DE CICOURO AO PICO DA PEDRA Prosema ao Onésimo
Já em tempos escrevi que há certas pessoas
escolhidas, que vieram a este mundo para desfraldar ao vento a bandeira da mudança, para agitar as almas atoladas no
marasmo dum quotidiano sem história. São elas o fermento da transformação,
tocadas pelo condão, pela graça, de dar forma ao informe, voz ao silêncio, luz
às trevas, sentido ao incompreensível. O Onésimo Teotónio Almeida, com todo
o vigor da Palavra que o habita, é uma delas.
E mais uma vez o comprovei. Há tempos, enviou-me
um e-mail perturbador, que virou toda a minha vida do avesso. Rezava mais ou
menos assim: Manel, em recente viagem a
Portugal andei por terras de Miranda do Douro e fui até Cicouro, à sua terra.
Perguntei por si mas disseram-me que nos últimos anos já não aparecia, que
ficava por Miranda quando ia a Portugal.
Era verdade. A verdade nua e crua. Incompreensivelmente, sem justificação, nos últimos
anos, vezes sem conta me ficara por Miranda, sem coragem para galgar os
escassos vinte quilómetros que me separavam da terra que me vira nascer.
Assaltou-me uma mescla de tristeza e de vergonha. Compenetrado
do meu indigno e imperdoável comportamento, logo ali, frente ao computador e ao
e-mail apontado ao coração como uma adaga acerada fiz a promessa: este ano irei
a Cicouro.
E cumpri. Foi uma peregrinação purificadora e catártica.
Calcorreei ruas empedradas e tortuosas. Andei por todo o lado. Mostrei-me.
Encontrei familiares perdidos. Estampei na fronte um cartaz que berrava: estou aqui, o filho pródigo
voltou, ainda não vos esqueci.
Sempre num turbilhão, voraz, vasculhei todos os
recantos do meu imaginário infantil: a casa onde nasci; a fonte de chafurdo onde
tantas vezes me dessedentei; o bebedouro dos animais onde, em dia aziago, quase
me afogara; galguei velhos caminhos poeirentos castigados pela canícula; embrenhei-me
pela imensidão dos trigais dourados; sorvi o perfume inebriante dos braçados de
flores silvestres; refresquei-me nas sombras frondosas dos castanheiros; numa
alegria arrancadado fundo da memória, assaltei pombais
encarrapitados nos montes e alvorocei a
paz das revoadas de pombos selvagens.
Só quando o fôlego me faltou e as pernas fraquejaram
de vez , é que me recolhi na abrigada da
Casa do Povo onde enxuguei o suor da fronte e saboreei uma cerveja entre dois
dedos de conversa com um pequeno grupo
de jovens arreigados aos valores da terra ancestral. Jovens generosos que ainda acreditam que aquelas aldeias raianas,
quase desertas, poderão um dia renascer das próprias cinzas como a fénix da
lenda e alcançar uma prosperidade que parece tão longínqua.
Finalmente,
sentia a alma apaziguada mas o meu esgrimir
de emoções com o espírito do Onésimo não se ficou por aqui. Se ele tivera a
coragem de se aventurar até à minha
aldeia natal perdida no planalto
mirandês, certamente uma das últimas fronteiras de Portugal, também eu, em réplica
exemplar, iria visitar a Pico da Pedra,
a terra que o viu nascer.
Assim acertado na minha cabeça, na viagem de regresso a Montreal, detive-me um punhado de
dias em S. Miguel e, numa pausa dos maravilhosos passeios pela ilha
deslumbrante, talvez um dos últimos paraísos deste mundo tão violentado, foi uma enorme alegria para mim deambular, sem pressas, a sorver a história de cada pedra, pelas
ruas adormecidas e tranquilas do Pico da
Pedra.
Lugar onde a paz parece continuar a reinar como em
1936 quando Luís Dias Martins Carreiro compôs o Hino do Pico da Pedra:
(…)
Vivemos em doce vida!
