PARC DU PORTUGAL

 

LIVRO SEGUNDO

 

                 

 


 


           Coisa estranha: apesar de se acharem no seu país, a nostalgia não morreu e esse murmúrio subterrâneo, tenaz, invencível, continua a lavrar no fundo das suas almas.  

 

                                                                     Yolanda Foldes

                                                   A rua do gato que pesca

 



 

 

 

 

Discretos, como vivem, os portugueses vão, aos poucos, desertando o quartier St-Louis e no conforto dos subúrbios provam o pão que a integração amassou.


 


BUNGALOW

 

O agente imobiliário, um português com mais de vinte anos de tarimba, paciente como uma múmia, com artes para impingir uma casa a um morto, nunca deparara com um caso assim. Ajeitou os óculos no nariz protuberante picado de transpiração e, incapaz de aceitar a derrota, respirou fundo, disposto a recorrer à sua artilharia mais pesada.

- Olhe meu amigo, os tempos estão excepcionais para os compradores, não há memória de coisa assim -  malhava, mais uma vez, o ferro. -  Esta situação não pode durar eternamente. Quando a recessão acabar, os  preços vão disparar por aí acima. Decida-se antes que o vento mude, já me constou que os juros vão subir brevemente. Se quer um conselho de amigo, não perca esta oportunidade. Isto é falar de português para português.

Até mesmo a Teresa, toda prudências e esquisitices, já ficara a morrer de amores por três ou quatro bungalows que eram um sonho e, se não fosse o travão do marido, já há muito que teria embarcado, levada pela lábia do homem.

Quanto ao filho nem é bom falar, o agente cheirara-lhe o fraco e cortava-lhe o fôlego com os irresistíveis abraços que as águas refulgentes das piscinas lhe lançavam dos back-yards.

- Quando comprar terá que ser coisa a meu gosto - obstinava-se o Luís Negro, cego aos mais aliciantes engodos.

Lareiras, quartos frios para vinho, amplas garagens, verdejantes relvados, enormes drive-ways, nada o decidia.

- Afinal, você quer ou não quer comprar? - exasperou-se o vendedor.

- Claro que quero -  abespinhou-se o Luís.  - Pensa que sou homem de brincadeiras?

O vendedor, desamparado, esgotadas todas as habilidades, já disposto a baixar os braços, fez das tripas coração, numa derradeira tentativa, por descargo de consciência.

- A casa que hoje lhe vou mostrar, em Laval,  é uma pechincha. Se não comprar esta, não compra mais nenhuma. Pertencia a um senhor italiano, infelizmente recentemente falecido, e a viúva vai regressar à Itália. Está um autêntico brinco, o senhor sabe, nisso de  conservar as casas, os italianos são como os portugueses.

*

Perante a incrédula  indiferença da Teresa, farta até à ponta dos cabelos de correr seca-e-meca, e o desinteresse do filho frustrado pela falta de piscina, o Luís estendeu lentamente os olhos pelo vasto quintal: o renque de macieiras bem alinhadas, a horta de terra negra e promissória à espera da fecundação, o forno de tijoleira, os tufos verdes das framboeseiras e dos morangueiros, as lajes dos passeios a rasgar o relvado, impecavelmente niveladas, a vedação bem tratada, braçados de flores por todo o lado, por entre a verdura pássaros a cantar, abelhas numa lufa-lufa. Tudo respirava o trato de mãos amorosas e sonhadoras.

 Por instantes, Luís examinou as próprias mãos, fortes e amestradas para prosseguir a obra encetada. Depois, sem pressas, poisou o olhar no atarantado vendedor.

- É esta - disse, simplesmente.

E qualquer coisa lhe segredava  que, fosse lá onde estivesse, o velho italiano devia esfregar as mãos de contente.

 


SARDINHADA

 

 

 

 

Diligente como uma formiga, durante três ou quatro tardes, o Luís Negro cavou , arroteou,  extirpou vestígios de raízes e pedras, adubou, a terra úbere finalmente pronta para engravidar  da poesia que lhe escorria das mãos ansiosas. Só então  sorriu: à sua frente, os canteiros de salsa e  hortelã, as leiras de tomateiros e pimenteiros, as carreiras de cebolo arrebitado, os cômoros das  alfaces, os pés de couve, a esquadria dos regos, via-se que ali andara mão inspirada de mestre.

Mas uma obra sem elogios é como um dia sem sol. O Luís tem fome de palavras de apreço e admiração. Mas onde procurá-las?

 Já se tinham mudado havia quase um mês e ainda quase mal vira as ventas aos vizinhos, ciosamente refugiados nas prisões douradas da privacidade. Quanto aos amigos, andavam todos dispersos pelas rafadas da vida. O Jaime Reis regressara a Portugal, ao Pedro Algarvio parecia que lhe dera o sumiço, nunca mais lhe pusera a vista em cima. Restava-lhe o Zé Biana mas esse, coitado, às vezes andava com uma cara de triste que até dava pena, como se carregasse o peso do mundo às costas, cada vez mais brumoso o sonho de montar uma oficinazita lá  na terra, para mais agora que o dólar andava pelas ruas da amargura e a vida em Portugal estava pela hora da morte. Por esse andar, o dinheiro que o pobre ganhava numa semana mal chegaria para comprar um parafuso em Portugal, muito teria que esperar aquela serralharia para ver a luz do dia.

- Éh Teresa, liga aí à Adelaide, convida essa gente para virem até cá,  amanhã,  comer uma sardinhada.

- Mas ainda não temos nada arrumado -protestou a mulher. - Ó homem, deixa isso para outra altura.

- Deixa-te  de cerimónias, essa gente é como se fosse da família, não vão reparar.

*

Com um sol de verão espreguiçado pela relva cortada de fresco, em tronco nu, uma cerveja na mão, enquanto espalha as sardinhas sobre a grelha, o Luís fala pelos cotovelos, as palavras em chorilho. Esmaga o Biana com a sua omnisciência hortícola, avança previsões irrebatíveis.

- Daqui a um mês, vou ter ali carradas de tomates mais grossos do que o meu punho. E alfaces? Acho que  vou poder abastecer o mercado de Jean Talon durante todo o verão, estas mãos sabem o que fazem.

Já espessa nuvem de fumo sobe do barbicue e, levada pela brisa, paira pesada sobre a ramaria das macieiras, estende tentáculos odorosos pelos quintais da vizinhaça.

E, de súbito, o Luís dá com um par de olhos perscrutadores pousados sobre a vedação.

- Querem lá ver que a este já lhe deu o cheiro das sardinhas e vem para aí armar banzé! Ele que não se faça parvo. Era o que me faltava já não fazer o que me apetece naquilo que é meu. Deixa-o comigo que a este  já lhe trato da saúde ou eu não me chame Luís.

- Bonjour, voisin - interpelou-o, de peito feito. - Não queres provar uma sardinha? Garanto-te que nunca comeste nada tão gostoso em toda a tua vida.

Do outro lado, os olhos  animaram-se, aguados, no coiro escuro do rosto surrado pela vida.

-         Depois que saí de Marrocos, nunca mais comi sardinhas.

             O Negro ficou aparvalhado, de boca aberta mas logo se recompôs, sem mostrar a fraqueza.

- Então, é aproveitar hoje. Estão gordas e gostosas que é um regalo. Olha aqui, tão loirinhas, estão mesmo a pedir que as comam. Vem daí e chama também a família, há aqui sardinhas que chegam para todos ou não seja eu peixeiro.

Enquanto o marroquino, lépido, dava a volta  à vedação, o Luís Negro ria às gargalhadas, os olhos marejados de lágrimas, talves do fumo, talvez doutra coisa qualquer.

- Tás a ver isto, ó Biana? Acontece-nos cada uma na puta da vida.

 


CAMPEONATO

 

Adversários daqueles, assim fracalhotes, sem chama, começavam a tirar-lhe o gosto pelas suecadas. Uma suecada a valer, queria-se renhida, transpirada, disputada palmo a palmo, o coração a bater como um cavalo, o sangue a saltar nas veias, a latejar nas têmporas.

Ultimamente, a meio duma partida, já chegara a dar conta de si completamente alheado do jogo, distraido com a vida da montanha, com os pares que passavam, com as correrias das crianças, com a batucada cada vez mais endiabrada lá para ao pé da estátua.

- É Manel, hoje tás com a cabeça nas nuvens - queixava-se o parceiro. - Andas com algum problema?

- Qual problema, qual carapuça! Não sei do que tás à espera para jogar essa bisca.

A vida corria-lhe num mar de rosas, assim sempre fosse, trabalho continuava a tê-lo, graças a Deus, carpinteiros com umas mãos de oiro como as suas não se encontravam aos pontapés, o neto, palrador, sempre atrás dele, cada vez mais a sua cara chapada, enchia-lhe a casa de alegria e até mesmo o Michel, agora que o começava a conhecer melhor, estava a sair-lhe um gajo porreiraço, sempre com boa cara, já começava a acreditar que a filha tivera carradas de sorte em tê-lo encontrado, com cada estafermo de homem que por aí havia. Se Deus lhe desse saúde e sorte, pró ano estava a contar levar a família toda a Portugal, por altura da festa do Nazo, aí é que o Michel iria saber o que era o regalo duma boa posta mirandesa assada na brasa, que o dianho tinha boa boca, nada biqueiro, nem parecia quebecois, regalava-se todo com sardinhadas e boas febras bem à portuguesa.

Mas, por aquele andar, as suecadas ali na montanha  tinham os dias contados, não havia nada que as salvasse, para mais agora que um grupo de velhotes polacos lhes andava a cobiçar a mesa, a rondar, sornas e solertes, com aqueles narizes vermelhudos das garrafadas de vodka.

