VAMBERTO FREITAS


Voz da Diáspora para Além do Oceano Atlântico



Q uase todos os primeiros romances, pelo menos na tradição anglo-americana, são autobiográficos. Hoje, mais do que nunca, os programas universitários ditos de escrita criativa reforçam essa ideia, nem sempre pelas melhores razões artísticas. Mas se muita ficção, hoje, está feita daquilo que uma revista denominou recentemente de me, myself and I, outra vem aparecendo com grande fôlego e movimento geográfico e interior, um diálogo profundo com toda a tradição literário-cultural desses mesmos países. Nos Estados Unidos, segundo um ensaio recente da Time, apareceram já quatro grandes nomes na nova ficção do país, entre os quais se destaca Rick Moody e o seu recente Purple America. O Canadá, no entanto, tem sido o grande mosaico humano e artístico nem sempre devidamente apreciado fora (e, até há poucos anos, dentro) das suas fronteiras. Também este espaço em branco está a ser vivamente preenchido com os novos escritores ou com aqueles já de nome feito e agora reconhecidos um pouco por toda a parte, pois a hegemonia dos Estados Unidos está a ceder à movimentação das letras no restante mundo de língua inglesa; ainda há poucos meses o TLS dedicou um número quase inteiro, por exemplo, à Austrália. A mesma publicação, ainda no seu número de 4 de Setembro, daria de novo largo espaço a um aprofundado ensaio ("Trusting the Creole Plot") sobre os livros de Edouard Glissant, de Martinique, e o diálogo cada vez mais vivo entre literaturas metropolitanas e as que sairam e saem de áreas tradicionalmente consideradas periféricas, e que, no caso presente de literatura imigrante e/ou étnica (ou da errância, como diria Glissant) nos diz respeito directamente. Por sua vez, desde Robertson Davies a Mavis Gallant e Margaret Atwood que não se poderá ignorar mais a literatura canadiana contemporânea pelo universalismo adentro dessa sua especificidade geográfica e histórica — pelo seu poder evocativo de uma experiência diferente da que estamos habituados com a do cânone literário dos Estados Unidos. Não há muito, o Daily Globe and Mail de Toronto dedicava na primeira página um extenso artigo à nova onda literária do país e à sua crescente aceitação na Europa, em que se mencionava particularmente a Alemanha que, através de uma das suas vozes aí citadas, falava no cansaço e previsibilidade da literatura do país gigante a sul do Canadá. Michael Ondaatje é hoje um dos mais reconhecíveis escritores do Canadá desta onda da nova ficção mundial, particularmente depois do sucesso do livro (que recebeu o Booker Prize da Inglaterra) e depois o filme O Doente Inglês.

Seja como for, outro fenómeno original adentro destas literaturas — a dos Estados Unidos e a do Canadá — dirige-se também em especial a nós portugueses. Dois nomes (ambos publicados em editoras prestigiadas) surgem neste momento com grande impacto: a californiana Katherine Vaz (Saudade, Mariana e Fado and Other Stories) e Erika de Vasconcelos, em Toronto, com My Darling Dead Ones, o seu primeiro romance publicado o ano passado. Sobre este fenómeno, já escrevi noutra parte, mas permitam-me repetir aqui brevemente que, finalmente, se trata da "nossa" presença nesse outro grande movimento literário de fim de século nas grandes sociedades multiculturais, como os Estados Unidos e o Canadá. Imigrantes e seus descendentes, numa etapa histórica de maior integração no seio dessas sociedades, penetraram em números crescentes nas universidades e o resultado é esta ebulição criativa, em que os outrora marginalizados ou conspicuamente mal representados na literatura dos seus países de acolhimento estão como que a ripostar com grandeza e segurança, passando dessas margens para o mainstream cultural e literário das mesmas sociedades.

