MANUEL CARVALHO


Manuel, le fils emprunté

(Artigo publicado no semanário A Voz de Portugal-Montreal-1989)

 

 

Manuel, le fils emprunté, do realizador quebequense François Labonté, é um filme despretensioso mas que se debruça sobre temas sérios e vivos.

É uma história simples, com um olhar demorado sobre os lugares e temas do imaginário português do bairro St-Louis: a igreja, as procissões, o Parque Portugal, os nossos cafés, as nossas padarias.

Mas em vez de se deter e atolar, como acontece frequentemente com experiências do género, em chavões e lugares-comuns, procura, pelo contrário, com seriedade, aflorar

e mesmo aprofundar temas e problemas da nossa comunidade em particular e da imigração em geral: o preocupante insucesso escolar da segunda geração, a crescente delinquência juvenil, o desenraizamento, o conflito de gerações.

            Como disse atrás, é uma história simples. A história do Manuel,  um garoto de origem portuguesa cujo insucesso escolar e a consequente imcompreensão e agressividade do pai atiram para a delinquência mas que é “salvo” in-extremis pelo coração largo dum sapateiro espanhol, um velho anarquista sobrevivente da guerra civil de Espanha.

            Apesar dum certo pendor moralista, o filme atinge momentos de grande intensidade dramática como por exemplo na cena em que o pai do Manuel reconhece que, não obstante um relativo sucesso económico, ou talvez por isso mesmo, dada a falta de tempo para prestar atenção ao crescimento dos filhos e ao evoluir do mundo à sua volta, a sua vida é um fracasso. Ou ainda na parte final quando o velho sapateiro, confrontado com inadiáveis opções a tomar relativas ao futuro escolar do garoto, aceita finalmente abdicar do seu orgulho e reconhecer que, na vida, entre a utopia e a realidade há todo um mundo de cedências e compromissos a navegar.

            O filme encerra com uma comovente homenagem, significativa nestes tempos conturbados e redutores, a todos aqueles que, cavaleiros-andantes da liberdade e da justiça, continuam a teimar em ver o mundo com os olhos do coração.

            Só mais umas algumas palavras de apreço pelo desempenho sóbrio mas de qualidade de Luís Saraiva (pai do Manuel) e da agradável surpresa pelas grandes qualidades artísticas do jovem  Nuno da Costa (Manuel).