MANUEL CARVALHO
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IDENTIDADE E NOVOS DESAFIOS |
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E
m recente voo doméstico, deparei
num avião da Air Canada com a revista de bordo En Route que dava honras
de capa ao belo e expressivo rosto da luso-canadiana Nelly Furtado, a nova star
pop das Américas. Em longa entrevista, nas páginas centrais,
entre outras coisas, a Nelly revelava o
seu orgulho nas raízes portuguesas e, embora nascida no Canadá, confessava a
admiração que sentia pelo fado e o seu desejo, quase secreto, de um dia ser
capaz de cantá-lo, feito a que ainda não se afoitava por o considerar de muito
difícil interpretação. Era caso para dizer que com aquela entrevista,
insignificante ponta de um enorme iceberg de marketing à escala mundial,
a Nelly fizera mais pela comunidade luso-canadiana e
dera mais visibilidade à cultura lusófona
do que toda uma geração de artigos e discussões caseiros para "português ler e ouvir". Pensamento puxa
pensamento, recordei então, com ponta de ironia, a ainda fresca polémica que estalara no seio do
grupo de discussão Voxnova, um grupo de jovens cibernautas luso-canadianos,
maioritariamente residentes em Toronto. Alguns dos intervenientes recusavam
veementemente considerar a Nelly uma artista luso-canadiana apoiando a sua
argumentação no facto das suas canções não se enraizarem na cultura musical
portuguesa. Um outro interveniente, muito oportunamente, fez notar que o
próprio grupo, privilegiava o inglês, em detrimento do português, como
ferramenta de comunicação, sem no entanto esse facto beliscar
significativamente a sua identidade lusófona. Toda esta controvérsia, de grande
actualidade, nestes tempos de globalização, em torno das identidades culturais
e que afecta uma grande parcela da humanidade, levou o conhecido escritor Amin
Maalouf a debruçar-se sobre o assunto e a escrever um oportuno e brilhante
ensaio intitulado Les identités meurtrières. Nascido no Líbano, na encruzilhada de múltiplas
civilizações e residente há muitos anos na hoje também multicultural França,
`aqueles que lhe perguntam se se sente mais francês ou mais libanês, Maalouf
confessa invariavelmente que esta é uma pergunta para a qual não tem resposta
por se sentir o resultado das múltiplas pertenças, todas importantes, que,
no decorrer da vida moldaram a sua identidade. Esta miscegenação que, cada vez
mais, grande parte da humanidade reivindica e assume orgulhosamente, como contraponto
ao nacionalismo feroz ainda vigente em várias zonas do globo, faz-me recordar
uma história do tempo do marquês de Pombal. Conta-se a traços largos: tendo o
Inquisidor-Mor convencido el-rei D. José de que todos os habitantes do reino,
com sangue judeu, deveriam usar um chapeu amarelo para mais facilmente poderem
ser reconhecidos, na manhã seguinte o marquês de Pombal apresentou-se diante do
rei com três chapéus na mão. -Para quem são esses chapéus?-
perguntou-lhe, intrigado, D. José. - Um é para mim, o segundo é para
Vossa Majestade e o terceiro é para o
Inquisidor-Mor- repondeu, impávido e sereno, o marquês de Pombal. Mas voltando a Amin Maalouf :
no epílogo do ensaio, o autor manifesta a convicção de que a identidade deverá
ser compreendida como o somatório de todas as nossas pertenças, entre as quais
tomará cada vez mais importância a pertença à comunidade humana até ao ponto de esta
se tornar, num futuro próximo, a pertença principal de todos nós, cidadãos
da mesma pátria, a Terra, sem, contudo, excluir ou marginalizar as nossas
múltiplas e preciosas pertenças particulares. Será este o grande desafio do novo
milénio. Com a mundialização, vista como factor de universalização e não de
hegemonismo, e o desenvolvimento
extraordinário das comunicações, dispõem presentemente as minorias
culturais de armas eficazes na luta
pela sobrevivência da sua identidade
até aqui ameaçada pela prepotência das maiorias culturais. Será também este o grande desafio que enfrentará a comunidade
luso-canadiana, até aqui condenada a um
isolamento quase completo, encurralada entre as vertigens mortíferas do gueto e
da assimilação, e que, subitamente,
graças à revolução tecnológica em curso, viu os seus laços reforçados (reatados) com o vasto mundo da
lusofonia, o que lhe permite sonhar com mais promissor destino onde a língua
portuguesa, simultâneamente factor de identidade e instrumento de comunicação,
terá uma função cristalizadora de primeiro plano. Com espírito largo, sem
receio de contaminar e ser contaminada, aberta à diversidade e à transformação, cultivando, com desvelos de jardineiro, a tolerância, a
coexistência e a integração dos valores alheios.
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