Para melhor percebermos o que à frente irei dizer acerca do romance Darling Dead Ones, permitam-me aqui um longo parenteses sobre Saudade, de Katherine Vaz. Trata-se de uma narrativa que provavelmente irá tornar-se paradigmática entre esta geração de escritores lusófonos residentes ou naturais de países fora da nossa tradição linguística e estética. A voz (ou vozes) algures entre o feminino e o feminista faz em Saudade um constante chamamento tanto à mítica de uma comunidade de origem fechada e depois precariamente aberta no seu novo mundo californiano e a uma história ora universalizada ora reduzida às isoladas comunidades das ilhas atlânticas. Perante a tradição e a inércia do grupo e os seus impulsos irrequietos que sempre o levou a navegar, a protagonista de nome Clara vai tomando consciência da sua individualidade, da sua força interior, fazendo da sua mudez real e metafórica um mundo de belezas inesperadas, espalhando a sua ira e ao mesmo tempo o seu amor entre os que lhe tentam fechar o seu destino ou os que lhe devolvem a sua humanidade, a inteireza do seu ser. É uma narrativa de desafios a todos os níveis, recorrendo desde a primeira página a um realismo mágico que o Catolicismo português e as suas crenças facilitam tanto para a libertação como para o amesquinhamento das personagens, sendo uma das quais um padre que faz lembrar nitidamente uma criação de Eça de Queirós, aliás directamente mencionado, ao lado de outras vozes portuguesas em Saudade, muito especialmente Fernando Pessoa. Nada é simples e nada está simplificado neste romance, a autora leva o seu simbolismo particular e o simbolismo universalizado a extremos que, segundo ela própria, requerem provavelmente sucessivos close readings — poderá mesmo ser lido por partes como um longo poema em verso livre. Modernismo literário europeu, realismo mágico, a poetização vivencial e quotidiana da literatura norte-americana, desde Melville aos nossos dias: trata-se naturalmente de uma narrativa polifónica, de vozes e tempos cruzados, mas em que na última secção do livro a linearidade junta tudo e todos em novas viagens de descoberta e viagens simultaneamente de regresso às origens e, por assim dizer, ao futuro. Estranhamente, Saudade quebra com as ansiedades existenciais habituais na literatura contemporânea e devolve às suas personagens centrais a alegria de viver, as certezas profundamente vincadas da junção do passado-outro com o equilíbrio de vida possível numa grande e as mais das vezes aterradora sociedade. Estes são mundos (re)criados pelas forças interiores de cada um, por desejos e vontades deliberadas e atávicas. A narrativa vem da memória histórica de Katherine Vaz e da sua memória pessoal, familiar, de experiências vividas e/ou imaginadas. Saudade é, assim, um romance profundamente americano, mas que um dia poderá vir a ser ensinado nas nossas universidades como talvez sendo também um dos primeiros exemplos duma nova ou outra literatura portuguesa sem fronteiras e sem complexos europeus, um romance da diáspora portuguesa (e mundial) da segunda metade deste século, peça fundamental do que também chamarei aqui de nova ficção metropolitana/antimetropolitana, referência artística às novas realidades criadas pelos maciços movimentos de povos entre países e culturas.

Pense-se, neste mesmo contexto, e agora no que na Europa nos diz respeito, no romance A Melancolia do Geógrafo, de Brigitte Pauline-Neto, a autora luso-francesa. Que estamos perante um novo fenómeno literário "português" não restam dúvidas, e creio que se trata de um fenómeno marcado por uma complexidade narrativa e abrangência temáticas pouco habituais entre nós.

My Darling Dead Ones de Erika de Vasconcelos—voltando ao livro em foco neste meu trabalho—é um desses romances que nos apresenta decididamente um corte dos luso-descendentes no Canadá com o seu histórico estatuto de silêncio: é um romance, talvez, binacional, na medida em que se combina nas suas páginas um historial pessoalizado e familiar com a busca artística de um lugar nas novas geografias cosmopolitas ou universais da nossa época. Abrange três gerações, sendo a história contada na primeira e terceira pessoas, é feito de memórias, de diários inventados ou simplesmente reditos pela narradora, da vida quotidiana vivida em Portugal pelos progenitores da narradora, e depois no Canadá pelos pais e amigos e pela própria protagonista de nome Fiona, já completamente pertencente e integrada no seu novo mundo. É a história, uma vez mais, de três gerações, três tempos históricos, vistos aqui na rapidez com que o século vinte se metamorfoseou. A sua estrutura narrativa caminha e recua simultaneamente por esses tempos e lugares, mas o leitor acompanha a transformação interior da narradora-protagonista, chegando com ela à redescoberta e reinvenção de si própria. É marca fundamental desta literatura ( a nova ficção mundial, como há anos a intitulou a Time) questionar ou sentir a ausência de lealdades definitivas ou a mística da nacionalidade: a minha pátria, aqui, não é tanto a língua, seja ela qual for, mas o complexo historial das múltiplas geografias transnacionais, digamos, íntimas e mais vastamente culturais a que pertencem estes seres. Inês de Castro serve, em My Darling Dead Ones, de mito e de metáfora: de nacionalidades definitivas só poderá vir morte e dor; como que a dizer, ou a representar, o ser humano está para além de todas as fronteiras. Camões é também convocado como que a testemunhar a história dos portugueses desde a modernidade renascentista: o movimento e o equilíbrio possível entre vários mundos que o indivíduo chama a si como seus, ou então a condenação desse mesmo indivíduo a viver a incompletude imposta, uma vez mais, pelas fronteiras já sem sentido e sem razão. No desdobramento de personalidades e acasos que vai sofrendo a protagonista ao longo da narrativa, Pessoa é outro dos nomes proeminentes e universalizados da nossa literatura de que a autora está consciente durante diferentes momentos da sua história. Erika de Vasconcelos obriga o leitor a dar-se conta de que a superfície da história está cimentada em outras tradições e destinos. É um assumir inteira e descomplexadamente o passado português. Estamos, provavelmente e uma vez mais, a ver nascer uma tradição-outra na "nossa" literatura da diáspora ou, passe a expressão, nação-outra que "criámos" nos continentes europeu e norte-americano— ou nos foi "criada"— durante a segunda metade deste século. A segurança com que estes nomes aparecem na ribalta literária dos seus países é que poderá ser surpreendente para alguns de nós.