- Qualquer dia ficamos sem a mesa - rosnava o Abílio, com aquele par de patilhas cada vez mais selvagens, meio grisalhotas, a comer-lhe a cor da cara.

Estava tudo pois nestes termos, quando um sábado, já o verão começava a dar a alma ao diabo, o frio a descer da montanha em rafadas aguçadas, o Abílio apareceu todo excitado, os olhitos atiçados como carvões em brasa.

- Éh  pessoal, hoje trago uma notícia do caraças.

De pronto, o baralho de cartas esquecido sobre a mesa, falou-lhes do campeonato de sueca que o Benfica estava a organizar, coisa para breve, não havia tempo a perder.

- O meu cunhado é lá da direcção, aquilo vai ser em grande. E se a malta entrasse na coisa?

A excitação a repintar as caras gastas, logo ali escolheram parceiros, desdobraram estratégias, jogos de sinais, mil artimanhas para arrumar aquela malta do Benfica enquanto o diabo esfrega um olho.

E c'os diabos, no ardor  do momento, o Manuel Transmontano voltou-se para o grupo de polacos, que os mediam meio desconfiados, e, por entre mil gargalhadas, atirou-lhes, num manguito bem puxado:

- A mesa é vossa. A nossa música agora é outra. 

 


REVIRAVOLTA

 

 

 

A Adelaide anda outra vez com uma neura desgraçada. Sem apetite, com insónias, cheia de olheiras, o médico diz-lhe que  é um princípio de depressão nervosa e, para justificar os honorários, pergunta-lhe se fuma, discorre sobre o stresse da vida moderna, aconselha-lhe exercício, moderação na alimentação, enfim, a receita do costume, parece que lêem todos pela mesma cartilha.

Ela só não se lhe ri na cara porque a situação não é para graças. A razão da sua crónica prostração identifica-a ela melhor do que ninguém, do médico dispensa bem o palavreado tonto, dele só precisa a receita dos tranquilizantes, mais nada, para ser reembolsada pelo seguro. O grande e único mal dela é ter um banana de marido, completamente chanfrado, agarrado como uma lapa àquele sonho de um dia montar uma serralharia lá na terra.

 Arrancar-lhe um cêntimo da conta bancária é como tirar-lhe um litro de sangue ou arrancar-lhe o coração do peito. Ainda recentemente, para comprarem o carro fora uma luta alto lá com ela, longa de meses, arrasante, o que lhe valia é que a filha começava a crescer, quase uma mulher feita, e também já batia o pé, firme do lado dela, já não se sentia tão desamparada. “O que tu devias era fazer uma promessa ao Senhor Santo Cristo para ver se lhe sai essa doideira da cabeça”, aconselhava-a a boa da Teresa, compadecida,  quando  a via mais deprimida. Então nos últimos dias tem sido uma desgraça, o raio do homem tem andado macambúzio, sem uma palavra, capaz de virar da cabeça, esse era o seu maior receio. Isso, é claro, se não fosse ela a primeira a dar em chalupa, esgotada até à última gota por mil batalhas quotidianas.

Mas, para falar francamente, a última sardinhada na casa nova da Teresa, fora a gota d'água que lhe fizera entornar  a resignação. Como toda a boa portuguesa, a Teresa gostava de apresentar a mesa farta, de mostrar as suas coisas e enquanto lhe fazia visitar os cómodos da casa, tagarela como sempre, nem se apercebia do mal que lhe estava a fazer. Não é que invejasse os amigos, eram boa gente, mereciam o que a vida lhes dava, mas não podia deixar de fazer comparações, de pensar mais uma vez, numa obsessão crescente, no apartamento escabroso em que viviam, onde até apareciam ratos e baratas.

Era nisto que reflectia quando recebeu o telefonema da Teresa. Uma Teresa eufórica, cheia de risinhos cacarejados, como é costume dela nos momentos de alegria, as palavras a atropelarem-se umas às outras com a pressa de saltar da boca:

Olha, Adelaide, estou tão contente, sabes que puseram à venda a casa em frente da nossa? E estão a pedir um preço muito baixo. É melhor do que a nossa, com piscina, só o quintal é que é mais pequeno mas o teu Zé não tem a maluquice do meu Luís. Se vocês comprassem, ficávamos vizinhos, era tão bom!

- Sabes como é o Zé. Nem quer ouvir falar numa coisa dessas mas, mesmo assim, posso-lhe falar, mas já sei que não vai adiantar nada.

            - Fala, fala, nunca se sabe e, se for preciso, agarra-te ao Senhor Santo Cristo.

*

Mal sabe a Adelaide a razão da  recente macambuzice do Zé. Depois da sardinhada, não lhe sai da cabeça a oficinazita do Luís no canto da garagem. Rasca, quase sem ferramentas, pouco mais do que um berbequim e três ou quatro chaves de fendas por ali espalhadas, à balda,  porque se o Luís sabia muito de agricultura, naquilo

era um tapado, incapaz de diferençar um parafuso dum prego. Para fazer dali uma oficina a sério faziam falta umas mãos sabidas como as dele, deitava uma parede abaixo, ali havia espaço para tudo e para mais alguma coisa, instalava prateleiras, montava um torno, uma fresa, uma boa bancada, aquele parvo do Luís não sabia a riqueza que tinha ali, bem diz o ditado que Deus só dá nozes a quem não tem dentes.

Foi pois neste delírio, num atordoamento amolecedor dos sentidos, que a Adelaide o apanhou quando, meio a medo, lhe veio falar da casa.

- Por que não? Podemos ir vê-la, é um passeio que damos.

 


MAR

 

 

 

 

Agora, quando aos domingos de manhã vai à missa, o Luís já não mendiga favores a Deus. Os seus lábios, quando se abrem, é para agradecer todas as bençãos com que a vida, no  seu entender, o tem cumulado.

Repassado duma serenidade rente à natureza, às tardes, depois do trabalho, refugia-se no quintal, a horta é a minha taberna, já torna a dizer como nos tempos da Vieira quando, enxada ao ombro, rilhava os dentes para resistir aos apelos madraços e enleantes que os compinchas dos copos lhe lançavam do umbral das tabernas.

Encontra sempre qualquer tarefa para  cumprir, a horta para regar, algum arbusto  para podar, um buxo para aparar, o quintal é um ser vivo e sensível carenciado de carinhos que só mãos tocadas pela graça telúrica  sabem prodigalizar.

Mas desde há uns tempos, anda qualquer indecifrável enguiço a perturbar-lhe a paz, torna a apoquentá-lo aquele frenesim que lhe remexe as entranhas quando alguma lhe começa a moer a cabeça. E, coisa estranha, desta vez, por mais que esprema os miolos, não consegue atinar com as raízes desta angústia crescente.

Inesperadamente, foi o filho que, ao jantar, lhe abriu as portas da razão.

 - Ó pai, agora que temos uma cour é que a gente podia comprar um cão.

Num transbordo, do fundo dos anos, dum outro tempo, reminiscência dum mundo paralelo, subiu-lhe à tona da memória um quadro familiar: quintal de pescadores pobres com roupa surrada estendida na corda, galinhas a depenicar por aqui e por ali e, lá no canto, junto

à coelheira, do fundo da casota de tábuas carcomidas, os olhos infinitamente doces dum cãozito de rabito a abanar.

Desde essa noite, foi uma guerra pegada naquela casa. O Mário, em rompantes de adolescente, exige um pastor alemão, pelo menos um labrador, cão que se veja e que o prestigie perante a garotada da redondeza. A Teresa inclina-se para um caniche, género bibelot, para enfeitar a casa. O Luís, num mutismo alarmante, alhea-se da discussão, rumina sabe Deus o quê, nada de bom pelo certo, desconfia a família que já  conhece de ginjeira o significado daqueles silêncios casmurros onde não entram outras vozes para além da que lhe sobe das tripas.

E, mais uma vez, tinham razão para desconfiar.  O Mário quase que ia morrendo de raiva quando o Luís chegou a casa  com aquele cachorro preto de orelhas caidas, um vara-latas sem pinga de raça. Só a Teresa, ao reparar nos olhos infinitamente doces do bicho, é que teve um baque.

- Mas parece o nosso Mar! Recordas-te, Luís, do nosso Mar, na Vieira? Tive tanta pena de deixá-lo, será que ainda é vivo?

            O Luís encarou-a nos olhos.

- Este cachorrito é o Mar.

 


NAZO

 

 

 

O automóvel rasgava os campos pardos e pedregosos, acachapados pela canícula de Setembro.

            ‑ Esta viagem de Cicouro ao Nazo ‑ explicava o Manuel Transmontano, com uma ponta de exaltação na voz ‑, fazia‑a eu todos os anos a pé, eram cinco horas bem medidas a dar às canelas por esses caminhos de cabras. Desde que comecei a ter barba na cara, não me lembro de ter faltado a uma festa do Nazo. Aquilo sim, eram bons tempos. E aqui, nesta encruzilhada, foi onde me saiu ao caminho um lobo, quando eu, altas horas da noite, regressava a casa da festa da Nossa Senhora da Luz...

‑ Ó pai, já lhe ouvimos essa história vezes sem conta, e sempre com uma versão diferente ‑ repreendeu‑o a filha, piscando o olho ao Michel.

‑ Mas é a pura verdade. O que me valeu foi que nesse tempo eu era só pele e osso e o lobo, com certeza, não me achou grande fartura, deu meia volta ao rabo e foi à procura de presa mais gorda.

Rabugento, afligido pelo calor, faces rosadas em brasa, o Pierre saltava duns braços para os outros.

