontânea ou improvisada. Relativamente robusta, parecia mais real do que as raparigas de plástico que conhecera à porta dos bares e hoje avistava vagamente nas noitadas com João, e para além disso entregava-se com uma competência tão grande, com uma tal concentração a cada pequeno acto de amor que a luxúria subitamente dobrava os limites do sensível.

Agora que tentava sintetizar aquela meia hora que haviam passado juntos antes de se afundarem solitariamente em almofadas diferentes, Miguel recordava sobretudo a forma compenetrada com que ela lhe preparara o membro e, mais tarde, o ritmo cadenciado com que subira e descera sobre o seu ventre, com a planta dos pés assentes com firmeza sobre o colchão e o olhar convicto de quem pega pelos cornos uma inevitabilidade da vida, como se apenas tentasse tirar o melhor partido possível de uma coisa primordialmente desagradável. Recordava a maneira resoluta e quase autoritária como ela o conduzira ao quarto, mas depois também aquele olhar perdido e deleitado que apenas desfizera quando às oito horas se haviam imposto no rádio-despertador entretanto derrubado da mesa de cabeceira. E, claro, recordava a forma desembaraçada como puxara da própria bolsa para tirar um preservativo, depois de um momento de silêncio em que parecia consultá-lo sobre a existência de tal artigo naquela casa. Fizera-o primeiro com um pormenor tão grande, uma competência tão meditada, verificando e voltando a verificar o estado da borracha, que Miguel chegara por momentos a imaginar-se uma criança à espera de uma vacina, talvez um pobre funcionário aguardando despacho no impresso de marcação de férias. Mas depois voltara a prostrar-se sobre as suas virilhas e desenrolara o aparelho com a própria boca, lubrificando-o durante mais algum tempo com os lábios carnudos – e então ele voltara a ficar absolutamente sem saber o que pensar, deixando de novo envolver-se pelo prazer que parecia emergir de cada momento de desconfiança.

Mais do que a identidade da mulher, eram já apenas estes pensamentos lascivos que lhe toldavam o espírito quando Miguel saltou da cama para voltar a vestir-se, passar o rosto por água e correr para o primeiro autocarro, quase disposto a contar ao colega toda a verdade sobre o seu atraso, na convicção de que nenhum homem alguma vez ficaria indiferente à singularidade daquela história arrebatadora. Passaria a noite sem um jornal, mas agora até admitia desligar da corrente o pequeno televisor que Luís instalara atrás do balcão, ao lado da seis-trinta-e-cinco guardada para os espertinhos. Tinha cigarros bastantes, e sobretudo a memória daquela tarde enlouquecida, o fascínio da investigação mental sobre tudo o que aquilo verdadeiramente significaria. Apressado, meteu as mesmas cuecas que vestira antes, esticou as pontas da t-shirt para desfazer o enxovalho e calçou os sapatos tão deslustrados como haviam ficado quando a mulher lhes colocara em cima um joelho suado, a certo passo dos preparativos. Queria manter os cheiros vivos por quanto tempo fosse possível, perpetuar aquele sentimento de conspurcação proveniente dos sovacos, das curvas das pernas, das virilhas. Amaria aquela mulher toda a noite e, então sim, talvez percebesse quem ela era: um anjo enviado para o resgatar ou um demónio incumbido de o levar algemado. Em qualquer dos casos, sentia-se pronto a segui-la incondicionalmente.

Foi quando deixou o quarto quase a correr e esticou a mão sobre a mesa do pequeno "hall" para erguer as chaves de casa que Miguel sentiu a realidade desabar-lhe sobre a cabeça. Em cima da mesa, entre o telefone e o cinzeiro oferecido por Isabel após uma viagem às Canárias, estavam agora quatro notas de dez mil escudos, abertas em leque. Podia vê-las dali mesmo, castanhas e autoritárias, e de repente contemplou o chão fugir-lhe lenta e cinicamente debaixo dos pés. Quarenta contos. A mulher estava a comprá-lo, com um raio! Estava a prostituí-lo! Fora por isso que mencionara uma amiga – pensou para si próprio, e depois bateu com a mão testa, bateu repetidamente até julgar que a ensanguentara. Sentia-se agora o ser mais ridículo do mundo, um pobre homem iludido pela esperança do amor. "Estúpido!" – censurou-se num grito. Estúpido por ter ignorado os sinais, estúpido por ter confundindo frieza com luxúria, mil vezes estúpido por ter imaginado uma arrebatação que a triste realidade provava agora ser tão improvável como de facto qualquer pessoa teria certamente percebido ao fim de cinco minutos. Mas como podia ter sido tão estúpido, porra?!

