SAGA

 

LIVRO PRIMEIRO

 

 


 

Se visitarem Montreal, passem pelo "quartier St-Louis". Lá encontrarão correntezas inteiras de prédios garridos, com tomateiros e alfaces a crescer nos jardinzitos roubados ao asfalto.

Podem bater sem receio. É gente portuguesa.


 

O CANTO DA SEREIA

 

Na tarde mansa, moído de trabalho, o Luís Negro sobe a St.- Laurent. Lá no alto, na zona dos portugueses, a rua explode em festa: bandeiras, música, bancas de rouparia, petiscos, quinquilharias, carripanas de pop-corn, profusão de feira “das mil e uma noites”.

            Foi quando o altifalante lhe berrou na cara a cantiga. Cantina esganiçada que falava dum amor qualquer, ao luar .. na praia ... lá em baixo ... em Portugal.

           Engoliu em seco, as pernas cheias de tremuras. E aquilo que não lhe acontecia há anos, desde a morte da mãe, aconteceu: duas gordas lágrimas saltaram-lhe aos olhos. Envergonhado, raivoso, enxugou-as às costas da  mão encordoada.

            “Porra, Luís, és algum garoto?”

            A cantiga, endiabrada, sibilante, continuava a verrumar-lhe o cérebro.

            “Raio de cantiga.”

            Pensamentos, durante anos adormecidos, acordavam indomáveis: a sua Vieira, o mar e a praia, os copos de tinto emborcados na tasca do Palaurdo, os barcos e as pescarias e, sobretudo, os camaradas de campanha, o Tonho, o Rijo, o Coxo, tantos, tantos...

            “E a fome que passavas, Luís, e a fome?” — rebatia, a afastar os engodos. —“Aqui podes juntar umas dólas e lá? Lá roías a ponta dum corno. E olha que não trabalhavas menos. Na pesca, na lavoura, puxavas pelo canastro como  um mouro”.

           E os pensamentos com os freios nos dentes: nos entardeceres ensanguentados de verão, qual deus de bronze a puxar as redes, os músculos quase a rebentar, trespassado pelo olhar admirativo da turistada toda, os pulmões esbraseavam-se: ôoh ... ôoh ... ôoh ... e as sardinhas a saltar como prata! E o mar manso como um rafeiro! E ...e ... e…!

            Mal chegou a casa, disparou:

            — Este ano vamos a Portugal.

            A mulher levantou o nariz do tacho a ferver no fogão.

            — Tás maluco?!

            Ele queria falar da cantiga, de tudo o que lhe corria em tropel na cabeça, mas ela não lhe deu azo.

            — Tás maluco, home? Íamos gastar um dinheirão. E os nossos planos? E o campo, e a casa nova? Atão não combinámos que íamos lá só pró ano?

            O Luís sentiu-se envergonhado por ser o mais fraco. Mais fraco do que ela. Ela que chorara baba e ranho ao deixar a terra.

            “Mas, porra, ela não ouviu a cantiga!”.

            Saiu porta fora. Para a rua. Para a multidão.

            Mesmo assim andou oito dias sem quase falar à mulher, entre envergonhado e raivoso. Depois passou-lhe e continuou a amealhar dólares, para o campo e para a casa nova.


HISTÓRIA DE NATAL

 

 

A Teresa está feliz. Radiante.

            O bacalhau com batatas e grelos ferve na panela. À volta da mesa farta, o seu Luís, o Jaime, a Maria Cândida, a criançada. Petiscam e bebericam numa algazarra festiva.

            Na televisão não se fartam de dizer que lá fora está um frio de rachar. Vinte e oito ou vinte e nove graus negativos. A consoada mais fria dos últimos anos.

            — Aqui tá quentinho — encolhe os ombros o Luís, esvaziando mais um cálice de porto.

            Com a colher de pau, Teresa acalma a fervura da panela.

            “Que rico bacalhau! Graças a Deus é uma farturinha.”

            De chofre:

            — Nossa Senhora! Ai que desgraça! — Abafou os gritos com o avental .—Santo Deus!

            Esquecera-se de comprar azeite, O santo azeitinho para os grelos. Os grelos precisam de azeite como o corpo de sangue, sempre ouvira dizer. E logo naquela noite santa!

            Resoluta, enfiou o casaco e as botas de neve. Os outros, quando a viram naquele preparo, ficaram pasmados:

            — Onde vais, alma do diabo?

            Tás maluca?

            — Vou ali à loja do açoriano comprar umas coisas de que me esqueci. Só vos peço o favor de olharem pelo bacalhau. Daqui a dez minutos,  desliguem o fogão. Não se esqueçam, pel’amor de Deus!

            — Esta mulher é o diabo. Ainda é capaz de ficar tesa como um carapau, aí para algum canto.

            — Na noite de hoje Nosso Senhor ajuda toda a gente. Não se esqueçam do bacalhau, é só o que vos peço.

 

*

O Zé Biana está estirado sobre a cama. Os olhos pregado no tecto. A telefonia enche o quarto com canções de Natal. Engole, mais uma vez, o suspiro que o sufoca. Sensação igual só em Angola, na tropa, nas consoadas no mato. Mas lá havia os camaradas, qualquer chalaça, um mar de cerveja para afogar tudo. Não havia a mulher, a filha. A espera. À espera que ele abrisse caminho na vida.

            Apagou a telefonia e foi à janela. O gelo espalmava-se contra as vidraças como mão gelada e ameaçadora. Raspou o vidro com as unhas. O pedaço de rua estava deserto e branco, numa quietude polar.

            “Que noite!”

            Sentou-se na cama e tornou a ligar a telefonia. As mesmas cantigas de Natal. As mesmas cantigas de esperança. Afinal era essa mesma esperança que o mantinha de pé. Esperança de arranjar um emprego melhor,  poder mandar vir a mulher e a filha.

— Tudo se há-de arranjar, rapaz — encorajou-se em voz  alta. — Não sejas fracalhote. Já passaste bocados piores e não morreste. Estás é a precisar duma bebedeira. Amanhã acordas sem esses macaquinhos na cabeça. Mesmo na noite de hoje deves encontrar praí qualquer buraco onde comprar uma garrafa de vinho.

*

— Boa noite — saudou Teresa.

            O depanneur estava praticamente deserto. Apenas um freguês de ar taciturno esperava que o Açoriano lhe fizesse a conta. Mas este não estava muito apressado, mais disposto a cavaquear  do que a outra coisa.

            — Que noite! Há dezoito anos que estou em Montreal e nunca vi uma consoada tão fria. — A máquina pôs-se a cantarolar números. — Quatro dólas e meia. O senhor é novo por cá?

            — Estou cá há sete meses.

            — Já tem emprego?

            — Por agora lavo pratos aí num restaurante. Em Portugal era serralheiro.

            — Ainda vai ter muito que amargar — profetizou o Açoriano, arrancando uma gorda e pestilente baforada do enorme charuto pendurado dos beiços.

            Teresa apanhou a garrafa de azeite da prateleira e aproximou-se do balcão, a tempo de compartilhar da conversa. Olhou, de soslaio, a garrafa de vinho.

            — O senhor vai consoar com alguém? — perguntou.

            O Zé Biana corou, sob a barba de dois dias.

            — Não, senhora. Este ano lá terá que ser assim. Ainda por aqui ando sem a família.

            Teresa estava rouca de emoção:

            — Coitado! Numa noite destas! O senhor vai consoar lá a casa, tá dito. O meu Luís não vai dizer o contrário.

            — Mas...

            — Não há mas nem meio mas. Afinal o senhor também é português. É feito do mesmo barro que nós. Tá dito e não há mais discussão. Ia beber esse vinho sozinho? O vinho assim sabe a veneno. Ora venha daí!

 

*

— Trago este senhor pra consoar co’a gente. Ainda tem a família em Portugal e não...

— Sente-se, homem — interrompeu-a o marido. —Cabe sempre mais um pobre à mesa doutro.

            — Eh, Luís, até pode ser Nosso Senhor Jesus Cristo  a tentar-nos. Na noite de hoje nunca se sabe — segredou a Maria Cândida.

    Tu tás é já com um copo a mais — gargalhou o Luís. Mas, pelo sim pelo não, reservou a melhor posta de bacalhau para o desconhecido.


SÁBADO À NOITE

 

 

 

As salsichas com ovos grudavam-se à garganta ressequida. Deitou a garrafa à boca e deixou o vinho escorrer longamente. Ganhou fôlego e tornou a beber. Mas nem mesmo assim o nó desapareceu. O nó crónico dos sábados à noite, quando as paredes do apartamento o espremiam contra os seus pesadelos.

            “O que precisas é dum bocado de ar nas trombas”.

            A St. Laurent era um deserto. Somente ele, as montras, carros apressados, um céu gelado. E o gelo a estalar sob as botas.

            “Em vez d’andar práqui feito parvo, vou é até ali à Casa Minhota tomar uma bica e um bagaço.”

            Estugou o passo. Sentia os pêlos do nariz tesos como arames, o queixo encortiçado.

            “Raio de frio.”

            Estacou defronte da agência do banco português.

            “Deixa lá ver a como tá o câmbio. Pra quê? Não mando dinheiro para Portugal.”

            Mas olhou. Como sempre. Aqueles números gordos tinham visco.

            “Porra, o escudo cada vez vale menos.”

            Um cartaz, colado à vitrina, despertou-lhe a atenção. Devia ser outro baileco português. Grandioso, diziam sempre os cartazes.

            “Deixa lá ver onde é.”

            Igreja St. Louis de France.

            “Mas para que quero eu saber de bailes? Já não estou em idade de bailações.”

            Bebidas, petiscos, engodava o cartaz.

            “Até pode ser um bocado bem passado. Sempre hei-de encontrar qualquer gajo conhecido.”

