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B EM-VINDOS AO MUNDO DO SONHO! «Por que é que se morre?...»
«Por que é que se morre? Talvez por não se sonhar bastante». Bem-vindos ao mundo do sonho! Não podemos passar por cima e não fazer caso de… Fernando Pessoa, O Marinheiro. Em francês! Quem? Quando? Como? Porquê? Ah!!! Estão curiosos, pois não?! Et bien, que esperem… Que leiam… e descubram! LusoPresse - Porquê a escolha duma peça de Fernando Pessoa? Julie Vincent - É um sonho que existe «il y a belle lurette», desde de 1985. É fascinante e raro ver um autor, um homem que faça falar, de uma maneira filosófica, o sonho a três personagens femininas. Mas, ainda mais, é uma peça que nos faz viajar no interior de nós mesmas, permitindo-nos destacar a vida quotidiana. Parece-me uma particularidade dos portugueses. Apercebemo-nos, falando com a Isabel, que os portugueses têm uma faculdade incrível para com o sonho e a poesia. A este nível temos imensa admiração por vocês porque como actrizes e artistas sonhamos; e de facto somos um pouco poetas porque de certo modo transmitimos as palavras dos outros. «Ça nous a tout de suite séduites!» LP - Conheciam Fernando Pessoa? JV - Não. Eu só conhecia a peça. Naquela época, a peça não se identificava com algo que nós conhecíamos. Notei a necessidade de estudar a fundo a personagem de Fernando Pessoa há dois anos. Danièle Panneton - Eu não conhecia a peça mas já tinha ouvido falar de Pessoa. Neste caso foi uma ocasião oportuna para descobrir este autor português. Aliás, o ano passado tínhamos participado num «atelier», no teatro Espace Go, dirigido por Julie Vincent e interpretado por Marthe Turgeon, Isabel dos Santos e eu própria. LP - Como descobriram a peça de teatro O Marinheiro? JV - Foi em França, onde participei no Festival d’Avignon. Em 1985, descobri pela primeira vez esta peça de teatro. Mais tarde encontrei um livro, de Teresa Lopes, sobre Fernando Pessoa: «Le théâtre de l’être». Mas a peça inteira encontrei-a na livraria Champigny. DP - É um dos últimos exemplares. Foi encontrado no mês de Setembro na Livraria Hèrmes, situada na rue Laurier. É engraçado porque o proprietário teve que rebuscar o seu «entrepôt» debaixo para cima e de cima para baixo. Certamente, não é um livro fácil de encontrar! Isabel dos Santos - Mas também podemos encontrar a obra completa na Biblioteca Central. LP - Alguma dificuldade em trabalhar com esta peça? DP - De facto, é um texto muito curto que cria um certo problema para os directores de teatro. Uma peça de 50 minutos pode parecer difícil a programar numa «saison régulière». Não é uma peça fácil porque apesar de conter uma linguagem simples e simbólica, ela transmite um pensamento subtil e extremamente poético. É isto que faz a beleza da peça. LP - Como apareceu a ideia de integrar uma actriz e um pintor portugueses na criação do projecto teatral? JV - (…) Fiquei fascinada pelo conceito de saudade típico de Portugal. Nós, os quebequenses, quando falamos do que é aborrecido, utilizamos o termo «plate» e assim fechamos a porta ao sonho. O que é muito belo na cultura portuguesa é esta noção de saudade, de nostalgia, que abre a porta ao sonho e à poesia. Portanto, sentimos a necessidade de incluir uma actriz portuguesa, Isabel dos Santos, e um pintor, Miguel Rebelo. Ao longo do nosso trabalho, o ano passado, tínhamos dificuldade em perceber a obra porque não éramos portuguesas. Existia uma dimensão que não nos era perceptível. Era então preciso encontrar portugueses porque estávamos fechados sobre nós mesmos. LP - Criaram uma quarta personagem? JV - Sim. Sentimos dificuldade em compreender a peça porque não estávamos em contacto com portugueses. Como na dança moderna, há muitas vezes uma personagem que existe fora da realidade das outras. A partir dessa ideia criámos a quarta personagem. Uma personagem que representa a consciência e que