- Se te portares bem, prometo mostrar‑te os burros na feira

 Logo o petiz se  aninhou, sem tugir,  no regaço da avó. Doido por burros, num alvoroço,  durante aqueles primeiros oito dias de férias, arrastara sem descanso o avó aldeia fora, por cortinhas e currais, no encalço das pachorrentas alimárias.

 ‑ Éh Michel, no próximo Natal, dá um burro ao teu filho. É o melhor presente que lhe podes oferecer.

*

Foi entre risadas que chegaram ao Nazo. No alto do monte escalvado, a capelita de talha austera desafiava o tempo, os sinos num repique festivo.

             ‑ Está como há  vinte anos ‑ murmurou o Manuel Transmontano.

             E logo, os olhos carregados de evocações com o freio nos dentes, esquecido da família que fazia das tripas coração para o não perder de vista, misturou‑se ao povoléu. Perdeu‑se por entre as barracas de feirantes. mercou encarniçadamente um cinto de cabedal, abeirou‑se dos negociantes de gado, escutou a lábia dos ciganos que procuravam, tal como no seu tempo, vender burro velho por cavalo, juntou‑se às famílias que, no adro, à sombra dos choupos, abriam os farnéis imensos e desenrolhavam os garrafões de vinho. Já o sol dardejante ia alto e o ar vibrante, carregado de odores pesados, mal se podia respirar, o suor a abrir‑lhe regos pelas costas abaixo, arrastou a família esfalfada até às barracas de comes‑e‑bebes.

- Aqui, Michel,‑ voltou‑se para o genro ‑ vais‑te regalar com o melhor petisco do mundo. No Canadá não encontras nada disto, acredita em mim.

O Michel, a enxugar o suor do rosto com as costas da mão, ria meio aturdido pelas pinceladas fortes do quadro: as vitelas suspensas do travejamento do telhado dos barracões, a fumarada acre que subia dos braseiros onde a carne rechinava, as mesas de madeira corridas a abarrotar de comensais folgazões.

 Bien sûr, Manuel. Allons‑y.

             Abancaram numa das mesas que acabara, por

milagre, de vagar.

‑ Há tantas moscas por aqui ‑ queixou‑se a filha.

‑ Já não é como dantes ‑ engelhou o nariz a mulher, olhando de esguelha os pratos de esmalte enbeiçados e limpando disfarçadamente o talher à fímbria da saia.

             Mesmo o Michel, sempre tão delicado e esforçado por lhe ser agradável,  também não o enganava, bem lhe sentia os olhos inquietos cravados nas mãos encardidas da velha que virava a carne no lume.

             Só o neto é que parecia divertir‑se, aos pontapés a um cãozarrão cheio de carraças que, debaixo da mesa, enxotava as moscas e o calor com o rabo.

             ‑ Claro que isto está como antigamente, vocês é que estão mais fidalgas. Mas se não quiserem, não comam que a mim não me faz grande diferença. Olhem, talvez encontrem para aí perdido algum McDonald's onde matar a fome.

            E, quando a vitela veio para a mesa, enterrou vigorosamente a faca na carne suculenta. Levou um naco à boca e, lábios besuntados, a mastigar, regalado, deixou os pensamentos vogarem tranquilamente à tona da memória, até  aos longínquos tempos em que, rapazote quase imberbe, depois de se banquetear com uma avantajada posta à mirandesa, à  sombra daquele carvalho que dali avistava, estava em crer ser o mesmo, atrás dumas touças, perdera a inocência entre as coxas morenas duma cigana generosa.

Em que estás a pensar? ‑ estranhou‑lhe a mulher o olhar vidrado.

A cara do Manuel Transmontano estilhaçou‑se num sorriso avelhacado.

-         Logo à noite, conto‑te.

 


PRESÉPIO

 

 

 

Maldito nó na garganta! Sobre a banca da cozinha, entre restos de comida, a garrafa de vinho, mais espremida do que um limão, lampejava de troça. Raivoso, rebuscou os bolsos e contou as moedas reunidas: sete dólares e vinte cêntimos, o suficiente para comprar o remédio de mais  uma garrafa de vinhaça  rasca.

A sobrevivência até ao próximo cheque do bien-être não o preocupava  por aí além. A quadra do ano exacerbava a compaixão humana e bastava  andar de olhos abertos para topar por todo o lado com generosas distribuições de cabazes de natal gordos de vitualhas.

Nem parecia noite de consoada. Aqui e ali, esparsos monturos de neve. O frio, fracalhote, mal beliscava a pele, sem exigências de grandes agasalhos.

O depanneur da esquina era um buraco negro, o reclame do topo da porta, geralmente ofuscante como um clarão, pingava uma luzinha amarelenta, fraco como uma candeia minguada de azeite. Cem metros adiante, as portas da loja do Açoriano arreganharam-lhe umas ventas hostis.

Foi então que o Pedro Algarvio compreendeu que não valia a pena continuar a procurar. Nessa noite, todas as forças ocultas do mundo reuniam a sua hostilidade, açuladas às canelas dos destroços humanos das  cidades.

            Das ruas ao redor da Igreja Santa Cruz,  desembocavam vultos de crentes atraídos pela missa do galo, ao  apelo do enigma vindo do fundo dos tempos.

            Subiram-lhe à garganta saudades dos  tempos  na loja do Açoriano, das longas cavaqueiras entre um par de cervejas. Porque falar não custava dólares, como filosofava o Luís. Bons tempos aqueles  em que ainda sentia forças para deitar as mãos aos cornos da vida  e vergá-la ao seu jeito.

Sem se dar conta, os passos conduziram-no para a rua Laval. Lá no alto dum triplex, uma janela coava uma luz baça. A Gisele ainda lá moraria? De que cor estariam os olhos dela nessa noite? O azul dos dias de bonança ou o verdacho das horas de borrasca?

Uma dor intensa rasgou-lhe as carnes do peito. Perdera-a por uma ninharia. Numa fanfarronada de português cabeça dura, pusera-lhe as malas à porta da rua. Só por ela, numa teima de quebecoise arrebitada, ter embirrado em sair, num sábado à noite, com umas amigas. Já lá  iam oito meses esgotados, dia a dia, na ampulheta  do arrependimento calado pela soberba e pela vergonha do descalabro.

Quando lhe abriu a porta e o reconheceu, os olhos dela continuaram azuis. Dum azul mais sereno  do que outrora.

- Entra. Na luz quebrada da sala, uma criança dormia serena numa alcofa de palha. Os olhos do Algarvio saltaram para os olhos azuis.

- Chama-se Manuel.

Ficaram os dois, as cabeças aflorando-se, debruçados sobre a alcofa. Só então ele sentiu a razão da nova luz nos olhos azuis

 


CARTA DE PORTUGAL

 

 

 

Amigo Luís

 

Desculpa o habitual atraso.

Na tua última carta,  perguntavas-me como, no regresso, encontrara Portugal.

Olha, amigo, se queres que te fale com franqueza, penso que os países começam a ficar todos parecidos uns com os outros. Um aldrabão é sempre um aldrabão, fale-me ele inglês, francês ou português. Os patrões só pensam em ter mais lucros com menos empregados. Aos empregados só lhes interessa ganhar mais dinheiro para comprar melhores carros. E, tal como aí, já ninguém estende a mão a um pobre diabo a morrer na rua. É a lei do desenrasca, quem tem unhas é que toca guitarra.

Como vês pelas minhas palavras, eu é que continuo sempre na mesma, rezingão, à procura do tal paraíso terrestre que, começo a desconfiar, só existe na minha imaginação, mas o que queres?, nasci assim, assim hei-de morrer, burro velho não ganha andadura.

Perguntavas-me também se ainda nos recordamos do Canadá. Olha, para te falar com o coração nas mãos, desconfio que todos nós, até mesmo os rapazes, à medida que o tempo passa, cada vez ficamos mais presos aos anos que aí passámos. Como se nos tivessem marcado a fogo.

Para que vejas, no Natal passado, na noite de consoada, a família toda reunida à volta da mesa cheia de comida, fui dar com a Maria Cândida com o nariz encontado à vidraça da janela, a contemplar, muito absorta, a chuva miudinha, irritante, molha-parvos, que não cessava de cair desde a véspera. "Isto sem neve, nem parece Natal", acabou por dizer, muito triste.

Foi como se estivéssemos todos à espera que alguém tivesse a coragem de abrir a conversa, desatámos a falar da neve, do frio, das noites de consoada com vocês, todos tinhamos uma história encravada na garganta para contar, se queres saber, estávamos todos, quase de lágrimas nos olhos, a rebentar com saudades de Montreal.

Uma vez li um livro que rezava assim: "Coisa estranha: apesar de se acharem no seu país, a nostalgia não morreu, e esse murmúrio subterrâneo, tenaz, invencível, continua a lavrar no fundo das suas almas".

Pois é exactamente o que se passou nessa noite. És capaz de compreender esta desgraça?

Não te quero entristecer mais com os meus dramas. Tu, melhor do que ninguém, conheces este meu vício para conspirar contra tudo e contra todos. Não ligues. No fundo, não há melhor país do que este nosso Portugal, farto de neve fiquei eu até à ponta dos cabelos.

Ficámos  muito satisfeitos por terem comprado casa e por sabermos que a vida vos continua a correr bem. Na próxima vez,  manda-me uma saca de batatas do teu quintal.

Um abraço.

