PARC
DU PORTUGAL

Coisa estranha: apesar de se acharem
no seu país, a nostalgia não morreu e esse murmúrio subterrâneo, tenaz,
invencível, continua a lavrar no fundo das suas almas.
Yolanda Foldes
A rua do gato que pesca
Discretos, como
vivem, os portugueses vão, aos poucos, desertando o quartier St-Louis e no
conforto dos subúrbios provam o pão que a integração
amassou.
BUNGALOW
O agente imobiliário, um português
com mais de vinte anos de tarimba, paciente como uma múmia, com artes para
impingir uma casa a um morto, nunca deparara com um caso assim. Ajeitou os
óculos no nariz protuberante picado de transpiração e, incapaz de aceitar a
derrota, respirou fundo, disposto a recorrer à sua artilharia mais
pesada.
- Olhe meu amigo, os tempos estão
excepcionais para os compradores, não há memória de coisa assim - malhava, mais uma vez, o ferro. - Esta situação não pode durar
eternamente. Quando a recessão acabar, os
preços vão disparar por aí acima. Decida-se antes que o vento mude, já me
constou que os juros vão subir brevemente. Se quer um conselho de amigo, não
perca esta oportunidade. Isto é falar de português para
português.
Até mesmo a Teresa, toda prudências
e esquisitices, já ficara a morrer de amores por três ou quatro bungalows
que eram um sonho e, se não fosse o travão do marido, já há muito que teria
embarcado, levada pela lábia do homem.
Quanto ao filho nem é bom falar, o
agente cheirara-lhe o fraco e cortava-lhe o fôlego com os irresistíveis abraços
que as águas refulgentes das piscinas lhe lançavam dos back-yards.
- Quando comprar terá que ser coisa
a meu gosto - obstinava-se o Luís Negro, cego aos mais aliciantes
engodos.
Lareiras, quartos frios para vinho,
amplas garagens, verdejantes relvados, enormes drive-ways, nada o
decidia.
- Afinal, você quer ou não quer
comprar? - exasperou-se o vendedor.
- Claro que quero - abespinhou-se o Luís. - Pensa que sou homem de
brincadeiras?
O vendedor, desamparado, esgotadas
todas as habilidades, já disposto a baixar os braços, fez das tripas coração,
numa derradeira tentativa, por descargo de consciência.
- A casa que hoje lhe vou mostrar,
em Laval, é uma pechincha. Se não
comprar esta, não compra mais nenhuma. Pertencia a um senhor italiano,
infelizmente recentemente falecido, e a viúva vai regressar à Itália. Está um
autêntico brinco, o senhor sabe, nisso de
conservar as casas, os italianos são como os
portugueses.
*
Perante a incrédula indiferença da Teresa, farta até à ponta
dos cabelos de correr seca-e-meca, e o desinteresse do filho frustrado pela
falta de piscina, o Luís estendeu lentamente os olhos pelo vasto quintal: o
renque de macieiras bem alinhadas, a horta de terra negra e promissória à espera
da fecundação, o forno de tijoleira, os tufos verdes das framboeseiras e dos
morangueiros, as lajes dos passeios a rasgar o relvado, impecavelmente
niveladas, a vedação bem tratada, braçados de flores por todo o lado, por entre
a verdura pássaros a cantar, abelhas numa lufa-lufa. Tudo respirava o trato de
mãos amorosas e sonhadoras.
Por instantes, Luís examinou as próprias
mãos, fortes e amestradas para prosseguir a obra encetada. Depois, sem pressas,
poisou o olhar no atarantado vendedor.
- É esta - disse,
simplesmente.
E qualquer coisa lhe segredava que, fosse lá onde estivesse, o velho
italiano devia esfregar as mãos de contente.
SARDINHADA
Diligente como uma formiga, durante
três ou quatro tardes, o Luís Negro cavou , arroteou, extirpou vestígios de raízes e pedras,
adubou, a terra úbere finalmente pronta para engravidar da poesia que lhe escorria das mãos
ansiosas. Só então sorriu: à sua
frente, os canteiros de salsa e
hortelã, as leiras de tomateiros e pimenteiros, as carreiras de cebolo
arrebitado, os cômoros das alfaces,
os pés de couve, a esquadria dos regos, via-se que ali andara mão inspirada de
mestre.
Mas uma obra sem elogios é como um
dia sem sol. O Luís tem fome de palavras de apreço e admiração. Mas onde
procurá-las?
Já se tinham mudado havia quase um mês e
ainda quase mal vira as ventas aos vizinhos, ciosamente refugiados nas prisões
douradas da privacidade. Quanto aos amigos, andavam todos dispersos pelas
rafadas da vida. O Jaime Reis regressara a Portugal, ao Pedro Algarvio parecia
que lhe dera o sumiço, nunca mais lhe pusera a vista em cima. Restava-lhe o Zé
Biana mas esse, coitado, às vezes andava com uma cara de triste que até dava
pena, como se carregasse o peso do mundo às costas, cada vez mais brumoso o
sonho de montar uma oficinazita lá
na terra, para mais agora que o dólar andava pelas ruas da amargura e a
vida em Portugal estava pela hora da morte. Por esse andar, o dinheiro que o
pobre ganhava numa semana mal chegaria para comprar um parafuso em Portugal,
muito teria que esperar aquela serralharia para ver a luz do
dia.
- Éh Teresa, liga aí à Adelaide,
convida essa gente para virem até cá,
amanhã, comer uma
sardinhada.
- Mas ainda não temos nada arrumado
-protestou a mulher. - Ó homem, deixa isso para outra
altura.
- Deixa-te de cerimónias, essa gente é como se
fosse da família, não vão reparar.
*
Com um sol de verão espreguiçado
pela relva cortada de fresco, em tronco nu, uma cerveja na mão, enquanto espalha
as sardinhas sobre a grelha, o Luís fala pelos cotovelos, as palavras em
chorilho. Esmaga o Biana com a sua omnisciência hortícola, avança previsões
irrebatíveis.
- Daqui a um mês, vou ter ali
carradas de tomates mais grossos do que o meu punho. E alfaces? Acho que vou poder abastecer o mercado de Jean
Talon durante todo o verão, estas mãos sabem o que fazem.
Já espessa nuvem de fumo sobe do
barbicue e, levada pela brisa, paira pesada sobre a ramaria das
macieiras, estende tentáculos odorosos pelos quintais da
vizinhaça.
E, de súbito, o Luís dá com um par
de olhos perscrutadores pousados sobre a vedação.
- Querem lá ver que a este já lhe
deu o cheiro das sardinhas e vem para aí armar banzé! Ele que não se faça parvo.
Era o que me faltava já não fazer o que me apetece naquilo que é meu. Deixa-o
comigo que a este já lhe trato da
saúde ou eu não me chame Luís.
- Bonjour, voisin - interpelou-o, de peito feito. -
Não queres provar uma sardinha? Garanto-te que nunca comeste nada tão gostoso em
toda a tua vida.
Do outro lado, os olhos animaram-se, aguados, no coiro escuro do
rosto surrado pela vida.
-
Depois
que saí de Marrocos, nunca mais comi sardinhas.
O Negro ficou aparvalhado, de boca aberta mas logo se recompôs, sem
mostrar a fraqueza.
- Então, é aproveitar hoje. Estão
gordas e gostosas que é um regalo. Olha aqui, tão loirinhas, estão mesmo a pedir
que as comam. Vem daí e chama também a família, há aqui sardinhas que chegam
para todos ou não seja eu peixeiro.
Enquanto o marroquino, lépido, dava
a volta à vedação, o Luís Negro ria
às gargalhadas, os olhos marejados de lágrimas, talves do fumo, talvez doutra
coisa qualquer.
- Tás a ver isto, ó Biana?
Acontece-nos cada uma na puta da vida.
CAMPEONATO
Adversários daqueles, assim
fracalhotes, sem chama, começavam a tirar-lhe o gosto pelas suecadas. Uma
suecada a valer, queria-se renhida, transpirada, disputada palmo a palmo, o
coração a bater como um cavalo, o sangue a saltar nas veias, a latejar nas
têmporas.
Ultimamente, a meio duma partida, já
chegara a dar conta de si completamente alheado do jogo, distraido com a vida da
montanha, com os pares que passavam, com as correrias das crianças, com a
batucada cada vez mais endiabrada lá para ao pé da
estátua.
- É Manel, hoje tás com a cabeça nas
nuvens - queixava-se o parceiro. - Andas com algum
problema?
- Qual problema, qual carapuça! Não
sei do que tás à espera para jogar essa bisca.
A vida corria-lhe num mar de rosas,
assim sempre fosse, trabalho continuava a tê-lo, graças a Deus, carpinteiros com
umas mãos de oiro como as suas não se encontravam aos pontapés, o neto,
palrador, sempre atrás dele, cada vez mais a sua cara chapada, enchia-lhe a casa
de alegria e até mesmo o Michel, agora que o começava a conhecer melhor, estava
a sair-lhe um gajo porreiraço, sempre com boa cara, já começava a acreditar que
a filha tivera carradas de sorte em tê-lo encontrado, com cada estafermo de
homem que por aí havia. Se Deus lhe desse saúde e sorte, pró ano estava a contar
levar a família toda a Portugal, por altura da festa do Nazo, aí é que o Michel
iria saber o que era o regalo duma boa posta mirandesa assada na brasa, que o
dianho tinha boa boca, nada biqueiro, nem parecia quebecois, regalava-se
todo com sardinhadas e boas febras bem à portuguesa.
Mas, por aquele andar, as suecadas
ali na montanha tinham os dias
contados, não havia nada que as salvasse, para mais agora que um grupo de
velhotes polacos lhes andava a cobiçar a mesa, a rondar, sornas e solertes, com
aqueles narizes vermelhudos das garrafadas de
vodka.