 

*

Quando entrou, o conjunto esfarrapava-se todo às voltas  com um malhão. Furou até ao bar e pediu uma cerveja.

            — Aqui tá mais quente do que lá fora, eh amigo?

            O Algarvio olhou o seu interlocutor. Um fulano de cara avermelhada, a rondar os cinquenta.

            — É verdade — aquiesceu.

            — O Canadá só tem de bom as dólas — tornou o outro. — Vim há dias de Portugal e aquilo sim, amigo, aquilo é que é clima.

            — Por que não ficou por lá?

            — A família, amigo, os filhos na escola. O amigo tem filhos?

            — Nem mulher!

            — E anda nestas terras a fazer o quê?! Hoje em dia só não ganha lá bom dinheiro quem é malandro. E pelas suas mãos vê-se que não é malandro nenhum. E aquele sol! Até no inverno! Um sol assim é uma riqueza.

            O conjunto atacava um vira. Os pares rodopiavam, entregues a apelos profundos.

— Não há nada como a nossa terra, amigo.

O calor subia dos corpos e das almas.

            — Não perca tempo, amigo. Ai se eu pudesse!

            O conjunto atirava-se agora a uma marcha.

            — Que céu azul, amigo!

            Quando saiu dali o Algarvio ia com a barriga cheia de cerveja, música e decisões feitas.

            “Segunda-feira compro um bilhete de avião e raspo-me para Portugal.”

            Como mil vezes anteriormente, aliás.

            Geralmente,  nos sábados à noite.

 


A FRAUDE

 

 

 

Pai, tente compreender, por favor!

            Estavam a almoçar. O Manuel Transmontano, a mulher, a filha. Num domingo de Maio.

            O Manuel Transmontano encarou de raspão os oIhos garços e límpidos da filha. Baixou a cabeça para o prato, as batatas atravessadas na garganta. As palavras saíram-lhe enferrujadas:

            — Tu é que sabes da tua vida. Mas se saíres daquela porta para fora, para te ires juntar com esse estrangeiro, nunca mais tornas a cá entrar.

            — Eu e o Michel gostamos um do outro. Tente compreender, por favor. Por favor!

            Minutos de silêncio. O sol a jorrar da janela.

            — Vou dar uma volta.

            — Onde vais, Manuel? - alarmou-se a mulher, chorosa.

            — Descansa que não me vou enforcar.

            Na rua, sentiu-se perdido. Os quinze anos de Canadá repartira-os entre o trabalho e a casa, para além duma ou outra saltada à loja do Açoriano para beber uma cerveja e dar dois dedos de conversa. Com duas viagens a Portugal, de permeio, para matar saudades, para preparar o amanhã.

            Foi dar ao jardim. Um jardim a cobrir-se vertiginosamente de sol e verde. Sentou-se num banco. Um esquilo desceu duma árvore e aproximou-se em avanços e recuos inquietos.

            As perguntas, acusações, da aldeia em peso não lhe davam tréguas:

            “E a tua filha? O quê?! Deixaste-a naquelas terras? Com um estrangeiro? Nem sequer casada?! Que raio de homem és tu? Não te sais ao teu pai, não! Com esse ela vinha nem que fosse morta. Andaste tantos anos por lá para quê? Todas as terras que compraste vão ser para os lobos. Mais valia teres ficado por lá, desgraçado.”

            — Hei-de morrer nestas terras, enterrado num buraco de gelo?

            O esquilo amaranhou árvore acima, amedrontado com os gritos dos homens. Lá no alto, ficou imóvel, a espiar. Como o homem não desse mais sinais de vida, tornou a descer e continuou a cabriolar sobre a erva tenra.

 


O SONHO

 

 

 

Chega bem eu deixar o coiro na fábrica de plásticos. Não te quero ouvir mais.

            — Se eu trabalhasse já podias fazer menos horas, levavas outra vida. E o dinheiro que estamos a perder com a tua teimosia? Ao menos deixa-me ir fazer uma aplicação numa companhia de limpezas.

            — Basta!

            A chicotada da voz de Jaime estancou a nova ofensiva de Maria Cândida. Rixa de anos. Cerrada.

            — Eu sei por que não me deixas ir trabalhar.

            — Ainda bem que começas a abrir os olhos.

            — Não te faças desentendido. Isto é tudo culpa do 25 de Abril. Desde esse dia nada presta para ti no Canadá. Tens o corpo aqui e a alma em Portugal. Bem te vejo quando alguém vem de lá. Até pareces uma criança de olhos arregalados para o que contam. Mas não penses que agora são tudo rosas . Olha se as pessoas não continuam a emigrar! Só não vêm mais porque não as deixam.

            — As coisas não se mudam do pé para a mão.

            — Conversa! Só conversa! Os ricos acabam sempre por dar a volta à coisa. Se não é duma maneira é doutra.

— Pelo menos agora há liberdade.

            — Os pobres não enchem a barriga com palavras bonitas.

            A mostarda chegou ao nariz de Jaime:

            — Que sabes tu dessas coisas? Que sabes tu dos sonhos dos trabalhadores?

            — Calculas tu que eu também não tenho sonhos?

            Havia pegos profundos nos olhos de Maria Cândida. Tão profundos que Jaime desviou o olhar, deitou água na fervura:

            — Afinal a guardar crianças pouco menos ganhas do que numa fábrica. Estás em tua casa, não dás contas a ninguém, para mais agora que o inverno está à porta. O dinheiro não é tudo, mulher! Não viemos para o Canadá para rebentares o canastro a trabalhar para esses exploradores.

            — Lá tás tu!

            Jaime ensaiou uma carícia. Maria Cândida sorriu. A rixa adiada.

 


RESSACA

 

 

 

Encontravam-se invariavelmente na loja do Açoriano. Nos sábados à tarde. Para beber umas cervejas. Para falar, falar. Porque falar não custa dólas, como filosofeia o Luís Negro.

            São três: o Luís Negro, o Jaime Reis, o Zé Biana. Eram quatro mas no último inverno o Pedro Algarvio, num inesperado assomo de coragem, comprou um bilhete de avião e cavou para Portugal. Pela Páscoa, mandou um postal, que estava bem, sim senhor, ao sol do seu querido Algarve, entretido a escorropichar belos copos de medronho.

            Cerveja na mão, sentados regaladamente nos degraus de acesso à loja, a conversa escorre mole e lenta como a tarde de Agosto.

            — Bem fazes tu, Biana, em teres a família na terra. Não estás preso, quando quiseres cavar, cavas — disse Jaime, limpando com a mão o suor do pescoço.

            — É mesmo! — concordou o Luís. — Os filhos são uma prisão. Começam na escola e um gajo fica amarrado.

            — E para quê? Ainda ontem um gajo que aí vem às vezes, vocês conhecem-no, o Manel Transmontano, me esteve a contar que quer regressar à terra e a serigaita da filha anda aí embeiçada por um quebecois qualquer e quer cá ficar. Coitado, até anda meio avariado dos cornos.

            — São problemas do caraças. Tu é que tens juízo, Biana.

            — Custa muito! Há mais de um ano que não vejo a família.

            — Há praí muita saia, rapaz.

            — E cada traçalhão!

            — Estas canadianas têm fogo entre as pernas.

            — Vocês falam assim porque não estão longe da família. O que eu queria era arranjar um emprego na minha profissão e mandar vir a mulher e a filha. Já estou farto de lavar pratos no restaurante daquele filho da mãe do grego.

            — Isto tá mal, Biana. Dá-te por felizardo porque há praí gajos que nem isso arranjam.

            — O Canadá já foi chão que deu uvas.

 

*

O Zé Biana regressou a casa com meia dúzia de cervejas no bucho. Os copos davam-lhe sempre para a tristeza. As paredes do quarto ficavam mais nuas, os trastes mais escanzelados, a solidão mais gritante, Portugal mais longe. A memória em carne viva: “Estou farto de ser escravo, Adelaide. Farto até à ponta dos cabelos de aturar patrões. No Canadá pagam bem a um operário especializado como eu. Vão ser cinco anos, Adelaide. Só cinco anos. Depois regressamos, compro umas máquinas, monto uma oficinazita e nunca mais aturo patrões.”

            Despiu o casaco. Deu pontapés na cama. Praguejou. Vestiu o casaco e foi bater à porta do Reis, dois quarteirões adiante.

            — Deixas-me telefonar para Portugal?

            — Vais gastar um dinheirão.

    Os dólares que se lixem. Vou mandar vir a família

 


A GRANDE AVENTURA

 

 

Desde há cinco anos, quantos ela tem de Canadá, que a Teresa, nas quintas-feiras à tarde, mal sai da fábrica, percorre as lojas de St. Laurent. Nesta compra cenouras, naquela manteiga, na outra batatas e por aí fora, a farejar os especiais com os seus argutos olhos de camponesa, desde criança habituada a comer o pão que o diabo amassou. O que ela se ri, com o seu Zé, das tapadas das canadianas que gastam um dinheirão em enlatados que não valem a ponta dum chaveIho. Com o dinheiro que elas gastam numa semana, enche ela a dispensa para um mês. Bem gostaria de ir a uns grandes magasins de que lhe falaram. Mas ficam fora de mão, para isso só de carro. Vai para dois anos que o seu Luís esteve tentado a comprá-lo mas, após longas noites de discussão e insónia, acharam melhor comprar um terreno lá na terra.

            Compras feitas, Teresa estava radiante. No porta-moedas ainda lhe restavam seis dólares. Um nota de cinco dólares e quatro reluzentes moedas de vinte e cinco cêntimos. Despejou o dinheiro para a palma da mão e, babosa, apertou-o, com a ternura com que, nas noites de boa disposição, afaga o seu Luís.

            Foi quando uma ideia malíflua se lhe enroscou no cérebro. Ideia que lhe encheu as pernas de tremuras e lhe perlou a testa de suores frios. Com dedos trémulos encafuou a nota no porta-moedas e pasmou para a reverberação das moedas.