Jaime

 


SÃO VALENTIM

 

Primeiro, foi o campeonato de sueca, seguiu-se um torneio de malha, depois passou a dar uma mão no  bar ou na cozinha,  às vezes até lavava a loiça das jantaradas, vejam bem, ele que em casa não tocava numa palha, sabia lá Deus o que ia naquela cabeça para se sujeitar a tais canseiras,  o certo é que o seu Manuel não tirava os pés do Benfica, contavam-se pelos dedos das mãos as horas dos fins-de-semana que nos últimos tempos passara em casa.

- Vai também até lá, desta vez - tentava ele cortar-lhe os maus humores. - No próximo sábado, é o baile de St- Valentin.

Tu pensas que tenho vida para ir a bailes? A minha dança é outra.

Os homens são uns fidalgos, sabem lá eles o que custa trazer a casa limpa e a roupa lavada e engomada, a comida a horas na mesa. Durante a semana, nem pensar em fazer alguma coisa, chegava a casa arrasada do trabalho na fábrica, ou aqueles estupores dos casacos de inverno cada vez pesavam mais ou era ela que começava a ficar velha, já sem forças para pegar numa gata pelo rabo. Os fins de semana não davam para nada, passavam enquanto o diabo esfrega um olho, ainda vinha agora o maluco do seu homem falar-lhe em bailes. Além disso, geralmente nos sábados à noite, a filha e o Michel saíam, iam jantar fora, que a vida não é só escravidão, que se divertissem enquanto eram novos, faziam muito bem, e deixavam-lhe o neto para cuidar. A criança estava cada vez mais esperta, enchia-lhe a casa de alegria. Antes de lhe dar aquela maluqueira do Benfica, o divertimento do seu Manuel, nos sábados à noite, era ensinar português ao Pierre, o que eles riam com aquilo, seria uma vergonha se um dia chegassem à terra, lá em Trás-os-Montes, e a criança nem soubesse  falar direito.

Mas hoje, mais do que nunca, sente a solidão da casa vazia ferrada na garganta. A filha recebia amigos e não lhe levara o neto, nem a televisão aos berros conseguia encher a enormidade do apartamento orfão do palrar da criança.

Através da janela, contempla uma neve, muito leve e branca, que polvilha a noite de mãos-cheias de farinha. Onze, meia-noite, duas horas da manhã, o que lhe vale, para entreter o tempo, é que o trabalho não falta, o monte de roupa para engomar parece não ter fim.

Mas que desta vez, ele vai ouvi-las lá isso vai, já estava pelos cabelos, saturada da tantas ausências, e, ainda por cima,  o salafrário, uma vez por outra, já chegava a casa meio tocado dos copos, pensava ele que lhe tapava os olhos, não era só a lavar loiça que passava as noites, não senhor, ainda lhe sobrava tempo para molhar o bico, disso não tinha ela dúvidas.

Eram três horas da madrugada quando o Manuel Transmontano meteu a chave à fechadura. Furiosa, meio tonta pelo sono, as varizes das pernas assanhadas, disposta a armar sarrabulho, mal lhe deu tempo para descalçar as botas da neve.

-Isto é que são horas de chegar?

Foi detida a meio da investida pela enormidade da surpresa. O seu Manuel, que ela geralmente ainda via como nos tempos de namoro, camponês esgalgado,  vestido de sarja e socos de madeira nos pés, ali, num quadro irreal, na silente intimidade da madrugada, oferecia-lhe uma rosa vermelha resplandecente de fragilidade na mão nodosa  e castigada  pelo trabalho.

Sem saber se devia rir se chorar, a esfregar os olhos para disfarçar,  num esforço, acabou por dizer:

- Quando houver outro baile, vou contigo.

 


PETIT ALGARVE

 

 

Nestes tempos negros que correm, é mais fácil achar uma agulha num palheiro do que encontrar trabalho.

Assim o comprovou o Pedro Algarvio que, durante mais de três meses, passou Montreal e arredores a pente fino, na vã esperança de descobrir o tal emprego que está sempre à espera dos mais perseverantes, como reza o catecismo do american dream.

Foi o achas! E olhem que o Algarvio não é biqueiro nenhum, homem de sete ofícios, com arcaboiço para se atirar ao trabalho mais duro de roer, versátil e flexível no dizer  dos malabaristas das terminologias profissionais, mas nenhuma destas qualidades lhe tem valido de nada. Já pronto a remergulhar na descrença e a mandar  tudo às malvas, só os olhos inocentes e confiantes do filho, que o seguem fielmente por toda a casa, o retêm e fazem obstinar na procura. Mas tudo tem um preço, os nervos num feixe, prontos a explodir, recomeçou a beber. À socapa, longe dos olhares da Gisele que já se apercebeu da recaída embora se faça despercebida, refugiada num mutismo ainda mais machucante do que as palavras.

Embora faça das  tripas coração, é-lhe cada dia que passa mais insuportável aquele viver, numa dependência económica da Gisele que o põe fora de si. Um chulo, um chulo é o que ele é.  Da mesma raça degenerada do Barão. Aquele  Barão! Já lá iam quase vinte anos e vinham-lhe agora,  assim,  à lembraça, com tanta nitidez, as baboseiras  do sacana, lá na tropa, em Angola. Com que arrogância de pavão alfacinha ele se vangloriava, sem ponta de vergonha na cara,  para a roda  da saloiada das berças, de  viver às custas das putas do Bairro Alto. Mas o Barão tinha a desculpa da flor da idade e ali, na guerra, aquelas basófias ajudavam a passar o tempo e  a esquecer os cagaços e a solidão, no fundo era quase um herói.

Derreado pelo peso dos pensamentos, estava, mais uma vez, prestes a ceder à tentação e a franquear a porta do bar quando, por acaso, a atenção atraida por desgarrada buzinadela, pousou o olhar naquela vidraça. À Louer- For rent. Era uma espelunca sórdida de  fast-food, ali na esquina da St-Laurent com a Rachel, que exalava, pela bocarra da porta, aquele ranço repugnante dos hot-dogs e hamburguers de miserável qualidade.

Galgou a rua e pôs-se a rondar, disfarçadamente, a sordidez do lugar frequentado por três ou quatro fregueses de má pinta. Do lado de lá do balcão, o patrão, um sul-americano atarrecado, de olhos turvos e melena negra,  lavava, sem pressas, a loiça suja, um cigarro esquecido nos lábios roxos.

O Algarvio sentiu a cabeça a trabalhar a todo o vapor. Pelo andamento do barco, o sul-americano não deveria pedir uma fortuna pelo trespasse e com  um balcão novo e umas demãos de tinta tudo mudava logo de cara, ele próprio, se arregaçasse as mangas, transformaria aquilo de alto a baixo, enquanto o diabo esfrega um olho.

Rabiscou o número do telefone e, esquecido do bar, a caminho de casa, já via o sólido balcão de carvalho repleto de saborosos petiscos bem portugueses e um esplendoroso sol algarvio a iluminar os sorrisos da clientela saciada. O quadro era tão real, tão tangível que já nenhum obstáculo o poderia extirpar da sua alma de fura-vidas a renascer das cinzas. Ele não fosse mais o Pedro Algarvio se brevemente não pusesse  Montreal inteira a mastigar bifanas e pastéis de bacalhau no Petit Algarve,o restaurante mais badalado da cidade, ali mesmo no coração do bairro português.

 


PIRATAS

 

 

 

Há dias em que um homem não pode sair de casa, todos os demónios do universo prontos a  saltar-lhe ao pescoço. Assim o sentiu o Luís Negro, nesse sábado de manhã.

A neve caía do céu em catadupas, aquilo não era uma tempestade, era um imenso manto branco pesadamente pousado sobre o mundo. Mas isso ainda era o menos, neve estava ele habituado a apanhá-la pelas trombas todos os invernos, já não lhe metia medo, além disso, nos sábados de manhã, o tráfico era fracalhote, com cuidado, bons pneus e a ajuda de Deus haveria de chegar inteiro.

Praguejou como um possesso quando viu a intransponível  muralha de neve que lhe bloqueava o drive-way, mesmo em frente do abrigo do carro. Um bonito presente da máquina de limpar as estradas que desde a madrugada não o deixara mais pregar olho, para cá e para lá a guinchar e a  silvar  por toda a ferraria.

Agarrou-se à pá e, os músculos retesados pela raiva, em meia-hora desbloqueou a passagem. O corpo inundado de suor, sob o casaco da neve, finalmente sentou-se no carro e ligou a ignição. Nada. A bateria, meio-morta de frio, engasgava-se toda, sem coragem para pôr o motor em marcha. Uma, duas, três tentativas, a bateria cada vez mais fracalhota, pronta a dar a alma ao criador, um perigoso cheiro a gasolina já a chegar-lhe às narinas.

Turvado pela raiva crescente, lá se resignou a sair do carro. Abriu o tampão do depósito da gasolina e meteu-lhe goelas abaixo um boião de anti-congelante, não se fosse dar o azar da gasolina estar congelada. Levantou a capota do bicho, verificou os bornes da bateria e distribuiu umas esguichadelas de óleo por aqui e por ali  nos cabos eléctricos, para afugentar a humidade.

O frio a subir-lhe lentamente pelos dedos engadanhados, tornou a ligar a ignição. Nada. Merda. O tempo  a passar. Já estava disposto a verificar as velas, com certeza encharcadas, quando, numa última tentativa, o motor, meio engasgado, lá começou a tossicar. Ansioso, deu uma sapatada no acelerador e o ronco ganhou mais  alma, encorpou, finalmente a respiração quase normalizada, pulverizado o coágulo de gelo  que obstruia as artérias do bicho.

Mesmo assim, com a brincadeira ainda perdera quase uma hora, adivinhava já no cachaço o olhar lorpa e acusador do bossa, à chegada. Que se lixasse. Engatou a mudança e fez-se ao caminho.