 

2

 

A certa altura, Bonnie ergueu as orelhas, ladrou baixinho, levantou-se de um salto e disparou porta fora em direcção aos vultos que se moviam no fim do parque, junto aos hangares. Miguel alçou os olhos sobre o guichet, levou sorrateiramente a mão à pistola, mas depois tirou-a de repente, como se queimasse. Sentia-se subitamente sujo, um verdadeiro escroque só por pensar que um dia podia usar o revólver para afugentar miúdos em busca de uma aventura. Também ele fora vítima dos desmandos do dono da arma, e sabia melhor do que ninguém o que custava a prepotência. A cena ocorria-lhe muitas vezes: havia lá na aldeia um pequeno campo de futebol, que ficava mesmo ao lado de uma plantação de milho. De cada vez que a bola passava o muro, estava perdida. Um velho barbudo e sem nome surgia não se sabe de onde com o esférico na mão, fazia-o penetrar por um longo cutelo e atirava-o de novo por cima da parede. E havia alguma coisa de ameaça de morte naquela forma tão ostensiva de vingança.

Voltaram-lhe à mente as razões por que, depois de três anos financeiramente compensadores à porta dos bares da moda, acabou enfiado naquele parque de estacionamento de uma estação de comboio suburbano. E a ideia de rebater os acontecimentos daquela macabra manhã de Outono, em que decidira mudar de vida, era-lhe agora estranhamente agradável. Como se servisse na perfeição esse fim supremo de afastar-lhe do pensamento a "yuppie" dos sapatos de camurça.

João insistia que tudo não passara de uma estupidez, de um tremendo azar por que Miguel se penalizava desnecessariamente. Mas ele não esquecia o urro desesperado do jovem que esbofeteara e depois vira morrer sem conseguir sequer pedir perdão. Toda a cena mantinha contornos precisos na sua memória: um rapaz irritado pelo impedimento de entrar na discoteca, uma prostituta interpelada com violência, um murro de intenção profilática, e depois o sangue, muito sangue sobre o passeio, provocado por uma pancada imprevista e estimulado pelo álcool em exagero.

Miguel soubera naquele momento que os seus dias de madrugada haviam acabado, e se trabalhava agora como obscuro segurança nocturno de um longínquo parque de estacionamento suburbano era porque, pura e simplesmente, ainda não conseguira encontrar uma actividade que lhe cortasse em definitivo as amarras à noite. De pouco lhe valia que os tribunais o tivessem ilibado, de nada lhe servia o elogio agradecido de todos os que haviam presenciado a cena, para nada queria agora o "apoio moral e jurídico" do patrão, um pequeno vigarista armado a empresário da noite só porque, um dia, tivera um risco branquinho para oferecer à pessoa certa, no momento certo.. Em legítima defesa ou não, tinha matado um homem – e isso era-lhe mais terrível do que qualquer outra coisa no mundo. Mantinha a silenciosa convicção de que podia ter evitado o murro e culpava-se por ter cedido momentaneamente ao impulso de exorcizar o cansaço e as frustrações de um mês de trabalho quase ininterrupto.

E agora estava ali, naquele parque gelado, acompanhado de uma cadela rafeira e entregue às tropelias da televisão pública, a única que conseguia sintonizar vagamente no aparelho de Luís. Se João não estivesse de férias da guarda à estação, poderia talvez entreter-se com os seus relatos épicos de conquistas amorosas, eventualmente até condescender com os constantes desafios a uma melhor utilização dos seus "magníficos recursos físicos", como o descrevia o amigo para tentar devolvê-lo à noite da moda – provavelmente na esperança de viver através dele um "glamour" que o seu rosto pálido e a sua reduzida conta bancária lhe não permitiam.

Era curioso que João, no fundo, sempre o desafiara a tornar-se um prostituto, algum tipo de prostituto. Acharia certamente graça à sua nova condição, o companheiro... Sim, porque era essa a ideia que voltava constantemente à mente de Miguel, sempre que acabava de auto-flagelar-se com outro assunto qualquer. Olhava para os quarenta contos abertos em leque sobre o balcão e sentia-se de novo tão sujo como um dia se sentira empunhando a cabeça ensanguentada de um jovem que acabara de matar. Ele era um gigolo. Involuntário, mas um gigolo. E não haveria de gastar o dinheiro, para que servisse de eterno símbolo da sua imundície e da sua fraqueza, assim abertos, ali, sobre o balcão.