- Qualquer dia ficamos sem a mesa -
rosnava o Abílio, com aquele par de patilhas cada vez mais selvagens, meio
grisalhotas, a comer-lhe a cor da cara.
Estava tudo pois nestes termos,
quando um sábado, já o verão começava a dar a alma ao diabo, o frio a descer da
montanha em rafadas aguçadas, o Abílio apareceu todo excitado, os olhitos
atiçados como carvões em brasa.
- Éh pessoal, hoje trago uma notícia do
caraças.
De pronto, o baralho de cartas
esquecido sobre a mesa, falou-lhes do campeonato de sueca que o Benfica estava a
organizar, coisa para breve, não havia tempo a perder.
- O meu cunhado é lá da direcção,
aquilo vai ser em grande. E se a malta entrasse na coisa?
A excitação a repintar as caras
gastas, logo ali escolheram parceiros, desdobraram estratégias, jogos de sinais,
mil artimanhas para arrumar aquela malta do Benfica enquanto o diabo esfrega um
olho.
E c'os diabos, no ardor do momento, o Manuel Transmontano
voltou-se para o grupo de polacos, que os mediam meio desconfiados, e, por entre
mil gargalhadas, atirou-lhes, num manguito bem puxado:
- A mesa é vossa. A nossa música
agora é outra.
A Adelaide anda outra vez com uma
neura desgraçada. Sem apetite, com insónias, cheia de olheiras, o médico diz-lhe
que é um princípio de depressão
nervosa e, para justificar os honorários, pergunta-lhe se fuma, discorre sobre o
stresse da vida moderna, aconselha-lhe exercício, moderação na
alimentação, enfim, a receita do costume, parece que lêem todos pela mesma
cartilha.
Ela só não se lhe ri na cara porque
a situação não é para graças. A razão da sua crónica prostração identifica-a ela
melhor do que ninguém, do médico dispensa bem o palavreado tonto, dele só
precisa a receita dos tranquilizantes, mais nada, para ser reembolsada pelo
seguro. O grande e único mal dela é ter um banana de marido, completamente
chanfrado, agarrado como uma lapa àquele sonho de um dia montar uma serralharia
lá na terra.
Arrancar-lhe um cêntimo da conta bancária
é como tirar-lhe um litro de sangue ou arrancar-lhe o coração do peito. Ainda
recentemente, para comprarem o carro fora uma luta alto lá com ela, longa de
meses, arrasante, o que lhe valia é que a filha começava a crescer, quase uma
mulher feita, e também já batia o pé, firme do lado dela, já não se sentia tão
desamparada. “O que tu devias era fazer uma promessa ao Senhor Santo Cristo para
ver se lhe sai essa doideira da cabeça”, aconselhava-a a boa da Teresa,
compadecida, quando a via mais deprimida. Então nos últimos
dias tem sido uma desgraça, o raio do homem tem andado macambúzio, sem uma
palavra, capaz de virar da cabeça, esse era o seu maior receio. Isso, é claro,
se não fosse ela a primeira a dar em chalupa, esgotada até à última gota por mil
batalhas quotidianas.
Mas, para falar francamente, a
última sardinhada na casa nova da Teresa, fora a gota d'água que lhe fizera
entornar a resignação. Como toda a
boa portuguesa, a Teresa gostava de apresentar a mesa farta, de mostrar as suas
coisas e enquanto lhe fazia visitar os cómodos da casa, tagarela como sempre,
nem se apercebia do mal que lhe estava a fazer. Não é que invejasse os amigos,
eram boa gente, mereciam o que a vida lhes dava, mas não podia deixar de fazer
comparações, de pensar mais uma vez, numa obsessão crescente, no apartamento
escabroso em que viviam, onde até apareciam ratos e
baratas.
Era nisto que reflectia quando
recebeu o telefonema da Teresa. Uma Teresa eufórica, cheia de risinhos
cacarejados, como é costume dela nos momentos de alegria, as palavras a
atropelarem-se umas às outras com a pressa de saltar da
boca:
Olha, Adelaide, estou tão contente,
sabes que puseram à venda a casa em frente da nossa? E estão a pedir um preço
muito baixo. É melhor do que a nossa, com piscina, só o quintal é que é mais
pequeno mas o teu Zé não tem a maluquice do meu Luís. Se vocês comprassem,
ficávamos vizinhos, era tão bom!
- Sabes como é o Zé. Nem quer ouvir
falar numa coisa dessas mas, mesmo assim, posso-lhe falar, mas já sei que não
vai adiantar nada.
- Fala, fala, nunca se sabe e, se for preciso, agarra-te ao Senhor Santo
Cristo.
*
Mal sabe a Adelaide a razão da recente macambuzice do Zé. Depois da sardinhada, não lhe sai da cabeça a oficinazita do Luís no canto da garagem. Rasca, quase sem ferramentas, pouco mais do que um berbequim e três ou quatro chaves de fendas por ali espalhadas, à balda, porque se o Luís sabia muito de agricultura, naquilo
era um tapado, incapaz de diferençar um
parafuso dum prego. Para fazer dali uma oficina a sério faziam falta umas mãos
sabidas como as dele, deitava uma parede abaixo, ali havia espaço para tudo e
para mais alguma coisa, instalava prateleiras, montava um torno, uma fresa, uma
boa bancada, aquele parvo do Luís não sabia a riqueza que tinha ali, bem diz o
ditado que Deus só dá nozes a quem não tem dentes.
Foi pois neste delírio, num
atordoamento amolecedor dos sentidos, que a Adelaide o apanhou quando, meio a
medo, lhe veio falar da casa.
- Por que não? Podemos ir vê-la, é
um passeio que damos.
MAR
Agora, quando aos domingos de manhã
vai à missa, o Luís já não mendiga favores a Deus. Os seus lábios, quando se
abrem, é para agradecer todas as bençãos com que a vida, no seu entender, o tem
cumulado.
Repassado duma serenidade rente à
natureza, às tardes, depois do trabalho, refugia-se no quintal, a horta é a
minha taberna, já torna a dizer como nos tempos da Vieira quando, enxada ao
ombro, rilhava os dentes para resistir aos apelos madraços e enleantes que os
compinchas dos copos lhe lançavam do umbral das tabernas.
Encontra sempre qualquer tarefa
para cumprir, a horta para regar,
algum arbusto para podar, um buxo
para aparar, o quintal é um ser vivo e sensível carenciado de carinhos que só
mãos tocadas pela graça telúrica
sabem prodigalizar.
Mas desde há uns tempos, anda
qualquer indecifrável enguiço a perturbar-lhe a paz, torna a apoquentá-lo aquele
frenesim que lhe remexe as entranhas quando alguma lhe começa a moer a cabeça.
E, coisa estranha, desta vez, por mais que esprema os miolos, não consegue
atinar com as raízes desta angústia crescente.
Inesperadamente, foi o filho que, ao
jantar, lhe abriu as portas da razão.
- Ó pai, agora que temos uma cour
é que a gente podia comprar um cão.
Num transbordo, do fundo dos anos,
dum outro tempo, reminiscência dum mundo paralelo, subiu-lhe à tona da memória
um quadro familiar: quintal de pescadores pobres com roupa surrada estendida na
corda, galinhas a depenicar por aqui e por ali e, lá no canto,
junto
à coelheira, do fundo da casota de tábuas
carcomidas, os olhos infinitamente doces dum cãozito de rabito a
abanar.
Desde essa noite, foi uma guerra
pegada naquela casa. O Mário, em rompantes de adolescente, exige um pastor
alemão, pelo menos um labrador, cão que se veja e que o prestigie perante a
garotada da redondeza. A Teresa inclina-se para um caniche, género
bibelot, para enfeitar a casa. O Luís, num mutismo alarmante, alhea-se da
discussão, rumina sabe Deus o quê, nada de bom pelo certo, desconfia a família
que já conhece de ginjeira o
significado daqueles silêncios casmurros onde não entram outras vozes para além
da que lhe sobe das tripas.
E, mais uma vez, tinham razão para
desconfiar. O Mário quase que ia
morrendo de raiva quando o Luís chegou a casa com aquele cachorro preto de orelhas
caidas, um vara-latas sem pinga de raça. Só a Teresa, ao reparar nos olhos
infinitamente doces do bicho, é que teve um baque.
- Mas parece o nosso Mar!
Recordas-te, Luís, do nosso Mar, na Vieira? Tive tanta pena de deixá-lo, será
que ainda é vivo?
O Luís encarou-a nos olhos.
- Este cachorrito é o Mar.
NAZO
O automóvel rasgava os campos pardos
e pedregosos, acachapados pela canícula de Setembro.
‑ Esta viagem de
Cicouro ao Nazo ‑ explicava o Manuel Transmontano, com uma ponta de exaltação na
voz ‑, fazia‑a eu todos os anos a pé, eram cinco horas bem medidas a dar às
canelas por esses caminhos de cabras. Desde que comecei a ter barba na cara, não
me lembro de ter faltado a uma festa do Nazo. Aquilo sim, eram bons tempos. E
aqui, nesta encruzilhada, foi onde me saiu ao caminho um lobo, quando eu, altas
horas da noite, regressava a casa da festa da Nossa Senhora da
Luz...
‑ Ó pai, já lhe ouvimos essa
história vezes sem conta, e sempre com uma versão diferente ‑ repreendeu‑o a
filha, piscando o olho ao Michel.
‑ Mas é a pura verdade. O que me
valeu foi que nesse tempo eu era só pele e osso e o lobo, com certeza, não me
achou grande fartura, deu meia volta ao rabo e foi à procura de presa mais
gorda.
Rabugento, afligido pelo calor,
faces rosadas em brasa, o Pierre saltava duns braços para os
outros.