existe numa dimensão fora de nós. LP - Qual foi a contribuição de Miguel Rebelo? JV - O Miguel é um pintor e na altura em que o encontrei tinha apresentado uma exposição inspirada numa obra de Fernando Pessoa. Atraído pela terceira dimensão, encontrou uma maneira original e adequada para criar um ambiente propício ao sonho. LP - Ouvimos ultimamente falar muito de Fernando Pessoa, será uma moda? IS - Fernando Pessoa é muito mais do que uma moda. Até os portugueses descobriram-no muito mais tarde porque Pessoa quase não publicou obras em vida. Tabucchi fez um trabalho extraordinário para que Pessoa fosse conhecido em França e em Itália. Acho que, presentemente, não estamos a descobrir uma moda ou coisa que se pareça. Pessoa veio para ficar! E como escritor, ele é parecido com o século XX devido à sua multiplicidade e diversidade. JV - Quanto a mim penso que não existe moda nenhuma sem haver «une demande». Se ouvimos tanto falar de Pessoa e se ele fascinou o ser humano é porque existe realmente «une demande». DP - Pessoa ousou aceitar as personalidades que o habitavam e no limite do equilíbrio mental conseguiu explorá-las para as tornar realidade. Se Pessoa fosse vivo hoje em dia, seria uma pessoa «folle du virtuel». IS - Hoje em dia este poeta é compreendido. «On ne s’étonne plus d’avoir des masques ou des personalités. On a sorti définitivement de l’unicité qu’était l’individu». JV - O que se torna extraordinário é que este poeta conseguiu produzir uma autêntica obra de arte. Ele teve o talento e a audácia de que os seus heterónimos fossem seres vivos que escreveram e participaram nas suas obras. Havia dentro dele vozes poéticas múltiplas. LP - O que é que há de sedutor em Pessoa? DP - Quando lemos Pessoa, notamos uma fragilidade humana deveras evidente, uma espécie de mal estar. Por exemplo, quando em fim de vida, Pessoa pensava na mãe e dizia: «Escrevo para ser amado, e se não for conhecido enquanto vivo, espero que os homens mais tarde me amarão». Na minha opinião esta fragilidade é universal e atinge todo o ser humano. JV - O Marinheiro dá-nos vontade de encontrar a personagem de Fernando Pessoa. «Aqueles que me leram serão a minha família», dizia ele. LP - Quantos actores participam na peça? DV - Somos quatro. As três veleiras (Julie Vincent, Danièle Panneton e Marthe Turgeon) e a personagem interpretada por Isabel dos Santos, que por vezes é o reflexo de nós mesmas; por vezes uma projecção do seu imaginário. Ela é igualmente o eco da língua do poeta. LP - A comunidade portuguesa está então convidada?… JV - Claro que sim. Gostaria que tivéssemos muitos espectadores portugueses. É verdade que a peça é apresentada em francês, mas a Isabel dos Santos faz várias intervenções em português. O Théâtre D’Au-jourd’hui está situado em pleno bairro português. Assim, desejaríamos que eles se sentissem em casa. Queremos que a cultura montrealense seja também a cultura dos portugueses. IS - A cultura quebequense interessa-se cada vez mais pela cultura portuguesa. Não através da propaganda política mas através de factos artísticos. E isto é concebido a partir dum olhar artístico cheio de sensibilidade. Ficaria orgulhosa em saber que os portugueses tinham assistido em grande número à peça... LP - Qual a principal mensagem desta peça teatral? JV - É a frase muito curta de Fernando Pessoa que diz o seguinte: «Por que é que se morre? Talvez por não se sonhar bastante». Et voilá! Aqui está a entrevista realizada com três das quatro actrizes que actuam na peça O Marinheiro, «à la montréalaise», de Fernando Pessoa. Entretanto, não se esqueçam que a peça será apresentada a partir do dia 16 de Abril, terminando a mesma no dia 8 de Maio de 1999; e tem como palco a sala Jean-Claude Germain, do Théatre d’Aujourd’hui, situada no 3900, rue St-Denis. (Reportagem de Ludmila Aguiar e Nélson Faria)
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