            — Poça, hoje é que é!

            Virou a esquina da Pins e abeirou-se resoluta do quiosque.

            Un trio, s’il vous plaît.

            A unha raspava nervosamente o papel:

            Rei ... dama ... nove ... oito ... nove ... nove.

              Ai, Jesus — gritou a segurar o coração que saltava doido do peito. — Ai, Virgem Maria, ganhei cinco dólares!

            Ia entregar o bilhete premiado, reclamar o dinheiro, quando a voz do diabo falou pela sua boca:

            Cinq trios, s’il vous plaît.

            Ás .. rei ... ás ... dama ... dama.

            Nada!

            Rei ... ás ... oito ... oito ... nove.

            Nada!

            A unha raspava, raspava, vertiginosa.

            Nada, nada, nada. NADA.

            Custava-lhe a acreditar. Não, não era possível. Tudo branco. Parva. Nem parecia coisa de mulher de trinta anos.

            À noite, o Luís encontrou-a acabrunhada.

            — Saudades da família — desculpou-se ela.

            Ia lá contar ao seu homem aquela aventura !

 


A SUECADA

 

 

 

O Manuel Transmontano olhou as nuvens pardas acasteladas sobre a montanha e levantou a gola do casaco contra o vento de agulhas geladas em riste.

            “Mais quinze dias e temos a snow em riba.”

            Desde que a filha abalara de casa que os domingos lhe eram insuportáveis, longos, longos de morrer. Tinha de sair para a rua, quando não era capaz de rebentar. Calcorreava ruas e vielas até já não sentir as pernas, até já não pensar e só então, esfalfado, vazio, regressava a casa, pronto para mais uma semana de trabalho.

            Desta vez, o passeio sem norte encaminhara-o para ali, para o parque já semi-deserto, onde um bando de rapazes, aos pontapés a uma bola, porfiavam em domar o inverno. Um pouco mais à frente, na abrigada dum barracão, três fulanos, portugueses pela pinta, batiam cartas sobre uma mesa de piquenique.

            — Boas tardes — saudou-os.

            — Boas tardes. — E continuaram a batê-las, mudos, sobre a mesa.

            Passados uns bons cinco minutos, o mais novo, de cara enfarruscada por um par de patilhas selvagens, lançou-lhe por cima do ombro:

            — O amigo quer fazer uma perna numa suecada? Tamos para aqui a jogar à bisca de nove mas isto não aquece nem arrefece.

            Colhido de surpresa. até corou. Há quanto tempo não pegava numas cartas! Para mais de quinze anos, desde que abalara de Portugal. E se era bom jogador! Lá na taberna do Luís, ele e o Casimiro vergavam os mais pintados. Tinham cá um jogo de sinais mais ensaiado do que a banda da música. Aquilo era só aviar neles.

            — Baralhe o amigo.

            Aceitou o baralho e os dedos enferrujados até tremiam, um calor tremendo a subir-lhe à cara.

            — Podem partir.

            A princípio a medo, cada vez mais afoito, o ritmo a emergir, a mão começou a bater as cartas,  sobre a mesa, com a gana de vinte anos atrás. E c’os diabos, lá para a terceira ou quarta partida, quase lhe apeteceu voltar a cabeça e berrar pró Luís:

            — Bota aí um penalty do pipo novo.

 


VORAGEM

 

 

 

A Adelaide e a filha chegaram a Montreal quando as primeiras nevadas enlamearam as ruas.

            —Que terra tão feia — disse Adelaide, observando os edifícios sombrios.

A filha enchia os olhos daquela paisagem inédita.

            — Achas que vou encontrar trabalho decente?

            — Que pergunta! Isto aqui é só preciso querer trabalhar.

            — Mas tu ainda não arrranjaste nada na tua profisssão! — insistiu a Adelaide.

O Zé Biana lançou uma gargalhada.

            — As coisas aqui não são como lá, mulher. O que é preciso é que os dólares escorram para dentro do bolso. Há para aí gajos que até a apanhar minhocas se enchem dele. Olha, o primeiro gajo que me estendeu a mão, o Luís Negro, na terra dele era pescador e aqui faz limpezas. E não há homem mais feliz do que ele.

            Em Viana, a Adelaide trabalhava num escritório. Tinha tremuras na voz quando insistiu:

            — Se calhar não vou arranjar um emprego como lá.

            — O que é preciso é querer trabalhar, mulher. Isto é uma terra de futuro.

            — Só não quero é ir parar a uma fábrica —desabafou, com as lágrimas a saltarem-lhe aos olhos.

            Mas foi. Passados meses de frustação e desencanto. Para a fábrica onde trabalha a Teresa. Mas mesmo assim foi difícil.

— Cada vez há mais desemprego, o que valeu é que a bossa é minha amiga — esclareceu Teresa, com uma ponta de vaidade.

            A bossa era uma minhota mal encarada:

            — Aqui as pessoas ou dão rendimento ou vão para o olho da rua. Fica a trabalhar nesta machin de cortar pontas. Quando tiver mais prática, passa a ganhar à peça.

            Adelaide sentou-se à máquina e começou a trabalhar. De dentes cerrados. Sem levantar a cabeça.

            — É pouco —comentou a bossa, passados dias. —   É preciso dar mais rendimento. Os patrões não estão para sustentar ninguém.

            Há protestos que sobem à boca de Adelaide. Protes- tos que morrem inarticulados. Faz das tripas coração e redobra a cadência.

            — Mais ... mais ... mais...

            A meio da manhã, os rolos de cortinados pesam arrobas. A meio da tarde, toneladas.

            — Mais ... mais ... mais...

            — E teve muita sorte. Se a bossa a põe a passar a ferro é que vai ver como elas mordem — encoraja-a Teresa.

À noite, Adelaide nem afagos tem para a filha. Quando se apanha na cama, sonha. Sonha muito. Com a sua Viana perdida. Com a infância remotas. Com coisas talvez nunca vividas.

— Então gostas do Canadá? — pergunta o marido.

— Eu gosto — antecipa-se a filha. — Há muitos baloiços.

Adelaide olha a criança, enternecida. E sorri. Um sorriso que lhe adoça as faces cavadas.


SORTILÉGIO

 

 

 

Desde há muito tempo que a Teresa anda para com prar uma cafeteira-expresso. Só que há sempre qualquer coisa mais urgente e a cafeteira vai ficando para trás. O Luís até já troça:

            — Se estiver a contar beber café dessa cafeteira tou bem arranjado.

            — Tudo tem o seu tempo. Não me vou atirar à tôa, as dólas custam a ganhar.

            Até que, por fim, em plena St. Laurent, Teresa deparou com uma loja a abarrotar de cafeteiras em saldo.

            — É uma pechincha, acredite — encorajou a empregada portuguesa. — Olhe, aquelas, que fazem  as mesmas seis chávenas, custam dezoito dólas.

            lntrigada, Teresa examinou uma das cafeteiras mais caras. O mesmo peso, o material parecia o mesmo, só a asa um tudo nada diferente.

            — Se aquelas custam menos algum defeito devem ter — desconfiou Teresa.

            — É por estarem em saldo, acredite. Ainda ontem custavam as mesmas dezoito dólas.

            Uma cafeteira em cada mão, Teresa não se rendia à primeira. E, ao virar a mais cara de pernas para o ar, aquele Made in Portugal saltou-lhe aos olhos.

              Que graça, esta é da nossa terra.

            Virou a outra e o Made in Italy até parecia envergonhado.

            — Levo a portuguesa — decidiu-se Teresa.

— Faz mal — discordou a empregada. — A qualidade é a mesma, são três dólas que deita ao ar.

            — Eu é que sei.

            Só em casa, quando reparou na reverberação trocista da cafeteira, é que viu a asneira que tinha feito.

            — Faço cada uma. Deixá-lo, antes nisto do que na farmácia.

 


INTEGRAÇÃO

 

 

Quando o Luís Negro entrou em casa, estranhou que os braços sôfregos do filho não lhe saltassem ao pescoço.

             Onde diabo tá metido o cachopo? — berrou ainda antes de descalçar as botas da neve.

            Teresa apareceu-lhe de cara reluzente.

            — Que raio é isso, mulher? Tás corada como quando te espetei o primeiro beijo.

            A mulher retorcia o avental, um risinho cacarejado a estremecer-lhe os peitos fartos.

            — O menino? Tá em casa das vizinhos.

            — Quais vizinhos? —perguntou distraido o Luís, entrando na casa de banho.

            Teresa foi-lhe no encalço.

            — Os franceses.

            — Que raio de história é essa?

            Agora, Teresa, era uma enxurrada de palavras:

            — Caiu uma camisola das crianças deles na nossa varanda ... fui lá ... Afinal é gente como nós ... simples... vieram aí do norte ... não têm cá ninguém ... quiseram que o nosso filho ficasse a brincar com os meninos deles

A incomunicabilidade com a vizinhança era um espinho na vida de Teresa. Lá nos Milagres ou na Vieira depois de casada, conhecia todo o bicho careto, bastava chegar à janela para falar pelos cotovelos com toda a gente.

            Aqui era diferente. Cada qual na sua toca. Anos a fio sem uma palavra trocada. Nem uma simples saudação nas escadas.

            — Nem bichos! — desabafava de coração arrepelado.

            Pelo prédio desfilavam franceses, italianos, gregos, gente de toda a raça, como ela nunca pensara que existisse. Tudo menos portugueses, para mágoa dela.

            — Vamos viver para junto dos portugueses, Luís — implorava. — Não aguento mais!

            O Luís dizia que sim, talvez para o ano, mas os anos corriam e continuavam entre a estrangeirada.

            — Pelo menos assim ninguém fala na nossa vida — justificava ele aquela inércia.