Emparedado na solidão polar, quase sem ver um palmo à frente do nariz, ligou a companhia do rádio. Nem mesmo a propósito. O animador  falava, sarcástico, do problema das pescas na Terra-Nova. Do barco espanhol aprisionado pelas autoridades canadianas. Chamava, com letras redondas, sem papas na língua, piratas aos pescadores espanhóis e portugueses.

O cornudo! Logo o seu sangue solidário de pescador lhe ferveu nas veias. Chamar piratas a homens que comiam o pão que o diabo amassou, longe das famílias, entregues à fúria do mar e aos ventos glaciais. Apertou o volante como se fosse o pescoço daquele  maldito gralhador confortavelmente repimpado no seu estúdio onde não chegava a mais leve brisa. E já que não podia estrangulá-lo, cortou-lhe o pio bruscamente, concentrado na condução cada vez mais perigosa.

Já as nove horas iam longe quando chegou à peixaria e, evitando o olhar recriminatório do bossa, escapuliu-se para o seu canto. Mal lhe dando tempo para enfiar o avental, logo o Zé, com aquela sua cara redonda e avermelhada de amante da boa pinga, lhe veio cochichar a desgraça ao ouvido:

-Vai haver bronca, pá. Parece que o bossa quer reduzir o pessoal.

Era só o que lhe faltava. Agora com a casa para pagar, seria o bom e o bonito se o pusessem no olho da rua. Uma tremura incontrolável formou-se em qualquer parte das tripas, cresceu e trepou pelas paredes do estômago, abriu caminho peito acima e ferrou-se-lhe na garganta.

Foi quando a palmada nas costas o fez engasgar.

- Éh voleur de poissons.

Apertou com força a faca e voltou-se de olhos ensanguentados. Mas logo o riso franco  do Bala,  com aquela  magnífica  carreira de dentes brancos, entremeados de dois dentes de ouro, toda à mostra, os olhos enormes e negros de indiano brilhantes com a alegria da joke, lhe cortou o  veneno. Limpou demoradamente o facalhão ao avental e acabou por esboçar um sorriso.

- Não brinques com coisas sérias.

E ia falar-lhe das fainas do mar, das pescarias, das privações passadas, todo um mundo a marulhar-lhe no peito, quando a punhalada do olhar do encarregado o fez regressar às tarefas normais da peixaria, não fosse o gajo tomá-lo de ponta, principalmente agora com o cutelo dos despedimentos a pairar sobre as cabeças.

 


RECAIDA

 

 

 

A Adelaide tem razão quando afirma que o Zé está um homem diferente, para melhor é claro. E o Zé sabe reconhecer a verdade das palavras dela. Não é parvo nenhum  e desde há muito tempo que compreendia que o seu sonho da serralharia em Portugal era uma completa loucura.

Não precisava de ninguém para lhe explicar as coisas, mas não é fácil para um homem reconhecer o fracasso dos seus sonhos mesmo que a teimosia o faça cair no ridículo. Também tinha dois olhos na cara para descobrir os sorrisos dissimulados, as trocas de olhar meio trocistas, as conversas a meia-voz que morriam com a sua presença. E como isso o magoava.

Não é pois de estranhar que quando uma pessoa  se consegue libertar da camisa de sete-forças em que se enfiou a ela mesma,  reencontre uma alegria de viver há muito perdida. Mas que a convalescença é difícil lá isso é, cheia de recaídas e armadilhas. Parece que vai tudo num mar-de-rosas, quando de repente, pumba, a vida , ou lá o que é, espeta-nos uma rasteira e lá estamos outra vez de ventas no chão.

Como esta manhã de sábado. Manhã de tempestade. Uma tempestade a sério. A neve batida por fortes rajadas de vento que assobiava nos braços nus das árvores e ameaçava levar pelos ares o abrigo do carro. Todas as forças destruidoras à solta pelo mundo.

Forças que fizeram o Zé saltar da cama e correr o blind.

- A garota já está preparada para ir à escola?

A Adelaide estremunhada, ofuscada pelo jorro de luz baça, resingou.

- Ó homem! Com esta tempestade, hoje não deve haver escola. Quem é que se vai meter à estrada com um tempo destes? Deixa a criança dormir e vem-te deitar.

- Ela que se prepare que já estamos atrasados.

O Zé continuava com o nariz colado à vidraça, sorvendo do exterior a força das palavras.

A Adelaide sentiu a mostarda subir-lhe ao nariz, a voz alterada.

- Estás maluco ou quê? Queres ir esborrachar o carro aí nalgum canto? Mesmo que haja escola, não é por faltar um dia que o mundo vai acabar. Aponta-me uma boa razão para essa tua teimosia. Uma só e não abro mais a boca.

Razões tem o Zé de sobra. Só que não tem palavras para explicá-las.

- A garota que se prepare.

Foi quando o gongo do telefone veio salvar a situação. A voz que, gasta pela repetição da mensagem, anunciava o cancelamento das aulas da escola portuguesa, nessa manhã, nem se apercebeu de que acabava de salvar, por uma unha negra, a harmonia familiar do fim-de-semana naquela casa.

 


INAUGURAÇÃO

 

 

Durante semanas a fio, sem tréguas, o Pedro Algarvio labutou como um mouro, dia e noite, para restaurar aquele buraco. Dentes cerrados, num apelo a todas as suas forças a princípio meio enferrujadas  pelo ócio, carpinteirou, martelou, pintou, poliu,  aquele lugar sórdido a metamorfosear-se, num crescendo, a olhos vistos,  num recanto aberto, aprazível e acolhedor.

A Gisele passava às vezes para lhe transmitir a força dum encorajamento, dum conselho. Lá mais para o fim, quando tudo começava a ganhar jeito, surpreendia-o frequentemente  com o nariz enfiado na lista telefónica.

- Procuras alguma coisa? - ficava intrigada.

- É uma surpresa.

Foi assim, numa busca meticulosa, consultando pacientemente a lista, através de informações colhidas da boca de velhos conhecidos, por portas travessas, que os foi  localizando a todos. Seriam eles, numa resolução há muito tomada, os seus convidados de honra. A ponte de retorno ao mundo. O nó final nos fios da vida. 

            No dia da inauguração, ao vê-los reunidos, lá na mesa do fundo,  bando inveterado de gralhas, a emborcar copo atrás de copo, a reviver histórias antigas, como que vindos dum outro mundo, dum outro tempo,  o Pedro enxugou uma lágrima traiçoeira. Lá estava o Luís, com aquela juba negra já mais rala, entremeada de alguns fios brancos, mas sempre com aquele vozeirão de fala-barato; o Zé, mais reservado, continuava com aqueles olhos meio aturdidos de quem acaba de chegar ao mundo; o Manuel Transmontano, diabo do velho, parecia que os anos não lhe faziam mossa, com umas cores rosadas de meter inveja; O Açoriano, que fechara propositadamente o dépanneur para estar  presente,  empestava tudo com o seu eterno charuto espetado na boca. Só faltava ali o Jaime, esse lunático resmungão que, pelo que lhe falaram, nunca mais compreenderia, por mais que a vida lhe martelasse os miolos, que o mundo não é nenhum paraíso.

            Ao ver-se surpreendido pelos olhos azuis da Gisele que o observava enternecida, num rompante, para encobrir a fraqueza dos sentimentos assanhados, ergueu alto o copo.

- Ao nosso Jaime.

E, num tilintar de copos, com o pano de fundo dum fado, os cheiros bons dos petiscos no nariz, num instante-eternidade, tiveram a ilusão que o emigrante era o Jaime, lá longe em Portugal.

 


CERCO

 

 

 

O murro na mesa cortou cerce a lengalenga da mulher.

            ‑ Chega! Já disse, mais de mil vezes, não! És surda ou fazes‑te?

             ‑ Mas, ó Manel...

             ‑ Porra, que mal fiz eu a Deus para ter este castigo?

            Era assim, invariavelmente, todas as noites, depois das férias. Engolida a última colherada do jantar, logo a mulher se lhe agarrava às orelhas, como uma carraça:

Sabes, Manuel, as terras, lá em Cicouro, não enchem a barriga a ninguém. A maior parte delas estão abandonadas, cheias de cardos, ninguém as quer tratar. O maior sonho da nossa filha é comprar um bungalow onde possa criar o nosso netinho com largueza e tranquilidade. Seria tão bonito se lhes dessemos uma ajuda. Agora é que agradecem, enquanto são novos, não é, sei lá daqui a quantos anos, quando já tiverem a vida organizada e não precisarem do nosso dinheiro para nada. E a nós, mais terra menos terra não nos aquece nem nos arrefece, não ficamos nem mais ricos nem mais pobres, nem verás a diferença.

Nessa noite, o cerco cada vez mais apertado, a conversa melosa dela estava insuportável, entrava‑lhe pelos buracos todos do corpo, a rasgar por ali adentro, nem calculava ela o mal que lhe fazia, se lhe arrancasse o coração talvez lhe doesse menos.

-         Não! ‑ berrou.

            Cego, aos sacões, enfiou o casaco e as botas e saiu para a rua, com um bater estrondoso da porta.

*

Era Janeiro e logo o frio lhe arreganhou as dentuças aguçadas. O que lhe valeu foi que o Petit Algarve ficava ali a dois passos e que o Algarvio, quando lhe viu as estalactites de gelo suspensas do bigode, lhe pôs logo  à frente uma chávena de café a escaldar.