Por essa altura, já tinha abandonado o receio de que a mulher que o visitara voltasse a ligar-lhe. Provavelmente, não teria gostado da sessão, o que lhe oferecia o vago conforto de, apesar de prostituto, ser um mau prostituto. Ninguém lhe telefonava havia mais de quinze dias, e, ao longo de todo esse tempo, fora conseguindo esbater um pouco a vergonha, na convicção de que tudo não teria passado de um terrível mal-entendido, de que não havia de facto nenhuma razão objectiva para aquela mulher tê-lo procurado – e de que ela próprio tê-lo-ia percebido mais tarde, eventualmente com um pequeno rubor de desconforto que os redimisse aos dois. Talvez já nem fosse preciso o tal "não" rotundo que tão repetidamente ensaiara para o contacto seguinte. Estava no caminho da regeneração.

Mas foi precisamente após aquela noite em que Bonnie perseguira vultos pelo parque que o telefone voltou a tocar com nova marcação monossilábica de um encontro sexual. No momento em que olhou para o relógio antes de erguer o auscultador, percebeu de imediato que algo de errado se passava, porque na verdade ninguém que o conhecesse alguma vez arriscava interromper-lhe o sono e ouvir os mais variados impropérios. Só que, quando a mulher perguntou "Às sete?", ele sentiu-se de repente incapaz de contrariá-la e respondeu simplesmente "Às sete", de forma mecânica. Pousado o telefone, levou automaticamente as mãos à cabeça, arrependido pela impotência de combater o primeiro impulso de receber a mulher. Mas já nada podia fazer para evitar o encontro, a não ser desaparecer com alguma desculpa – o que lhe parecia altamente impróprio – ou abrir o jogo e explicar que era um homem digno e improstituível – o que lhe parecia absolutamente desadequado, face às circunstâncias.

As razões por que não conseguira contrariar de imediato as intenções da mulher, essas, permaneciam irremediavelmente nebulosas no seu cérebro cansado. Talvez algo tentasse emergir de dentro dele e tivesse encontrado nessa perspectiva de nova aventura louca uma forma de revelar-se. Um súbito desejo de participar verdadeiramente da vida, por exemplo. Ou a vontade imensa de experimentar de novo a volúpia da outra noite. De alguma forma, não conseguia evitar ter pena de si próprio.

Detivera-se a pensar na mulher algumas noites após aquele encontro e reduzira a justificação dos momentos pontuais de nostalgia a essas duas hipóteses essenciais: ou tinha gostado da companhia ou tinha gostado do sexo. Porque não era o dinheiro. Miguel considerava-se mal pago pelas sucessivas noites ao frio e até se permitia a pequenos desvios da caixa registradora, coisa que o fazia sentir-se extremamente mal, constantemente na mira de Deus – em especial quando se confrontava com os pequenos burocratas que todos os dias se levantavam às seis da manhã, atravessavam Lisboa numa marcha interminável de calor e solavancos e regressavam à noite com uma cruz no calendário por única recompensa. Mas mesmo esses momentos de fraqueza encontravam dentro de si uma consolação derradeira, tendo em conta que, muitas vezes, resultavam sobretudo em benefício dos clientes nocturnos a quem decidia fazer pequenos descontos, às escondidas.

Na verdade, o dinheiro interessava-lhe muito pouco, talvez lhe interessasse mesmo apenas numa perspectiva de que um dia tivesse o suficiente para não ter de voltar a pensar nele. E estava, de facto, bastante inclinado para a hipótese de ser o prazer sexual a provocar todas aquelas dúvidas, toda aquela sofreguidão. A relação com Isabel havia-se tornado demasiado séria, demasiado íntima, e faltava-lhe agora a violência que distingue o amor do desejo. De alguma forma, sentia que não podia repetir com a provável mãe dos seus filhos as desvairadas experiências partilhadas com aquela estranha. Admitia que fosse uma ideia machista e retrógrada, mas, por outro lado, talvez a história do mundo fosse também a história dessa eterna dicotomia entre amor e compromisso, para sempre inconciliáveis. E, se Isabel também precisava de violência, nunca lho tinha dito nem feito perceber, pelo que o desagravo da sua nova vida dupla se mantinha de pé.