- Se te portares bem, prometo
mostrar‑te os burros na feira
Logo o petiz se aninhou, sem tugir, no regaço da avó. Doido por burros, num
alvoroço, durante aqueles primeiros
oito dias de férias, arrastara sem descanso o avó aldeia fora, por cortinhas e
currais, no encalço das pachorrentas alimárias.
‑ Éh Michel, no próximo Natal, dá um
burro ao teu filho. É o melhor presente que lhe podes
oferecer.
*
Foi entre risadas que chegaram ao
Nazo. No alto do monte escalvado, a capelita de talha austera desafiava o tempo,
os sinos num repique festivo.
‑ Está como há vinte anos ‑ murmurou o Manuel
Transmontano.
E logo, os olhos carregados de evocações
com o freio nos dentes, esquecido da família que fazia das tripas coração para o
não perder de vista, misturou‑se ao povoléu. Perdeu‑se por entre as barracas de
feirantes. mercou encarniçadamente um cinto de cabedal, abeirou‑se dos
negociantes de gado, escutou a lábia dos ciganos que procuravam, tal como no seu
tempo, vender burro velho por cavalo, juntou‑se às famílias que, no adro, à
sombra dos choupos, abriam os farnéis imensos e desenrolhavam os garrafões de
vinho. Já o sol dardejante ia alto e o ar vibrante, carregado de odores pesados,
mal se podia respirar, o suor a abrir‑lhe regos pelas costas abaixo, arrastou a
família esfalfada até às barracas de comes‑e‑bebes.
- Aqui, Michel,‑ voltou‑se para o
genro ‑ vais‑te regalar com o melhor petisco do mundo. No Canadá não encontras
nada disto, acredita em mim.
O Michel, a enxugar o suor do rosto
com as costas da mão, ria meio aturdido pelas pinceladas fortes do quadro: as
vitelas suspensas do travejamento do telhado dos barracões, a fumarada acre que
subia dos braseiros onde a carne rechinava, as mesas de madeira corridas a
abarrotar de comensais folgazões.
‑ Bien sûr, Manuel.
Allons‑y.
Abancaram numa das mesas que acabara, por
milagre, de vagar.
‑ Há tantas moscas por aqui ‑
queixou‑se a filha.
‑ Já não é como dantes ‑ engelhou o
nariz a mulher, olhando de esguelha os pratos de esmalte enbeiçados e limpando
disfarçadamente o talher à fímbria da saia.
Mesmo o Michel, sempre tão delicado e
esforçado por lhe ser agradável,
também não o enganava, bem lhe sentia os olhos inquietos cravados nas
mãos encardidas da velha que virava a carne no lume.
Só o neto é que parecia divertir‑se, aos
pontapés a um cãozarrão cheio de carraças que, debaixo da mesa, enxotava as
moscas e o calor com o rabo.
‑ Claro que isto está como antigamente,
vocês é que estão mais fidalgas. Mas se não quiserem, não comam que a mim não me
faz grande diferença. Olhem, talvez encontrem para aí perdido algum
McDonald's onde matar a fome.
E, quando a
vitela veio para a mesa, enterrou vigorosamente a faca na carne suculenta. Levou
um naco à boca e, lábios besuntados, a mastigar, regalado, deixou os pensamentos
vogarem tranquilamente à tona da memória, até aos longínquos tempos em que, rapazote
quase imberbe, depois de se banquetear com uma avantajada posta à mirandesa,
à sombra daquele carvalho que dali
avistava, estava em crer ser o mesmo, atrás dumas touças, perdera a inocência
entre as coxas morenas duma cigana generosa.
Em que estás a pensar? ‑
estranhou‑lhe a mulher o olhar vidrado.
A cara do Manuel Transmontano
estilhaçou‑se num sorriso avelhacado.
-
Logo à
noite, conto‑te.
PRESÉPIO
Maldito nó na garganta! Sobre a banca
da cozinha, entre restos de comida, a garrafa de vinho, mais espremida do que um
limão, lampejava de troça. Raivoso, rebuscou os bolsos e contou as moedas
reunidas: sete dólares e vinte cêntimos, o suficiente para comprar o remédio de
mais uma garrafa de vinhaça rasca.
A sobrevivência até ao próximo
cheque do bien-être não o preocupava por aí além. A quadra do ano exacerbava
a compaixão humana e bastava andar
de olhos abertos para topar por todo o lado com generosas distribuições de
cabazes de natal gordos de vitualhas.
Nem parecia noite de consoada. Aqui
e ali, esparsos monturos de neve. O frio, fracalhote, mal beliscava a pele, sem
exigências de grandes agasalhos.
O depanneur da esquina era um
buraco negro, o reclame do topo da porta, geralmente ofuscante como um clarão,
pingava uma luzinha amarelenta, fraco como uma candeia minguada de azeite. Cem
metros adiante, as portas da loja do Açoriano arreganharam-lhe umas ventas
hostis.
Foi então que o Pedro Algarvio compreendeu que
não valia a pena continuar a procurar. Nessa noite, todas as forças ocultas do
mundo reuniam a sua hostilidade, açuladas às canelas dos destroços humanos
das cidades.
Das ruas ao redor da Igreja Santa Cruz, desembocavam vultos de crentes atraídos
pela missa do galo, ao apelo do
enigma vindo do fundo dos tempos.
Subiram-lhe à garganta saudades dos
tempos na loja do Açoriano,
das longas cavaqueiras entre um par de cervejas. Porque falar não custava
dólares, como filosofava o Luís. Bons tempos aqueles em que ainda sentia forças para deitar
as mãos aos cornos da vida e
vergá-la ao seu jeito.
Sem se dar conta, os passos
conduziram-no para a rua Laval. Lá no alto dum triplex, uma janela coava
uma luz baça. A Gisele ainda lá moraria? De que cor estariam os olhos dela nessa
noite? O azul dos dias de bonança ou o verdacho das horas de borrasca?
Uma dor intensa rasgou-lhe as carnes
do peito. Perdera-a por uma ninharia. Numa fanfarronada de português cabeça
dura, pusera-lhe as malas à porta da rua. Só por ela, numa teima de
quebecoise arrebitada, ter embirrado em sair, num sábado à noite, com
umas amigas. Já lá iam oito meses
esgotados, dia a dia, na ampulheta
do arrependimento calado pela soberba e pela vergonha do
descalabro.
Quando lhe abriu a porta e o
reconheceu, os olhos dela continuaram azuis. Dum azul mais sereno do que outrora.
- Entra. Na luz quebrada da sala,
uma criança dormia serena numa alcofa de palha. Os olhos do Algarvio saltaram
para os olhos azuis.
- Chama-se
Manuel.
Ficaram os dois, as cabeças aflorando-se,
debruçados sobre a alcofa. Só então ele sentiu a razão da nova luz nos olhos
azuis
CARTA DE
PORTUGAL
Amigo Luís
Desculpa o habitual
atraso.
Na tua última carta, perguntavas-me como, no regresso,
encontrara Portugal.
Olha, amigo, se queres que te fale
com franqueza, penso que os países começam a ficar todos parecidos uns com os
outros. Um aldrabão é sempre um aldrabão, fale-me ele inglês, francês ou
português. Os patrões só pensam em ter mais lucros com menos empregados. Aos
empregados só lhes interessa ganhar mais dinheiro para comprar melhores carros.
E, tal como aí, já ninguém estende a mão a um pobre diabo a morrer na rua. É a
lei do desenrasca, quem tem unhas é que toca guitarra.
Como vês pelas minhas palavras, eu é
que continuo sempre na mesma, rezingão, à procura do tal paraíso terrestre que,
começo a desconfiar, só existe na minha imaginação, mas o que queres?, nasci
assim, assim hei-de morrer, burro velho não ganha
andadura.
Perguntavas-me também se ainda nos
recordamos do Canadá. Olha, para te falar com o coração nas mãos, desconfio que
todos nós, até mesmo os rapazes, à medida que o tempo passa, cada vez ficamos
mais presos aos anos que aí passámos. Como se nos tivessem marcado a
fogo.
Para que vejas, no Natal passado, na
noite de consoada, a família toda reunida à volta da mesa cheia de comida, fui
dar com a Maria Cândida com o nariz encontado à vidraça da janela, a contemplar,
muito absorta, a chuva miudinha, irritante, molha-parvos, que não cessava de
cair desde a véspera. "Isto sem neve, nem parece Natal", acabou por dizer, muito
triste.
Foi como se estivéssemos todos à
espera que alguém tivesse a coragem de abrir a conversa, desatámos a falar da
neve, do frio, das noites de consoada com vocês, todos tinhamos uma história
encravada na garganta para contar, se queres saber, estávamos todos, quase de
lágrimas nos olhos, a rebentar com saudades de Montreal.
Uma vez li um livro que rezava
assim: "Coisa estranha: apesar de se acharem no seu país, a nostalgia não
morreu, e esse murmúrio subterrâneo, tenaz, invencível, continua a lavrar no
fundo das suas almas".
Pois é exactamente o que se passou
nessa noite. És capaz de compreender esta desgraça?
Não te quero entristecer mais com os
meus dramas. Tu, melhor do que ninguém, conheces este meu vício para conspirar
contra tudo e contra todos. Não ligues. No fundo, não há melhor país do que este
nosso Portugal, farto de neve fiquei eu até à ponta dos
cabelos.
Ficámos muito satisfeitos por terem comprado
casa e por sabermos que a vida vos continua a correr bem. Na próxima vez, manda-me uma saca de batatas do teu
quintal.
Um abraço.
