E
ra um
sonho antigo ver a Comunidade Portuguesa
a desfilar pela St-Laurent.
Impossível,
torciam o nariz, incrédulos, os pessimista.
De mau gosto e desprestigiante, sussurravam os intelectuais de pacotilha. Um desastre, prognosticavam,
sarcásticos, os maledicentes.
Mas, contra
ventos e marés, naquela radiosa manhã de Agosto, o defile irrompeu Main
acima, num turbilhão de cor, música e
alegria.
“Les
portugais”, “the portuguese”, sussurrava a multidão. E os aplausos subiam no céu
azul como revoadas de pombas brancas. E os rostos estilhaçavam-se em sor(risos). E os olhos irradiavam
fogaréus. E os lábios balbuciavam o nome sagrado: Portugal. E os corações sangravam
lágrimas de ternura. Gente feliz com
lágrimas, disse consagrado escritor
português.
Lá no alto,
frente ao Parc du Portugal, à sombra do padrão histórico, houve discursos, danças, música, soltou-se
aos quatro ventos a arte de ser português em terras canadianas. Demonstrou-se ,
sem alaridos, que viemos para ficar, para
nos caldear com as gentes que aqui nos acolheram. Para misturar sangue, cultura, emoções, esta
particular forma de estar e assumir a vida.
De
chofre, espessa nuvem de fumo ergue-se-
de rijo braseiro ali ateado, por mãos corajosas, na esquina da Marie-Anne com a
St-Laurent. E para meu regalo, levado pela brisa, o cheiro
a sardinhas assadas, , estendeu os seus tentáculos pela vizinhança, trepou as paredes dos prédios,
dançou com a folhagem das árvores, misturou-se com a multidão que
deambulava por entre as bancadas da
feira, fez fremir as narinas perturbadas. Finalmente, alguém ousara desafiar as leis do medo atávico.
Finalmente, alguém ousara quebrar os grilhões invisíveis da repressão interior. Finalmente, alguém
ousara sair das catacumbas dos quintais . Finalmente, alguém ousara sonhar uma
St-Laurent onde o odor das sardinhas
assadas se misturasse harmoniosamente, por direito próprio, com os odores gastronómicos, até agora reinantes, de outras culturas e
outros povos. Finalmente, após esporádicas incursões, ao longo dos anos, alguém
sonhara conquistar definitivamente a St-Laurent. Finalmente, a St-Laurent é
nossa..
Montreal, Agosto de 2003