            Por tudo isto, hoje a Teresa está nesta euforia:

            — Vamos convidá-los para jantar no fim de semana, Luís. Faço cozido à portuguesa, ou feijoada, ou uma bacalhoada, ou ... — e, delirante, perde-se em fantasias, como numa bela tarde de Maio se perdera pelo seu Luís, no pinhal, lá na aldeia.

 


OÁSIS

 

 

 

 

Aquele dia tinha sido horrível. Os miúdos até pareciam ter o diabo no corpo, tinham-lhe feito a cabeça em água.

            “E ainda há quem diga que isto de guardar crianças é bom! Mais valia quantas vezes andar na fábrica, pelo menos tinha com quem falar. Mas vá lá alguém dizer isto ao teimoso do meu homem ...“

            Quando o último miúdo partiu, pôs-se logo a tratos ao jantar, deu banho aos filhos, enfiou-lhes a comida pela boca abaixo e, depois de lavar a loiça, arranjou-se e entreteve-se a passajar uma peúgas, à espera do marido.

            Já passava das seis horas da tarde quando Jaime chegou, sobraçando um grosso molho de jornais.

            — Hoje não querias vir para casa?

            — Bem sabes que às terças-feiras vou sempre ao quiosque buscar os jornais portugueses.

            — E tu sabias muito bem que hoje tenho consulta marcada para os garotos. Olha, se quiseres comer, aquece o guisado que tá em cima do fogão. Mas, às terças-feiras, nem precisas de jantar. Chegam-te os jornais.

            Jaime já não a escutava, enterrado no sofá, o jornal aberto a toda a largura.

            — É o que eu digo, já não houve ninguém. Podia arder a casa que ele nem sentia. Venham, miúdos, que já tamos atrasados.


            A sala de espera da clínica Luso ainda fervilhava de gente quando a Maria Cândida e os miúdos entraram.

            — Vocês tenham juízo. Não andem para aí a correr feitos doidos.

            Cumpridas as formalidades na recepção, a Maria Cândida vasculhou a sala com o olhar. Lá para o fundo, uma mulher gorda e quarentona enchia a sala com uma história da breca que metia amantes, facadas e almas penadas.

            Maria Cândida sentou-se ao lado dela, orelhas abertas, a língua engatilhada. E quando a outra se deteve para retomar fôlego, não perdeu a oportunidade.

            — Na minha terra, em Pias, deu-se um caso parecido... — e foi por ali fora,  até que a voz da empregada a chamou para a consulta, para a crua realidade da vida.

 


MEDO

                       

 

 

 

Aquilo que escarafunchava nas tripas e lhe apertava  a garganta era medo. Era, sem sombra de dúvidas, medo. Igualzinho, mesmo igualzinho àquele que em garoto o devorava quando, ao anoitecer, atravessava o pinhal, de regresso da escola. Naquele tempo cantava, cantava até quase rebentar os pulmões e os fantasmas e os lobisomens se refugiarem para os confins da mata.

            — Vamos ou não, homem? Decide-te duma vez  por todas.

            Medo! Medo do seu francês atravessado. Medo de muralhas invisíveis.

            — Vamos, pois — implorou o filho. —Vão os pais dos meninos todos, vai ser tão bonito!

            — Lá bonito deve ser — ajudou a Teresa. — Já viste o que é cada qual levar um petisco do seu país? Se nós formos, vou levar uns pastéis de bacalhau, até se vão lamber todos.

— Que raio de ideia a daqueles professores — insurgiu-se o Luís Negro. — O papel deles é ensinar os garotos. Agora fazer festas! É só para desassossegar uma criatura.

            — Ó homem, aquilo é tudo imigrantes como nós!. Mas se não quiseres ir,  não vamos. É um desgosto que dás ao teu filho mas se tens medo... !

    Claro que vamos.  Medo, eu?


             Uma ladaínha com cheiro a árabe subia do gira-discos. A mesa, no centro da sala, repleta de petiscos, era mapa-mundo gastronómico. Ao redor, rostos de todas  as cores e formas, as bocas a trincar a medo, os olhos a ensaiar diálogos. A garotada num tropel de correrias e gritos a escaqueirar barreiras.

            O Luís levou à boca uma pequena bola castanha.

            — É bom.

            — Sabe a quê?

            — Prova.

            Teresa cacarejou.

    Credo! Ia lá comer uma coisa que não sei o que é!    

C’est de mon pays — disse ao lado um homenzinho atento, dentes muito brancos na cara castanha.

            A été ma femme. — Apontou a mulher com o queixo. Tinham ambos os cabelos muitos negros e lisos e um sorriso suspenso dos olhos negros como carvões.

            Nous sommes du Portugal — afoitou-se a dizer o Luís.

            Du Portugal?

Os dois pares de olhos negros arderam de adoração. E, num francês sincopado, o homem pôs-se a desfiar uma história estranha e maravilhosa. No Sri Lanka. Um missionário português a arrebatar multidões. Martirizado. O cristianismo alimentado séculos fora. Contra mil barreiras.

            No peito do Luís crescia uma maré-cheia.

            Sabia lá ele onde ficava o Sri-Lanka! Mas, pelo nome arrevesado devia ser lá para o fim do mundo.

            Agora, o peito estoirava a camisa.

            — Dá cá esse disco, cachopa! Já vão ver como se canta na nossa terra.

            Grandioso, dirigiu-se para o gira-discos. Pouco depois, a voz da Amália enchia a sala.


LABIRINTO

 

 

 

Os filhos deitados, a mulher a lavar a loiça na cozinha, o Jaime Reis enterrou-se no sofá e preparou-se voluptuosamente para manejar o comando da televisão. Aquele era um dos grandes prazeres da sua vida. Sentia-se o centro de qualquer coisa. Deus capaz de mudar o rumo dos acontecimentos com um simples carregar num botão.

            — Lá tás tu outra vez a brincar com a televisão —  admoestou-o a Maria Cândida, com uma espreitadela da cozinha. — Nunca vês nada até ao fim . És pior que os miúdos. Apaga mas é isso e liga o rádio que está na hora da emissão portuguesa.

            Jaime encolheu os ombros e calcou a tecla do serviço metereológico.

            — Olha, amanhã estão vinte negativos — vingou-se.

            — Se estivessem vinte positivos é que me admirava.

            De chofre, o telefone pôs-se a retinir.

            — Quem será a estas horas?

            Estendeu o braço.

            — Alô?

            Do outro lado do fio soou uma voz jovial:

        — Boas noites, rapaz. Não reconheces a voz? Ãnh.. ãnh... fala o Pedro ...o Pedro Algarvio, rapaz!

Jaime gaguejou de espanto:

— Estás ... estás a falar de Portugal?

— De Portugal uma ova. De Montreal, rapaz. Cheguei hoje.

— Mas ... mas...

— Olha, rapaz, resolvi regressar . — A jovialidade da voz murchava a olhos vistos. — Olha, não me dava lá na terra. Perguntava por este e por aquele, nada! Este estava em França, aquele morrera, o outro desaparecera. Não havia um velho camarada com quem beber um medronho. E um gajo andar a beber sozinho é uma merda, mais vale ir logo para o manicómio.

— Mas tu, no postal que mandaste, dizias que estavas porreiro!

— Ora, o que podia dizer? Um homem não pode dar parte de fraco logo à primeira. Palavra, aquilo já não é a minha Tavira. Até me parecia que o rio corria ao contrário e que a ilha já não estava no mesmo sítio. Quase que me sentia estrangeiro na minha própria terra. Olha, cá estou. O que me valeu foi estar naturalizado canadiano senão já não me deixavam cá entrar. Ainda continuam a ir à loja do Açoriano beber umas cervejas? No sábado, contem comigo. Tás a ouvir? Tás a ouvir?

— Sim, estou.

— Boa noite. Até sábado.

Jaime desligou o telefone. Enterrou-se ainda mais no sofá. Esquecido o comando da televisão. Uma ruga enorme cavada na testa.

Até que,  por fim,  a  Maria Cândida o chamou à vida:

— Vai-te deitar, homem. Amanhã é dia de trabalho.

 


A FESTA

 

 

 

De regresso a casa, o Luís abraçou-se à mulher.

            — Olha este, tá-lhe a dar!

            — Quando te conheci não eras tão arisca. Bem te metias debaixo da minha asa  — riu-se o homem.

            — Era uma ceguinha.

            Vinham da festa do Senhor Santo Cristo. Felizes. O filho, dois passos à frente, pendurado de dois enormes balões. A Teresa abraçada a uma jarra de loiça que lhe saíra numa rifa.

            As barracas de comes e bebes, a procissão, as bandas de música, a carmesse, o leilão, as famílias endomingadas, tudo isso entrou peito adentro do Luís Negro. Verdade, verdadinha, só faltaram umas pipas de carrascão e um fogo preso para aquilo parecer mesmo a festa da Nossa Senhora dos Milagres.

            — Quando é a festa de Nossa Senhora dos Milagres? —  perguntou o Luís.

— A meados de Setembro, sabes muito bem.

— Vai fazer quinze anos que começámos a namorar. Tive que beber uns valentes copos para meter conversa contigo.

            Coisas ditas e reditas, gastas, mas que nesta noite tépida de Maio renovam o viço em fontes profundas. O Negro tornou a abraçar a mulher.

            — Tem juízo, homem. Já não és nenhum rapaz.

            — Tás mais esquisita do que nesse dia.

            — E ele a dar-lhe — cacarejou a Teresa, ruborizada.

 

*

            Pela primeira vez desde há muitos anos, ao acordar pela manhã seguinte, o Negro pespegou um beijo na companheira.

            — Se vier praí outro herdeiro vamos entregá-lo ao padre. Ele é que foi o culpado.

— Credo, homem!