Jaime
SÃO VALENTIM
Primeiro, foi o campeonato de sueca,
seguiu-se um torneio de malha, depois passou a dar uma mão no bar ou na cozinha, às vezes até lavava a loiça das
jantaradas, vejam bem, ele que em casa não tocava numa palha, sabia lá Deus o
que ia naquela cabeça para se sujeitar a tais canseiras, o certo é que o seu Manuel não tirava os
pés do Benfica, contavam-se pelos dedos das mãos as horas dos fins-de-semana que
nos últimos tempos passara em casa.
- Vai também até lá, desta vez -
tentava ele cortar-lhe os maus humores. - No próximo sábado, é o baile de St-
Valentin.
Tu pensas que tenho vida para ir a
bailes? A minha dança é outra.
Os homens são uns fidalgos, sabem lá
eles o que custa trazer a casa limpa e a roupa lavada e engomada, a comida a
horas na mesa. Durante a semana, nem pensar em fazer alguma coisa, chegava a
casa arrasada do trabalho na fábrica, ou aqueles estupores dos casacos de
inverno cada vez pesavam mais ou era ela que começava a ficar velha, já sem
forças para pegar numa gata pelo rabo. Os fins de semana não davam para nada,
passavam enquanto o diabo esfrega um olho, ainda vinha agora o maluco do seu
homem falar-lhe em bailes. Além disso, geralmente nos sábados à noite, a filha e
o Michel saíam, iam jantar fora, que a vida não é só escravidão, que se
divertissem enquanto eram novos, faziam muito bem, e deixavam-lhe o neto para
cuidar. A criança estava cada vez mais esperta, enchia-lhe a casa de alegria.
Antes de lhe dar aquela maluqueira do Benfica, o divertimento do seu Manuel, nos
sábados à noite, era ensinar português ao Pierre, o que eles riam com aquilo,
seria uma vergonha se um dia chegassem à terra, lá em Trás-os-Montes, e a
criança nem soubesse falar
direito.
Mas hoje, mais do que nunca, sente a
solidão da casa vazia ferrada na garganta. A filha recebia amigos e não lhe
levara o neto, nem a televisão aos berros conseguia encher a enormidade do
apartamento orfão do palrar da criança.
Através da janela, contempla uma
neve, muito leve e branca, que polvilha a noite de mãos-cheias de farinha. Onze,
meia-noite, duas horas da manhã, o que lhe vale, para entreter o tempo, é que o
trabalho não falta, o monte de roupa para engomar parece não ter fim.
Mas que desta vez, ele vai ouvi-las
lá isso vai, já estava pelos cabelos, saturada da tantas ausências, e, ainda por
cima, o salafrário, uma vez por
outra, já chegava a casa meio tocado dos copos, pensava ele que lhe tapava os
olhos, não era só a lavar loiça que passava as noites, não senhor, ainda lhe
sobrava tempo para molhar o bico, disso não tinha ela
dúvidas.
Eram três horas da madrugada quando
o Manuel Transmontano meteu a chave à fechadura. Furiosa, meio tonta pelo sono,
as varizes das pernas assanhadas, disposta a armar sarrabulho, mal lhe deu tempo
para descalçar as botas da neve.
-Isto é que são horas de
chegar?
Foi detida a meio da investida pela
enormidade da surpresa. O seu Manuel, que ela geralmente ainda via como nos
tempos de namoro, camponês esgalgado,
vestido de sarja e socos de madeira nos pés, ali, num quadro irreal, na
silente intimidade da madrugada, oferecia-lhe uma rosa vermelha resplandecente
de fragilidade na mão nodosa e
castigada pelo
trabalho.
Sem saber se devia rir se chorar, a
esfregar os olhos para disfarçar,
num esforço, acabou por dizer:
- Quando houver outro baile, vou
contigo.
PETIT ALGARVE
Nestes tempos negros que correm, é
mais fácil achar uma agulha num palheiro do que encontrar
trabalho.
Assim o comprovou o Pedro Algarvio
que, durante mais de três meses, passou Montreal e arredores a pente fino, na vã
esperança de descobrir o tal emprego que está sempre à espera dos mais
perseverantes, como reza o catecismo do american
dream.
Foi o achas! E olhem que o Algarvio
não é biqueiro nenhum, homem de sete ofícios, com arcaboiço para se atirar ao
trabalho mais duro de roer, versátil e flexível no dizer dos malabaristas das terminologias
profissionais, mas nenhuma destas qualidades lhe tem valido de nada. Já pronto a
remergulhar na descrença e a mandar
tudo às malvas, só os olhos inocentes e confiantes do filho, que o seguem
fielmente por toda a casa, o retêm e fazem obstinar na procura. Mas tudo tem um
preço, os nervos num feixe, prontos a explodir, recomeçou a beber. À socapa,
longe dos olhares da Gisele que já se apercebeu da recaída embora se faça
despercebida, refugiada num mutismo ainda mais machucante do que as
palavras.
Embora faça das tripas coração, é-lhe cada dia que passa
mais insuportável aquele viver, numa dependência económica da Gisele que o põe
fora de si. Um chulo, um chulo é o que ele é. Da mesma raça degenerada do Barão.
Aquele Barão! Já lá iam quase vinte
anos e vinham-lhe agora,
assim, à lembraça, com tanta
nitidez, as baboseiras do sacana,
lá na tropa, em Angola. Com que arrogância de pavão alfacinha ele se
vangloriava, sem ponta de vergonha na cara, para a roda da saloiada das berças, de viver às custas das putas do Bairro
Alto. Mas o Barão tinha a desculpa da flor da idade e ali, na guerra, aquelas
basófias ajudavam a passar o tempo e
a esquecer os cagaços e a solidão, no fundo era quase um
herói.
Derreado pelo peso dos pensamentos,
estava, mais uma vez, prestes a ceder à tentação e a franquear a porta do bar
quando, por acaso, a atenção atraida por desgarrada buzinadela, pousou o olhar
naquela vidraça. À Louer- For rent. Era uma espelunca sórdida de fast-food, ali na esquina da
St-Laurent com a Rachel, que exalava, pela bocarra da porta, aquele ranço
repugnante dos hot-dogs e hamburguers de miserável
qualidade.
Galgou a rua e pôs-se a rondar,
disfarçadamente, a sordidez do lugar frequentado por três ou quatro fregueses de
má pinta. Do lado de lá do balcão, o patrão, um sul-americano atarrecado, de
olhos turvos e melena negra,
lavava, sem pressas, a loiça suja, um cigarro esquecido nos lábios
roxos.
O Algarvio sentiu a cabeça a
trabalhar a todo o vapor. Pelo andamento do barco, o sul-americano não deveria
pedir uma fortuna pelo trespasse e com
um balcão novo e umas demãos de tinta tudo mudava logo de cara, ele
próprio, se arregaçasse as mangas, transformaria aquilo de alto a baixo,
enquanto o diabo esfrega um olho.
Rabiscou o número do telefone e,
esquecido do bar, a caminho de casa, já via o sólido balcão de carvalho repleto
de saborosos petiscos bem portugueses e um esplendoroso sol algarvio a iluminar
os sorrisos da clientela saciada. O quadro era tão real, tão tangível que já
nenhum obstáculo o poderia extirpar da sua alma de fura-vidas a renascer das
cinzas. Ele não fosse mais o Pedro Algarvio se brevemente não pusesse Montreal inteira a mastigar bifanas e
pastéis de bacalhau no Petit Algarve,o restaurante mais badalado da
cidade, ali mesmo no coração do bairro português.
PIRATAS
Há dias em que um homem não pode sair
de casa, todos os demónios do universo prontos a saltar-lhe ao pescoço. Assim o sentiu o
Luís Negro, nesse sábado de manhã.
A neve caía do céu em catadupas,
aquilo não era uma tempestade, era um imenso manto branco pesadamente pousado
sobre o mundo. Mas isso ainda era o menos, neve estava ele habituado a apanhá-la
pelas trombas todos os invernos, já não lhe metia medo, além disso, nos sábados
de manhã, o tráfico era fracalhote, com cuidado, bons pneus e a ajuda de Deus
haveria de chegar inteiro.
Praguejou como um possesso quando
viu a intransponível muralha de
neve que lhe bloqueava o drive-way, mesmo em frente do abrigo do carro.
Um bonito presente da máquina de limpar as estradas que desde a madrugada não o
deixara mais pregar olho, para cá e para lá a guinchar e a silvar por toda a
ferraria.
Agarrou-se à pá e, os músculos
retesados pela raiva, em meia-hora desbloqueou a passagem. O corpo inundado de
suor, sob o casaco da neve, finalmente sentou-se no carro e ligou a ignição.
Nada. A bateria, meio-morta de frio, engasgava-se toda, sem coragem para pôr o
motor em marcha. Uma, duas, três tentativas, a bateria cada vez mais fracalhota,
pronta a dar a alma ao criador, um perigoso cheiro a gasolina já a chegar-lhe às
narinas.
Turvado pela raiva crescente, lá se resignou a sair do carro. Abriu o tampão do depósito da gasolina e meteu-lhe goelas abaixo um boião de anti-congelante, não se fosse dar o azar da gasolina estar congelada. Levantou a capota do bicho, verificou os bornes da bateria e distribuiu umas esguichadelas de óleo por aqui e por ali nos cabos eléctricos, para afugentar a humidade.
O frio a subir-lhe lentamente pelos dedos engadanhados, tornou a ligar a ignição. Nada. Merda. O tempo a passar. Já estava disposto a verificar as velas, com certeza encharcadas, quando, numa última tentativa, o motor, meio engasgado, lá começou a tossicar. Ansioso, deu uma sapatada no acelerador e o ronco ganhou mais alma, encorpou, finalmente a respiração quase normalizada, pulverizado o coágulo de gelo que obstruia as artérias do bicho.
Mesmo assim, com a brincadeira ainda
perdera quase uma hora, adivinhava já no cachaço o olhar lorpa e acusador do
bossa, à chegada. Que se lixasse. Engatou a mudança e fez-se ao
caminho.