Numa paz doce e ditosa.
Nesta aldeia tão querida,
Terra linda tão formosa.
(...)
Já agora acrescento, num último retoque, em jeito de florilégio, que na aprazível e
polivalente Casa do Povo está instalada uma interessante biblioteca denominada precisamente
“Sala de leitura Onésimo Teotónio Almeida”. Prova real de que a aldeia não esqueceu um dos
seus mais dilectos filhos.
Após tão frutuosa viagem, tudo se parecia conjugar
para um regresso tranquilo a Montreal. Mas (in)felizmente a ambição dos homens
é insaciável. Por mais que a tentasse afugentar, não me saía da cabeça a soberba descrição que no
livro Onze Prosemas o Onésimo faz da
fulgurante aparição do Pico com que se deparou, inesperadamente, numa das
suas frequentes viagens aéreas entre as duas margens do seu rio Atlântico(1).
Regalem-se com este suculento naco de prosa, a
evocar um realismo mágico de qualidade insuperável que um Borges ou um Garcia Marques não
desdenhariam assinar:
O comandante avisa We are presentrly fflying
north of Terceira Azores quando eu
julgava deveríamos andar a roçar os
gelos da Gronelândia e súbito uma força
atravessa-me a espinha
endireita-me na cadeira e faz-me abrir uma nesga da minha persiana (...)
Nada
de ilha e nem sequer mar só nuvens e mais branco e de repente uma
alucinação Não é a serra de Santa
Bárbara essa não fura assim este algodão
espesso mas o Pico ele mesmo ou a ponta dele um cone de azul plantado sobre aquela imensidão de branco sereno e
altivo imponente e majestático altaneiro e belo
(...)Apetece-me
chamar os vizinhos dar um berro no microfone ABRAM AS PERSIANAS E VEJAM ESTE
ESPECTÁCULO mas ninguém mesmo ninguém sabe ou sequer preocupa em saber o que
vai lá fora são todos estrangeiros lêem livros em inglês vêm de Londres e vão
para New York O que lhes poderá dizer a
treta de um triângulo azul escanchado nas nuvens e já me dá vontade de partir a
cara a quem na minha cabeça se referiu ao Pico em termos assim tão
grosseiros(...)
É de ficar com água na boca, reconheçam lá. Já
agora que estava em maré alta de emoções e mesmo de sorte, levando mais longe o meu arrojo, talvez também
eu pudesse regalar-me com tão suculenta
iguaria do espírito.
Nesta feição, enquanto ainda sobrevoava o arquipélago dos Açores, eu
bem esticava o pescoço e espiolhava o espesso manto de nuvens na esperança de
que o Pico tivesse forças para irromper por ali acima e mostrar-se em toda a sua magnificiência ao
meu olhar deslumbrado.
Mas de nada me valeu o esforço hercúleo. Talvez por só os escolhidos dos deuses poderem
usufruir de tal privilégio. Talvez por a minha crença não ser suficientemente
forte. As nuvens continuavam espessas, o céu escurecia cada vez mais a
pressagiar tempestade. Finalmente, num último golpe de misericórdia, a voz
monocórdica do comandante do avião anunciou que iríamos atravessar uma zona de
grande turbulência e que deveríamos apertar os cintos de segurança. Adeus
gloriosa alucinação do Pico.
Era preciso render-me à evidência. Baixar os braços.
Encarar de frente a realidade. E reconhecer que o Onésimo continua imbatível.
(1) Ao fim de vinte e cinco anos de fazer-me
ponte sobre o Atlântico, pé-cá, pé-lá, desembarcando em Lisboa, Ponta Delgada,
Lages, ou Boston, o oceano tornou-se bem mais estreito e instalou-se num
quotidiano de onde se vê sempre a outra margem, com as ilhas de permeio a
facilitarem o salto.
POR TERRAS DE CICOURO


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