 


ERUPÇÃO

 

 

 

Mal as noites começam a amornar, o Jaime Reis e a família adoram ir apanhar o fresco. St. Laurent acima, St. Laurent abaixo, no passeio dos tesos, graceja o Jai­me. Os garotos brincam ao cache-cache, como agora dizem. A Maria Cândida é toda olhos para montras e gentes.

            —Ai que blusa tão linda! ... Olha aquela tão novi­nha agarrada a um velho ... podia ser pai dela! Que sa­patos amorosos! ... Olha, olha aqueles dois ... têm ca­ra de maricas! ... Que combinação tão bonita! ... Olha aquela mulher, Jaime, que figura!

            — Cala-te, mulher, aqui há muito português. Não dês barraca.

            Estavam defronte de um dos vários restaurantes portugueses da artéria. Jaime espreitou para dentro.

            — Está a abarrotar. Isto é que dá dinheiro como mi­lho. Assim vale a pena emigrar. Dizem que o proprietário andava de calças rotas quando cá chegou.

A porta abriu-se. Saiu um casal na casa dos quaren­ta. Ela com uns grandes olhos azuis sob o gorro de pe­le branca. Ele grandalhão, esgargalado, um grande charuto espetado na cara reluzente.

“Este mamou pelo menos duas Mateus”,  pensou Jaime.

            Os garotos, cegos na correria, foram esbarrar no casal.

            Doesn’t matter — riu-se o homem. Passou o charuto para o canto da boca e rebuscou os bolsos do casaco.

            It’s for you.

            Desapareceram no Mercedes estacionado ali a dois passos, envoltos nas gargalhadas gordas do homem. Os miúdos ficaram de olhos pasmados para as notas, esquecido o cache-cache.

            Uma vaga de suor cegou Jaime. Arrancou as notas das mãos dos miúdos e rasgou-as com raiva. Os fragmentos esvoaçaram por todo o lado.

            — Tás doido, Jaime?

            — Isto é dinheiro porco.

            Os garotos começaram a choramingar.

            — Qual dinheiro porco?! Rasgaste duas notas de cinco dólas, Jaime!

            — É o mesmo que escarrar na cara da gente — berrou Jaime. — Para eles os imigrantes são todos uns mendigos a quem se dá esmolas e pontapés quando é preciso.

            — Quais esmolas, quais pontapés?! Tu lá conheces  o senhor? Tás maluco?!

            Jaime recaiu em si.

— Toca a girar para casa. Estamos a dar espectáculo à borla.

 


A HORTA

 

 

 

— E se fôssemos dar uma mão ao Negro?

O Algarvio limpou os lábios às costas da mão e grunhiu um assentimento. Na verdade, já estava chateado de estar para ali a emborcar cerveja atrás de cerveja e a ouvir a boca amarga do Jaime vomitar filosofadas sobre a vida que até azedavam o estômago.

        —Vou telefonar — disse Jaime. — Éh Açoriano, posso dar uma apitadela ao Luís Negro?

       — Esse gajo não aparece cá hoje? — estranhou o Açoriano.

         — Mudou-se esta semana ali para a Coloniale. Nem deve ter tempo para ir à retrete — esclareceu Jaime, discando os números.

         Quando respondeu, a Teresa estava alterada:

          — Vejam lá que temos as mobílias praqui a monte e ele saiu logo de manhã para comprar uma enxada e está prali a estragar o jardinzito todo. Tá doido varrido, digo-te eu!

            — Nós vamos já aí — acalmou-a  Jaime.

            Mal dobraram a esquina, avistaram logo o amigo no minúsculo jardim. Esfomeada, a enxada mordia a terra com raiva. Os músculos dançavam no dorso nu do Negro.

            — Tás a achar petróleo? — gracejou o Algarvio.

            O Luís interrompeu a tarefa e endireitou-se, com um sorriso na cara enfarruscada de pó e suor.

            — São vocês? Olhem, vou fazer disto uma rica horta. — A mão possante apontava: — Aqui planto cebolas, naquele canteiro alfaces e naquele canto ainda me cabe uma carreira de tomateiros. A Teresa tá raivosa por eu lhe ter arrancado as flores. — Cuspiu nas mãos e a enxada tornou a rasgar a terra. — Porventura há jardim mais bonito do que uma horta?

 


PAIXONETA

 

Há um ror de tempo que o Algarvio não aparece. A tal ponto que os amigos já começam a ficar preocupados.

            — É capaz de lhe ter acontecido alguma coisa.

            — Quando um gajo vive sozinho como ele, com tanta malandragem que praí há...

            — Ou então bebeu uns copos a mais e...

            — Em vez de estarem praí com agoiros por que não pegam no telefone e já ficam a saber tudo? —sugeriu o Açoriano. — Parecem um bando de galinhas chocas.

            — Vejam lá, pensava que aquela boca era só para segurar o charuto mas não — riu-se o Luís Negro. — De vez em quando, também serve para dizer uma acertada. Tens aí o número do gajo?

            O Biana discou o número e corou de espanto quando uma voz feminina respondeu.

            Mais... c’est de la maison de monsieur Pedro?

            O grupo acotovelou-se, a curiosidade aguçada.

            — Foi uma mulher — ciciou o Biana. Querem ver que o malandro ...!  És tu,  Pedro? Mas então,  que história é essa?

             Agora eram quatro orelhas coladas ao telefone.

            É  a vida, rapazes — respondeu o Algarvio, com uma gargalhada que lhes arranhou os tímpanos. A vida não pode ser só copos. Também faz falta uma mulher para nos aquecer os pés. Qualquer dia pareço por aí para falarmos um bocado. Talvez leve a Gisele para vocês a conhecerem.

              O telefone desligado, ficaram uns segundos mudos a ganhar fôlego para a gargalhada que ribombou pelos quatro cantos da loja.

            — O malandro!

            — Quem haveria de dizer!

            — Um sonsinho daqueles, ãnhl

            — Não lhe tornamos a ver as trombas tão cedo.

 

*

            Contra todos os prognósticos, o Algarvio apareceu passados quinze dias. Fizeram-lhe uma grande festa.

            — Isto é que é um amigo dos fixes — galhofou o Negro, moendo-lhe as costas de palmadas. Lá arranjou coragem para enfiar as calças e vir até cá abraçar os amigos.

            — Como ele está chupado das carochas! — ajudou  o Biana.

            — Então essa famosa blonde? Deste-lhe folga hoje? —  acrescentou Jaime.

            Mas ao repararem na cara crispada do amigo sustiveram-se.

            — Atão, problemas? — ajudou o Negro,  pondo-lhe na  mão uma cerveja.

            O Algarvio pousou a cerveja no balcão e passou a mão mole pelo rosto amarrotado.

            — Acabou tudo. Foi sol de pouca dura.

            — Desembucha, corisco. Morto por isso estás tu  disse  o Açoriano, empestando o ar com uma fumaça arrancada gulosamente ao charuto.

            —Tens razão. — Pedro tornou a levar o gargalo da cerveja à boca.  — A princípio era tudo muito bonito. Beijos para aqui, beijos para ali, era só amor. Mas depois... ela não sabia passar uma camisa a ferro, não sabia cozer umas batatas. Só se sentia feliz quando íamos jantar fora. Mas isso ainda era o menos. Eu não quero os dólares para forrar as paredes do apartamento. Ontem à noite é que a coisa aqueceu. Sem mais nem menos, disse-me que ia sair com umas amigas. Estão a ver isto? Sei lá se eram amigas ou amigos. Vocês sabem como são estas quebecoises. Proibi-a de sair. E ela não me ligou nada. Disse que saía e saiu mesmo. Pus-lhe as malas à porta do apartamento. Vocês estão a imaginar o Algarvio a andar praí com um par de cornos maiores do que os arranha-céus da vila? Pelo menos fica a saber que os portugueses são homens com eles no sítio. Que eu, francamente, gostava dela. Gostava a valer dela.

 


CRISE

 

 

O filho mais novo do Jaime Reis fez hoje anos. A Maria Cândida fez um bolo de banana que lhe saiu  uma beleza. A mesa, coberta com aquela toalha comprada nos chineses, que até parece da Madeira, está repleta de iguarias, nem mesmo falta uma garrafa de vinho do Porto.

            Mal o Luís Negro e a família chegaram, o garoto näo se susteve mais:

            — Quero o meu cadeau, quero o meu cadeau!

            — Estas crianças estão estragadas — franziu o nariz  Jaime.

            — São os tempos, Jaime —contrapôs Luís, abrindo uma cerveja. — Quando eu era garoto os meus pais davam-me a ponta dum corno. Coitados, nem dinheiro tinham prá côdea de pão. Minto! Um dia deram-me um cavalito de lata. Acho que foi o dia mais feliz da minha vida. Nessa noite dormi abraçado a ele.

            A Maria Cândida foi buscar o presente. Um pacote enlaçarado, a desafiar a imaginação.

            O garoto, sôfrego, arrebatou-o das mãos da mãe,  mergulhou os dedos, puxou o sonho à tona da realidade. Fitou atentamente os cubos coloridos do puzzle, depois um esgar de decepção rasgou-lhe a boca:

            — Não quero isto, bem sabes que eu queria aquele avião que vôa ... aquele que dá na televisão. Não quero isto!

            — Este jogo é melhor, filho!

            — Não quero, já disse! — gritou o garoto, lívido.

            Num repente, lançou o pacote esventrado ao chão.

            — Pega já nisso —gritou Jaime.

            — Não!

            A bofetada explodiu na cara do garoto.

            — Ó homem, logo hoje — desfez-se em lágrimas a Maria Cândida.

            As palavras saíam em cachão, envenenadas, da  boca do homem:

            — Tudo uma porcaria... esta publicidade... a televisão... sociedade podre... corrupta.

            — Acalma-te, homem. — atalhou o Luís Negro.

            Jaime, fulo, ridículo, escorraçado por olhares perplexos, voltou as costas e fugiu para a rua, com um bater estrondoso da porta.

