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Surge a última canção, há corpos meio nus que aproveitam os derradeiros minutos do concerto para manobras de «body surfing» por cima do público extasiado, entoam-se os «encores» e, depois, as luzes da sala acendem-se. Sem perder tempo, Nelly Furtado vai lá para fora onde a multidão se derrama pelos parques de estacionamento, e transforma-se em mulher dos sete instrumentos. Saca de folhetos, autocolantes, discos compactos e começa a publicitar o seu trabalho.
O álbum Whoa, Nelly!, que ela compôs, produziu e protagoniza no esplendor da sua voz-capaz-de-tudo, vai aparecer nas lojas americanas já em Setembro e é a grande prioridade da DreamWorks Records em mais de 50 países. A «tournée» mundial está a ser ultimada e já há datas para os concertos na Austrália, França, eu sei lá. Mas, nesta alvorada do estrelato, Nelly Furtado mantém-se imperturbável. Conversa com toda a gente e distribui a sua música com o entusiasmo de uma menina dotada, que tem um segredo ainda por partilhar. É sexta-feira à noite em Toronto e Nelly Furtado, a cantora à beira do precipício que é sempre a fama, não podia estar mais feliz.
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Obviamente, o gira-discos familiar estava sempre em «on», entoando canções do Billy Joel, Abba, Lionel Ritchie. Também se refugiava no quarto dos pais a ouvir, vezes sem conta, os seus temas favoritos. «A primeira vez que cantei em público foi na companhia da minha mãe, no Dia de Camões, no clube recreativo português de Victória. Era uma canção de mãe e filha e na sala havia, talvez, 600 pessoas. Foi nesse momento que me dei conta. Só tinha 4 anos mas percebi que havia nascido para aquilo, para cantar, para cantar em público, para as palmas». Nunca faltou a uma marcha de S. João e aprendeu a tocar trombone e bandolim havaiano com os senhores na banda. Mas os pais não eram pessoas de exercer pressão. A mãe, sobretudo, que tinha crescido nos Açores num lar de música sempre presente, via na Nelly a continuação da saga familiar.
Mas Victória, onde os Furtados viviam imigrados, não era exactamente uma metrópole cheia de oportunidades para uma artista em botão de rosa. Por volta dos 13 anos, Nelly recortou um cupão de uma revista musical e mandou a sua primeira cassete de temas originais a uma editora. Aos 16 anos, estabeleceu contacto com o mundo musical da grande cidade mais a leste, Toronto. «Sabia que ia a Portugal nesse Verão e comprei um bilhete que me permitia ficar em Toronto uma semana, para visitar as minhas tias e a minha irmã. Aproveitei a estada para ajudar uns amigos meus que tinham uma banda de hip hop. Foi essa a minha primeira experiência na gravação de discos».
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Obteve a sua primeira bolsa, atribuída por uma fundação canadiana, que tem por missão acarinhar artistas jovens, e gravou o primeiro vídeo. Mas ainda não ia ser desta. Voltou para Victória, a capital e grande ilha da Colúmbia Britânica. «Voltei à escola para aprender a tocar guitarra. Além disso, queria adiar a vida adulta por mais um ano. Sabia que, se escolhesse a carreira musical, seria o fim. E eu só tinha 18 anos. Não queria começar a lidar com cláusulas contratuais, advogados, produtores, editoras. Logo que eles detectam um novo talento começam a delinear-te um percurso. É preciso ter muito cuidado e eu ainda não estava pronta para dar esse passo». Decidida a valorizar o seu talento, inscreveu-se na universidade para desenvolver a escrita criativa. Comprou uma guitarra, começou a escrever canções mais interessantes, descobriu artistas novos e passou a cantar em pequenos cafés. Mas o assédio de Toronto mantinha-se. Telefonavam-lhe frequentemente a pedir-lhe que regressasse. Por fim, lá baixou a ponte levadiça e transpôs o fosso cauteloso que tinha cavado à sua volta. Algumas semanas depois a DreamWorks estendeu-lhe uma proposta de trabalho que Nelly, de lupa na mão, assinou a contento de ambas as partes. O álbum foi gravado de Setembro a Abril.
