Como natural do planalto mirandês, foi com exultação que recebi a notícia do reconhecimento, pela Assembleia da Républica, do mirandês como língua oficial.
E, contudo, devo reconhecê-lo, com toda a humildade, não falo o mirandês. Nascido em Cicouro, «alpié d'la raia de Spanha, terroù pertués de abundantes frutas i áuga », como cantou o poeta e meu conterrâneo António Luís Domingos Fernandes, cedo fui arrancado às terras que me viram nascer elevado pelos meus pais « lá para baixo », como então se dizia, em busca duma vida menos madrasta.
Nas férias de verão, regressávamos periodicamente às origens. Ficaram-me desse tempo, para sempre, nos olhos, farrapos das aguarelas de cores estonteantes das viagens de comboio, Douro acima: odores intensos, farnéis abertos nos bancos de madeira, os pregões nas estações, o gralhar dos ranchos nómadas de segadores, a bocarra das locomotivas a vomitar espessos rolos de fumo que serpenteavam pelas serranias abaixo, um calor tórrido que esbraseava os pulmões. E, depois , na parte final da viagem, o interminável percurso entre a estação de Duas Igrejas e Cicouro, em cima dum desconjuntado carro de jumentos, noite cerrada, por entre montes , fragas e histórias de lobos e almas penadas.
Foi logo nas primeiras férias que sofri o meu primeiro confronto de culturas. «Tás mui taludo », elogiou-me uma vizinha . Sem perceber o que ela me dissera, corri para a minha mãe em busca duma tradução decifradora de tão estranho linguarejar. Incidente sem consequências de maior, logo esquecido no fogo nas brincadeiras infantis e que não me deixou estigmas visíveis, acredito, mas que me gravou na alma a singularidade das terras que me foram berço.
À medida que me cresciam mais profundas e vigorosas raízes nos novos lugares adoptivos, as visitas foram rareando, quase esquecido da minha origem mirandesa. Salvou-me da mais completa aculturação o facto de ter casado com uma mirandesa profundamente arreigada ao torrão e às tradições natais. Aqui devo esclarecer que muito contribuiu para a minha reabilitação a minha propensão para a boa-mesa e a irresistível cozinha mirandesa. Tempos houve para mim em que abancar nas tendas da festa do Nazo com uma suculenta posta à mirandesa à minha frente ou então, na adega do meu sogro, saborear umas rodelas de salpicão e uns nacos de presuntos acompanhados por um bica-aberta » que jorrava do pipo no qual regaladamente me recostava, faziam parte dos meus prazeres predilectas, para cuja satisfação seria capaz de sacrificar urgentes afazeres e dar anos de vida.
Foi assim que, sem grandes convulsões, orgulhosamente voltei a reencontrar e reassumir a minha identidade mirandesa. Que se apoia em bases muito frágeis, como o pude comprovar no passado mês de Junho me desloquei aí a New Bedford para apresentar o meu último livro à comunidade portuguesa local.
No decorrer duma entrevista no canal televisivo português, no programa literário animado pelo escritor e director do departamento de estudos Luso-Brasileiros da Universidade Brown, em Providence, Onésimo Teutónio Almeida, dei-me conta do árduo caminho que ainda me falta percorrer para recuperar integralmente a minha identidade perdida.
Naquele seu jeito inigualável de falar de coisas sérias num tom ligeiro e divertido, a páginas tantas do nosso ameno e agradável cavaquear, o Onésimo pediu-me para dizer umas frases em mirandês. Embaraçado, depois de balbuciar três ou quatro palavras avulsas, acabei por humildemente reconhecer a minha imperdoável e crassa ignorância dos mais elementares princípios da língua mirandesa. Salvou-me da situação melindrosa o traquejo do meu interlocutor que desviou o curso da conversa para margens mais seguras e menos constrangedoras.
Vexado, na viagem de regresso a Montreal, tomei a firme decisão de na próxima viagem a Portugal, na lista de livros a comprar, dar prioridade ao Vocabulário e Gramática de língua mirandesa que entretanto já deverão estar disponíveis ao público. Não quero, nunca mais, voltar a ser apanhado no flagrante delito de ignorância da própria língua materna.
A minha maior alegria seria um dia conseguir escrever um texto escorreito nessa « lhéngua mirandesa, doce cumo ua meligrana, guapa i campechana. »