Emparedado na solidão polar, quase
sem ver um palmo à frente do nariz, ligou a companhia do rádio. Nem mesmo a
propósito. O animador falava,
sarcástico, do problema das pescas na Terra-Nova. Do barco espanhol aprisionado
pelas autoridades canadianas. Chamava, com letras redondas, sem papas na língua,
piratas aos pescadores espanhóis e portugueses.
O cornudo! Logo o seu sangue
solidário de pescador lhe ferveu nas veias. Chamar piratas a homens que comiam o
pão que o diabo amassou, longe das famílias, entregues à fúria do mar e aos
ventos glaciais. Apertou o volante como se fosse o pescoço daquele maldito gralhador confortavelmente
repimpado no seu estúdio onde não chegava a mais leve brisa. E já que não podia
estrangulá-lo, cortou-lhe o pio bruscamente, concentrado na condução cada vez
mais perigosa.
Já as nove horas iam longe quando
chegou à peixaria e, evitando o olhar recriminatório do bossa,
escapuliu-se para o seu canto. Mal lhe dando tempo para enfiar o avental, logo o
Zé, com aquela sua cara redonda e avermelhada de amante da boa pinga, lhe veio
cochichar a desgraça ao ouvido:
-Vai haver bronca, pá. Parece que o
bossa quer reduzir o pessoal.
Era só o que lhe faltava. Agora com
a casa para pagar, seria o bom e o bonito se o pusessem no olho da rua. Uma
tremura incontrolável formou-se em qualquer parte das tripas, cresceu e trepou
pelas paredes do estômago, abriu caminho peito acima e ferrou-se-lhe na
garganta.
Foi quando a palmada nas costas o
fez engasgar.
- Éh voleur de
poissons.
Apertou com força a faca e voltou-se
de olhos ensanguentados. Mas logo o riso franco do Bala, com aquela magnífica carreira de dentes brancos, entremeados
de dois dentes de ouro, toda à mostra, os olhos enormes e negros de indiano
brilhantes com a alegria da joke, lhe cortou o veneno. Limpou demoradamente o facalhão
ao avental e acabou por esboçar um sorriso.
- Não brinques com coisas
sérias.
E ia falar-lhe das fainas do mar,
das pescarias, das privações passadas, todo um mundo a marulhar-lhe no peito,
quando a punhalada do olhar do encarregado o fez regressar às tarefas normais da
peixaria, não fosse o gajo tomá-lo de ponta, principalmente agora com o cutelo
dos despedimentos a pairar sobre as cabeças.
RECAIDA
A Adelaide tem razão quando afirma
que o Zé está um homem diferente, para melhor é claro. E o Zé sabe reconhecer a
verdade das palavras dela. Não é parvo nenhum e desde há muito tempo que compreendia
que o seu sonho da serralharia em Portugal era uma completa
loucura.
Não precisava de ninguém para lhe
explicar as coisas, mas não é fácil para um homem reconhecer o fracasso dos seus
sonhos mesmo que a teimosia o faça cair no ridículo. Também tinha dois olhos na
cara para descobrir os sorrisos dissimulados, as trocas de olhar meio trocistas,
as conversas a meia-voz que morriam com a sua presença. E como isso o magoava.
Não é pois de estranhar que quando
uma pessoa se consegue libertar da
camisa de sete-forças em que se enfiou a ela mesma, reencontre uma alegria de viver há muito
perdida. Mas que a convalescença é difícil lá isso é, cheia de recaídas e
armadilhas. Parece que vai tudo num mar-de-rosas, quando de repente, pumba, a
vida , ou lá o que é, espeta-nos uma rasteira e lá estamos outra vez de ventas
no chão.
Como esta manhã de sábado. Manhã de tempestade. Uma tempestade a sério. A neve batida por fortes rajadas de vento que assobiava nos braços nus das árvores e ameaçava levar pelos ares o abrigo do carro. Todas as forças destruidoras à solta pelo mundo.
Forças que fizeram o Zé saltar da
cama e correr o blind.
- A garota já está preparada para ir
à escola?
A Adelaide estremunhada, ofuscada
pelo jorro de luz baça, resingou.
- Ó homem! Com esta tempestade, hoje
não deve haver escola. Quem é que se vai meter à estrada com um tempo destes?
Deixa a criança dormir e vem-te deitar.
- Ela que se prepare que já estamos
atrasados.
O Zé continuava com o nariz colado à
vidraça, sorvendo do exterior a força das palavras.
A Adelaide sentiu a mostarda
subir-lhe ao nariz, a voz alterada.
- Estás maluco ou quê? Queres ir
esborrachar o carro aí nalgum canto? Mesmo que haja escola, não é por faltar um
dia que o mundo vai acabar. Aponta-me uma boa razão para essa tua teimosia. Uma
só e não abro mais a boca.
Razões tem o Zé de sobra. Só que não
tem palavras para explicá-las.
- A garota que se
prepare.
Foi quando o gongo do telefone veio
salvar a situação. A voz que, gasta pela repetição da mensagem, anunciava o
cancelamento das aulas da escola portuguesa, nessa manhã, nem se apercebeu de
que acabava de salvar, por uma unha negra, a harmonia familiar do fim-de-semana
naquela casa.
INAUGURAÇÃO
Durante semanas a fio, sem tréguas, o
Pedro Algarvio labutou como um mouro, dia e noite, para restaurar aquele buraco.
Dentes cerrados, num apelo a todas as suas forças a princípio meio
enferrujadas pelo ócio,
carpinteirou, martelou, pintou, poliu,
aquele lugar sórdido a metamorfosear-se, num crescendo, a olhos
vistos, num recanto aberto,
aprazível e acolhedor.
A Gisele passava às vezes para lhe transmitir a
força dum encorajamento, dum conselho. Lá mais para o fim, quando tudo começava
a ganhar jeito, surpreendia-o frequentemente com o nariz enfiado na lista
telefónica.
- Procuras alguma coisa? - ficava
intrigada.
- É uma
surpresa.
Foi assim, numa busca meticulosa,
consultando pacientemente a lista, através de informações colhidas da boca de
velhos conhecidos, por portas travessas, que os foi localizando a todos. Seriam eles, numa
resolução há muito tomada, os seus convidados de honra. A ponte de retorno ao
mundo. O nó final nos fios da vida.
No dia da inauguração, ao vê-los reunidos, lá na mesa do fundo, bando inveterado de gralhas, a emborcar
copo atrás de copo, a reviver histórias antigas, como que vindos dum outro
mundo, dum outro tempo, o Pedro
enxugou uma lágrima traiçoeira. Lá estava o Luís, com aquela juba negra já mais
rala, entremeada de alguns fios brancos, mas sempre com aquele vozeirão de
fala-barato; o Zé, mais reservado, continuava com aqueles olhos meio aturdidos
de quem acaba de chegar ao mundo; o Manuel Transmontano, diabo do velho, parecia
que os anos não lhe faziam mossa, com umas cores rosadas de meter inveja; O
Açoriano, que fechara propositadamente o dépanneur para estar presente, empestava tudo com o seu eterno charuto
espetado na boca. Só faltava ali o Jaime, esse lunático resmungão que, pelo que
lhe falaram, nunca mais compreenderia, por mais que a vida lhe martelasse os
miolos, que o mundo não é nenhum paraíso.
Ao ver-se surpreendido pelos olhos azuis da Gisele que o observava
enternecida, num rompante, para encobrir a fraqueza dos sentimentos assanhados,
ergueu alto o copo.
- Ao nosso
Jaime.
E, num tilintar de copos, com o pano
de fundo dum fado, os cheiros bons dos petiscos no nariz, num
instante-eternidade, tiveram a ilusão que o emigrante era o Jaime, lá longe em
Portugal.
CERCO
O murro na mesa cortou cerce a
lengalenga da mulher.
‑ Chega! Já
disse, mais de mil vezes, não! És surda ou fazes‑te?
‑ Mas, ó Manel...
‑ Porra, que mal fiz eu a Deus para ter
este castigo?
Era assim, invariavelmente,
todas as noites, depois das férias. Engolida a última colherada do jantar, logo
a mulher se lhe agarrava às orelhas, como uma carraça:
Sabes, Manuel, as terras, lá em
Cicouro, não enchem a barriga a ninguém. A maior parte delas estão abandonadas,
cheias de cardos, ninguém as quer tratar. O maior sonho da nossa filha é comprar
um bungalow onde possa criar o nosso netinho com largueza e
tranquilidade. Seria tão bonito se lhes dessemos uma ajuda. Agora é que
agradecem, enquanto são novos, não é, sei lá daqui a quantos anos, quando já
tiverem a vida organizada e não precisarem do nosso dinheiro para nada. E a nós,
mais terra menos terra não nos aquece nem nos arrefece, não ficamos nem mais
ricos nem mais pobres, nem verás a diferença.
Nessa noite, o cerco cada vez mais
apertado, a conversa melosa dela estava insuportável, entrava‑lhe pelos buracos
todos do corpo, a rasgar por ali adentro, nem calculava ela o mal que lhe fazia,
se lhe arrancasse o coração talvez lhe doesse menos.
-
Não! ‑
berrou.
Cego, aos sacões, enfiou o casaco e as botas e saiu para a rua, com um
bater estrondoso da porta.
*
Era Janeiro e logo o frio lhe
arreganhou as dentuças aguçadas. O que lhe valeu foi que o Petit Algarve
ficava ali a dois passos e que o Algarvio, quando lhe viu as estalactites de
gelo suspensas do bigode, lhe pôs logo
à frente uma chávena de café a escaldar.
Reconfortado,
agarrou‑se, com unhas e dentes, à sua ninhada de razões:
"E aquela!
