NELSON FARIA


UMA COMUNIDADE AINDA PARA NASCER



Obrigados pelo post-modernismo, não podemos facilmente definir a nossa comunidade visto as grandes diferenças de gerações. De facto, existem poucos pontos de referência entre as duas primeiras gerações de portugueses e a minha. Contrariamente ao que se pode pensar, não é a expêriencia da imigração que nos une. “Os da terceira”, como chamamos, até ficam aliviados por não terem esta experiência por vezes dolorosa, por vezes orgulhosa e muitas vezes masoquista. Mas temos outras experiências e realidades. Infelizmente, a obsessão com o sucesso económico em detrimento dos estudos é uma delas. O nível de instrução dos da “terceira geração” continua a ser dos mais baixos do Quebec e estamos flagelados com os mesmos problemas socias das outras geraçðes: homofobia, sexismo, racismo e muitos outros “ismos”.  É como a rabuge que passa de pais para filhos!

É verdade, não participamos muito nas associações e manifestações comunitárias, sobretudo nas manifestações religiosas. Não é por falta de interesse. É simples, não nos identificamos com este tipo de religiosidade/portugalidade. Olhando à nossa volta, a situação da religiosidade no Quebeque não está muito diferente. Sem dúvida, isto também é um factor importante. Para nós, é difícil identificarmo-nos com uma comunidade que ainda se vê com a vontade de vestir os seus santos de brilhantes e diamantes, passeá-los às costas pelas ruas fora, sem uma real reflexão sobre o sentido da religiosidade na América do Norte. E mais, a comunidade entra neste curioso espírito de qual é a associação ou paróquia que mais fez, mais deu e mais seduziu. Não nos parece um espírito santo! Rejeitamos em parte este tipo de religiosidade.

Não fico surpreendido quando a primeira e segunda gerações não se identificam com certos símbolos mais novos. Quando a Nelly Furtado canta: “I am like a bird, I don’t know where my home is, I don’t know where my heart is...”, será que os de “primeira” e “segunda” percebem? Será que sabem que se canta Rap em português? Será que entendem que foram dezenas de jovens locais de lágrimas nos olhos a ver a eliminação de Portugal no Mundial? E lá vêm os chamados especialistas a dizer que a terceira geração perdeu a noção de “ser português” e que despreza a cultura e a raízes. O que não sabem é que estes jovens estão a criar novos laços entre as comunidades lusófonas através das novas tecnologias. Estão a promover a cultura portuguesa moderna através da música, da comida, das tradições e outros meios. É certo que esta busca de novos símbolos de portugalidade/açorianidade pelas gerações mais novas significa que certos símbolos mais tradicionais serão sacrificados em nome da aculturação. Nomeadamente símbolos religiosos e associativos das primeiras gerações. Não podemos dizer que esta realidade demonstra uma falta de interesse da parte dos jovens. A prova é que muitos jovens dedicam-se ainda às nossas filarmónicas, ao folclore e às escolas portuguesas. Mas devemos reconhecer que muitas dessas instituições nem sempre facilitaram a participação dos jovens.

Os Portugueses (de Portugal, como se diz) estão também em crise identitária no meio dessa nova salada europeia. Só que lá, os imigrantes não são sempre os bem-vindos. Num mundo que continuamente desfaz fronteiras, já não temos facilmente uma identidade específica. Podemos ser Canadianos, Quebequenses e Portugueses. Podemos também rejeitar todas ou em parte essas definições. Em todos os casos, depende da política. Nós, os da “terceira”, temos acesso a todas essas realidades. Não somos o modelo clássico de um português! Talves um modelo construído de várias realidades. Um modelo construído e preparado para um mundo que cada vez mais rejeita qualquer forma de fronteiras entre as culturas e as sociedades. Devemos agora construir para preparar as nossas comunidades para esta realidade. Não nos podemos  fechar nas raízes e tradições de Portugal.

Acredito que a nossa comunidade nunca há-de morrer porque ela nunca realmente nasceu. Nascer é vir ao mundo, sair do ovo, ter vida exterior. E também construir algo de novo. Ao nível ideológico, as nossas comunidades não construíram nada de novo. Simplesmente copiaram os cantinhos que deixaram do outro lado do oceano. São estes os símbolos chamados muitas vezes a morrer. Infelizmente, a nossa comunidade pouco sai de casa. E casa não é sempre símbolo máximo de sucesso. É simbolo de isolamento do mundo para se proteger do exterior. A terceira geração está a sair de casa. Está abrir-se à Lusofonia, às novas religiões, às novas comunidades, às novas realidades sexuais, aos novos idiomas, às novas culturas e muito mais. Este é o grande projecto que podemos realizar com as outras gera­ções. Como disse Issac Asimov, “A vida é agradável. A morte é serena. É a transição que é pertubante.” Condenados a morrer ou renascer, será que as primeiras gerações estão preparadas para esta transição? Quem está as prepará-las para esta transição? Se são as mesmas instituções que alienaram os jovens e muitos dos seus pais, ficamos preparados para muitas pertubações...