            O Luís Negro quebrou o silêncio:

            — Se esse parvo não quer comer essa maravilha de carne de porco à alentejana que fizeste,  isso é lá com ele, ó Maria Cândida. Trás mas é isso prá mesa que eu já lhe trato da saúde. Quando lhe der o cheiro, o Jaime vai voltar depressa como um raio.

 


MUDAR DE VIDA

 

 

 

Vai buscar o lápis, rapaz.

            De lápis em punho, dirigiu-se solene para o calendário pendurado sob o relógio da cozinha. O lápis percorreu, nervoso, as carreiras de algarismos e acabou por se deter sobre o 27.

            — Cá tá. — O lápis descreveu um círculo veloz e artístico.  — Tá confirmado. Venho de passar pela agência de viagens. Abalamos a 27 de Julho.

            O Luís Negro voltou-se à espera das reacções.

            A Teresa, muda, os olhos cravados no círculo de fogo sorvia e expelia o ar da cozinha em golfadas ardentes, um mar de vermelhão a derramar-se-lhe pela cara. O garoto, alheado, pregava os olhos no ecrã da televisão.

            — Este já não é português — riu o Luís, apontando o filho com o queixo.

            — Mas ... é verdade, Luís? —conseguiu articular a Teresa.

            O Luís Negro sentou-se à mesa da cozinha, a descascar uma laranja.

            — No avião da Tap, às dez da noite. Tão certo como eu estar aqui a descascar esta laranja.

            Os pensamentos de Teresa começavam a dispersar-se:

            — Não nos podemos esquecer de levar alguns presentes para a família. Não é que precisem mas fica sempre bem. Ontem vi umas saias em saldo numa loja de chineses, vou comprar uma para a minha mãe. Gostava também de levar uma lembrançazinha aos padrinhos.

            Derreada de emoções, Teresa sentou-se defronte do marido, as mãos vencidas sobre o regaço.

            — Há mais de seis anos que não vemos a nossa terra, Luís! Tanto tempo!

            A cozinha enchia-se de reminiscências. As lágrimas corriam felizes pelo rosto da mulher.

            —Tantos anos!

            O Negro olhou enternecido o rosto em pranto da mulher.

            — Tu andas sempre a poupá-lo, nunca queres comprar nada de jeito para ti, mas desta vez vais fazer o que eu mando — ameaçou-a de dedo em riste. — Vais comprar um vestido a preceito, dos bons.

            — Mas pensas que eu sou alguma dessas senhoritas que praí andam?

            As gargalhadas a rolar gordas da cozinha, acabaram por incomodar o garoto que resingou:

            —Nem me deixam ver o filme sossegado. Têm de comprar uma televisão para o meu quarto, é o que é.

 


RUPTURA

 

 

 

As discussões com a Maria Cândida são cada vez mais frequentes, alastram como fogo em palha de centeio.

            — Tu tens é de ir à bruxa, homem! —lamuriava-se a Maria Cândida. —Isso é coisa ruim que trazes contigo.

            Jaime, sem palavras, estonteado de remorsos, perde-se  no bulício das ruas, vai, cada vez mais, procurar refúgio na cavaqueira do café Portugal, ali a dois passos de casa.

            Nessa noite, a freguesia tinha o nariz levantado para a partida de hóquei no gelo a correr na televisão. Os comentários saltavam de mesa para mesa, os cigarros ardiam nos dedos, as bicas ficavam a meia-viagem.

            — Grande jogada, ainda dizem que o Lafleur está velho!

            — Os Canadianos arreiam a valer. Vê lá a foeirada que o Tremblay espetou no Gratsby.

            — Olha que os Nórdiques também não são pêra doce.

            Jaime sacudiu o frio da gola do sobretudo e foi-se encostar ao balcão.

— Uma bica a escaldar.

            O jogo prosseguia empolgante, taco a taco. A uma jogada mais virtuosa o parceiro do lado assentou-lhe uma cotovelada.

            — Grande jogada aquela! O amigo viu?

 Jaime deitou-lhe um olhar sobranceiro.

             — Está a tomar-me por quem? Na minha terra joga-se à bola. Eu sou português.

             O outro ficou enxofrado:

            — Se é português eu também o sou, ora essa!

            — Pois não parece. —E indiferente ao olhar fulo do compatriota, Jaime voltou deliberadamente as costas à televisão, tirou a Bola do bolso do sobretudo e abriu-a ostensivamente, a toda a largura, muito concentrado na tabela classificativa do campeonato de futebol da primeira divisão nacional.

 


RENASCER

 

 

 

Passa pelo escritório, por causa da papelada do desemprego.

            Antigamente, a resposta estava sempre pronta, altiva, raivosa, na ponta da língua:

            — Não preciso de chômages pra nada. Tenho duas ricas mãos para trabalhar, não é para andarem enterradas nos bolsos. Graças a Deus sei tocar quase todos os instrumentos, não tenho medo de me agarrar a nada.

            E agarrava-se! Como um touro a investir contra a muralha da vida. Já fizera de tudo, só nunca fôra doutor.

            Mas desta vez não havia altivez nem raiva, somente uma mescla de resignação e fadiga, que crescia das entranhas e se esparramava pelos membros, entorpecente como droga.

            “Razão tinha o Jaime quando, lá na loja do Açoriano, dizia que neste país não há respeito pelo trabalho dum homem. Quando não precisam de nós, rua. Sem contemplações. Dá vontade de deixar a água correr. Sim, o Jaime tinha razão, embora eu estivesse sempre a dar-lhe para trás.”

           Na manhã seguinte levantou-se perto das onze horas. Esqueceu-se de se barbear. Esqueceu-se de ir à lavandaria. Esqueceu-se de ir ter com os amigos à loja do Açoriano.

            Refugiou-se no jardim prenhe de sol e vagabundos. Sentou-se num banco a saborear o sol morno. Num banco ao lado,  um vagabundo ressonava tranquilamente. Lá mais para a frente, uma criança solitária cavalgava um baloiço. Fez-lhe um aceno amigável mas o miúdo refugiou-se para mais longe, para a segurança do mais afastado baloiço.

            Ficou o tempo parado, o sol a mordiscar a cara do vagabundo que acordou contrafeito, a piscar os olhos estranhamente azuis e limpos no carão barbudo e re- queimado. Tacteou os bolsos até encontrar o coto de charuto que acendeu cuidadosamente. Puxou três fumaças longas e saboreadas e só então reparou no Pedro Algarvio. Piscou-lhe um olho compincha e estendeu-lhe o charuto na pinça das unhas estercadas.

           A camaradagem daquele gesto esmurrou o Algarvio no alto da cabeça. A caminho do apartamento até espumava:

          “Aquele malandro! A oferecer-me uma pirisca! Pensa que sou algum miserável como ele!”

          A mente efervescente traçava planos sobre planos:

         “Eu não seja mais o Pedro Algarvio se segunda-feira não arranjo trabalho. O malandro!”

 


RAÍZES

 

 

 

Finalmente, após longos avanços e recuos, é que estas coisas não se decidem do pé prá mão, o Luís Negro comprou carro. Novo, como não podia deixar de ser. Nisto de carros o Negro é como com as mulheres: só em primeira mão.

O primeiro passeio vai ser já no próximo domingo ali  ao Parque Paul Sauvé, onde lhe disseram que o rio é largo como o mar, a areia escorre por entre os dedos e os pinheiros até lembram Portugal.

            — Vai ser uma sardinhada, cachopa. Levamos o Biana e a família co’a gente, coitados, nunca vão a lado nenhum — diz o Negro desarrolhando a garrafa de medronho que o Algarvio lhe trouxe de Portugal. Vazou um cálice farto e foi-se sentar ao lado da mulher, afundada em roupa para passajar. — Tás de acordo?

— Desde que não seja para trabalhar tou sempre de acordo. Se não estiver a chover. Bem sabes que o Verão aqui não é de fiar.

— Se não for este é pró outro.

— Esqueces-te que tás quase em Setembro. O verão são só mais uns dias, não tarda nada tá aí o frio.

— Tou a ver que te fez mal ir de férias a Portugal. Desde que viemos ainda não te secou a lágrima ao rabo do olho, sem uma conversa escorreita, sempre a dar pró torto.

            — E tu, pensas que eu não sei que também andas preocupado por causa do teu pai? Desde que a tua mãe morreu, é preocupação que não te sai da cabeça, conheço-te de ginjeira. O melhor é mandá-lo vir pró pé da gente e pronto.

            — Deves ter razão.

            — Claro que tenho. Só os vadios é que esquecem a família e a terra onde nasceram.

            — Lá tás tu outra vez! O que mais queres? Tamos há seis anos por cá e já temos carro, comprámos o terreno lá na terra, temos uns dinheiritos, já fomos a Portugal, o que mais queres?

            — Não é a nossa terra — suspirou  a Teresa.

            — Lá tás tu com a telha! Não é a nossa terra, não é a nossa terra. Sempre ouvi dizer que a nossa terra é onde ganhamos o pão que comemos. Agora só peço a Deus que com a crise que por aí vai não me despeçam lá das limpezas. Será o que Deus quiser. Mas que não há terra como o Canadá isso te garanto eu.

            — Isso não são dizeres do coração — obstinou-se a Teresa, cerzindo um par de meias.

            Arreliado, Luís emborcou mais um cálice de me dronho.

  Nunca to tinha dito mas vou dizer-to agora. Sabes qual é a única coisa que talvez me faça um dia regressar à terra? É não ter aqui o mar. Faz-me falta respirar a maresia e ouvir as ondas a bater na rocha. Só isso e mais nada. E um pedaço de terra para amanhar. Sim, também um pedaço de terra!