Vender as terras que lhe tinham custado tanto sangue a ganhar! Só se estivesse
virado do miolo. Quando o cunhado lhe escrevia: está à venda o lameiro de
urrieta cuba, a cortinha da raia, a horta da eira...a sua resposta era
fulminante, em letras rasgadas com fúria no papel: compra...compra...compra.
‑ Estás
melhor?‑ perguntou‑lhe o
Algarvio.
A pachorrice dos olhos bovinos do amigo,
encorajou‑o a vazar a alma.
O Algarvio, cotovelos apoiados no balcão,
ouviu‑o sem pestanejar.
- O que dizes a
isto?
‑ A tua mulher
tem toda a razão.‑ E sem lhe dar tempo para reagir, voltou‑lhe as costas para
atender um cliente.
O Manuel
Transmontano sentiu ganas de lhe atirar com a chávena à
cabeça.
"Tudo uma corja"
Saiu sem se
despedir. Mas logo o frio, que o espreitava à porta, lhe tornou a enterrar as
dentuças no pescoço. Inferno por inferno, o melhor era regressar a casa, ainda
era homem capaz de tapar a boca à
mulher com um bom berro.
*
Ficou agradecido a Deus quando, ao
dobrar a esquina, viu as luzes da casa apagadas. No escuro, com passos de
ladrão, despiu‑se e deitou‑se às apalpadelas, mas bem sentia o arfar da mulher,
de olhos arregalados, quieta como uma estátua, a fingir que dormia, como se o
conseguisse enganar depois de tantos anos de casados.
Deitou‑se de costas e ficaram assim, lado
a lado, sem se tocarem, pela noite adentro, até que, por fim, ele pigarreou para
aclarar a voz:
- Vou escrever ao meu cunhado para pôr dois ou três lameiros à venda. ‑ Com uma reviravolta, voltou‑se para a parede. ‑ E agora, deixa‑me dormir que amanhã é dia de trabalho.
ANDORINHAS NO BEIRAL
Aquela ameaça dos despedimentos
estava a dar com ele em doido. Bem que tentava esquecer, atirar tudo para trás
das costas, como se não fosse nada com ele, mas, por mais voltas que desse, não
havia artimanhas que o livrassem daquele pesadelo.
Um fala-barato como ele era
habitualmente, catrapus, quando menos se precavia, lá caía, outra vez, cabeça
abaixo, naquele poço negro dos pensamentos sem fundo que logo punham a Teresa
cheia de comichões.
- O que tens, homem? Tu andas a
esconder-me alguma. Desabafa comigo.
Desabafar, o caraças! Não serviria
para nada afligir a família. Já que alguém tinha que alombar com aquela cruz que
fosse ele, tinha bons costados, graças a Deus. Mas que custava, lá isso
custava, de dia para dia mais nervoso, cheio de tiques. Nos
últimos tempos, dera-lhe para começar a arrancar os pêlos do nariz que nem um
maluco, a Teresa e o rapaz fartavam-se de ralhar com ele, mas não havia emenda,
mal se descuidava lá estava ele outra vez a escarafunchar, o nariz já meio
abatatado da colheita sem parança.
Mas lá diz o ditado, uma desgraça
nunca vem só. Com os degelos da primavera, começou-lhe a chover em casa, o
telhado mais esburacado do que um crivo. Não havia outro remédio senão agarrar
nuns milhares de dólares e mandar instalar um telhado novo que o actual já tinha os dias contados,
derreado por tantos anos de neve em cima.
E, como sempre, foi uma santa guerra
naquela casa. A Teresa, a ver o dinheiro escorrer por entre os dedos desde que
compraram o bungalow, apavorada por tanta despesa inesperada, queria um
telhado normal de bardeaux de asfalto, o mais barato possível, que os
tempos não estavam propícios para esbanjamentos. O Mário, esse apontava o
exemplo do vizinho Ahmed que instalara um vistoso telhado vermelho, de estilo
europeu.
E o Luís, mais uma vez com aquele
sorriso das grandes decisões nos lábios, sentenciou:
- Já que assim é, se queres um
telhado vermelho, vai ser coisa de jeito, de telha a
valer.
- Mas isso vai custar uma fortuna -
afligiu-se a Teresa. - Além disso, ouvi dizer que, com este clima, as telhas
racham todas.
- Parvoíces.
E para não ouvir as resmunguices da família, o Luís foi-se sentar ao sol da varanda, o Mar, agora já um cãozarrão de olhos doces, deitado aos pés. Espevitadas pelo ameaço de calor, a relva arrebitava a olhos vistos, as hastes dos lilases já estremeciam cheias de borbotos, as tulipas rompiam com bravura a terra ainda gelada. Mas duas semanas quanto muito e seria uma explosão de vida por aquele quintal fora. Com a mornidão a amolecer-lhe o corpo, levantou os olhos para o telhado e já podia imaginar um beiral tipicamante português onde, com um pouco de sorte, talvez este ano as andorinhas fossem pendurar os cachos dos ninhos.
ADEUS FLÓRIDA
Sexta-feira à tarde. Na viagem
de regresso a casa, vencida mais
uma semana de trabalho, a Adelaide deita contas à vida, a cabeça já posta nas
tarefas domésticas que a esperam no fim- de-semana. A casa para limpar, o monte
de roupa para lavar e engomar, o tempo já a fugir-lhe por entre os dedos, ladrão
impiedoso dos momentos de descanso de que anda tão precisada.
Se já antes andava com as forças de
rasto, a mudança de casa acabara de prostrá-la de vez. Não fora brincadeira
nenhuma empacotar toda a tralha e tornar a esvaziar tudo outra vez na nova casa,
uma pessoa pensa que não tem nada em casa mas só quando se mete num bico de obra
desses é que se apercebe da quantidade de tarecos que saiem de todos os
buracos.
Mas quem corre por gosto não cansa, a vida começava a entrar nos eixos e com umas boas férias ficaria outra vez como nova. O Zé, desde que se decidira a comprar a casa e a esquecer aquela maluqueira, sem ponta por onde se lhe pegar, de comprar a serralharia em Portugal, estava diferente, rejuvenescido, sem aquelas rugas na testa, já se lhe ouviam outra vez aquelas gargalhadas boas dos tempos antigos.
Quanto a ela, no escritório, mesmo
com essa obsessão moderna dos patrões de quererem tudo racionalizar e
rentabilizar, a cortar no pessoal a torto e a direito, até à data não se podia
queixar. Tinham-na mandado fazer um curso de informática e cada dia que passava
lhe delegavam mais responsabilidades, indícios de que era apreciada e que a
serenavam quanto ao futuro. E para segurar o lugar, não precisava, como aquela
descarada da Julie, de andar sempre a fazer olhinhos aos patrões, pronta a
deitar-se-lhes na cama ao mínimo sinal.
Aquela sabia vivê-la à grande e à
francesa. Ainda esta semana chegara da Florida, bronzeada até à ponta das unhas,
com a boca húmida e sensual atafulhada das maravilhas que vira, daquelas praias
sem fim, orladas de palmeiras, de águas de turquesa e areias brancas. À força de
lhe escutar o palavreado frívolo e inesgotável, a inveja ou lá o que era,
começara a roê-la por dentro. Se aquela pelintra da Julie, sempre rafada, o
ordenado logo derretido em roupas e cosméticos, sempre atrás de quem lhe pagasse
os jantares dos fins-de-semana a troco dos seus maduros favores amorosos, podia
ir estender o canastro já quarentão ao sol da Florida, também ela, que nos
últimos anos se fartara de trabalhar como uma negra, não merecia esse prémio,
pelo menos uma vez na vida?
Desceu do autocarro com a
determinação ferrada na cabeça mas mal dobrou a esquina da rua e deu com aquele
mamarracho da antena parabólica, de bocarra arreganhada para os espaços
siderais, escarranchada sobre o telhado da casa, sentiu a fúria remexer-lhe as
tripas. Abriu a porta num rompante
e logo da cave a esbofeteou, em altos berros, a melodiosa língua portuguesa.
O Zé, em transe, abria os braços
para a miragem da televisão:
- Já viste que bela imagem? Agora já
podemos ver as emissões portuguesas vinte e quatro horas por dia. Não é
fantástico? Reconhece que não contavas com esta surpresa. Não eras tu que dizias
que o dinheiro no banco não serve para nada?
Nada a fazer frente àqueles olhos
vidrados, febris, tocados por forças ocultas. Amparada à umbreira da porta,
ficou a abanar a cabeça, sem pinga de forças, as paisagens tropicais da Flórida
refugiadas lá para o sotão dos projectos remetidos para melhor
oportunidade.
CARTA DE
PORTUGAL
Boa amiga Teresa
Finalmente, lá consegui sacudir a
preguiça e sentar-me um pedaço para te escrever.
É domingo e estou sozinha em casa. O Jaime saiu
para tomar café e os rapazes não param em casa, passam a vida por aí, na rua, com a cabeça no ar atrás do
cheiro das raparigas.
Recordas-te do tempo, nas vésperas do nosso
regresso a Portugal, em que a nossa maior preocupação eram os filhos, receosos
que não aceitassem bem a mudança? Afinal, os rapazes estão que nem peixe na
água, quem não há meio de se adaptar a isto somos nós, os velhos. Tenho cá uma
desconfiança de que os pais passam a vida a desculpar-se com os filhos para
esconder as suas próprias fraquezas e medos.
Se os rapazes não querem saber do
Canadá para nada, já comigo e com o Jaime o caso muda de figura. Estamos sempre a fazer
comparações, no Canadá era assim, no Canadá era assado, é uma palavra que, por
mais que a gente a cuspa, nunca nos sai da boca, agarrada aos dentes como uma
pastilha elástica, até parece bruxedo.