"I have come — diz a narradora-protagonista nas últimas páginas da sua narrativa, durante uma outra visita a Portugal, em que acaba no Cemitério dos Prazeres de Lisboa perante mais evidências do seu agora, passe a ironia, recuperado passado — for fountains shaped like quatrefoils, trickling in courtyards. For the smooth stones of pavements, walked on for centuries. For the taste of sugar in my mouth, mornings on the beach. For old men in horse-drawn carriages who call menina and other men, whose eyes and mouths travel up and down my body: like children, they are unashamed of their desire. I have come for kings and queens encased in tombs, and thin dogs gnawing on chicken legs in open markets and rose petals on the steps of churches. I have come for the ever-present sea and the precipices that beckon, Look, will you choose to die today?, Look how easy it is to fall off! For the huge statue of Christ whose head bends over the city, in this country of old saints and stone."

My Darling Dead Ones é ainda uma narrativa que interpenetra com a mítica e história portuguesas — um certo (e paradoxal) romantismo (como já foi mencionado em referência a Saudade de Katherine Vaz) mais ou menos optimista das gerações que vivem o cosmopolitismo dos grandes espaços e das grandes cidades do novo mundo, quais Mecas desde sempre para todos os grupos nacionais descontentes, eventualmente progenitores das gerações seguintes, essas que herdam também a memória essencial ao seu equilíbrio na usual devastação da vida pós-moderna. É esta, parece, a outra arte do nosso tempo: um imparável movimento geográfico dos seus protagonistas, violenta ebulição interior, vidas continuamente desfeitas e reconstituídas, lealdades múltiplas e parecendo como que apátridas, raiva e carinho sentidos nos caminhos de descoberta e de resposta ao primordial questionamento de cada ser consciente da sua existência no mosaico humano do nosso tempo — quem sou eu, e de onde vim, como poderei agarrar a felicidade possível onde predomina a náusea generalizada e a sensação de que tudo quanto pensávamos conhecer e nos foi legado está a chegar ao fim, como recuperar a parte de mim que o novo mundo ignora ou reprime, como conjugar dentro de mim todos os seres que me habitam, todas as histórias que me fizeram o ser humano distinto que sou?