O NETO

           

 

 

O Manuel Transmontano regressou a casa com um sorriso atravessado nos olhos. E não era para menos, dez partidas ali esfoladas com toda a categoria, para mais com um parceiro fracalhote, coitado, que sabia tanto da sueca como ele de pesca. Ah, duma tarde assim nem em Portugal se recordava. Dez partidas, com um capote pelo meio para compor a festa, não era todos os dias.

            Franqueou a porta a assobiar uma cantilena arran cada á memória mas quando viu a criança nos braços da mulher até as tripas lhe deram uma volta.

            — Que raio é isso?!

            — É o teu neto, Manuel. — E num assomo de cora gem:   Já fez seis meses e ainda não conhecia o avô, coitadinho.

            Quase que ia estorcegando o pescoço para olhar  para o outro lado.

            — Esse jantar ainda não está na mesa?

            Mas a Alzira já não lhe farejava a fraqueza, conhecia-o como às palmas das mãos.

            —O menino é a tua cara sem tirar nem pôr. Chama

-se Pierre, coitadinho. Olha o avô, Pierre.

            — Trata do jantar, carago. — E desarvorou para a sala, para abafar o palrar que lhe escaldava os miolos.

            “Àh malditas tripas que nem o deixavam sossegar no sofá. Ainda eram capazes de lhe dar um nó que o levava o catano.”

            — Vem jantar, Manel.

            Amarrou a cabeça no prato e sabia lá o que estava a comer, garfada atrás de garfada, os copos de tinto a empurrarem tudo para as tripas,  para ver se o nó se desfazia.

            Esfregou a boca à borda da toalha e atirou um «vou dar uma volta,  para desbastar o comer», ele que nunca saía depois do jantar, bicho caseiro, um bocado de televisão e toca a deitar. Mas o rabo do oIho traíu-o: «carago, é mesmo a minha cara». Já estava com um pé na rua quando as tripas se desataram:

            — Se quiseres, diz à tua filha que venha cá almoçar no domingo.

            — E... e... ele?

            — Já alguma vez viste convidar a mulher sem o ho mem? Parece parva! — E o rabo do olho voltou a traí-lo: «Carago, é mesmo a minha cara.»

 


PIQUENIQUE

 

 

O Luís Negro agarrou um punhado de areia e dei xou-a escorrer lentamente por entre os dedos, num re vérbero de poalha dourada.

            Ó Biana, isto é bem como me diziam, até parece Portugal.

            O Zé Biana espraiou o olhar pelo azul das águas do rio, até lá longe, à outra margem debruada pelas pinceladas escuras da mata.

            Tens razão, isto é lindo a valer.

            — E já viste essas febras praí estendidas ao sol que nem lagartos? — riu-se o Negro.

            —Já tu começas com as tuas parvoíces — enciumou a Teresa.

            — Ó cachopa, se Deus deu olhos aos homens para alguma coisa foi.

            — Credo, homem, acaba com essas blasfémias que podes ser castigado. Vai mas é acender o fogareiro que já não é sem tempo.

            — Lá nisso tens razão — aquiesceu o Luís, bem hu morado. — Vamos lá preparar a sardinhada.

— Eu não quero sardinhas — protestou o filho.

— Eu também não — solidarizou-se a filha do Biana.

             — Raios vos partam, cachopos. Não tarda nada tão como esses parvalhões dos canadianos que só sabem comer hamburguers e saladas.

— Vocês tenham cuidado com o fumoaconselhou  a  Adelaide, um pouco apreensiva. — Se os canadianos sentem o cheiro das sardinhas, fogem a sete pés.

               Àh, é? —fez o Luís, congestionado de soprar as brasas. E sacana, os olhitos gordos de malícia, calculou matreiramente o golpe de vento de forma a que a fumarada fosse mesmo esbarrar no casal de canadianos-ingleses que, amodorrados nas suas cadeiras reclináveis, ruminavam assépticas sanduiches de tomate e alface.

 


O SEGREDO

 

 

 

Os últimos tempos tinham sido um amontoado de sensações mal digeridas a chocalhar-lhe na cabeça.

            Tudo começara com a enxurrada de cartas do filho:

            “Venha daí! O que faz aí sozinho? Qualquer dia morre aí no buraco como um bicho!” — Aquilo eram mais do que as sardinhas na rede duma boa pescaria: “Nós tratamos de tudo. Pagamos-lhe a viagem. Venha daí à experiência.”

            Acabaram por convencê-lo. Mal desceu do avião o Luís não o largou mais. Levava-o a todo o lado. Metia-lhe Montreal pelos olhos dentro.

            “Então, pai, gosta disto? Quer cá ficar? Eu trato da papelada.” — Enleavam-no nas algemas do sangue:

            “Vocemecê não gosta é de nós! Não quer ficar ao pé dos seus netos!”

            Calava-se. Desentendido.

            “Falta-lhe alguma coisa?”

            Agora, no avião, de regresso a casa, largou um suspiro bem puxado e resfastelou-se no banco, com tempo para arrumar a cabeça.

            Na verdade, a decisão de regressar a Portugal tomara-a logo no primeiro dia, mal o sentaram à mesa farta de tudo e o seu Luís lhe estendeu um cerveja:

             “Nós, aqui, habituámo-nos à cerveja. O vinho custa uma fortuna. O pai quer que lhe vá buscar um garrafão de vinho? Veja lá, não se acanhe. Já me lembrei de fazer vinho, agora que temos uma cavezita mas ainda não me resolvi a comprar os apetrechos. Há por aí muito português, quase todos a bem dizer, que fazem uma rica pinga com uvas da Califórnia. Até bagaço fazem!”

            E quando soube que não havia tabernas onde beber um copo saído da pipa? Então, sim, era irremediável o seu regresso a Portugal. Não havia engodo que o demovesse.                   Até sentia pena dos esforços baldados do filho. Só que não podia dizer as suas razões. Eram capazes de lhe chamarem doido.

            “Fartura aquilo? Antes quero a minha pobreza.”

             E a praia da Vieira instalou-se-lhe nos olhos, a rebentar de sol, pescarias, copos de tinto e vida. Porque os maus bocados e a miséria punha ele, por agora, para trás das costas.


NUVENS

 

 

Desde há muito tempo que a Adelaide anda soturna, esquiva, a gritar com a filha por dá-cá-aquela-pa lha.

— Andas doente? — desconfia o Zé.

            — Qual doente qual carapuça! — riposta ela, agreste.

Nessa noite o Zé apanhou-a a lavar a loiça na cozinha e segurou-a firmemente pelos ombros.

            —Hoje é que me vais dizer o que raio te anda a morder por dentro.

A Adelaide voltou-se, rosto terroso, olhos atarantados,  a espuma do detergente a escorrer-lhe das mãos. Quis esquivar-se mas, por fim, a boca rasgou-se num lamento saído das entranhas:

            — Isto é vida, Zé?! Estamos para aqui desterrados, sempre metidos no buraco, sem ir a lado nenhum. Vejo os outros comprar carros, mobílias, e nós? Nada! Só a aferrolhar. Tu ainda tens os teus amigos, quando queres ainda vais beber com eles. E eu? A minha vida é casa, fábrica, casa. Trabalho, trabalho, trabalho! Isto é vida, Zé? Eu...eu...

             As palavras fundiram-se em lágrimas grossas e ar dentes.

            O Zé Biana ciciou, emperrado:

             — Tu sabes ... são só alguns anos...só juntar o dinheiro suficiente para montar a oficinazita em Portugal e... tu sabes ... já falámos tantas vezes disto. Agora que encontrei um emprego de serralheiro já podemos pôr mais algum de lado. Talvez mais seis ou sete anos o máximo oito, garanto-te. Tu sabes..! — Argumentos frouxos, gastos.

            Adelaide atirou-se a um tacho esturrado, O Zé refugiou-se no ecrã da televisão.

 

*

            Às tantas da madrugada:

            — Estás acordado?

              Estou.

              Olha .. não ligues ao que eu disse ... ando um bocado nervosa.

            O Zé acendeu um cigarro.

            — Adelaide ... tu também tens razão. Se não puder ser em oito é em dez anos. Vou ver se consigo encontrar um escritório ou dois para limpar aos sábados e vou passar a ir menos vezes para a cerveja. E vamos começar a dar uns passeios.

            — Dorme.

           A ponta do cigarro errou longamente na noite do quarto, até que,  por fim,  se esborrachou contra o cinzeiro.

Amanhecia.

 


RECICLAGEM

 

 

 

Para mais de dois meses que o Luis Negro estava na chômage e já começava a ver o caso mal parado.

            Não é que ele gostasse de andar nas limpezas, verdade seja dita. Aquilo de andar ali de vassoura na mão não era vida para ele, mas um homem no Canadá não pode ser esquisito de dente, tem de se agarrar a tudo, vergonha é não gostar de trabalhar. Mas passar os dias com o rabo metido em casa também não era vida, já andava com os nervos à flôr da pele e quem pagava as favas era a família, punha-se a disparatar por tudo e por nada.

            Por isso, quando o Zé Peixeiro lhe disse que lhe arranjava emprego na peixaria Waldman pouco faltou para começar aos saltos.

              O Zé, tu és o gajo mais porreiro de Montreal!

            O Zé Peixeiro olhou-o de soslaio.

            — Olha que eu disse ao bossa que tu eras peixeiro em Portugal, vê lá se não me deixas ficar mal visto.

            — Qual peixeiro qual carapuça, rapaz. Eu era pescador, pescador do mar alto, trato os peixes por tu des de cachopo. Há gajos que são uns grandes sabichões, sabem tudo e mais alguma coisa mas cá o rapaz basta pôr os olhos em cima dum peixe para ver com o que tá a lidar.

            — Amanhã é que a gente vê.

 

*

Manhã formigante de sábado, o Luís Negro enfiou o avental branco pela cabeça abaixo e espraiou o olhar pelas bancadas de peixe. Aquele cheiro intenso, penetrante punha-lhe ondas a marulhar nos ouvidos e quando a primeira freguesa se lhe dirigiu até tremia.