No domingo de Páscoa, o rádio
acordou-nos com a notícia espantosa de que tinha nevado na serra da Estrela. Eu
e o Jaime ficámos a olhar um para o outro, sorridentes como duas crianças, como
se o locutor tivesse anunciado a coisa mais importante do mundo. E se fôssemos
até lá ver? perguntou o Jaime, com
os olhos a brilhar.
Metêmo-nos no carro e fomos por ali
acima, estonteados como duas andorinhas. Mal avistámos a primeira neve, descemos
do carro e, sem nos importar com a figura que fazíamos, ficámos a atirar bolas
de neve um ao outro, a rir como uns perdidos. És capaz de imaginar o sisudo do
meu Jaime, aí no Canadá sempre a resmungar contra a neve e o frio, ali, no alto
da serra, a rebolar-se e aos pinotes como um potro? Vê lá tu como uma pessoa
muda.
Por agora, aquele passeio louco à
serra lá afogou as saudades mas se
isto nos tornar a dar, eu já disse ao Jaime que o melhor é a gente meter-se num
avião para vos tornar a ver a todos e tirar de vez estes macaquinhos da cabeça.
Olha, se um belo dia ouvires tocar a campainha da porta, não fiques
surpreendida, pode muito bem acontecer que sejam estes vossos amigos que nunca
vos esquecem.
Isto agora também já está cheio de
pizzarias, de artigos chineses, de cartões de crédito e de seitas
religiosas, a tal ponto que o Jaime, quando lhe dá para resmungar, diz que fugiu
do Canadá por causa dessas pragas e que veio esbarrar num país parecido ou ainda
pior. Tu sabes como ele é, quando se põe com aqueles disparates, não há ninguém
que o consiga calar.
Muitos beijos da tua amiga
Maria Cândida
PIZZARIA
O Pedro Algavio não se pode queixar.
O Petit Algarve faz bom negócio, a clientela é certa, gente de todos os cantos
do mundo, sem biqueirices, rendida aos encantos da fast-food.
Evidentemente que depressa o Pedro
Algarvio perdeu as ilusões e se apercebeu de que não se poderia dar ao luxo de
só servir cozinha portuguesa e que teria de se diversificar rapidamente se não
queria ver a vida ir por água abaixo. Mesmo se ainda agora, mais por teimosia do
que por outra coisa, a ementa diária ainda anuncia as saborosas bifanas
portuguesas, o grosso do negócio gira à volta dos hot-dogs, dos
amburguers, das pizzas e, cada vez mais, dos souvlakis. Até
a música ambiente, que no princípio era do mais genuinamente português que se
podia arranjar, só de fado para
cima, agora é uma salganhada maior
do que a própria ementa.
Por vezes, com os amigos, no
desabafo exaltado dos copos, o Pedro ainda mostra uns arremedos de integridade,
promete que ainda há-de dar uma volta completa à situação, afiança que ainda não
perdeu a esperança de impor a saborosa cozinha portuguesa ao paladar da ímpia
Montreal, mas já ninguém o acredita.
- Cala-te lá com essas lérias -
interrompe-o o Negro. - O dinheiro
não tem raça quando te cai no bolso.
- Vocês ainda hão-de ver. A cozinha
portuguesa é uma das melhores do mundo, só estes parvos é que não conseguem ver
isso. Mas olhem que eu sou teimoso.
Enquanto não consegue levar o seu
sonho avante, o Algarvio lá continua a servir, feliz da vida, os seus souvlakis
que nisto de cozinha os gregos passam a palheta a todo o mundo, até mesmo aos
italianos, têm a cidade rendida aos pés.
Há dias, foi o golpe de
misericórdia. Um cliente grego ou lá o que raio era, já meio com os copos, pôs-se-lhe para
ali a falar numa língua do mais áspera do que um cardo, uma interminável
conversa de bebedolas, sabia lá o que o gajo estava a vomitar da bocarra, e ele, que a princípio teve vontade de
pôr logo os pontos nos is e de lhe atirar à cara o seu nacionalismo português,
deixou-se enredar e, às tantas, deu consigo a acenar a cabeça e a sorrir, como
se tivesse a compreender tudo, incapaz de pôr um travão naquela confusão de
malucos.
Só pedia a Deus que os amigos nunca
soubessem daquela história do diabo. Nunca mais o deixariam em paz e seriam bem
capazes, só para o arreliar, de lhe trocar a doce alcunha de Algarvio pelo ignominioso epíteto de Grego.
REGRESSO
O Manuel Transmontano acordou com o
berreiro desenfreado dos galos.
Na cozinha, foi
encontrar a irmã a tratar da lavadura dos porcos. Já o lume, num estralejar
festivo, devorava um braçado de urzes.
‑ Está frio.‑
Sentou‑se no escano e avançou as mãos para o lume. ‑ Já parece o
Canadá.
‑ Diz quem sabe que este ano vai nevar
muito ‑ respondeu a irmã. ‑ Deixa‑te ficar aí que eu vou levar a bianda aos
cochinos. O café já está quase quente.
O Manuel apoiou as omoplatas na dureza do
espaldar do escano. Embrulhado num
manto de mil evocações com o freio nos dentes: aquele lume estralejante a
saltar‑lhe às mãos como um cachorro; o eterno caldeiro cachoante de água
fumegante; os potes de ferro resquentando a sopa; aquele fumo acre que se
acumulava em nuvens densas e azuladas, matizadas pela luz do dia nascente, lá
junto às vigas escurecidas do telhado donde pendia a armação do fumeiro, as
varas ansiosas pela próxima matança; aquele mocho de castanho polido onde uma
fogaça e uma caneca esmaltada esperavam o café.
‑Estavas a dormitar? ‑ Era outra vez
a irmã. ‑ Nem quero acreditar que desta vez vens para ficar. ‑ O rosto curtido,
enrolado no lenço negro, ensopou‑se de lágrimas velhas. ‑ E assim se nos foi a
vida, Manuel, estamos acabados.
‑ Qual acabados, qual quê! Se tu
visses aqueles canadianos! Quando se reformam é para viver, não é para se sentarem à espera da morte.
Então as mulheres, se as visses, velhotas de setenta anos e mais, parecem umas
raparigas novas, bem trajadas, nada destes lutos de cá, cores claras, ricos
penteados.
‑ Isso não é para estas terras. ‑ O
café escorria, num murmúrio bom, para a caneca.‑ Não sei se a tua mulher, a
Alzira, se vai dar por cá. Isto é um cemitério de velhos.
A mulher atirou
um capão ao lume que, quando se viu com forças, atirou os braços rubros ao redor
do caldeiro.
Ela aceita de boa cara o regresso?
Nas últimas férias, não me quis parecer.
‑ Que remédio tem
ela.
Regresso! Palavra de mil alquimias.
Nos primeiros tempos do Canadá fora abençoado remédio contra os males da saudade
e do desenraizamento. Depois, à medida que novas raízes começaram a rasgar húmus
imprevistos, transformara‑se, sem se darem conta disso, num processo lento, num
espinho cravado nas carnes, num agente perturbador da paz de
espírito.
Para não lhe perder o sentido, o
Manuel, de tempos a tempos, evocava‑a: quando me reformar, regressamos a
Portugal.
E semanas atrás, ao serão, num assomo de
coragem, reunira as forças dispersas que lhe restavam, para
falar:
"Dentro de seis
meses, atinjo a reforma. Deveríamos ir a Portugal, preparar o
regresso.
A lavar a loiça, de costas, o fio de
voz da mulher era quase inaudível:
" Vai tu, sozinho. Agora, não posso
deixar o nosso neto. Além disso, não precisas de mim para tratar do que há a
tratar."
‑ A Alzira não se vai dar por cá.
Cicouro já não é terra para ela. ‑ tornou a irmã. ‑ Vê lá se ela quis vir
contigo!
‑ Cala‑te, dianho de mulher.‑
exasperou‑se. ‑ Não veio porque não tinha com quem deixar o nosso netinho. Mas
que raio de conversa esta!
‑ Mesmo tu estás diferente. Já não
és homem para te enfiar neste buraco. ‑ teimou ela.
‑ Vai lá tratar dos porcos, anda!
Estás a ficar velha, é o que é. De muita paciência precisa o teu marido, para te
aturar.
Meio apoquentado pelas palavras da
irmã, nessa manhã, quando se sentou à mesa da cozinha para escrever à mulher, o
Manuel Transmontano falou‑lhe da casa que os esperava de braços abertos, da
fidelidade do cunhado que tratara das terras com tanto zelo como se fossem dele,
dos vivos e dos mortos, e, lá para
a segunda página, num arroubo de coragem: "em todo o caso, ainda me sinto novo
para trabalhar mais um ou dois anos, não é preciso apressar o regresso, não está
nenhuma mulher para parir." Ficava assim aberta a porta para futuras
negociações, no regresso a Montreal.
Depois, de coração liberto, saiu de
casa e foi, rua abaixo, a falar a este e àquele, tão naturalmente como se nunca
tivesse saido da terra.
STAR
- O teu filho é um predestinado. Seria
um crime desperdiçar um talento destes.
Quem assim lhe fala, sem papas na
língua, com a experiência de quem já peneirou muita ganga e se ufana de ter
descoberto duas ou três boas pepitas que brilham ao sol das multidões por esses ringues fora, é o Serge, o
coach da equipa de hóquei dos pee-wees de Laval. Apanhado
desprevenido, a princípio
custou-lhe a compreender, mas não havia dúvidas, era bem do seu rapaz que se tratava.
Foi como se tivesse apanhado uma
bordoada na cabeça. Gago, incapaz de falar, o francês ainda mais embrulhado do que o costume,
mal conseguia sorrir, com um ar
meio parvo que o enraivecia, o que o homem iria pensar
dele.