            Reconfortado, agarrou‑se, com unhas e dentes, à sua ninhada de razões:

            "E aquela! Vender as terras que lhe tinham custado tanto sangue a ganhar! Só se estivesse virado do miolo. Quando o cunhado lhe escrevia: está à venda o lameiro de urrieta cuba, a cortinha da raia, a horta da eira...a sua resposta era fulminante, em letras rasgadas com fúria no papel: compra...compra...compra.

            ‑ Estás melhor?‑  perguntou‑lhe o Algarvio.

             A pachorrice dos olhos bovinos do amigo, encorajou‑o a vazar a alma.

             O Algarvio, cotovelos apoiados no balcão, ouviu‑o sem pestanejar.

             - O que dizes a isto?

            ‑ A tua mulher tem toda a razão.‑ E sem lhe dar tempo para reagir, voltou‑lhe as costas para atender um cliente.

            O Manuel Transmontano sentiu ganas de lhe atirar com a chávena à cabeça.

             "Tudo uma corja"

            Saiu sem se despedir. Mas logo o frio, que o espreitava à porta, lhe tornou a enterrar as dentuças no pescoço. Inferno por inferno, o melhor era regressar a casa, ainda era homem capaz de tapar a boca à  mulher com um bom berro.

*

Ficou agradecido a Deus quando, ao dobrar a esquina, viu as luzes da casa apagadas. No escuro, com passos de ladrão, despiu‑se e deitou‑se às apalpadelas, mas bem sentia o arfar da mulher, de olhos arregalados, quieta como uma estátua, a fingir que dormia, como se o conseguisse enganar depois de tantos anos de casados.

             Deitou‑se de costas e ficaram assim, lado a lado, sem se tocarem, pela noite adentro, até que, por fim, ele pigarreou para aclarar a voz:

- Vou escrever ao meu cunhado para pôr dois ou três lameiros à venda. ‑ Com uma reviravolta, voltou‑se para a parede. ‑ E agora, deixa‑me dormir que amanhã é dia de trabalho.

 


ANDORINHAS NO BEIRAL

 

 

 

Aquela ameaça dos despedimentos estava a dar com ele em doido. Bem que tentava esquecer, atirar tudo para trás das costas, como se não fosse nada com ele, mas, por mais voltas que desse, não havia artimanhas que o livrassem daquele pesadelo.

Um fala-barato como ele era habitualmente, catrapus, quando menos se precavia, lá caía, outra vez, cabeça abaixo, naquele poço negro dos pensamentos sem fundo que logo punham a Teresa cheia de comichões.

- O que tens, homem? Tu andas a esconder-me alguma. Desabafa comigo.

Desabafar, o caraças! Não serviria para nada afligir a família. Já que alguém tinha que alombar com aquela cruz que fosse ele, tinha bons costados, graças a Deus. Mas que custava, lá isso custava,  de dia para dia  mais nervoso, cheio de tiques. Nos últimos tempos, dera-lhe para começar a arrancar os pêlos do nariz que nem um maluco, a Teresa e o rapaz fartavam-se de ralhar com ele, mas não havia emenda, mal se descuidava lá estava ele outra vez a escarafunchar, o nariz já meio abatatado da colheita sem parança.

Mas lá diz o ditado, uma desgraça nunca vem só. Com os degelos da primavera, começou-lhe a chover em casa, o telhado mais esburacado do que um crivo. Não havia outro remédio senão agarrar nuns milhares de dólares e mandar instalar um telhado novo  que o actual já tinha os dias contados, derreado por tantos anos de neve em cima.

E, como sempre, foi uma santa guerra naquela casa. A Teresa, a ver o dinheiro escorrer por entre os dedos desde que compraram o bungalow, apavorada por tanta despesa inesperada, queria um telhado normal de bardeaux de asfalto, o mais barato possível, que os tempos não estavam propícios para esbanjamentos. O Mário, esse apontava o exemplo do vizinho Ahmed que instalara um vistoso telhado vermelho, de estilo europeu.

E o Luís, mais uma vez com aquele sorriso das grandes decisões nos lábios, sentenciou:

- Já que assim é, se queres um telhado vermelho, vai ser coisa de jeito, de telha a valer.

- Mas isso vai custar uma fortuna - afligiu-se a Teresa. - Além disso, ouvi dizer que, com este clima, as telhas racham todas.

- Parvoíces.

E para não ouvir as resmunguices da família, o Luís foi-se sentar ao sol da varanda, o Mar, agora já um cãozarrão de olhos doces, deitado aos pés. Espevitadas pelo ameaço de calor, a relva arrebitava a olhos vistos, as hastes dos lilases já estremeciam cheias de borbotos, as tulipas rompiam com bravura a terra ainda gelada. Mas duas semanas quanto muito e seria uma explosão de vida por aquele quintal fora. Com a mornidão a amolecer-lhe o corpo, levantou os olhos para o telhado e já podia imaginar um beiral tipicamante português onde, com um pouco de sorte, talvez este ano as andorinhas fossem pendurar os cachos dos ninhos.

 


ADEUS FLÓRIDA

 

 

 

Sexta-feira à tarde. Na viagem de  regresso a casa, vencida mais uma semana de trabalho, a Adelaide deita contas à vida, a cabeça já posta nas tarefas domésticas que a esperam no fim- de-semana. A casa para limpar, o monte de roupa para lavar e engomar, o tempo já a fugir-lhe por entre os dedos, ladrão impiedoso dos momentos de descanso de que anda tão precisada.

Se já antes andava com as forças de rasto, a mudança de casa acabara de prostrá-la de vez. Não fora brincadeira nenhuma empacotar toda a tralha e tornar a esvaziar tudo outra vez na nova casa, uma pessoa pensa que não tem nada em casa mas só quando se mete num bico de obra desses é que se apercebe da quantidade de tarecos que saiem de todos os buracos.

Mas quem corre por gosto não cansa, a vida começava a entrar nos eixos e com umas boas férias ficaria outra vez como nova. O Zé, desde que se decidira a comprar a casa e a esquecer aquela maluqueira, sem ponta por onde se lhe pegar, de comprar a serralharia em Portugal, estava diferente, rejuvenescido, sem aquelas rugas na testa, já se lhe ouviam outra vez aquelas gargalhadas boas dos tempos antigos.

Quanto a ela, no escritório, mesmo com essa obsessão moderna dos patrões de quererem tudo racionalizar e rentabilizar, a cortar no pessoal a torto e a direito, até à data não se podia queixar. Tinham-na mandado fazer um curso de informática e cada dia que passava lhe delegavam mais responsabilidades, indícios de que era apreciada e que a serenavam quanto ao futuro. E para segurar o lugar, não precisava, como aquela descarada da Julie, de andar sempre a fazer olhinhos aos patrões, pronta a deitar-se-lhes na cama ao mínimo sinal.

Aquela sabia vivê-la à grande e à francesa. Ainda esta semana chegara da Florida, bronzeada até à ponta das unhas, com a boca húmida e sensual atafulhada das maravilhas que vira, daquelas praias sem fim, orladas de palmeiras, de águas de turquesa e areias brancas. À força de lhe escutar o palavreado frívolo e inesgotável, a inveja ou lá o que era, começara a roê-la por dentro. Se aquela pelintra da Julie, sempre rafada, o ordenado logo derretido em roupas e cosméticos, sempre atrás de quem lhe pagasse os jantares dos fins-de-semana a troco dos seus maduros favores amorosos, podia ir estender o canastro já quarentão ao sol da Florida, também ela, que nos últimos anos se fartara de trabalhar como uma negra, não merecia esse prémio, pelo menos uma vez na vida?

Desceu do autocarro com a determinação ferrada na cabeça mas mal dobrou a esquina da rua e deu com aquele mamarracho da antena parabólica, de bocarra arreganhada para os espaços siderais, escarranchada sobre o telhado da casa, sentiu a fúria remexer-lhe as tripas. Abriu a porta  num rompante e logo da cave a esbofeteou, em altos berros, a  melodiosa  língua portuguesa.

O Zé, em transe, abria os braços para a miragem da televisão:

- Já viste que bela imagem? Agora já podemos ver as emissões portuguesas vinte e quatro horas por dia. Não é fantástico? Reconhece que não contavas com esta surpresa. Não eras tu que dizias que o dinheiro no banco não serve para nada?

Nada a fazer frente àqueles olhos vidrados, febris, tocados por forças ocultas. Amparada à umbreira da porta, ficou a abanar a cabeça, sem pinga de forças, as paisagens tropicais da Flórida refugiadas lá para o sotão dos projectos remetidos para melhor oportunidade.

 


CARTA DE PORTUGAL

 

 

 

Boa amiga Teresa

 

Finalmente, lá consegui sacudir a preguiça e sentar-me um pedaço para te escrever.

É domingo  e estou sozinha em casa. O Jaime saiu para tomar café e os rapazes não param em casa, passam a vida por  aí, na rua, com a cabeça no ar atrás do cheiro das raparigas.

Recordas-te do tempo, nas vésperas do nosso regresso a Portugal, em que a nossa maior preocupação eram os filhos, receosos que não aceitassem bem a mudança? Afinal, os rapazes estão que nem peixe na água, quem não há meio de se adaptar a isto somos nós, os velhos. Tenho cá uma desconfiança de que os pais passam a vida a desculpar-se com os filhos para esconder as suas próprias fraquezas e medos.

Se os rapazes não querem saber do Canadá para nada, já comigo e com o Jaime o caso  muda de figura. Estamos sempre a fazer comparações, no Canadá era assim, no Canadá era assado, é uma palavra que, por mais que a gente a cuspa, nunca nos sai da boca, agarrada aos dentes como uma pastilha elástica, até parece bruxedo.

