SUSAN SOARES


O ESPELHO

 

olho no espelho

a mesma pessoa em dois sítios

nascida no mundo em dois lugares

duas identidades em um só corpo.

 

olhando no espelho

fico num espaço

mais difícil de alcançar.

Então, imagino que sou parte do espelho.

 

deito-me no seu centro

presa

ao meio

faço parte do espaço

entre dois lados.

 

estou entre as camadas de vidro

uma mistura de sílica, soda,

cal e potassa

na fusão dos materiais

coloco-me no núcleo.

 

a luz reflecte em mim

em todos os sentidos

reflexos de mim mesma

flutuando

entre o espelho.

 

sou portuguesa.

corre-me nas veias

a cor da minha pele

a forma dos meus olhos

valores e tradições

 

meu amor pela história

pela dança

pelo fado

e família.

eu sou portuguesa

 

sou canadiana.

foi quem me tornei

falo francês e inglês

respeito todas as raças

igual a ele, ela, eles, eu sou

 

faço esqui e bonecos de neve

escalo altas montanhas

estudo, trabalho duro

Sinto a liberdade.

eu sou canadiana.

 

entre o espelho

numa mistura de identidades

semelhanças e diferenças

reflectindo

e absorvendo.

 

dos papos-secos ao maple syrup

do folclore ao hóquei

dos “heróis do mar” ao “oh canada”

do Gil Vicente e Luis de Camões

à Margaret Atwood e Michael Ondaatje.

 

sou, tudo isto.

 

àqueles que me perguntam se sou um ou o outro

qual o lado que preferes?

 

faço uma pausa.

 

não há resposta.

porque todas as coisas maravilhosas

do pacífico ao atlântico

tudo isso está guardado na minha alma

reflexos de mim mesma neste espelho.

 

eles respodem que isto é impossível

mesmo assim eu sei que não é

sou parte de ambos os espaços

dois lados do espelho

permaneço no centro.

 

o núcleo

o meio

o intimo

na margem.

 

olho no  espelho

a mesma pessoa em dois sítios

nascida no mundo

em dois lugares

duas identidades em um só corpo.