Este romance de Erika de Vasconcelos contém tudo isso nas suas quase duzentas páginas simultaneamente de leveza (à Italo Calvino) e de dureza escondida por baixo de uma superfície narrativa só aparentemente banal (lembrando o minimalismo dos contos de Raymond Carver ou de alguns romances de Ann Beattie, ou, mais precisamente ainda, de quase toda a escrita de Bharati Mukerjee. A ficção de My Darling Dead Ones é vigorosamente feita dessas múltiplas e contraditórias linguagens: realismo quotidiano e emotividade poética, historial pessoal e familiar e míticas nacionais, desconfiança no presente e vaga esperança nos dias e tempos que se seguem. A heteronímia, por outras palavras, da contemporaneidade, o desdobramento dos seres que habitam Fiona, esta narradora das histórias dos seus mortos e dos vivos em seu redor, todos eles responsáveis pelos chamamentos e apelos na reconstituição da sua vida despedaçada. Curiosamente, Erika de Vasconcelos diria numa entrevista à revista luso-canadiana Silva Magazine poucas semanas após a saída deste seu romance que: "It’s not [My Darling Dead Ones] an immigrant story (...) the book is about Fiona who is a second generation Portuguese who is discovering her roots via her ancestors. The book is about that generation’s access to the past (...)". Mas, ao dirigir-se a toda a temática que envolve essa descoberta do passado noutro país que não o seu, o romance torna-se, ipso facto, também numa história que tem a emigração por vector todo poderoso, assim como toda a experiência conflitual entre as primeiras e demais gerações, a questão do etnicismo não poderá ser diluída aqui por vontade da própria autora ou ainda pelo que ela possivelmente tencionava que fosse este romance. As interpretações poderão e deverão sempre ser múltiplas, o que não reduz a discursividade deste livro mas, sim, alarga e aprofunda o seu alcance entre um maior número de leitores, dentro e fora do Canadá. My Darling Dead Ones tem ainda essa outra afinidade com a nova ficção mundial: a ironia, digamos assim, da recusa em ser-se abatido pelo peso da alienação e desenraizamento dos seres humanos em sociedades à deriva, a ironia do riso como combate civilizado ao que poderia ser uma perda de identidade histórica e social, a recusa da vida reduzida a um qualquer caricato baile de máscaras, a ironia do riso, finalmente, como contraponto à banalização do ser humano ainda consciente da sua inviolável integridade e liberdade.

My Darling Dead Ones é inteiramente um romance canadiano — no já referido artigo analítico do Globe and Mail, Erika de Vasconcelos é mencionada com destaque como sendo uma das novas escritoras do país que também estão a receber grande atenção em países europeus como a Alemanha. O factor novidade, no entanto, vai além da sua demarcada geografia nacional, mesmo que historicamente não tenha sido fácil aos canadianos anglófonos essa distinção, confundindo-se muitas vezes, aos olhos de outros (na arte, como em quase tudo o resto) com os seus poderosos vizinhos no outro lado da fronteira. No campo temático, já muito se tem escrito nos últimos anos sobre esta literatura — desde os seus contornos ideológicos em Canadian Literature: Surrender or Revolution, de Robin Mathews, a Second Words: Selected Critical Prose, de Margaret Atwood; não esqueçamos aqui que um dos mais influentes teóricos da literatura do nosso século é também canadiano (e que escreveu sobre essa literatura), Northrop Frye.

Com a publicação de My Darling Dead Ones, Erika de Vasconcelos integra-se na literatura nacional canadiana, mas provocando (tal como Katherine Vaz com Saudade) uma outra pergunta, que me parece inteiramente legítima: até que ponto estas novas literaturas pós-coloniais e também associadas à experiência imigrante e/ou étnica em toda a parte (não esqueçamos Rushdie e todos os seus colegas desde Londres a Nova Iorque e Toronto) poderão ser aceites como literaturas transnacionais ligadas pela sua temática, pelas múltiplas intertextualidades e até por uma estética já bem demarcada (o uso, por exemplo, do bilinguismo ou de expressões-outras) a tradições específicas que as queiram também reclamar como suas, neste caso a literatura canadiana e portuguesa? My Darling Dead Ones traz uma capa que de imediato avisa o eventual leitor — é feita de um cromatismo melancólico, de velhas cartas e postais escritas em português, originadas em, e enviadas para Portugal. Mais ainda, quanto a este binacionalismo do romance, está uma apreciação crítica na contracapa, escrita por uma publicação canadiana: "What is especially wonderful about My Darling Dead Ones is the abundance of life teeming through its pages: the Portuguese landscape of hilly, yellow-stuccoed houses is palpable; Magdalena’s flat in Lisbon invites exploration of its quaint clutter; one sniffs the scent earth as Leninha creates a back room of hostas and calla lilies in her suburban Montreal garden. (Here is a complex and sumptuous world... )".

Exactamente. My Darling Dead Ones é a representação do nosso prolongamento humano e cultural na América do Norte: sem que sejam aqui o imigrante e seus descendentes os referentes do nosso miserabilismo, sem remorsos do passado e sem culpabilização política de um país que raramente soube tratar justamente do seu tecido social e económico. My Darling Dead Ones é um título mais ou menos irónico, pois trata-se sem dúvida de um romance, finalmente, de gente que vive viva, intimamente sabedora do que a trouxe até ao presente, até à sua atribulada modernidade. A narradora-protagonista de Erika de Vasconcelos reinventa-se na sua ficção, e, nesse seu percurso, devolve-nos, a todos, Canadá ou cá, memórias e vivências mútuas e incontornáveis. §

Este trabalho foi apoiado pelo Instituto Camões e pela JNICT através do Programa Lusitânia.