Depois do telefonema, não conseguiu voltar para a cama, consciente desta vez de que, às sete em ponto, uma mulher entraria de facto pela sua porta e se deitaria com ele na cama, extraindo de si tudo o que tinha de melhor e de pior, meticulosa e resolutamente, até à exaustão. Não podia evitar a ansiedade. Porque, quando aqueles olhos negros recuassem ligeiramente para confirmar terem vindo ao sítio certo, tinham de perceber de imediato que muita coisa mudara desde a última vez. Miguel não era um prostituto e não aceitaria dinheiro. Se um dia matara um homem para defender uma prostituta, fora apenas por dever moral e inabilidade bélica, não por qualquer tipo de solidariedade para com a vida fácil. Receberia a mulher apenas pelo prazer da sua volúpia, mas nunca se venderia.

Havia, por isso, muitos preparativos a fazer. A casa tinha de ser arrumada apenas o suficiente para parecer que ali vivia alguém com uma vida absolutamente normal e a roupa teria de reflectir um cidadão acabado de chegar do emprego do outro lado da cidade. Os preservativos ficariam mais uma vez a cargo dela, claro. Mas era preciso vinho. Sim, Miguel iria ao minimercado antes das seis comprar um bom vinho, para provar àquela mulher a natureza dos seus sentimentos. Antes que ela pudesse invadir-lhe o quarto nua e arfando de desejo, abriria tranquilamente a garrafa, derramaria o líquido negro em dois copos de balão e brindaria tacitamente ao início de uma nova relação.

Duas horas e meia depois de ter passado a porta da casa, a mulher parecia ainda envolta nas vibrações daquela noite de charme e sedução. Estava deitada de barriga com os ombros nus e o lençol pela cintura, e acariciava lenta e repetidamente o peito dele, com um sorriso encantado. Não tinham dito uma palavra durante toda a noite, mas Miguel sentia no ar que ela já percebera e interiorizara tudo, que no fundo já se conheciam ambos, apesar de não saberem sequer o nome um do outro. E, quando arriscou perguntar-lhe como deveria chamar-lhe, ela esperou um momento que lhe pareceu de ternura e disse, agora com uma voz mais doce do que a que ouvia ao telefone:

- Cristina. Podes chamar-me Cristina, Miguel.

Então, levantou-se e repetiu o ritual de vestir-se de baixo para cima, das meias de lycra bordada à camisa azul Ralph Lauren. Quando ele se ergueu para abotoar-lhe o soutien, ela olhou ternamente para trás, fixou-lhe os olhos negros com uma candura indescritível e acrescentou:

- És um doce...

Miguel manteve-se algum tempo na cama, a vê-la apanhar o casaco, a bolsa, a pasta, e continuou aí muito depois de ter visto o seu corpo belo e roliço dobrar a porta do quatro e de, segundos depois, tê-la ouvido selar a casa com o estalido da porta da frente. Estava de folga e não tinha de preocupar-se com as horas, pelo que decidiu ligar a televisão e dormir um pouco. Mais tarde, sairia para vaguear na noite e talvez beber um copo, saboreando solitariamente o epílogo de toda aquela história. Tinha a certeza de que Cristina voltaria a telefonar e, então, talvez lhe pedisse o número de telefone ou mesmo o endereço, para quebrar definitivamente o gelo daquele estranho começo de amor. Mas nada disso o preocupava verdadeiramente, sentia-se acima de tudo livre.

Não dormiu, mas passou com tranquilidade por todos os canais da televisão, descartando concursos e telenovelas, noticiários e transmissões de futebol, até deparar-se com a reposição de uma sitcom que costumava ver na adolescência. Depois, ainda leu algumas páginas de um dos livros que ia abandonando até fixar-se num novo sistema de vida e encontrar uma nova narrativa para servir-lhe de pano de fundo. A Música do Acaso, de Paul Auster: um jogador de póquer que perde tudo, destruindo a própria vida e a de um estranho caridoso que o resgatara à morte. Não evitou um sorriso: pela primeira vez em muito tempo, sentia que não arriscava mais do que a própria pele. O pior que podia acontecer-lhe era que Isabel descobrisse as suas aventuras e decidisse romper o noivado. E, bem vistas as coisas, isso seria apenas o resgate de uma boa mulher às garras de um tipo claramente inferior ao que ela podia ter.