No domingo de Páscoa, o rádio acordou-nos com a notícia espantosa de que tinha nevado na serra da Estrela. Eu e o Jaime ficámos a olhar um para o outro, sorridentes como duas crianças, como se o locutor tivesse anunciado a coisa mais importante do mundo. E se fôssemos até lá ver? perguntou  o Jaime, com os olhos a brilhar.

Metêmo-nos no carro e fomos por ali acima, estonteados como duas andorinhas. Mal avistámos a primeira neve, descemos do carro e, sem nos importar com a figura que fazíamos, ficámos a atirar bolas de neve um ao outro, a rir como uns perdidos. És capaz de imaginar o sisudo do meu Jaime, aí no Canadá sempre a resmungar contra a neve e o frio, ali, no alto da serra, a rebolar-se e aos pinotes como um potro? Vê lá tu como uma pessoa muda.

Por agora, aquele passeio louco à serra  lá afogou as saudades mas se isto nos tornar a dar, eu já disse ao Jaime que o melhor é a gente meter-se num avião para vos tornar a ver a todos e tirar de vez estes macaquinhos da cabeça. Olha, se um belo dia ouvires tocar a campainha da porta, não fiques surpreendida, pode muito bem acontecer que sejam estes vossos amigos que nunca vos esquecem.

Isto agora também já está cheio de pizzarias, de artigos chineses, de cartões de crédito e de seitas religiosas, a tal ponto que o Jaime, quando lhe dá para resmungar, diz que fugiu do Canadá por causa dessas pragas e que veio esbarrar num país parecido ou ainda pior. Tu sabes como ele é, quando se põe com aqueles disparates, não há ninguém que o consiga calar.

 

Muitos beijos da tua amiga  

          

Maria Cândida

 


PIZZARIA

 

O Pedro Algavio não se pode queixar. O Petit Algarve faz bom negócio, a clientela é certa, gente de todos os cantos do mundo, sem biqueirices, rendida aos encantos da  fast-food.

Evidentemente que depressa o Pedro Algarvio perdeu as ilusões e se apercebeu de que não se poderia dar ao luxo de só servir cozinha portuguesa e que teria de se diversificar rapidamente se não queria ver a vida ir por água abaixo. Mesmo se ainda agora, mais por teimosia do que por outra coisa, a ementa diária ainda anuncia as saborosas bifanas portuguesas, o grosso do negócio gira à volta dos hot-dogs, dos amburguers, das pizzas e, cada vez mais, dos souvlakis. Até a música ambiente, que no princípio era do mais genuinamente português que se podia arranjar,  só de fado para cima, agora é uma salganhada  maior do que a própria ementa.

Por vezes, com os amigos, no desabafo exaltado dos copos, o Pedro ainda mostra uns arremedos de integridade, promete que ainda há-de dar uma volta completa à situação, afiança que ainda não perdeu a esperança de impor a saborosa cozinha portuguesa ao paladar da ímpia Montreal, mas já ninguém o acredita.

- Cala-te lá com essas lérias - interrompe-o o Negro. -  O dinheiro não tem raça quando te cai no bolso.

- Vocês ainda hão-de ver. A cozinha portuguesa é uma das melhores do mundo, só estes parvos é que não conseguem ver isso. Mas olhem que eu sou teimoso.

Enquanto não consegue levar o seu sonho avante, o Algarvio lá continua a servir, feliz da vida, os seus souvlakis que nisto de cozinha os gregos passam a palheta a todo o mundo, até mesmo aos italianos, têm a cidade rendida aos pés.

Há dias, foi o golpe de misericórdia. Um cliente grego ou lá o que raio era,  já meio com os copos, pôs-se-lhe para ali a falar numa língua do mais áspera do que um cardo, uma interminável conversa de bebedolas, sabia lá o que o gajo estava a vomitar da bocarra,  e ele, que a princípio teve vontade de pôr logo os pontos nos is e de lhe atirar à cara o seu nacionalismo português, deixou-se enredar e, às tantas, deu consigo a acenar a cabeça e a sorrir, como se tivesse a compreender tudo, incapaz de pôr um travão naquela confusão de malucos.

Só pedia a Deus que os amigos nunca soubessem daquela história do diabo. Nunca mais o deixariam em paz e seriam bem capazes, só para o arreliar, de lhe trocar a doce alcunha de Algarvio  pelo ignominioso epíteto de Grego. 

 


REGRESSO

 

 

 

O Manuel Transmontano acordou com o berreiro desenfreado dos galos.

            Na cozinha, foi encontrar a irmã a tratar da lavadura dos porcos. Já o lume, num estralejar festivo, devorava um braçado de urzes.

            ‑ Está frio.‑ Sentou‑se no escano e avançou as mãos para o lume. ‑ Já parece o Canadá.

             ‑ Diz quem sabe que este ano vai nevar muito ‑ respondeu a irmã. ‑ Deixa‑te ficar aí que eu vou levar a bianda aos cochinos. O café já está quase quente.

             O Manuel apoiou as omoplatas na dureza do espaldar do escano.  Embrulhado num manto de mil evocações com o freio nos dentes: aquele lume estralejante a saltar‑lhe às mãos como um cachorro; o eterno caldeiro cachoante de água fumegante; os potes de ferro resquentando a sopa; aquele fumo acre que se acumulava em nuvens densas e azuladas, matizadas pela luz do dia nascente, lá junto às vigas escurecidas do telhado donde pendia a armação do fumeiro, as varas ansiosas pela próxima matança; aquele mocho de castanho polido onde uma fogaça e uma caneca esmaltada esperavam o café.

‑Estavas a dormitar? ‑ Era outra vez a irmã. ‑ Nem quero acreditar que desta vez vens para ficar. ‑ O rosto curtido, enrolado no lenço negro, ensopou‑se de lágrimas velhas. ‑ E assim se nos foi a vida, Manuel, estamos acabados.

‑ Qual acabados, qual quê! Se tu visses aqueles canadianos! Quando se reformam é para viver, não  é para se sentarem à espera da morte. Então as mulheres, se as visses, velhotas de setenta anos e mais, parecem umas raparigas novas, bem trajadas, nada destes lutos de cá, cores claras, ricos penteados.

‑ Isso não é para estas terras. ‑ O café escorria, num murmúrio bom, para a caneca.‑ Não sei se a tua mulher, a Alzira, se vai dar por cá. Isto é um cemitério de velhos.

            A mulher atirou um capão ao lume que, quando se viu com forças, atirou os braços rubros ao redor do caldeiro.

Ela aceita de boa cara o regresso? Nas últimas férias, não me quis parecer.

‑ Que remédio tem ela.

Regresso! Palavra de mil alquimias. Nos primeiros tempos do Canadá fora abençoado remédio contra os males da saudade e do desenraizamento. Depois, à medida que novas raízes começaram a rasgar húmus imprevistos, transformara‑se, sem se darem conta disso, num processo lento, num espinho cravado nas carnes, num agente perturbador da paz de espírito.

Para não lhe perder o sentido, o Manuel, de tempos a tempos, evocava‑a: quando me reformar, regressamos a Portugal.

             E semanas atrás, ao serão, num assomo de coragem, reunira as forças dispersas que lhe restavam, para falar:

            "Dentro de seis meses, atinjo a reforma. Deveríamos ir a Portugal, preparar o regresso.

A lavar a loiça, de costas, o fio de voz da mulher era quase inaudível:

" Vai tu, sozinho. Agora, não posso deixar o nosso neto. Além disso, não precisas de mim para tratar do que há a tratar."

‑ A Alzira não se vai dar por cá. Cicouro já não é terra para ela. ‑ tornou a irmã. ‑ Vê lá se ela quis vir contigo!

  Cala‑te, dianho de mulher.‑ exasperou‑se. ‑ Não veio porque não tinha com quem deixar o nosso netinho. Mas que raio de conversa esta!

‑ Mesmo tu estás diferente. Já não és homem para te enfiar neste buraco. ‑ teimou ela.

‑ Vai lá tratar dos porcos, anda! Estás a ficar velha, é o que é. De muita paciência precisa o teu marido, para te aturar.

Meio apoquentado pelas palavras da irmã, nessa manhã, quando se sentou à mesa da cozinha para escrever à mulher, o Manuel Transmontano falou‑lhe da casa que os esperava de braços abertos, da fidelidade do cunhado que tratara das terras com tanto zelo como se fossem dele, dos vivos e dos mortos,  e, lá para a segunda página, num arroubo de coragem: "em todo o caso, ainda me sinto novo para trabalhar mais um ou dois anos, não é preciso apressar o regresso, não está nenhuma mulher para parir." Ficava assim aberta a porta para futuras negociações, no regresso a Montreal.

Depois, de coração liberto, saiu de casa e foi, rua abaixo, a falar a este e àquele, tão naturalmente como se nunca tivesse saido da terra.

 


STAR

 

 

 

- O teu filho é um predestinado. Seria um crime desperdiçar um talento destes.

Quem assim lhe fala, sem papas na língua, com a experiência de quem já peneirou muita ganga e se ufana de ter descoberto duas ou três boas pepitas que brilham ao sol das multidões por  esses ringues fora, é o Serge, o coach da equipa de hóquei dos pee-wees de Laval. Apanhado desprevenido, a  princípio custou-lhe a compreender, mas não havia dúvidas, era bem do seu rapaz que  se tratava.

Foi como se tivesse apanhado uma bordoada na cabeça. Gago, incapaz de falar, o francês ainda  mais embrulhado do que o costume, mal  conseguia sorrir, com um ar meio parvo que o enraivecia, o que o homem iria pensar dele.