Na certidão de nascimento lê-se Nelly Kim Furtado, o que não deixa de ser um nome estranho mesmo para uma luso-canadiana de árvore genealógica com raízes no outro lado do mar. Mas quando diz que a mãe lhe deu aquele nome em homenagem a uma ginasta russa faz-se luz.
Claro, Nelly Kim, a graciosa e lindíssima ginasta da defunta União Soviética e que foi uma das sensações nos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976. Nelly Kim, a ginasta de traços asiáticos e que, na companhia da compatriota Ludmila Turicheva e da boneca do ano Nadia Comaneci fizeram da ginástica o desporto a seguir naquele ano de glória. É quase fácil imaginar: Nelly Kim Furtado, nascida a 2 de Dezembro de 1978 e baptizada por uma mãe apaixonada por aquelas meninas graciosas da trave e das paralelas assimétricas. Esta Nelly, também bonita e também maneirinha, não fazia ideia. Mas não tem importância, agora que tem na frente um valente prato de bacalhau servido num restaurante do bairro português de Toronto. Já veio a linguiça cortada às rodelas, já vieram as águas Castelo e agora vem o empregado de mesa falar do reboliço que foi ali na esplanada das traseiras de cada vez que havia um jogo do europeu de futebol. Ela está nas suas sete quintas.
De cabelo castanho e olhos verdes, Nelly não sabe bem onde é que começa o seu portuguesismo e acaba a sua faceta novo-mundo, canadiana. Mas diz que é definitivamente romântica e que adora tudo o que é dramático. Tipo gente a chorar nos casamentos ou uma boa telenovela. Também tem um lado contemplativo que favorece a paz da natureza. «Os meus pais têm um bom pedaço de terra em São Miguel e lembro-me de ir ver as vacas nas pastagens e de olhar para a vila, ao longe. Cantava as minhas canções e o sentimento de saudade era profundo. Há um grande peso ancestral em tudo o que é português». Adorava ter casa própria em Portugal e acredita que a residência familiar em São Miguel é o mais perfeito cantinho de paz em todo o mundo. Não é filha única. «Tenho um irmão, de 23 anos, e uma irmã de 26». São «espertíssimos», adoram falar de política e são voluntários para tudo o que é causa humanitária.
A tarde embrulha Toronto numa luz de papel pardo e Nelly está, agora, a caminho de mais um ensaio. A banda dela, cheia de rapazes novos e talentosos, está à espera da vocalista num armazém junto a uma linha de comboio. Ela traz um prato de rodelas de chouriço, caso apeteça aos moços ferrar o dente em algo delicioso no intervalo das canções. E, à noite, ainda tem na agenda o tal concerto de hard rock. Mas, agora, enquanto o carro avança pelo bairro português, Nelly Furtado vai lançando para o ar nomes de realizadores que gostaria de convidar para os seus vídeos. «Que achas do Spike Jonze?», diz ela referindo-se ao marido excêntrico de Sofia Coppola. Digo que, quando o entrevistei, ele tinha uma câmara de filmar ao ombro, só para causar um certo desconforto no jornalista. Ela acha giro e faz uma nota mental para não se esquecer do pormenor.
Depois, pergunto-lhe se está pronta para o estrelato que a espera dali a algumas semanas. Sim, porque deve ser um nadinha intimidante ser a cantora prioritária do estúdio do David Geffen e do Steven Spielberg. Ela regista um grande e redondo zero na escala Richter das preocupações. «Estou, pelo menos, entusiasmada com a ideia de ter fãs. Acho que é giro imaginar que as pessoas têm o meu álbum num canto qualquer da sala-de-estar. Quanto ao resto, desde que eu mantenha a minha cabecinha no lugar, acho que vai dar tudo certo».
RUI HENRIQUES COIMBRA, enviado a
Toronto