Lentamente, como quem dança do ritmo de uma ária de Bach, voltou a levantar-se, vestiu-se, passou pela casa de banho para acertar o cabelo e banhar-se em perfume. Mas, no momento em que escovava os dentes, teve a estranha tentação de olhar para a mesa do telefone. Ao princípio, reprimiu-se, convencendo-se de que Cristina de facto percebera que não era um prostituto, que apenas gostava de dormir com ela e de vê-la vestir-se à pressa das meias bordadas até à camisa de marca. Mas não resistiu. E, quando espreitou porta fora com a escova entalada na boca, a babar espuma, deu de caras com cinco notas de dez mil escudos, quatro abertas em leque e uma apensa a um pequeno papel amarelo, daqueles com cola atrás. "És um doce", lia-se primeiro, e depois, entre parêntesis: "O número da minha amiga Vanda é 21-4579089".

 

3

 

A terceira vez que Miguel recebeu a executiva dos sapatos de camurça aconteceu no último dia de Outubro, quando a chuva começa a destruir os quadros de cores pintados pelo Outono de Lisboa e as vidas reassumem lenta e persistentemente o semblante da morte. Lembrara-se de que era o último de Outubro apenas porque, pouco antes do telefonema, pensara na velha tradição do Pão Por Deus, que no dia seguinte levava as crianças açorianas às ruas, na procura dos rebuçados do seu halloween forjado à pobreza e ao abandono. Para ele, na verdade, todos os dias eram iguais, cheios de carros a entrar e a sair do parque, plenos de uivos de um cão desconfiado e anestesiados por um sono que parecia nunca mais acabar. Nesta altura, os Açores deviam estar lindos, mais lindos do que nunca, com as suas luminosidades extremas do Outono, o nevoeiro intenso, o sol furibundo, um manto castanho delimitando as estradas... Mas talvez o Pão Por Deus no dia dos mortos fosse uma esmola agradecida a quem continuava a viver ali. E, se naquele dia Miguel também teria o seu halloween, era talvez apenas devido à amarga coincidência de Cristina ter-se lembrado de telefonar-lhe precisamente no último de Outubro.

Cristina. Tanto quanto se lembrava da fraca instrução que lhe exigira a vida e mesmo das leituras que ocultava com vergonha como se fosse masturbação, nada naquele nome evocava o que quer que fosse de importância para o rumo da história. Tinha a certeza de que havia conhecido diversas Cristinas ao longo da vida, porventura alguma até intimamente após mais uma noite a ostentar poder à porta de um bar, mas na verdade não conseguia lembrar-se de nenhuma com um mínimo de rigor. Houvera de facto uma miúda na escola primária chamada Ana Cristina, a quem chamara namorada. Uma outra talvez nas aulas de vela... Mas nada mais.

Estranhamente, no entanto, fora daquele nome banal que fizera a sua obsessão nas noites intermináveis no parque de estacionamento. Lembrava-se de como ia olhando os cartões dos clientes e procurava constantemente uma Cristina a que pudesse prender a ilusão. E voltar agora à mulher era sobretudo ter a oportunidade de descobrir se teria mesmo aquele nome. Sentia-o como uma necessidade absoluta, incontornável. Se ela de facto se chamasse Cristina, talvez tivesse havido um momento em que não houvera mentido – e isso seria porventura o penhor de um resto de dignidade que na maior parte do tempo julgou ter perdido. Se se tratasse de uma invenção... Bem, na verdade ainda não tinha resposta nem solução para isso. Provavelmente, escorraçá-la-ia de casa sem aviso. Havia de vexá-la de alguma forma, entregá-la à vergonha e à humilhação de sair ao pontapé da casa de um homem sozinho, a meio da noite, com a camisa desabotoada e o casaco e a pasta de camurça às costas.

À medida que a tarde passava, Miguel não conseguia evitar a sensação de que se encaminhava para o seu próprio calvário, um sacrifício pessoal que talvez pudesse ter evitado mas que, no fundo, talvez fizesse também parte da sua condição. Tinha o jornal do dia anterior aberto sobre o colo e sentia extenuar-se com a profusão dos seus pensamentos. A notícia contava a história de dois gémeos siameses moçambicanos que haviam viajado para Portugal para serem separados a nascença. Eram dois rapazes, mas apenas havia um pénis, pelo que um deles teve de ser imediatamente transformado numa menina, através da criação de uma vagina e do início de um longo tratamento hormonal. Os médicos tentaram manter segredo, alegando que também haviam ficado surpreendidos com o sexo da segunda criança, mas o jornal decidira investigar a história. E Miguel não conseguia evitar concluir que, na verdade, era muito mais difícil ser homem do que ser mulher, que na verdade uma mulher era uma espécie de subtracção ao universo e à vida.

