
Imigrantes, do Ukelele a Nelly Furtado
Sexta-feira, 4 de Maio de 2001
Os portugueses que ganham a vida fora de portas fazem valer os seus créditos na pop, mostrando que se integraram, ou continuando a cantar o seu fado em tons nacionais. Mas... e se o maior representante desta diáspora não fosse Nelly Furtado, nem Emy Correia nem Mãozinha, mas o ukelele?. Miguel Francisco Cadete
De outra maneira não podia ser: a diáspora portuguesa começa agora, nos primórdios deste séc. XXI, a tornar visíveis os seus frutos. Sobretudo devido aos fluxos migratórios que aconteceram no século passado (mas também nos anteriores), os portugueses espalharam-se pelo mundo e passaram a fazer valer os seus créditos no universo da pop. Nem que seja em formato segunda geração. Nelly Furtado e Emy Correia serão os últimos casos visíveis deste fenómeno, mas não os únicos de uma história que já vai longa.
Não vale a pena retomar o exemplo dos exilados políticos como Sérgio Godinho, José Mário Branco ou José Afonso que nos idos de 70, essencialmente por razões políticas, viram-se obrigados a abandonar o país e a levar as suas carreiras por diante em França ou noutras paragens. As estrelas com ascendência portuguesa que hoje emergem no firmamento pop não fincam o pé no militantismo político, nem sequer procuram inscrever a sua música numa tradição de contornos portugueses guiada pelo lema "a cantiga é uma arma". Se falamos de Nelly Furtado, Emy Correia ou Liliana Ferreira - a mentora do projecto Mãozinha que acaba de ver publicado o seu segundo álbum, "Aeroesferas" - falamos de filhos de emigrantes portugueses obrigados a ganhar a vida fora de portas, não obrigatoriamente empenhados em causas políticas que visem a redenção da pátria. O facto de serem filhos de portugueses que se integraram na organização social dos países que receberam os pais indicia, aliás, um distanciamento relativamente a Portugal que é notório na música que praticam: quase sempre trajada de sonoridades pop de contornos anglo-saxónicos e, na maior parte dos casos, deixando até cair a língua portuguesa como meio preferencial de comunicação.
Cantando o (seu) destino. Apesar de serem estes os casos que fazem a actualidade, outros há que sublinham esta teoria, porventura mais esquecidos mas não menos visíveis no admirável mundo velho da música popular. Franz da Conceição Treichler, o quase mítico vocalista do grupo suíço Young Gods, descende de uma portuguesa, sua avó, o que muito provavelmente explicará em parte o êxito que aquele trio de música industrial-ambiental-electrónica tem vindo a recolher por estas paragens. Outro caso também já recenseado é o de Jay Kay, o líder e mentor do projecto Jamiroquai, que apesar de nunca ter conhecido o pai, assumiu a sua descendência portuguesa em várias entrevistas aos órgãos de comunicação social britânicos. Curiosamente, e apesar de nunca ter actuado por cá, Jamiroquai goza de uma popularidade assinalável em Portugal, também ela justificável por razões de ADN (ou outras). Em França, destino privilegiado da emigração portuguesa nos anos 70, também há a assinalar a presença de um descendente de portugueses no controverso grupo de hip-hop NTM (acrónimo de Nic Ta Mére).
Nos meandros da música de dança, mais propriamente do techno, o português Cisco Ferrereira também se tem afirmado através do projecto The Advent, em proporções no entanto incomparáveis com aquelas do êxito conseguido por Rui Silva, a metade dos Underground Sound of Lisbon, que, depois de ter emigrado para Londres, chegou ao primeiro lugar da tabela de vendas com o single "Touch Me".
A história dos emigrados portugueses em Londres, como é sabido um dos maiores centros da indústria discográfica a nível mundial, tem aliás antecedentes nas últimas décadas. Luís Jardim, músico e produtor, firmou-se desde então como um dos mais cotados na sua arte, tendo trabalhado em estúdio com nomes tão sonantes como Björk, Frankie Goes to Hollywood ou Rolling Stones; enquanto Ana da Silva se distinguiu no final dos anos 70 e início da década de 80 com uma das propulsoras do grupo feminino Raincoats. As Raincoats eram um dos grupos que Kurt Cobain, um especialista nos movimentos punk e pós-punk britânicos, mais admirava, tendo o seu passamento feito ressurgir o grupo das cinzas, levando à reedição da sua obra discográfica e ao agendamento de uma nova digressão que chegou a passar por Portugal há uns poucos anos atrás.
Nos EUA, Nuno Bettencourt gozou da mais alta popularidade enquanto fez parte dos Extreme, nomeadamente por via da canção "More than words". Aquele descendente de açorianos, que há meia dúzia de anos fez questão de celebrar a sua boda matrimonial em Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel, encetou, entretanto, uma carreira a solo que não surtiu os melhores efeitos. Curiosamente, Nuno Bettencourt foi um dos convidados do último álbum de Lúcia Moniz e, por via indirecta, responsável pela recente emigração desta cantora portuguesa, também ela com descendência açoriana, para a América.
Se grande parte da luso-descendência se distingue por assimilar os valores e circunstâncias do meio para onde emigraram os pais, assumindo um protagonismo musical baseado em géneros ou tipologias marcadamente estrangeiras, também é certo que o inverso não deixa de ser verdade. Com alguma exposição, sobretudo em Portugal, avultam os casos dos seguidores do fado, ainda hoje o único género musical português reconhecido no exterior, que apesar de emigrados continuam a cantar o seu destino em tons nacionais. Lula Pena, sediada em Bruxelas e à beira de editar um novo álbum, Bévinda, em Paris, e Cristina Branco em Amesterdão, apesar do desterro continuam a assumir o fado como motivo das suas canções, ainda que não descurem abordagens mais ou menos modernas, afastando-se do purismo ortodoxo.
Ao enveredarem por uma música histórica e tradicionalmente radicada em Portugal distinguem-se sobremaneira da segunda geração de portuguesas que se expressam através de modelos musicais universais e que, de uma maneira geral, se inscrevem no circuito mainstream das editoras discográficas multinacionais. Pelo contrário, Lula Pena, Cristina Branco ou Bévinda procuram estabelecer as suas carreiras a partir de nichos de mercado - e o mercado do fado e suas variantes é o mercado da world-music - optando por circuitos ditos "independentes".
Apesar da profusão de personalidades que retratam a diáspora portuguesa no mundo da música popular, o seu maior representante é bem capaz de não ser nenhum cantor, músico, intérprete ou produtor, mas sim um mero instrumento musical, afinal o meio essencial para criar e tocar música. Chama-se ukelele, é um dos mais importantes instrumentos da música tradicional norte-americana, e começou a ser construído por um emigrante madeirense no Hawai. A partir do mui português cavaquinho.