Depois, foi uma subversão dos
sentidos. A bolsa sempre aberta
para comprar os melhores equipamentos, trata o filho como um rei, não quero que
um dia te queixes de mim , diz-lhe. Negligênciadas as tarefas do quintal, não
perde um treino ou um jogo em que o miúdo participa , já é uma
presença notada, apontada a dedo, o mais fiel dos adeptos. Grita, gesticula,
espuma, disposto a saltar para o ringue e estripar os adversários, capaz
de arrancar o coração aos árbitros
com as próprias mãos.
- Viraste do miolo - refila a
Teresa, alarmada com a extensão do desastre.
Mas tal pai, tal filho. Naquelas
duas cabeças não paira a mais pequena sombra de dúvida quanto à carreira
gloriosa que espreita o Mário. O Canadien, a Liga,esperam de braços
abertos que este prodígio cresça e ganhe mais corpo, com um pouco de sorte está
ali prestes a sair da forja outro Gratsby, outro Lemieux.
Nas noites de hóquei, um alguidar de
pipocas à frente, a televisão de
goelas abertas, são uma só alma que
morre e revive pelo Canadien, uma só boca que chora, ri, pragueja,
implora, em uníssomo, enquanto engolem
mãos-cheias de pipocas.
Esta noite defrontam-se o
Canadien e os Panthers de Miami. A assistência ulula. Os golos
sucedem-se. Há bordoada de criar bicho. Os coachs andam para trás e para
diante, como cães raivosos. Há
cânticos de morte no ar.
Lá para o meio da partida, num
desvario, afinal quem ali vai, como um raio, sobre o gelo, já não é o Brisebois,
é o Mário Negro esse fabuloso jogador português que acaba de assinar um chorudo
contrato de milhões com o Canadien de Montreal. Rápido como um relâmpago,
nada nem ninguém o detém, prestes a
finalisar mais uma jogada de enciclopédia e a levantar em peso a assistência
enlouquecida.
E, como sempre, é a Teresa que
precisa de deixar as lides domésticas para descer à cave e pôr um pouco de ordem
naquelas cabeças.
- Mário, já fizeste os deveres da
escola? - E para o Luís: - Ainda és pior do que a criança.
Atiram-lhe olhares assassinos. Mas
lá se resignam e acabam por reconhecer que ela tem mais uma vez razão e que
afinal quem ali vai, num turbilhão de fogo, ainda não é o Mário Negro mas sim o
Brisebois que acaba de marcar mais um golo para o
Canadien.
ASSALTO
Sábado à tarde. O Açoriano acabou de
arrumar umas garrafas de vinho na prateleira e sentou-se atrás do balcão, o
charuto apagado na boca. Indício claro de que as coisas corriam mal. Como
gracejaria o Luís Negro, quando a
chaminé não vomita fumo, é sinal de que a fábrica não está a trabalhar em
condições.
Que as coisas andavam meio
descarriladas era verdade que se metia pelos olhos adentro do mais cego. Até a
mulher farejava a moléstia.
- Sentes alguma coisa? Vai ver um
médico.
-Cala-te, corisco. Querem lá ver o
agoiro!
Cada vez lhe custava mais descer as
escadas e abrir as portas do dépanneur. Para quê? Com todos esses grandes
magasins que para aí havia, a antiga clientela tinha levado sumiço, havia
dias em que pouco mais vendia do que uma ou duas grades de cerveja a um ou outro
bebedolas desprevenido, o tédio a derramar-se como uma maré negra pela
loja. Em vez de estar para ali a
pastorear as moscas, mais valia fechar as portas e subir até ao Petit
Algarve, lá na St. Laurent,
para desenferrujar a língua com o Algarvio, até podia muito bem acontecer que a outra rapaziada por lá
aparecesse.
Emaranhado nestas cogitações, mal
prestou atenção ao rapazola frangalhote, com uma barbicha rala de adoentado que
franqueou a porta e se deteve face
à prateleira dos vinhos. Só quando sentiu a lâmina da faca a picar-lhe a pele do
pescoço, o bafo ardente do rapazote na cara, é que se apercebeu da cilada em que
caira.
Petrificado, branco como a cal da parede, os
dedos engadanhados incapazes de empunhar o pau de basebol que, sob o
balcão, lhe aflorava os joelhos
trementes, o charuto caiu-lhe da boca e rolou envergonhado pelo soalho adiante.
Depois, tudo se desenrolou num ápice. A mão enluvada apossou-se, destra, da magra receita da
caixa. Logo, irreal, tal como entrara, o garoto volatizou-se, num passe mágico.
Sem palavras. Ficou o arquejar do Açoriano a bolir na paz da
tarde.
Quando a polícia chegou, a sirene do
carro num estardalhaço, o Açoriano recebeu-os com uma alvoroçada descrição do
perfil do assaltante.
-Era um calmeirão com quase dois metros, forte
como um touro. E apontou-me logo o pistolão ao peito, sem me dar tempo para me
defender.
E enquanto o polícia rabiscava,
entediado, as notas da praxe, o Açoriano, de gatas, lá acabou por descobrir o
charuto debaixo duma prateleira. Acendeu-o e soprou uma fumaça
apaziguante.
- O cabrão que não tenha a
infelicidade de alguma vez me aparecer à frente. Então é que ele ficaria a saber
o que é um português com eles no sítio. - E o pau de basebol descreveu um
círculo ameaçador sobre as cabeças.
PESADELO
Domingo à tarde. Dia lindo. A
passarada canta por todo o lado. O parque entoa um apaixonado hino à vida.
O Manuel Transmontano, esquecida a
ferrugem das articulações, não se farta de brincar com o neto, enebriados como
dois cabritos descuidados.
De súbito, o neto estaca, de olhos
abertos para o pássaro que, empoleirado no ramo dum arbusto, debica uma maçaroca
dum vermelho vivo. É um pássaro dum negro metálico com listras carmesins nas
asas.
‑ Como se chama este pássaro ?‑
perguntou o petiz, erguendo os olhos confiantes para o avó.
Ficou embatucado. Inesperadamente,
um calafrio percorreu‑lhe a espinha. Àquelas árvores, àquelas aves, àquelas
flores, nem lhes suspeita o nome.
Sentiu‑se um entruso, em terra
alheia. E teve a terrível sensação que a natureza, em coro, o repudiava.
Subitamente, havia uma hostilidade palpável, materializada no
ar.
Nessa noite, teve o primeiro
pesadelo. Viu‑se morto. Sulcos de lágrimas de dor rasgavam os rostos desfeitos
da família. O caixão descia lentamente à sepultura com um ranger áspero de
cordas. Vermes asquerosos como cobras revolviam a terra soltando silvos
horripilantes. E o seu cadáver nauseabundo, num terrível anátema, iria ficar para sempre na cova gelada,
intacto, rejeitado pelos vermes, num mar de repulsa e ódio, rodeado por
animalejos monstruosos que arreganhavam os dentes ferozmente e que lhe rosnavam:
o que fazes aqui? Esta terra não é
tua, vai‑te embora.
O pesadelo repetia‑se, inexoravelmente, noite após noite. Acordava, alta
madrugada, alagado em suores frios, olhos escancarados no escuro, o fôlego
ardente.
Passadas semanas de noites brancas e
pupilas queimadas pela insónia, a família, alheia ao drama que o devorava, reunida num almoço, o Manuel
Transmontano, num repente, aproveitou uma brecha no tagarelar para falar: ‑ Vocês sabem como eu tenho
renunciado a muitos dos meus sonhos, por causa do bem estar da família. Vejam
que já nem falo em regressar a Portugal, o que era o maior sonho da minha vida.
Mas não me queixo, não tenho sido dos mais castigados. A vida é o que é, nem tudo corre como nós
queremos. ‑ Pigarreou para dar solenidade às palavras ‑ Agora chegou a minha vez
de vos pedir um favor. Olhem que estou a falar muito a sério. Quando eu morrer,
quero ser enterrado em Portugal. Em Cicouro.
A mulher ia
soltar uma gargalhada mas foi detida pelo brilho resoluto dos olhos garços da
filha.
‑
Pode estar tranquilo, pai. Está
prometido. Não se fala mais nisso.
E continuaram o
tagarelar interrompido.
A partir desse dia, o pesadelo refugiado lá para os arcanos da memória,
deixou de atormentar as noites do Manuel Transmontano que rapidamente recuperou
a sua bela cor rosada e o gosto pela vida.
- Quanto mais velho está, melhor dorme, este
dianho - inveja‑o a mulher que começa, por sua vez, a padecer dos sonos leves da
velhice.
FECHO
DO LIVRO SEGUNDO
Coisa estranha a vida dos emigrantes,
sempre às reviravoltas.
Quem diria que o Jaime, regressado a
Portugal, ainda haveria de sentir saudades do Canadá? E que o Manuel
Transmontano acabaria por esquecer, de vez, a ideia de regressar a Portugal?
Para já não falar do Pedro Algarvio
que começa a ser um caso sério de homem de negócios bem sucedido. Já abriu outro
restaurante na Rue Duluth e a vida corre-lhe de vento em
popa.
O Luís Negro, esse continua o homem
simples de sempre. Afastada, por agora, a ameaça do desemprego, reencontrou a alegria de viver e as suas gargalhadas
sãs tornam a fazer a felicidade da Teresa que já andava preocupada com o seu
homem.
O que dizer do Zé Biana? Para falar
francamente, é o caso mais imprevisível de todos. Muito enganada anda a Adelaide
se pensa que o marido já assentou os pés em terra firme. Daquele lado ainda tudo
se pode esperar.
O Açoriano, certo dia fez as contas
à vida e acabou por trespassar a
loja. Quando vai beber um copo ao restaurante do Algarvio, fala, por vezes, em
retirar-se tranquilamente para
sol da Flórida, onde tem um
irmão.
Resumindo, a vida continua.