Quando Cristina entrou na casa e atirou pela terceira vez os sapatos contra o espelho do "hall", contudo, Miguel sentiu-se de novo absolutamente sem acção. Havia naquela pessoa algo de grandioso, uma afirmação de vontade que continuava a prender-lhe os movimentos, a inibi-lo até de falar. Os olhos negros e profundos dela pareciam fulminar os objectos, a casa curvava-se à sua passagem. Sim, aquela era uma mulher bonita – e também um homem poderoso. Miguel continuava a querer fazer tudo bem, tudo depressa.

Lembrou-se de repente do telefonema dessa tarde e da forma resoluta como, mais uma vez, ela marcara o encontro. A frieza fora a mesma, a segurança total, mas desta vez as palavras haviam sido diferentes. Quando ela perguntou secamente "Esta noite?", ele tremeu por dentro. A mulher como que se sentia já proprietária dele, achava que podia reduzir ainda mais a sua vontade e já nem se dava ao trabalho de especificar uma hora para o encontro. Sim, para Cristina, ele era apenas um objecto pronto a fornicá-la quando ela muito bem entendesse.

E porque essa intimidade perversa se apoderava derradeiramente daquela relação sórdida, Cristina terá achado de repente que também já podia falar. Miguel chegou a questionar-se se o silêncio dos dois primeiros encontros não haviam sido só uma ilusão, se não deixara apenas que o desejo lhe toldasse a tal ponto os sentidos que se tivesse isolado das palavras na pura contemplação do prazer. Porque ela agora falava, falava muito. Perguntava-lhe por que não havia telefonado à amiga, comandava verbalmente cada posição assumida durante toda a fornicação, chegara mesmo a insinuar uma questão sobre o que havia ele feito com os proveitos financeiros das duas primeiras noites.

Miguel estava horrorizado, sentia-se escarnecido, vilipendiado. Tentava responder com monossílabos, mas a força daquela mulher levava-o sempre a tentar desenvolver uma ideia que a surpreendesse, e depois a compor com novos argumentos o falhanço total das primeiras palavras, e depois a gaguejar uma explicação sintética do que verdadeiramente queria dizer – e depois a sentir-se tão mal, tão pequeno perante aquela mulher, tão insignificante no mundo e tão incapaz de dizer o que quer que fosse que acabava por calar-se com um "É assim" ou um "Pronto", estupidamente, ridiculamente.

Cristina continuava deitada de barriga e ia-o ouvindo sem um movimento, segura do alto dos seus olhos negros, e depois disparava nova pergunta e Miguel ficava de novo sem palavras, aflito. Mas houve um momento em que ela inflectiu o tom de voz e soou de repente a paternalismo. Virara-se na cama de um salto e estava agora de costas, com o lençol a cobrir-lhe os seios e o olhar preso no tecto, como que a divagar. Então, como um deus misericordioso que no último momento estende a mão a um arrependido, agradeceu-lhe a constante gentileza dele ao não pedir-lhe o dinheiro logo à entrada da casa. Falou-lhe de como fora o melhor homem com quem dormira – disse "homem", textualmente –, deambulou sobre as dificuldades de obter "bom sexo" para quem deposita todas as forças em triunfar na vida, lamentou não poder vir vê-lo mais vezes... E acrescentou, virando pela primeira vez o rosto para ele: "Foi uma boa ideia teres finalmente comprado preservativos, Miguel".

Sim, ele tinha comprado preservativos. Não se lembrava quando nem conseguia identificar exactamente porquê, mas a verdade é que o teria feito. Talvez da mesma forma como lhe teria dito chamar-se Miguel e agora não conseguia lembrar-se como. A verdade é que, quando ela acabara de preparar-lhe o membro e se prostrara sobre a cama abrindo-lhe as nádegas urgentes, ele havia simplesmente esticado a mão para a mesa de cabeceira e tirado da gaveta do meio um invólucro plástico azul e branco. E, ao constatar isso, Miguel achou-se de repente possuído, concluiu que não queria saber o verdadeiro nome daquela mulher para nada e não foi capaz de dizer mais nada, se não:

- Diz à tua amiga que me telefone.