            — A pescada é boa, senhor?

Deitou o rabo do olho às pessoas e franziu o nariz. As palavras saltaram-lhe à boca:

            — Volte cá prá semana, senhora. Está a ver-lhe os olhos mortos? E apalpe-lhe a barriga, quando tá mole não presta.

            Sentiu-se sacudido pela manga. Era a cara atónita do Zé Peixeiro.

            — Tu és maluco, pá?! Que parvoíces eram aquelas prá freguesa? Queres que o bossa te ponha no olho da rua logo no primeiro dia?

             — Mas á Zé, eu era pescador e ...

            — Tu és é um valente parvo, não voltes a fazer aquilo e vai mas é trabalhar que o bossa já tá com o nariz no ar.

            O Luís Negro compôs o avental e enfrentou a muralha de freguesia.

            — A pescada é boa, senhor?

            As palavras que se formavam morreram no deserto da garganta. Acenou afirmativamente com a cabeça mas os olhos gritavam:

“Volte cá prá semana, senhora. Está a ver-lhes os olhos mortos? E apalpe-lhes a barriga, quando...”

 


À CARGA

 

 

 

Já fizeste os deveres da escola portuguesa? —perguntou o Jaime ao filho mais velho.

            O garoto encolheu-se todo pela cadeira abaixo.

              Ainda tenho tempo até sexta-feira

              Em acabando de jantar vai mas é pegar-te aos livros.

              Logo agora que ia dar um filme tão bom na tele visão!

            — Se não vires esse filme não perdes nada. Aposto que é mais uma dessas séries de violência que só te fazem mal à cabeça.

            — Lá estás tu outra vez ... — mordiscou-o a Maria Cândida, com um sorriso trocista, levantando a mesa.

            Jantar acabado, a mulher a lavar a loiça, Jaime voltou à carga:

            — Anda, trata mas é de te pegares aos deveres. O português agora é muito mais importante do que esse quebecois, que nem francês chega a ser,  que andas para aí a aprender. É só perder tempo. Quando regressarmos a Portugal, se souberes bem o português, é meio caminho andado na escola. Vais ver que não terás nenhum problema de adaptação. Um ambiente são é tudo. Lá vão poder brincar livremente na rua sem medo, como cá, de que algum desses malucos, que por aí infestam a cidade, vos faça alguma. Uma tranquilidade assim vale ouro, não há dólares que a paguem. Como é que vocês poderiam um dia ser homens equilibrados se desde crianças têm de desconfiar de tudo e todos? Vais ver como em Portugal é diferente.

— Pois sim! Mas eu lá não tenho amigos, não conheço ninguém.

            Jaime assentou uma palmada nas costas do filho.

— Não estás bom do miolo. É o que eu digo, este Canadá já te começa a afectar. Então não tens lá os teus primos? E na tua idade um rapaz tem os amigos que quer. E amigas. Olha que o sol alentejano faz as raparigas crescer depressa como as searas.

— Não digas essas coisas à criança — recriminou-o a Maria Cândida, com uma espreitadela da cozinha.

— Uma criança? Há muito tempo que não olhas a preceito para o teu filho. O rapaz já vai a caminho dos treze anos, mulher.

            — Calem-se com isso — implorou o garoto, orelhas a arder.

            Jaime largou uma gargalhada e acariciou os cabelos encaracolados do fiIho.

            — Acredita no teu pai. Tu nasceste lá, é a tua terra, não se podem esquecer as raízes. Olha se o teu irmão se rala. E esse nasceu cá. Ouve cá, Paulo, tu queres ir para Portugal?

            A criança ergueu os olhos cândidos da televisão e perguntou desprendido, num fio de voz:

            — E lá há McDonalds?

 


O VINHO

 

 

 

Ainda a manhã de sábado mal clareava os blinds e já o Luís Negro andava às reviravoltas na cama.

            — Que raio tens tu, home? — resmungou Teresa, ensonada. — Nem aos fins de semana uma criatura pode descansar em termos. Raio de home, quanto mais velho pior, deves andar com alguma fisgada, é o teu costume.

            O Luís sorriu sorrateiramente na penumbra, divertido com  a perspicácia resingona da mulher .

            Á  medida que a luz da manhã. ia invadindo o quarto, arrancando os objectos famliares à quietude da noite, o Negro sentia crescer nas entranhas aquele frenesim incontrolável que sempre o acometia quando andava com alguma a moer-lhe a cabeça. A um raio de sol mais afoito, que se esgueirou pela fresta entre o blind e o lintel da janela e que foi explodir contra o espelho da cômoda, numa miríade de fogaréus multicolores, saltou lestamente da cama e, ainda a enfiar as calças pernas acima, abandonou o quarto nas pontas dos pés para não acordar a Teresa que finalmente dormia a sono solto.

 

*

O Açoriano acabara de abrir a porta quando o Negro lhe entrou loja adentro.

            — Gaivotas em terra ... — estranhou o Açoriano, es fregando os olhos bêbados de sono.

            — De manhã é que se começa o dia — riu-se o Luís, esfregando vigorosamente as mãos, como que a amestrá-las para a ciclópica tarefa que as aguardava.

            — Afinal o que é que queres? — interessou-se o Açoriano. — Agora és tu que fazes as compras?

            O Negro assentou-lhe uma vigorosa palmada no ca chaço.

            — Estas são umas compras especiais. Vais-me mostrar o que aí tens para fazer vinho, rapaz. Preciso de tudo, pipo, balseiro, prensa, essa cangalhada toda. E umas caixas de uvas. Mas das melhores, ouviste? A mim não me enganas tu como a esses labrêgos a quem vendes gato por lebre e que nem sabem distinguir uma alicante duma moscatel. Já que  me decidi a isso, vou fazer a melhor pinga de Montreal.

            — Lá prôa tens tu — engelhou o nariz o Açoriano, arrancando uma gorda nuvem de fumo do charuto que já tinha encravado entre os beiços.

 

*

À tarde, os apetrechos arrumados na cave e o perfume do mosto a encher a casa, quando o Luís se sentou à mesa da cozinha para engolir uma bucha apressada e escrevinhar duas letras ao velhote, as palavras jorraram alegremente da esferográfica: “Quando cá voltar outra vez para nos ver, já tem à sua espera um pipito de vinho de estalo. Não precisará de ir praí dizer, como da outra vez, que aqui um homem morre à sede...”

 


REVIRAVOLTA

 

 

 

 

 

Pela primeira vez, desde os tempos de Viana, a Adelaide veio recebê-lo à entrada da porta, com um abraço sôfrego e duas labaredas nos olhos.

            A perplexidade que lavrava a cara do marido fê-la soltar uma gargalhada do fundo do peito.

            — Adivinha o que me aconteceu hoje.

            — Sei lá! Ganhaste, o loto, não? — retorquiu o Zé, meio recobrado da surpresa.

            — Melhor do que isso. Muito melhor. Calcula tu que estava para ali, esta manhã, na fábrica, agarrada àquela estúpida máquina, a magicar no que haveria de fazer para o jantar, quando a encarregada me bateu no ombro: «vai ao escritório que o bossa quer-te falar.” Senti um calafrio pela espinha abaixo. “Mau, lá vou eu para o olho da rua”, foi o meu primeiro pensamento. E sabes tu o que ele me queria?

            — Vai-te dar sociedade na fábrica — ainda galhofou o Biana.

— Não sejas parvo. Pois olha que não é pior. Quan do eu estava à espera de um raspanete ou coisa parecida, zás: “Tenho um emprego para ti no escritório.” Assim, sem mais nem menos. Só mesmo à americana.

            Pelo serão adentro, a garrafa de Dão esvaziada:

              Assim sei lá se a gente deve pensar em regressar a Portugal, Zé. Agora que tu e eu temos empregos ao nosso gosto, é caso para pensar duas vezes. Aqui podemos sonhar com um futuro, abrir outras perspectivas para a nossa filha.

            — Tu és doida ou quê?! — atalhou  o Zé. — Cinco ou seis anos e ... Querem lá ver esta!

            A Adelaide não estava para altercações. Atirou os braços ao redor do pescoço do marido e beijou-o ternamente.

— Não te irrites, querido. Vou-te preparar um café  e uma bagaceira.

 


FECHO DO LIVRO PRIMEIRO

 

 

Os sábados à tarde, na loja do Açoriano, morreram de vez.

Inesperadamente para alguns, o Jaime Reis regressou com a família a Portugal, à procura da sua alma, porque um homem não pode viver toda a vida sem alma, como  compreendeu nas últimas cervejas da despedida o Luís Negro. Este anda com a cabeça a ferver de sonhos que crescem, uns após outros, com a harmonia  das figuras dum puzzle entre as mãos duma criança. Agora o seu fito é comprar uma bungalow nos arredores de Montreal, com um bom pedaço de terra à volta para fecundar com a poesia das suas mãos. Já diz, meio a sério meio a brincar, que ainda por cá vai deixar os ossos e, o mais estranho, a Teresa já nem resmunga.

Mas, pelo menos, de cinco em cinco anos vamos a Portugal é a sua única objecção.

O Zé Biana há muito que deixou de aparecer. É um homem cheio de urgências, em luta, talvez inglória, contra o tempo e as tramas em crescendo da Adelaide.

Quanto ao Pedro Algarvio, é um caso perdido, dizem dele. Consta que vive da  chômage, talvez do bien-être e já não enjeita a camaradagem dos vagabundos crónicos pelos jardins dos ócios.

Por último, o Manuel Trasmontano reparte agora os seus tempos livres entre as suecadas e o palrar do neto e, embora pareça inverosímel, chega a ser um homem feliz.

O Açoriano  estranhou a ausência do grupo mas a experiência diz-lhe que outras revoadas virão.

Ciclicamente. Enquanto houver céus e infernos, dentro e fora dos homens.