Depois, foi uma subversão dos sentidos.  A bolsa sempre aberta para comprar os melhores equipamentos, trata o filho como um rei, não quero que um dia te queixes de mim , diz-lhe. Negligênciadas as tarefas do quintal, não perde um  treino ou um  jogo em que o miúdo participa , já é uma presença notada, apontada a dedo, o mais fiel dos adeptos. Grita, gesticula, espuma, disposto a saltar para o ringue e estripar os adversários, capaz de  arrancar o coração aos árbitros com as próprias mãos.

- Viraste do miolo - refila a Teresa, alarmada com a extensão do desastre.

Mas tal pai, tal filho. Naquelas duas cabeças não paira a mais pequena sombra de dúvida quanto à carreira gloriosa que espreita o Mário. O Canadien, a Liga,esperam de braços abertos que este prodígio cresça e ganhe mais corpo, com um pouco de sorte está ali prestes a sair da forja outro Gratsby, outro Lemieux.

Nas noites de hóquei, um alguidar de pipocas  à frente, a televisão de goelas abertas, são  uma só alma que morre e revive pelo Canadien, uma só boca que chora, ri, pragueja, implora, em uníssomo, enquanto engolem  mãos-cheias de pipocas.

Esta noite defrontam-se o Canadien e os Panthers de Miami. A assistência ulula. Os golos sucedem-se. Há bordoada de criar bicho. Os coachs andam para trás e para diante,  como cães raivosos. Há cânticos de morte no ar.

Lá para o meio da partida, num desvario, afinal quem ali vai, como um raio, sobre o gelo, já não é o Brisebois, é o Mário Negro esse fabuloso jogador português que acaba de assinar um chorudo contrato de milhões com o Canadien de Montreal. Rápido como um relâmpago, nada  nem ninguém o detém, prestes a finalisar mais uma jogada de enciclopédia e a levantar em peso a assistência enlouquecida.

E, como sempre, é a Teresa que precisa de deixar as lides domésticas para descer à cave e pôr um pouco de ordem naquelas cabeças.

- Mário, já fizeste os deveres da escola? - E para o Luís: - Ainda és pior do que a criança.

Atiram-lhe olhares assassinos. Mas lá se resignam e acabam por reconhecer que ela tem mais uma vez razão e que afinal quem ali vai, num turbilhão de fogo, ainda não é o Mário Negro mas sim o Brisebois que acaba de marcar mais um golo para o Canadien.

 


ASSALTO

 

 

Sábado à tarde. O Açoriano acabou de arrumar umas garrafas de vinho na prateleira e sentou-se atrás do balcão, o charuto apagado na boca. Indício claro de que as coisas corriam mal. Como gracejaria  o Luís Negro, quando a chaminé não vomita fumo, é sinal de que a fábrica não está a trabalhar em condições.

Que as coisas andavam meio descarriladas era verdade que se metia pelos olhos adentro do mais cego. Até a mulher farejava a moléstia.

- Sentes alguma coisa? Vai ver um médico.

-Cala-te, corisco. Querem lá ver o agoiro!

Cada vez lhe custava mais descer as escadas e abrir as portas do dépanneur. Para quê? Com todos esses grandes magasins que para aí havia, a antiga clientela tinha levado sumiço, havia dias em que pouco mais vendia do que uma ou duas grades de cerveja a um ou outro bebedolas desprevenido, o tédio a derramar-se como uma maré negra pela loja.  Em vez de estar para ali a pastorear as moscas, mais valia fechar as portas e subir até ao Petit Algarve, lá  na St. Laurent, para desenferrujar a língua com o Algarvio, até podia muito bem  acontecer que a outra rapaziada por lá aparecesse.

Emaranhado nestas cogitações, mal prestou atenção ao rapazola frangalhote, com uma barbicha rala de adoentado que franqueou a porta e se deteve  face à prateleira dos vinhos. Só quando sentiu a lâmina da faca a picar-lhe a pele do pescoço, o bafo ardente do rapazote na cara, é que se apercebeu da cilada em que caira.

Petrificado, branco como a cal da parede, os dedos engadanhados incapazes de empunhar o pau de basebol que, sob o balcão,  lhe aflorava os joelhos trementes, o charuto caiu-lhe da boca e rolou envergonhado pelo soalho adiante. Depois, tudo se desenrolou num ápice. A mão enluvada  apossou-se, destra, da magra receita da caixa. Logo, irreal, tal como entrara, o garoto volatizou-se, num passe mágico. Sem palavras. Ficou o arquejar do Açoriano a bolir na paz da tarde.

Quando a polícia chegou, a sirene do carro num estardalhaço, o Açoriano recebeu-os com uma alvoroçada descrição do perfil do assaltante.

-Era um calmeirão com quase dois metros, forte como um touro. E apontou-me logo o pistolão ao peito,  sem me dar tempo para me defender.

E enquanto o polícia rabiscava, entediado, as notas da praxe, o Açoriano, de gatas, lá acabou por descobrir o charuto debaixo duma prateleira. Acendeu-o e soprou uma fumaça apaziguante.

- O cabrão que não tenha a infelicidade de alguma vez me aparecer à frente. Então é que ele ficaria a saber o que é um português com eles no sítio. - E o pau de basebol descreveu um círculo ameaçador sobre as cabeças.

 


PESADELO

 

 

 

 

Domingo à tarde. Dia lindo. A passarada canta por todo o lado. O parque entoa um apaixonado hino à  vida.

O Manuel Transmontano, esquecida a ferrugem das articulações, não se farta de brincar com o neto, enebriados como dois cabritos descuidados.

De súbito, o neto estaca, de olhos abertos para o pássaro que, empoleirado no ramo dum arbusto, debica uma maçaroca dum vermelho vivo. É um pássaro dum negro metálico com listras carmesins nas asas.

‑ Como se chama este pássaro ?‑ perguntou o petiz, erguendo os olhos confiantes  para o avó.

Ficou embatucado. Inesperadamente, um calafrio percorreu‑lhe a espinha. Àquelas árvores, àquelas aves, àquelas flores, nem lhes suspeita o nome.

Sentiu‑se um entruso, em terra alheia. E teve a terrível sensação que a natureza, em coro, o repudiava. Subitamente, havia uma hostilidade palpável, materializada no ar.

Nessa noite, teve o primeiro pesadelo. Viu‑se morto. Sulcos de lágrimas de dor rasgavam os rostos desfeitos da família. O caixão descia lentamente à sepultura com um ranger áspero de cordas. Vermes asquerosos como cobras revolviam a terra soltando silvos horripilantes. E o seu cadáver nauseabundo, num terrível anátema,  iria ficar para sempre na cova gelada, intacto, rejeitado pelos vermes, num mar de repulsa e ódio, rodeado por animalejos monstruosos que arreganhavam os dentes ferozmente e que lhe rosnavam: o que fazes aqui? Esta terra não é  tua, vai‑te embora.

            O pesadelo repetia‑se, inexoravelmente, noite após noite. Acordava, alta madrugada, alagado em suores frios, olhos escancarados no escuro, o fôlego ardente.

Passadas semanas de noites brancas e pupilas queimadas pela insónia, a família, alheia ao drama que o devorava,  reunida num almoço, o Manuel Transmontano, num repente, aproveitou uma brecha no tagarelar para falar:    ‑ Vocês sabem como eu tenho renunciado a muitos dos meus sonhos, por causa do bem estar da família. Vejam que já nem falo em regressar a Portugal, o que era o maior sonho da minha vida. Mas não me queixo, não tenho sido dos mais castigados.  A vida é  o que é, nem tudo corre como nós queremos. ‑ Pigarreou para dar solenidade às palavras ‑ Agora chegou a minha vez de vos pedir um favor. Olhem que estou a falar muito a sério. Quando eu morrer, quero ser enterrado em Portugal. Em Cicouro.

            A mulher ia soltar uma gargalhada mas foi detida pelo brilho resoluto dos olhos garços da filha.

        ‑ Pode estar tranquilo, pai. Está  prometido. Não se fala mais nisso.

            E continuaram o tagarelar interrompido.

            A partir desse dia, o pesadelo refugiado lá para os arcanos da memória, deixou de atormentar as noites do Manuel Transmontano que rapidamente recuperou a sua bela cor rosada e o gosto pela vida.

- Quanto mais velho está, melhor dorme, este dianho - inveja‑o a mulher que começa, por sua vez, a padecer dos sonos leves da velhice.


FECHO DO LIVRO SEGUNDO

 

 

 

Coisa estranha a vida dos emigrantes, sempre às reviravoltas.

Quem diria que o Jaime, regressado a Portugal, ainda haveria de sentir saudades do Canadá? E que o Manuel Transmontano acabaria por esquecer, de vez, a ideia de regressar  a Portugal?

Para já não falar do Pedro Algarvio que começa a ser um caso sério de homem de negócios bem sucedido. Já abriu outro restaurante na Rue Duluth e a vida corre-lhe de vento em popa.

O Luís Negro, esse continua o homem simples de sempre. Afastada, por agora, a ameaça do desemprego, reencontrou  a alegria de viver e as suas gargalhadas sãs tornam a fazer a felicidade da Teresa que já andava preocupada com o seu homem.

O que dizer do Zé Biana? Para falar francamente, é o caso mais imprevisível de todos. Muito enganada anda a Adelaide se pensa que o marido já assentou os pés em terra firme. Daquele lado ainda tudo se pode esperar.

O Açoriano, certo dia fez as contas à vida e acabou por trespassar  a loja. Quando vai beber um copo ao restaurante do Algarvio, fala, por vezes, em retirar-se tranquilamente  para sol  da Flórida, onde tem um irmão.

 Resumindo, a vida continua.